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O aviário de Donald Trump
21/01/2026Tomando conhecimento da minuta do estatuto do Conselho da Paz proposto por Donald Trump a cerca de 60 chefes de Estado, fica claro que a pomba mencionada em meu artigo anterior sobre o assunto ganha características de filhote de urubu.
São os seguintes os mais graves inconvenientes da referida Carta:
- ir além das questões relativas a Gaza nos termos da Resolução 2083 do Conselho de Segurança das Nações Unidas ao estabelecer como sua missão, no Artigo 1, “promover a estabilidade, restaurar a governança confiável e legítima e assegurar a paz duradoura em áreas afetadas ou ameaçadas por conflitos”. Ora, tal amplitude de ação faria do Conselho um órgão tão ou mais importante quanto a ONU, criticada indiretamente no preâmbulo por sua falta de efetividade; e
- conceder poderes vastíssimos a Trump como presidente do Conselho, dentre os quais: escolher seus membros (artigo 2.1); renovar ou não a participação de qualquer membro após 3 anos caso ele não tenha contribuído com US$ 1 bilhão (2.2.c); criar, modificar e dissolver entidades subsidiárias (3.2.b); designar seu sucessor e só deixar de ser presidente por decisão voluntária ou voto unânime de incapacidade pelo Comitê Executivo cujos membros são de sua escolha (3.3); ter autoridade final com respeito ao significado, interpretação e aplicação do estatuto (7); adotar resoluções e diretivas em nome do Conselho (9); dissolver o Conselho quando achar necessário ou adequado (10.2).
Diante desses sérios defeitos do documento constitutivo do Conselho, como deve o Brasil reagir ao convite que Trump dirigiu a Lula para integrá-lo?
O primeiro ponto a considerar é que o Conselho de Paz mandatado pelas Nações Unidas efetivamente previa a presidência de Donald Trump sem entrar em detalhes sobre a estrutura e funcionamento do órgão. Sua finalidade, porém, era de fato impedir a continuidade do genocídio conduzido por Israel em Gaza e a anexação pura e simples da Faixa. Como as forças militares israelenses ainda controlam mais da metade daquele território e limitam fortemente os fluxos de assistência aos dois milhões de seres que ali sobrevivem em condições subumanas, não surpreende que Benjamin Netanyahu e seus comparsas da direita radical estejam furibundos com a iniciativa de Trump. Mais certo ainda, uma das milhares de mães palestinas que vive numa tenda e cuida de filhos sem comida suficiente, sem remédios, sem escolas e sem perspectivas não terá um minuto de sua triste existência para dedicar-se às questões geopolíticas em jogo ainda hoje. Nada impedirá que Israel alcance seus terríveis propósitos sem uma ação internacional eficaz.
Por tal motivo, e também pelos outros elementos de juízo que expus no artigo anterior sob o título de “Uma pomba sobrevoa o Palácio do Planalto”, não seria cabível uma negativa peremptória – coisa que até agora só foi feita pela França sem dúvida sob a influência do tratamento humilhante que Trump vem dando à Europa, ameaçando inclusive tomar a Groenlândia à força. Igualmente não caberia apressar-se com um sim sicofântico como tratou de fazer, por exemplo, o áulico Javier Milei. Na realidade, tal como já declarado pelo porta-voz do Kremlin. Putin e dezenas de chefes de Estado em todo o planeta estudam neste momento com seus chanceleres como responder a tão incômodo convite sem sacrificar o futuro dos palestinos em Gaza e sem provocar uma crise política com o vingativo ocupante da Casa Branca.
Durante esse período necessário de reflexão, os agentes diplomáticos devem estar realizando consultas urgentes a fim de tentar conhecer a posição de outros players importantes. Assim, por exemplo, o Brasil teria muito a ganhar caso esteja auscultando as opiniões de Canadá, Austrália, Reino Unido, Alemanha, Arábia Saudita, Egito e Emirados – para só citar algumas das nações que não reagirão de forma amadorística ao se verem confrontadas com situação tão desafiadora. Quem sabe pode até surgir uma resposta coletiva ou coordenada que evite a particularização aceita por Emmanuel Macron em troca de uma possível tarifa de 200% sobre os vinhos franceses nos Estados Unidos. Embora o artigo 12 diga que o estatuto não admite reservas, uma possibilidade consiste em que o Brasil aceite o convite, mas condicione sua entrada no Conselho à efetivação de determinadas alterações no texto plenamente explicadas. Caso tais mudanças sejam rechaçadas por Trump, isso faria com que nossa não participação se devesse a ele próprio.
Enquanto isso, as atenções devem continuar concentradas em buscar conhecer que outras criaturas habitam o estranho aviário de Donald Trump.
Destaque
Uma pomba sobrevoa o Palácio do Planalto
19/01/2026No dia 14 de janeiro, Donald Trump anunciou o lançamento da Fase 2 do seu plano de 20 pontos que resultara no cessar-fogo em Gaza e que, sob a supervisão de um Conselho de Paz e de um órgão executivo, previa o estabelecimento de uma administração transitória e tecnocrática de palestinos no território.
Entretanto, talvez poucos se lembrem de que, no dia 17 de novembro de 2025, o Conselho de Segurança das Nações Unidas havia aprovado por surpreendente unanimidade (com a mera abstenção de China e Rússia) a Resolução 2803 que inter alia: a) endossava o Plano Compreensivo para encerrar o conflito de Gaza; b) agradecia o papel desempenhado por Estados Unidos, Catar, Egito e Turquia na concretização do cessar-fogo; e c) aprovava o estabelecimento de um Conselho de Paz (Board of Peace – BoP) com personalidade jurídica internacional. A resolução indicava também que “após a fiel execução do programa de reforma da Autoridade Palestina e que tenha progredido a reconstrução de Gaza, as condições poderão finalmente estar reunidas para um caminho crível rumo à autodeterminação e à criação de um Estado palestino”.
É para este Conselho que Lula está sendo convidado por Trump, convite que deve ser aceito sem delongas ou tergiversações por ser um órgão devidamente mandatado pelas Nações Unidas mediante a única resolução sobre Gaza do Conselho de Segurança que, ao longo dos dois anos de conflito, não foi bloqueada por vetos de um ou mais dos cinco países que detém esse poder.
Além disso, a participação do presidente Lula se justifica pelas seguintes razões:
1) garante a presença no Conselho, juntamente com o presidente da Turquia, Recep Erdogan, e do primeiro-ministro do Catar, xeique Al Thani, de pelo menos três líderes que assumiram posições inequívocas de crítica a Israel pelo uso excessivo de força na Faixa de Gaza ao mesmo tempo em que condenavam os bárbaros ataques terroristas do Hamas que provocaram o morticínio de palestinos e judeus;
2) demonstra a importância internacional do Brasil, cujo presidente é convidado sem que, como os também convidados Javier Milei (Argentina) e Santiago Peña (Paraguai), represente um país caudatário de Washington;
3) por pressão dos países árabes que endossaram o plano de cessar-fogo de Trump e a histórica resolução 2083, oferece a única possibilidade de criação de um Estado palestino. A alternativa (contemplada inicialmente pelo próprio Trump) consistia na anexação de Gaza por Israel e até mesmo na expulsão dos palestinos de um território ocupado há séculos, hipóteses formalmente rechaçadas nos documentos acima citados. Aliás, não surpreende que Benjamin Netanyahu e seus seguidores da extrema-direita estejam furiosos com todos os anúncios de Trump nos últimos dias, declarando que não foram consultados sobre os membros dos órgãos que estão sendo criados e ameaçando até mesmo retomar os bombardeios na Faixa. Mas isso significaria o rompimento frontal com o patrão que condenaria Israel a uma condição de absoluto pária internacional, cortando os vínculos de apoio financeiro e de fornecimento de armas que o tornam totalmente dependente dos Estados Unidos.
Por fim e obviamente, o Brasil não deve pagar o bilhão de dólares que seriam supostamente destinados ao fundo de reconstrução de Gaza e estão sendo cobrados por Trump daqueles países que desejem manter um assento permanente do Conselho de Paz além dos três anos a que todos farão jus inicialmente. Até lá o voo ainda hesitante da pomba da paz estará sendo acompanhado por muitos milhões de olhos ansiosos.
Agronegócio
Ofensiva de Trump contra o Irã ameaça produtores de milho de MT e GO
15/01/2026
Destaque
Dormindo com os inimigos
5/01/2026É impossível derramar uma só lágrima pela figura política de Nicolás Maduro, um ditador incompetente que empobreceu seu povo e fraudou a eleição de 2024 que o tiraria pacificamente do poder. Mas o vasto e letal ataque militar norte-americano na madrugada de sábado, que o sequestrou juntamente com sua esposa em Caracas, é a prova definitiva de que a política externa mafiosa de Donald Trump tem um caráter ostensivamente imperialista e só obedece à lei da selva. Na América Latina, vista por ele e seus áulicos como um mero quintal dos Estados Unidos, voltamos aos tempos das canhoneiras com a repaginação da doutrina Monroe, agora intitulada Donroe sem que isso seja uma homenagem ao Pato Donald.
Pouco importa a Trump que todo esse violento desrespeito às normas éticas e legais jogue por terra o sistema multilateral construído sob a liderança dos próprios Estados Unidos desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Pouco importa a ele que a campanha contra a Venezuela venha sendo cinicamente conduzida sob o pretexto duvidoso de que Maduro é um narcotraficante ou, segundo a definição agora imposta por Washington, um narcoterrorista. Isso porque a essência de suas ações se fundamenta em dois pilares: em primeiro lugar, o desejo de enxotar a China do continente americano (na verdade, da Groenlândia à Patagônia) como parte da Segunda Grande Guerra Fria em que as duas potências disputam a hegemonia mundial; em segundo lugar, a fome por matérias estratégicas, do petróleo às terras raras.
No caso da Venezuela sem dúvida o objetivo central é o petróleo, embora as enormes reservas lá existentes sejam de uma variedade betuminosa, difícil de extrair e processar.
No entanto, pelas declarações feitas na conferência de imprensa concedida em Mar-a-Lago, deduz-se que todas as instalações no setor petrolífero venezuelano que pertenciam a empresas norte-americanas e foram nacionalizadas por Chavez serão devolvidas a seus antigos donos. Tudo indica que eles receberão as compensações devidas e que os investimentos a serem feitos para recuperá-las deverão ser pagos de alguma forma pela Venezuela, talvez como parte dos royalties a que o Governo faria jus nas vendas externas futuras do petróleo produzido nessas instalações. O mais notável é que tudo isso (e certamente muito mais) deverá ser garantido pelo fato de que Trump pessoalmente (remember Gaza?) dirigirá essas operações durante um período de transição não explicitado.
Mas o problema é o seguinte: como fazer isso na prática, como garantir o controle físico dessas numerosíssimas instalações espalhadas pelo país sem a presença de uma vasta tropa de ocupação territorial? Ora, essa opção parece de todo inviável diante da oposição dos próprios apoiadores de Trump no MAGA, que jamais admitiriam ver, como no passado, aquelas fileiras de caixões cobertos com a “Star and Stripes” trazendo militares mortos em conflitos no exterior para serem enterrados com todas as honras de praxe no cemitério de Arlington.
Não sendo assim, é óbvio que será necessária a colaboração maciça de venezuelanos para tornar efetivas a retomada e a exploração das propriedades confiscadas há 50 anos, para garantir as compensações financeiras, para viabilizar a venda e exportação do petróleo etc., etc., etc.
Até as declarações de Trump no sábado, a grande favorita para executar essas penosas funções era Maria Corina Machado, recente ganhadora do Nobel da Paz e líder da oposição, que teria podido ser a vencedora do pleito eleitoral de 2024 caso não houvesse sido arbitrariamente desqualificada pelo Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela cumprindo as ordens de Maduro. Mas, para surpresa geral, Trump disse, então, que ela não tinha “o apoio ou o respeito dentro do país”, fazendo com isso que todos os olhos se voltem para aqueles que, até sexta-feira, se identificavam como companheiros de luta de Maduro contra as ações imperialistas do atual ocupante da Casa Branca.
Esse tipo de reviravolta não surpreende no caso de Trump, famoso pelos TACOs (Trump always chickens out), como aliás ocorreu ao abandonar o pretexto Bolsonaro para violar a soberania brasileira quando entendeu finalmente que isso constituía um tiro no pé. Mas traz à lembrança outras desastrosas experiências norte-americanas de tentar governar outros países, como aconteceu no Vietnã, no Iraque, no Afeganistão e em várias instâncias na própria América Latina, frequentemente gerando conflitos, instabilidade interna e um crescente sentimento de antiamericanismo.
Mais complicado ainda será encontrar, dentre os antigos seguidores entusiastas de Maduro, aqueles que se disporão a enfrentar a opinião pública, ao menos certos segmentos militares, as cortes de justiça e o Congresso a fim de defender os interesses norte-americanos sob o controle pessoal de Trump, que declara abertamente a intenção de comandar todas as ações futuras no país por tempo indeterminado. A história já nos trouxe alguns exemplos não muito distantes no tempo, como a “quinta coluna” proclamada pelas forças fascistas de Franco durante a guerra civil espanhola ou as ações de Vidkun Quisling, que chefiou nominalmente o governo da Noruega como Ministro-Presidente depois de o país ter sido ocupado pela Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial (tendo seu sobrenome se transformado num substantivo comum que significa traidor ou colaborador).
Correm rumores de que já haveria negociações em curso no tocante ao day after Maduro com a vice-presidente Delcy Rodríguez, que recebeu da suprema corte do país a ordem de assumir interinamente a presidência “para garantir a continuidade administrativa e a defesa integral da nação”. Aliás, a ausência de Maduro foi interpretada como “temporária” pelo tribunal, permitindo que a vice assumisse o cargo por até 90 dias, período que pode ser prorrogado pelo Parlamento. Como ela própria já havia declarado que Maduro era o real presidente da nação, podemos fazer uma tênue ideia dos imensos problemas que precisarão ser superados para que a Venezuela não entre em colapso total após o atentado majestático de Trump à sua soberania.
Vale, por fim, uma séria advertência: Trump colocou claramente a América Latina em quarentena e está disposto a instalar em todos os países da região regimes subordinados a ele, aos interesses políticos e econômicos dos Estados Unidos, aos conceitos de extrema direita advogados pelo movimento MAGA.
Não se iludam os que creem que Lula conseguiu “encantar” Donald Trump, que os dois agora são amiguinhos. Nas eleições presidenciais deste ano todo o poder da Casa Branca será posto a serviço de seus adversários – de preferência a um deles para evitar a dispersão de forças.
Destaque
Trump, Lula e minerais críticos: a combinação de poder dos irmãos Batista
22/12/2025
Destaque
Química entre Lula e Trump vira ameaça para usineiros do Nordeste
3/11/2025
Política
Há “química” entre Donald Trump e Claudio Castro?
29/10/2025No Itamaraty e no Palácio do Planalto, há preocupação com a possibilidade de qualquer manifestação vinda de Donald Trump em relação à megaoperação policial no Rio de Janeiro. O temor é que uma eventual fala de Trump sobre o assunto seja interpretada de uma maneira negativa para o governo Lula. Um exemplo: qualquer declaração poderia ser um presente para a extrema direita e a claque bolsonarista, afônica, quase em silêncio, por conta da “química” entre Trump e Lula. A agenda em questão e o timing aumentam a probabilidade do presidente norte-americano chamar o assunto para si. A violenta operação no Rio coincide com os ataques dos Estados Unidos no Caribe e no Pacífico a embarcações supostamente carregadas de drogas. Ressalte-se que o Palácio Guanabara já emitiu sinais à Casa Branca. Há oito meses, o governo do Rio encaminhou um relatório ao governo norte-americano apontando o Comando Vermelho como uma organização internacional com características de grupo terrorista. Ontem, o próprio Castro referiu-se aos alvos da operação da Polícia como “narcoterroristas” – como bem pontuou a colunista Maria Cristina Fernandes, do Valor Econômico, um discurso que “mimetiza” a Casa Branca.
O que precisa ser dito
Business as usual
27/10/2025A reunião formal entre os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos na Malásia confirmou a reviravolta prenunciada no rápido encontro entre ambos (que nada teve de fortuito) durante a Assembleia Geral da ONU. Astuto negociador, Donald Trump não teve o menor pejo de, em meio a cortesias de parte a parte, completar mais um acrobático TACO enterrando de vez a machadinha de guerra dos povos indígenas norte-americanos – que, aliás, se chamava “tomahawk”. Na realidade, ficou evidente que Trump compreendeu haver cometido dois erros no relacionamento com o Brasil que cabia corrigir o mais cedo possível.
Do ponto de vista político, ele havia sido ludibriado pelas ideias fantasiosas da trinca Steve Bannon-Eduardo Bolsonaro-Paulo Figueiredo ao usar o julgamento do ex-presidente para justificar uma intervenção nos negócios soberanos do Brasil. No entanto, em vez de obrigar o país a se curvar covardemente, esbarraram na resistência impávida dos três Poderes, provocando um surto popular de nacionalismo e prestando imenso serviço eleitoral a Lula com o consequente efeito deletério sobre as pretensões da direita. De fato, o longo silêncio da Casa Branca e do Departamento de Estado sobre o julgamento e condenação de Jair Bolsonaro, antes objeto de estridentes e reiteradas objeções, foi, enfim, rompido em Kuala Lumpur pelo próprio Trump, mas não de moto próprio, como possível forma de intimidar Lula, e, sim, respondendo a um repórter brasileiro. E, para a infinita tristeza das cassandras bolsonaristas, que sempre previram que este assunto constituiria um carro-chefe de Trump e que Lula seria humilhado num encontro presencial, o presidente norte-americano se limitou a algumas expressões condescendentes de comiseração sobre aquele que antes era o pretexto-mor para punir o Brasil. Ao que se sabe, na reunião fechada que se seguiu à entrevista coletiva, teria cabido ao próprio Lula suscitar a questão Bolsonaro, mas, então, para explicar a Trump as circunstâncias que justificaram sua longa sentença. Portanto, em condições normais de temperatura e pressão se trata de uma página definitivamente virada.
O segundo grande erro ocorreu na área comercial, embora desde o primeiro dia do tarifaço já houvessem sido excluídos numerosos itens sensíveis, tal como suco de laranja e aviões comerciais. No entanto, os produtos que continuam a enfrentar tarifas predatórias e arbitrárias de 50% vêm gerando sérias dificuldades para vários segmentos da economia norte-americana e provocando ameaçadores aumentos de preço para o consumidor, como é o caso do café e da carne (cujos cortes provenientes do Brasil servem sobretudo para a produção de hambúrgueres). Muito relevante também foi o fato de que as vendas do Brasil para o exterior não sofreram um baque generalizado como muitos desejavam, uma vez que, pelo contrário, provocaram a busca de novos mercados como China, México, Argentina, Oriente Médio, Índia e outros países asiáticos. Assim, conquanto em setembro as vendas para os Estados Unidos tenham caído 20,3% (sobretudo no tocante a ferro gusa, carnes, açúcar, armas e fumo), as exportações totais alcançaram US$ 30,5 bilhões, com um incremento de 7,2% sobre igual mês em 2024. Em suma, Trump e seus assessores compreenderam que estavam empurrando o Brasil para outros mercados, em particular o chinês, ao mesmo tempo em que estimulavam as tendências inflacionárias que são o maior pavor de qualquer ocupante da Casa Branca.
Diante do desejo dos dois chefes de Estado de que começassem prontamente as tratativas sobre assuntos comerciais, já na manhã de hoje Mauro Vieira e seus interlocutores norte-americanos estabeleceram um cronograma de trabalho técnico que, como chegou a transpirar em Kuala Lumpur, pode incluir a suspensão ao menos temporária das tarifas punitivas de 40% sobre todos ou alguns produtos exportados pelo Brasil, em particular o café. Impossível prever a duração dessas tratativas, porém o importante é reconhecer que as relações com os Estados Unidos, se não alcançaram ainda o pleno estágio de “business as usual” invocado no título deste artigo, entram agora em terreno positivo que era impensável semanas atrás.
Do lado brasileiro, além do discreto profissionalismo de nossa diplomacia, vale mencionar alguns pontos positivos que facilitaram a revisão das posturas de Trump: 1) o sistemático oferecimento de Lula para realizar um encontro presencial; 2) sua disposição de discutir qualquer assunto, até mesmo os de natureza política que muitos o aconselhavam a evitar; e 3) o oferecimento para servir como intermediário nas questões da Venezuela e da Ucrânia, evitando com isso se identificar com apenas um dos lados desses conflitos.
Aguardemos, pois, notícias construtivas que poderão servir como grandes presentes natalinos a todos que vêm sofrendo com o tarifaço nos dois lados do balcão.
Jorio Dauster é diplomata de carreira e foi embaixador do Brasil junto à União Europeia, colaborador especial do Relatório Reservado.
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Energia nuclear ronda a pauta de negociações entre Brasil e EUA
16/10/2025A “química” entre Lula e Donald Trump poderá render ao Brasil uma posição privilegiada para tirar proveito da “guerra fria” entre Estados Unidos e China. Entre as pautas que devem ser colocadas sobre a mesa de negociações entre Brasília e Washington para a redução do tarifaço está a hipótese de um acordo de cooperação nuclear.
No entendimento do governo Lula, os dois países têm importantes moedas de troca nessa área. A do Brasil está no seu subsolo. Os Estados Unidos cobiçam não apenas terras raras, mas os minerais nucleares brasileiros, especialmente o tório, que deverá ter uma crescente participação na geração de energia – ver RR.
O acesso preferencial a esses recursos seria uma das compensações para Donald Trump rever as tarifas impostas a uma série de produtos brasileiros. Contrapartida por contrapartida, o governo Lula vislumbra a possibilidade de estabelecer uma parceria mais ampla com os Estados Unidos, que seja capaz de turbinar o programa nuclear brasileiro.
Para começo de conversa, o Brasil tem uma usina para terminar de construir. A conclusão das obras de Angra 3, paradas há uma década, exige um investimento da ordem de R$ 23 bilhões, segundo estudos do BNDES. Um eventual acordo bilateral nessa área poderia interessar aos Estados Unidos, pela oportunidade de deslocar interesses chineses em um terreno tão estratégico e sensível quanto a energia nuclear.
O país asiático já deu alguns passos nesse campo. Em julho, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, assinou uma carta de intenções com a estatal chinesa CGN Energy voltada à cooperação técnico-científica em transição energética e ao uso de recursos minerais nucleares do Brasil. A China é também recorrentemente citada como um potencial parceiro para a conclusão de Angra 3. A aproximação com o Brasil nessa área seria uma forma de os Estados Unidos fecharem essa porta para o país asiático.
A parceria com os Estados Unidos poderia levar também à instalação de outras usinas nucleares no Brasil. O então Plano Nacional de Energia 2050, cuja última atualização remonta ao governo Bolsonaro, previa a ampliação dessa matriz energética no país em até 10GWh, o equivalente a nove geradoras do porte de Angra 3.
Porém, ao elaborar o seu Plano Nacional de Energia 2055, a gestão Lula praticamente sumiu com a energia nuclear. Nas 243 páginas do PNE 2050, havia 161 menções ao tema; nas 68 páginas do PNE 2055, existem apenas quatro citações à geração nuclear.
Esse “apagão”, no entanto, não deve ser interpretado como sinal de desinteresse do governo por ampliar o parque nuclear. Muito pelo contrário. Se o assunto esmaeceu no PNE 2055 foi pelo blecaute de recursos, a ponto da própria conclusão de Angra 3 estar sendo continuamente tirada da pauta de reuniões do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE).
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Fabricantes de máquinas agrícolas puxam o freio com tarifaço de Trump
14/10/2025Os movimentos de aproximação entre os governos Lula e Trump parecem não sensibilizar a indústria de máquinas agrícolas no Brasil. O setor tem adotado medidas contracionistas como resposta aos impactos do tarifaço dos Estados Unidos sobre a cadeia do agronegócio.
Que o diga a John Deere, líder do mercado no país. Os norte-americanos discutem, intramuros, cortes em seus planos de investimento no Brasil. Segundo informações filtradas pelo RR, um dos projetos colocados em stand-by é a expansão da fábrica de tratores de Montenegro (RS).
No ano passado, a companhia comprou dois terrenos contíguos à unidade para a ampliação da produção e da área de armazenagem, como parte de um desembolso total da ordem de R$ 230 milhões. Nos corredores da empresa, fala-se à boca miúda em mais uma leva de demissões no Brasil — no mês passado, foram dispensados 150 funcionários da fábrica de Horizontina (RS).
Consultada pelo RR, a John Deere confirma que “conduziu, em 17 de setembro, uma readequação no quadro de funcionários da unidade de Horizontina (RS)”. Segundo a empresa, “a medida foi tomada para adaptar o volume de produção à demanda atual do mercado”. Perguntada especificamente sobre cortes de investimento e a possibilidade de novas demissões, a John Deere não se manifestou.
A John Deere não está sozinha no movimento de marcha a ré. Há informações no setor de que a norte-americana AGCO reavalia a expansão da sua fábrica em Jundiaí. Mais contundente ainda pode ser a reação da indiana Mahindra. Corre no mercado que o grupo cogita adiar o projeto de construção de uma fábrica de tratores em Dois Irmãos (RS), orçada em R$ 100 milhões.
Diante das incertezas que cercam o agro, não parece ser a melhor hora para triplicar a produção no Brasil dos atuais três mil para mais de nove mil tratores por ano. Também procuradas, AGCO e Mahindra não se manifestaram até o fechamento desta matéria.
O mês de agosto foi de desgosto para a indústria de implementos agrícolas, trazendo um indesejável tira-gosto dos efeitos do tarifaço. Após nove meses consecutivos de alta, as vendas de máquinas caíram 8% na comparação com o mesmo mês em 2024.
O próprio setor já reviu a projeção de crescimento na comercialização de tratores, colheitadeiras etc. para este ano, dos 20% iniciais para algo próximo de 14%. Pode e deve piorar caso a “química” entre Lula e Trump fique só nas palavras.
Os fabricantes já trabalham com projeções de queda das vendas no primeiro semestre do ano que vem, caso o tarifaço sobre produtos agrícolas brasileiros persista. Até porque “química” por “química”, as sobretaxas norte-americanas e a manutenção da Selic nas alturas têm praticamente o efeito de um agente-laranja sobre o agro.
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Meirelles, Garnero e a diplomacia paralela entre Brasil e Estados Unidos
25/09/2025Pela inconfiabilidade do autor, o afago de Donald Trump a Lula na ONU ainda é um gesto a ser devidamente decifrado. Mas talvez a tal “química” a que Trump se referiu seja o primeiro resultado visível de ações conduzidas não exatamente pelo Itamaraty e, sim, por “canais diplomáticos” paralelos, com conexão direta junto à Casa Branca.
Nos bastidores, esta chancelaria sem agréments é atribuída a dois personagens reconhecidos pela capacidade de conciliar o inconciliável: Henrique Meirelles e Mario Garnero. Ambos estariam trabalhando para remover ou ao menos reduzir as cercas de arame farpado que separam Trump e Lula e, consequentemente, abrandar as sanções impostas pelos Estados Unidos ao Brasil, seja no âmbito comercial, seja de ordem legal.
A proximidade entre Meirelles e Trump vem dos tempos em que o ex-presidente do Banco Central comandou o BankBoston e, posteriormente, o FleetBoston. Garnero, por sua vez, é notório pelo seu poder de interlocução junto a empresários e proeminentes figuras da política norte-americana, notadamente entre os Republicanos, como Bush Pai e Bush Filho e Dick Cheney, ex-vice-presidente.
Não é a primeira vez que chama para si a missão de apaziguar os ânimos entre os atuais chefes de Estado do Brasil e dos Estados Unidos. No início deste ano, tentou costurar um jantar entre Lula e Trump no resort de propriedade do presidente norte-americano em Mar-a-Lago, na Flórida. Havia até uma data-tentativa: 17 de fevereiro. Mas o encontro foi para a gaveta das boas intenções.
Ainda é cedo para dizer até onde vai essa proxy de distensionamento entre Lula e Donald Trump. A conversa telefônica programada para a próxima semana deve ser anódina e protocolar, conforme os cânones diplomáticos.
De toda a forma, a postura de Trump após os “39 segundos” de conversa na ONU é o primeiro sinal de pragmatismo do presidente norte-americano desde o início da sua virulenta ofensiva contra o Brasil. É possível inferir que as gestões conduzidas por Meirelles e Garnero tenham alguma influência.
Por mais intransigente que se mostre, Trump não deve estar de todo indiferente aos recados que lhe chegam de que, se insistir em avançar na questão das sobretaxas contra o Brasil, vai entregar de bandeja uma reeleição para Lula. Quanto mais o presidente norte-americano bate, mais o presidente brasileiro cresce.
Como bem pontou o embaixador Jorio Dauster, em artigo publicado ontem no RR. Trump “teria visto ao longo das últimas semanas que os maus conselhos de Steve Bannon e seus asseclas brasileiros, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, tinham constituído um tremendo tiro no pé ou, quem sabe, um pouco mais acima em parte bem sensível da anatomia masculina”.
As manifestações do domingo passado contra a anistia e, por consequência, contra o perdão a Jair Bolsonaro certamente não passaram em branco entre as paredes da Casa Branca.
Nesse cenário, caso os governos do Brasil e dos Estados Unidos engatem, de fato, uma rodada de negociações, o cardápio de demonstrações de “boa vontade” da parte de Trump poderia conter, por exemplo, uma sobretaxa seletiva, que incidiria apenas sobre um determinado rol de produtos brasileiros e não sobre metade da pauta de exportações, como é hoje.
Além disso, poderia haver uma calculada interrupção das punições a autoridades, notadamente a integrantes do STF, além da mulher de Alexandre de Moraes – a essa altura, ao menos em um primeiro momento, seria pedir demais de Trump um brusco recuo nas penalizações.
“Tudo vai, tudo torna; a roda da existência gira eternamente”. Assim falou Zaratustra. Enquanto o futuro das relações entre Brasil e Estados Unidos não chega, o presente traz um ar de déjà vu.
A roda girou e os caminhos de Lula, Mario Garnero e Henrique Meirelles. Em 2002, logo após a eleição do petista, Garnero teve um papel crucial para amainar a desconfiança dos investidores norte-americanos em relação à política econômica do futuro presidente e, assim, evitar um possível ataque especulativo contra o Brasil.
Na ocasião, o empresário ciceroneou Lula e José Dirceu em uma série de reuniões nos Estados Unidos, a começar pelo encontro com o então presidente George W. Bush na Casa Branca. Esse trabalho de distensão começara meses antes, em meados de 2002, quando Lula já liderava as pesquisas eleitorais.
Em um domingo, 23 de junho, no início do que viria a ser um dos verões mais secos do Centro-Oeste norte-americano, Garnero participou de um encontro das mais altas lideranças do Partido Republicano em Beaver Creek, no Colorado. Em uma sala reservada, entregou ao então vice-presidente Dick Cheney uma carta de José Dirceu, em que o petista enfatizava a disposição para abrir um canal de diálogo com os republicanos.
Naquele mesmo mês, Garnero foi o anfitrião, na sede de sua empresa, a Brasilinvest, em São Paulo, de um almoço entre Dirceu e Meirelles. Naquele momento, já havia persuadido o petista de que o então presidente do FleetBoston era o nome para assumir o Banco Central em um eventual governo Lula e tourear a desconfiança do mercado.
“Dependendo do resultado das eleições, o Brasil precisará de você”, disse Dirceu a Meirelles no almoço. O resto é história. A história do inabalável e mais longevo presidente do BC – Meirelles ficaria no cargo do primeiro ao último minuto dos oito anos de Lula na presidência.
O que precisa ser dito
Amor à primeira vista?
24/09/2025Quando Donald Trump declarou ontem na Assembleia Geral das Nações Unidas que tinha se encantado tanto com a figura de Lula a ponto de decidir manter uma conversa entre os dois na próxima semana, muitos de nossos analistas cantaram loas ao extraordinário charme e capacidade de persuasão do presidente brasileiro. Coisa incrível, não é mesmo? Num encontro de 40 segundos no relógio (ou melhor, no cronômetro), o experimentado Trump teria se derretido como uma mocinha ávida diante do olhar insinuante de um Marlon Brando ou Paulo Newman quando ambos tinham uns 25 anos. Suspiros na plateia…
E muitos deixaram por isso de ver que estávamos diante de mais uma típica manobra trumpiana, mais um TACO (Trump Always Chickens Out) de tantos que já o fizeram famoso! Mais uma vez, quando passou a lhe interessar, ele se fez de maluco ou impulsivo, acrescentando supostamente de improviso – “espontaneamente”, como definiu um funcionário de seu Departamento de Estado – palavras sobre o Brasil que nada tinham a ver com o corpo de seu discurso.
Nada disso, foi jogo jogado. Não se viram por acaso num corredor, e, sim, numa salinha que fica atrás do púlpito de mármore dos oradores. Sabiam que se encontrariam e há dias Lula já vinha adoçando suas falas a fim de permitir que Trump desse o primeiro passo para quebrar o gelo entre os dois países. Obviamente, ele teria visto ao longo das últimas semanas que os maus conselhos de Steve Bannon e seus asseclas brasileiros, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, tinham constituído um tremendo tiro no pé ou, quem sabe, um pouco mais acima em parte bem sensível da anatomia masculina. Afinal de contas, o eleitorado brasileiro demonstrava seu apoio à condenação e prisão de Jair Bolsonaro; os ministros do STF em sua maioria não haviam se borrado nas calças (e dois que não pertenciam à Primeira Turma deixaram claro que haveria maioria no plenário para o que faziam seus quatro colegas); o Congresso como todo não correra a aprovar, trêmulo, uma lei de anistia geral e irrestrita que permitisse ao ex-presidente até mesmo concorrer, livre como um passarinho, nas eleições do ano vindouro. Em suma, Trump e suas ameaças contra a soberania nacional, em vez de apavorarem uma republiqueta de bananas, haviam gerado um movimento de afirmação nacional poucas vezes visto: Trump se tornara o melhor cabo eleitoral de Lula.
Era hora, portanto, de cantar em outro terreiro e, significativamente, nos seus cândidos comentários sobre o Brasil na ONU, Trump não fez nenhuma menção ao julgamento e condenação de Bolsonaro. Nenhunzinho! Muito pelo contrário, concentrou suas observações nas reclamações que ouve das big techs – cujos donos se colocam entre seus maiores financiadores e sócios.
Nada impede, é evidente, que no contato marcado para daqui a alguns dias Trump volte a levantar todas as questões que fazem parte de seu arsenal contra o Brasil, incluindo a condenação de Bolsonaro e posturas internacionais pró-BRICS. Isso seria uma manobra natural para intimidar Lula, porém ele encontrará do outro lado do fio telefônico ou da videoconferência um político de larga quilometragem, que saberá rebater esses pontos e novamente se beneficiar como defensor da soberania nacional e do regime democrático. Depois desses pegas eventuais, caso de fato ocorram, haverá, enfim, espaço para o início de negociação sobre as tarifas (que incomodam os próprios empresários norte-americanos) e dos regulamentos que imporemos no Brasil às big techs.
Jorio Dauster é diplomata de carreira e foi embaixador do Brasil junto à União Europeia, colaborador especial do Relatório Reservado.
Destaque
Brasil e México se unem contra a carnificina tarifária de Trump
22/09/2025O governo e grandes grupos da cadeia de proteína animal encontraram no “quintal” dos Estados Unidos uma rota de escape para mitigar o impacto da tarifa de 50% imposta por Donald Trump à carne brasileira. Segundo informações filtradas pelo RR, uma comitiva do Servicio Nacional de Sanidad, Inocuidad y Calidad Agroalimentaria, instância do governo do México responsável por autorizar a importação de alimentos, chegou ao Brasil para iniciar uma inspeção técnica em diversos frigoríficos.
Hoje, 35 unidades de abate têm permissão para exportar carne bovina para o mercado mexicano. No Ministério da Agricultura, a expectativa é que o órgão fitossanitário do México inicie o processo de homologação de até 14 estabelecimentos durante a visita ao Brasil. Com isso, esses frigoríficos deverão ser autorizados a embarcar carne bovina para o mercado mexicano ainda neste ano.
O aumento das exportações de carne bovina para o México é o primeiro e expressivo resultado prático da visita de uma comitiva do governo brasileiro, liderada pelo vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, e pelo ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, à capital mexicana no mês passado.
Não por coincidência estão sentadas à mesa duas nações vítimas da fúria tributária de Donald Trump. Se o Brasil levou uma tarifa de 50% sobre mais da metade da sua pauta de exportação para os Estados Unidos, o México tem de digerir a alíquota extra de 25% sobre todos os produtos vendidos para o vizinho do norte, à exceção de petróleo e energia.
O estreitamento das relações comerciais entre os dois países, a começar pela agenda do agronegócio, desponta como um movimento de defesa e – por que não? – de ataque ao tarifaço trumpista. É uma estrada de mão dupla. No sentido inverso, o México discute contrapartidas como compensação ao aumento das compras da carne brasileira.
O Brasil deve ampliar as importações de atum daquele país. Há discussões também envolvendo a abertura do mercado brasileiro a frutas, como pêssego, e aspargos mexicanos. É o novo jogo no tabuleiro das relações internacionais.
Ao corroer os canais multilaterais, a política de Trump empurra um número cada vez maior de países a costurar seus próprios arranjos bilaterais, em alguns casos em um ritmo até mais acelerado do que fariam em condições normais de temperatura e pressão.
No caso específico da carne bovina, o Brasil já vinha em uma escalada nas exportações para o México. De janeiro a julho de 2025, os embarques totalizaram 67.659 toneladas, quase três vezes o volume registrado no mesmo período de 2024. Ou seja: uma média de 9,5 mil toneladas por mês.
Com a entrada em vigor das draconianas tarifas norte-americanas, já houve um aumento das vendas em agosto – cerca de 12 mil toneladas. Com o acordo costurado entre os dois países e a homologação dos novos frigoríficos, a estimativa no Ministério da Agricultura é que as exportações de carne bovina para o México cresçam 80% em 2026.
Em alguns cortes específicos, o mercado mexicano poderá se tornar o segundo maior destino do produto brasileiro, ultrapassando os próprios Estados Unidos e ficando atrás apenas da China.
Destaque
Até quando os produtores de café vão ter lastro para suportar o tarifaço de Trump?
10/09/2025Pouco mais de um mês após o tarifaço de Trump entrar em vigor, o setor cafeeiro enxerga o futuro por meio de duas lentes. A primeira delas, focada no curto prazo, mostra um cenário razoavelmente sob controle.
Por ora, os agricultores estão hedgeados: a safra 2024/25 foi vendida antes da sobretaxa de 50% e, até o momento, os contratos de exportação para os Estados Unidos vêm sendo cumpridos, segundo uma fonte da área de comércio exterior.
Some-se a isso o fato de que os produtores brasileiros estão capitalizados. Os cafeicultores vêm de três anos seguidos com margens líquidas próximas de 100%, muito em função de “generosas” condições climáticas.
Somente no acumulado de 12 meses, os preços do café arábica, por exemplo, acumulam alta de 50%, no rastro da quebra de safra no país – em algumas regiões, a colheita em 2024/25 foi 30% menor.
Por quanto tempo o setor conseguirá ficar relativamente imune à fúria trumpista? Essa é a pergunta de US$ 2 bilhões – o valor das exportações anuais de café do Brasil para os Estados Unidos.
Para o médio e longo prazos, a lente está embaçada. A colheita da safra 2025/26 (julho/junho) terminou e até o momento os cafeicultores só venderam um terço da produção.
De acordo com a mesma fonte do RR, um ponto em especial tem causado apreensão entre os produtores: a falta de lobby da indústria de torrefação norte-americana junto ao governo Trump por um alívio nas tarifas de importação do Brasil.
Mesmo figurando entre os principais afetados pela sobretaxa, os grandes compradores de café dos Estados Unidos se mantêm em um silêncio intrigante. Essa mudez não estava no script dos cafeicultores brasileiros.
No mercado, pululam teorias sobre a posição defensiva dos grandes conglomerados de torrefação dos Estados Unidos. Uma delas é que a indústria estaria dando tempo ao tempo, apostando em uma revisão da tarifa imposta ao produto brasileiro.
Nos últimos dias, inclusive, surgiram no setor rumores de que Trump poderá estabelecer uma taxa única de 10% para as importações de café de todo o mundo, independentemente da origem.
Há quem veja, no entanto, um processo quase darwiniano no mercado norte-americano, que pode ter grave impacto sobre o setor cafeeiro no Brasil. Grandes compradores que recebem o café na “porta” estariam aproveitando a sobretaxa para asfixiar concorrentes que compram o produto FOB.
Os primeiros contam com uma proteção natural: contratos de longo prazo que empurram custos adicionais, inclusive tributários, para a conta do trader. Já as empresas que adquirem o produto no modelo FOB arcam com todas as despesas logísticas e para a internalização da mercadoria.
Ou seja: estas se encontram em uma posição de fragilidade, pois são responsáveis pelo pagamento da sobretaxa para a importação.
No médio e longo prazo, caso a tarifa de 50% seja mantida, grandes compradores de café brasileiro podem ter sérias dificuldades para honrar contratos ou até mesmo quebrar.
Ressalte-se que o modelo FOB responde por aproximadamente 60% dos embarques do produto do Brasil para os Estados Unidos.
Destaque
Governo e frigoríficos montam novas rotas comerciais para compensar tarifaço de Trump
21/08/2025O governo e os grandes grupos frigoríficos do país estão montando um plano de ataque no comércio exterior na tentativa de mitigar o impacto do tarifaço de Donald Trump sobre as exportações brasileiras de carne bovina.
Segundo informações filtradas pelo RR, o vice-presidente Geraldo Alckmin, à frente do Comitê Interministerial de Negociação e Contramedidas Econômicas e Comerciais, e o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, deverão se reunir com empresas do setor na próxima semana para definir um arco de ações a serem executadas com o apoio do Itamaraty.
A prioridade é a abertura de novos mercados como forma de compensar a queda dos embarques para os Estados Unidos. É o caso do Japão. O governo articula a vinda de uma missão técnica da Animal Health Division, órgão do Ministério da Agricultura, Floresta e Pesca japonês responsável pelo controle sanitário, para inspecionar frigoríficos brasileiros, condição sine qua non para a retomada das exportações ao país asiático.
O Japão anunciou recentemente a reabertura do seu mercado à carne bovina brasileira após a Organização Mundial de Saúde Animal reconhecer o Brasil como território livre de febre aftosa sem vacinação. O mesmo ocorre em relação à Coreia do Sul e o Vietnã. O próprio ministro Carlos Fávaro deverá liderar uma comitiva aos dois países para acelerar o restabelecimento do comércio de carne bovina. Coreia do Sul e Vietnã revogaram as restrições à compra do produto brasileiro que vigoravam, respectivamente, desde 2012 e 2017.
Além da busca de novas rotas comerciais, qualquer plano de contenção do estrago imposto por Donald Trump passa obrigatoriamente pela China, o principal comprador de carne bovina do Brasil. Nesse caso, o trabalho conjunto do governo e dos players do setor é aumentar o número de frigoríficos habilitados ao país asiático.
Neste momento, as autoridades chinesas analisam uma lista com mais de 50 plantas industriais brasileiras que já teriam atendido todos os requisitos impostos pelos órgãos sanitários locais. Desde o início da gestão Lula, 48 novas unidades de abate receberam autorização de Pequim.
No caso específico da China, há um fator que pode jogar a favor do Brasil. Em meio às facadas tarifárias de Trump, que está fazendo picadinho do comércio internacional, o Brasil vislumbra uma oportunidade de alavancar as exportações de carne bovina na esteira das fricções entre Estados Unidos e China. Desde o início do ano, os chineses já suspenderam a habilitação de mais de 400 frigoríficos norte-americanos.
Governo
Carlos Fávaro tem muito a agradecer a Donald Trump
14/08/2025O rating do ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, está em alta no Palácio do Planalto, no rastro do tarifaço de Donald Trump. Fávaro tem cumprido um papel importante na interlocução com os setores do agronegócio mais atingidos pela fúria trumpista, como a cadeia do café. Ao mesmo tempo, vem participando ativamente de discussões no âmbito do Comitê Interministerial de Negociação e Contramedidas Econômicas, comandado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, com o objetivo de desenhar novas rotas comerciais como alternativa aos Estados Unidos. Nos bastidores, a habilitação de 183 empresas brasileiras para exportar café à China, anunciada na semana passada, é, em grande parte, atribuída a gestões de Fávaro junto à própria embaixada do país asiático em Brasília. O aumento do valuation do ministro da Agricultura deve ter reflexos no cenário eleitoral de 2026. No entorno de Lula, já se dá como certo que o PT apoiará a reeleição de Fávaro ao Senado pelo Mato Grosso.
Destaque
A “diplomacia” mafiosa de Donald Trump
11/08/2025A diplomacia sem aspas já foi caracterizada como arte ou ciência, mas é simplesmente uma forma milenar de conduzir as relações entre entidades soberanas buscando, pela via da negociação, soluções mutuamente aceitáveis que previnam a eclosão de conflitos. Esse utilíssimo instrumento civilizatório obedece a normas fixadas em tratados e se vale de rituais consagrados pela prática no curso dos séculos.
Ou assim era até janeiro deste ano, quando Donald J. Trump assumiu pela segunda vez a presidência dos Estados Unidos da América, ainda hoje o país mais rico e militarmente mais poderoso do mundo, que se autodeclara um exemplo magnífico de democracia e respeito aos direitos humanos. A partir de então, foi inaugurada aquilo que já chamei de “diplomacia da chantagem” pela qual, valendo-se de métodos aprendidos graças à sua formação no bairro nova-iorquino do Queens e às atividades do pai, que possuía moradias para aluguel segregadas racialmente, Trump tenta subjugar alguns países e extrair de todos vantagens obtidas por meio da aplicação de tarifas abusivas e sanções de todo tipo.
A fim de executar suas propostas de campanha, Trump adotou desde o primeiro dia uma postura autocrática e imperialista, ignorando ou violando abertamente leis federais, regulamentos e até mesmo a Constituição mediante o uso de ordens executivas baseadas em legislações emergenciais, uma delas datada de 1798! Apesar de ter vários desses “decretos” questionados na Justiça, a expectativa geral é de que a Corte Suprema, atualmente dominada por juízes conservadores (três dos quais designados pelo próprio Trump), endossará todas ou quase todas as medidas excepcionais impostas pelo Executivo.
Vale notar que tais medidas espelham total ou parcialmente as recomendações contidas no Project 2025, uma coletânea de propostas de políticas de direita ou de ultradireita que visam remodelar o governo dos Estados Unidos mediante o fortalecimento do poder executivo. Ou seja, contrariando a impressão muito difundida de que Trump é louco ou age com base em impulsos dignos de um egomaníaco, trata-se na essência de um plano de voo bem amadurecido que passou pela cooptação do Partido Republicano e ganhou poder no MAGA.
Na área multilateral, Trump iniciou o desmonte da rede de instituições criada basicamente pelos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial, mais uma vez retirando seu país do Acordo de Paris e abandonando o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, a Unesco e a Organização Mundial da Saúde, além de suspender as contribuições para a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo e à Organização Mundial do Comércio.
Repetidamente, anuncia seu humilhante desejo de anexar o Canadá como 51º estado e ameaça ocupar militarmente a Groenlândia (que é um território autônomo dentro do reino da Dinamarca) e o Canal do Panamá, além de oferecer apoio integral a Benjamin Netanyahu em suas ações voltadas à criação do Great Israel, que vai do rio Jordão ao Mediterrâneo e implica a submissão/expulsão/extermínio dos palestinos que lá vivem há séculos.
Nas visitas feitas por chefes de Estado a Washington, em vez de seguir o formato tradicional de uma entrevista conjunta à imprensa depois dos encontros reservados, Trump agora as inicia com uma conversa no Salão Oval a que tem amplo acesso a mídia. Nesse novo modelito, ele já humilhou publicamente Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, e Cyril Ramaphosa, presidente da África do Sul, nesse caso o acusando falsamente de conduzir uma “limpeza étnica” contra os brancos em seu país.
Revelando sua ignorância em matéria econômica, Trump escolheu as tarifas como arma preferencial para as incursões mafiosas, argumentando que os Estados Unidos vinham sendo vilmente explorados por todos os países que exibiam saldo positivo no intercâmbio bilateral. No entanto, essa vitimização sem fundamento ruiu quando ele impôs tarifas punitivas ao Brasil que, pelo contrário, apresentava um pequeno déficit na área de comércio e um gigantesco déficit na área de serviços com os Estados Unidos.
E foi quando a máscara do imperialismo trumpiano caiu de vez, pois ele precisou apelar para o falso argumento de que o Brasil perseguia politicamente o ex-presidente que tentara dar um golpe idêntico ao dele em 6 de janeiro de 2021, com a invasão do Capitólio. Não custa lembrar que, em seu primeiro dia na Casa Branca, Trump perdoou cerca de 1.600 pessoas já condenadas ou aguardando julgamento por crimes relacionados àquele episódio, comutando as penas de 14 que agiram com maior violência.
Qualquer semelhança com o pedido de anistia aos envolvidos nas arruaças ocorridas na Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023 obviamente não é mera coincidência. Desde então, sem que necessitemos relembrar o que está gravado para sempre na mente dos brasileiros realmente patriotas, assistimos a uma série de ataques à nossa soberania e à independência dos poderes, com penalidades aplicadas a membros do Supremo Tribunal Federal e ameaças criminosas a autoridades do Executivo, Judiciário e Legislativo sob o acicate de um vendilhão da pátria que coloca os interesses de sua família acima dos interesses da nação.
Às provocações do Departamento de Estado, aqui repercutidas insolitamente pela Embaixada norte-americana, o Itamaraty tem respondido com a convocação do encarregado de negócios (já que Trump se recusa a nomear um embaixador enquanto Lula for presidente) para que um funcionário de menor gabarito lhe manifeste o repúdio do Governo à mensagem insultuosa.
A muitos que julgam insatisfatória tal reação, só posso recomendar que façam das tripas coração e entendam que nos está sendo oferecida uma isca envenenada. Caso expulsássemos o tal encarregado de negócios ou chamássemos ao Brasil nossa embaixadora em Washington — gestos compreensíveis diante da agressão em curso — estaríamos apenas oferecendo a Trump a oportunidade de se fazer de vítima e nos impor sanções praticamente equivalentes ao rompimento das relações diplomáticas ou mesmo rompê-las formalmente.
Se ele de fato quiser fazê-lo para demonstrar o repúdio a um país que não se curva a suas exigências imperialistas, que assuma a responsabilidade por haver conspurcado duzentos anos de relacionamento amigável e respeitoso.
Mas não tenhamos ilusões: outras provocações, outras ameaças mafiosas e outras sanções já se encontram na rampa de lançamento de foguetes da Casa Branca de Donald Trump.
Destaque
Skaf “antecipa” posse e se lança como interlocutor entre a indústria e o governo Trump
8/08/2025A posse, marcada para o longínquo 1º de janeiro de 2026, não passa de mera formalidade. Paulo Skaf já pensa, fala, age, articula e conspira como presidente da Fiesp. Ungido ao cargo por aclamação – com 99% dos votos dos sindicatos que compõem a base eleitoral da entidade –, Skaf trabalha, desde já, em busca de um certo protagonismo no imbróglio das tarifas impostas por Donald Trump.
Imbróglio para os outros, que fique claro. Para ele, trata-se de um trampolim para se projetar como interlocutor da indústria brasileira junto aos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, se capitalizar politicamente no front interno.
Entre as medidas que devem ser colocadas em marcha de forma imediata está a contratação de um escritório de representação em Washington, com o intuito de estabelecer canais de negociação com autoridades do governo Trump e entidades empresariais, a exemplo da influente US Chamber of Commerce, notória por seu eficiente aparato de lobby montado dentro do Congresso norte-americano.
Skaf pretende ir pessoalmente a Washington e atuar na linha de frente das conversas. O “futuro presidente já em exercício” da Fiesp joga um jogo no qual, a princípio, só tem a ganhar. Ele entra em cena, até prova em contrário, no auge do caos provocado pelas intimidações tarifárias de Trump. No caso de qualquer recuo do presidente norte-americano, Skaf estará no pôster do campeonato.
Durante a sua primeira e longeva passagem pelo comando da entidade, Paulo Skaf jamais deixou de ter seus alinhamentos políticos, vide o Pato da Fiesp, contra o governo Dilma. Tampouco demonstrou prurido em instrumentalizar a instituição em prol de interesses não exatamente setoriais.
Diante desse track record, uma pergunta se levanta: e Jair Bolsonaro, onde entra nesse script? Segundo informações filtradas pelo RR, toda essa valsa entre a Avenida Paulista e Washington estaria combinada com os Bolsonaro. Mesmo porque o próprio clã traz para si, como um ativo, a responsabilidade pelas sobretaxas.
Ou seja: a busca por uma interlocução direta com o governo Trump na tentativa de atenuar o impacto do tarifaço sobre a indústria brasileira não deve ser interpretada como um sinal de distanciamento de Bolsonaro. Skaf está onde sempre esteve, apenas com algum mimetismo.
Destaque
Trump já dá terras raras brasileiras como favas contadas
6/08/2025Donald Trump, ao que parece, conseguiu o que os Estados Unidos desejavam há décadas: o direito preferencial de importação do excedente da extração de terras raras do Brasil. A contrapartida vigoraria a contar do acordo para redução das sobretaxas impostas ao país.
A forma despretensiosa como o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou que os minerais críticos serão uma moeda de troca importante para a diminuição das tarifas demonstra o quanto o Brasil está disposto a se ajoelhar a Trump. Haddad não diria o que disse se já não soubesse as cenas dos próximos capítulos. É sintomático que Lula tenha convenientemente se calado diante da postura do “leva o que quiser” adotada publicamente por seu ministro. Ajoelharam-se todos. Mesmo sabendo da importância estratégica das terras raras ou mesmo que a desistência camuflada do fim da soberania sobre minérios nucleares pode levar a algum transtorno com os chineses, nosso principal parceiro comercial. Governar é gerenciar riscos. Espera-se que Lula tenha acertado na conta.
O domínio chinês nessa área é absoluto. O país asiático é detentor do primeiro lugar no ranking dos maiores depósitos de terras raras. O Brasil aparece no segundo posto, empatado com a Rússia. Em terceiro vem a Índia, outra nação que começa a sofrer as dores do tacape de Trump. A China também é o maior importador do minério brasileiro (60,8%), seguida da França (19,6%) e do Japão (8,5%).
Se existissem coincidências, elas explicariam o fato de que os três países com maiores reservas das terras raras são membros dos BRICs. Mas o RR não acredita em coincidências. Aliás, vem alertando para o assunto recorrentemente – leia aqui:
- Governo Trump quer colonizar os minerais nucleares do Brasil
- Capital estrangeiro faz fila para explorar minerais nucleares no Brasil
- Qualquer discussão sobre minerais críticos sem a Marinha é um tiro n’água
As terras raras já foram tratadas como assunto de Segurança Nacional no Brasil. A história do pantagruélico interesse dos EUA pelos minérios críticos nacionais é matusalêmica. Dois acordos estranhamente redigidos, o primeiro em 1945, e o segundo em 1952, organizavam a exportação de monazita em grandes quantidades, sem compensação específica para o Brasil.
Documentos dos governos brasileiro e norte-americano, pesquisas acadêmicas, notícias de jornais da época e fotografias de arquivos públicos comprovam o envio de areia monazítica de Guarapari e de outros municípios capixabas, do Rio de Janeiro e da Bahia para os Estados Unidos – além de França, Alemanha e Inglaterra –, desde o fim do século XIX até a década de 1960. Muitas vezes o envio era feito a “preço de banana” ou de forma clandestina, com a monazita declarada como areia comum para preencher o lastro dos navios.
Em 1946, o Conselho de Segurança Nacional pediu que o primeiro acordo fosse denunciado, mas as exportações continuaram, além do contrabando, que gerou ação disciplinar em 1952. A baderna foi contida em parte.
Hoje, a regulamentação da exploração e produção de terras raras está sob jurisdição do Ministério de Minas e Energia, com o apoio do Departamento Nacional da Produção Mineral. Mas o rigor do controle da política para as terras raras é o próprio espelho da expressão facial do ministro Alexandre da Silveira.
Segundo o presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Raul Jungman, a maior reserva de terras raras do Brasil está em Serra Verde, Goiás. A empresa Serra Verde Pesquisa e Mineração já fincou seus pés em Minaçu, região norte do estado, e é a única mineradora fora da Ásia a produzir em escala comercial quatro elementos magnéticos essenciais: disprósio (Dy) e térbio (Tb), além de neodímio (Nd) e praseodímio (Pr).
A Serra Verde se apresenta como empresa brasileira, com sede no estado de Goiás, mas tem entre seus investidores de referência o fundo americano Denham Capital Management. Por alguma triangulação de difícil compreensão, a Serra Verde exporta a maior parte da sua produção para a China. Mistério!
Além dela, cinco outras empresas mineram tório, mas em muito menor escala. Somente uma é realmente de capital nacional. O tório, que é a pedra preciosa a ser extraída das terras raras, pouco é mencionado. Fala-se mais na monazita, que contém tório, bastnasita, xenotima e loparita e as argilas lateríticas, todos com maior função econômica.
O Ministério de Minas e Energia destaca como elementos de relevo a bastnasita e xenotima. Quem? Engraçado realmente ninguém falar no tório. Talvez haja alguma intenção de disfarce no silêncio em relação ao mineral.
O tório assumiu uma importância estratégica para os chineses. Neste ano, o país asiático conseguiu pela primeira vez na história reabastecer um reator nuclear com tório – elemento radioativo – sem precisar desligar o equipamento. O teste foi realizado em um reator localizado no Deserto de Gobi, no noroeste da China.
Segundo informações do jornal estatal chinês Guangming Daily, a unidade experimental pode gerar 2 megawatts de energia, utilizando sal fundido para transportar o combustível, tendo o tório como fonte nuclear geradora.
O tório, assim como as terras raras, é de difícil processamento. As principais reservas desse minério estão na Índia e China. O Brasil vem em sétimo lugar. Se juntarmos os três países, eles somam mais da metade das reservas planetárias de tório. Coincidência que os três sejam os founding fathers dos BRICs? O RR, como já dito, não acredita em coincidências.
O que precisa ser dito
Alô, alô Boy, Xerife!
4/08/2025Os mais inveterados carnavalescos talvez se lembrem da marchinha de Bob Nelson, lançada em 1947, que deu origem ao título deste artigo. Na curta letra, o aflito autor da chamada pede auxílio porque uma quadrilha quer roubar o seu amor, explicando que “não é que eu tenha medo de bandido, apenas eu não quero é confusão”. Essa insólita recordação me veio à mente devido às intensas discussões na mídia sobre o telefonema de Lula a Donald Trump, embora, nesse caso, o que está em jogo seja a ação de outra quadrilha que desejou roubar uma eleição.
A cautela com respeito à eventual chamada de Lula é justificada devido ao espírito vingativo do atual ocupante da Casa Branca e de seu hábito, como bully de carteirinha, de humilhar publicamente os chefes de Estado que o procuram. Mas creio que os debates ignoram a forma simples e diplomaticamente correta de evitar qualquer embaraço caso finalmente tenha lugar esse contato telefônico.
Exceto em situações de emergência totalmente excepcionais, as conversas entre presidentes, presenciais ou virtuais, são precedidas de entendimentos meticulosos entre as Chancelarias, quando se definem as datas e horas, pautas e propósitos dos contatos. Ora, no caso em tela, confirmando o que Mauro Vieira disse a Marco Rubio na semana passada em Washington, bastaria que afirmássemos claramente que, na projetada conversa telefônica, Lula só cuidaria de temas comerciais, não admitindo discutir questões relativas à soberania nacional ou à independência dos poderes judiciário e legislativo. Não havendo concordância do lado norte-americano, muito bem, muito obrigado, voltamos a falar sobre o assunto se houver alguma mudança na postura de um ou outro. Havendo concordância, são assentados os detalhes pertinentes e o telefonema ocorrerá tal como aprazado.
Ah, dirão os espertinhos, e se o Trump ignorar o combinado e começar a desfiar as reclamações de cunho político de que se valeu para justificar o injustificável tarifaço? Nessa hipótese (bastante realista), é suficiente que Lula – lembrando que não fala com o “companheiro Donald” – use sua proverbial fleuma típica de um lorde inglês e diga com grande elegância: “Sr. Presidente, ficou acertado entre nossas Chancelarias que não trataríamos de matérias políticas neste telefonema, e, sim, exclusivamente de questões comerciais, Peço-lhe que esse compromisso formal seja respeitado pois, de outra maneira, serei obrigado a interromper a ligação e me reservarei o direito de explicar o motivo tornando pública a gravação de nossa conversa feita por ambas as partes.” Xeque mate.
Jorio Dauster é um colaborador especial do Relatório Reservado.
Destaque
Livre do “risco Trump”, Embraer avança na América Latina e na África
4/08/2025O céu voltou a ficar azul para a Embraer. Após escapar do bombardeio tarifário de Donald Trump e consequentemente do risco de perdas estimadas em mais de US$ 3 bilhões até 2030, a empresa volta suas baterias para a América Latina e a África. Segundo o RR apurou, a empresa abriu tratativas com o BNDES em torno de um financiamento para a venda de quatro aeronaves Super Tucano modelo A-29 ao Panamá. O negócio deverá ser sacramentado durante a visita do presidente panamenho, José Raúl Mulino, ao Brasil, no próximo dia 28.
Segundo uma fonte da área de defesa, existe a possibilidade de o pacote ser ampliado, chegando a seis aeronaves. O A-29 foi escolhido pelas Forças Armadas do Panamá para ser a nova plataforma de vigilância e proteção do Serviço Nacional Aeronaval (SENAN) do país. O Super Tucano é hoje um dos principais trunfos comerciais da Embraer no mercado de defesa, notadamente na América Latina.
O Panamá será o oitavo país da região a contar com o modelo em sua força aérea. Procurada pelo RR, Embraer não se manifestou.
Em outra latitude, os radares da Embraer Defesa e Segurança apontam também para a África. A companhia tem intensificado negociações com nações africanas para a venda do Super Tucano. De acordo com a fonte do RR, há conversas engatilhadas com a Força Aérea da África do Sul (SAAF).
O país africano também manifestou interesse na aquisição do cargueiro militar C-390. No ano passado, a empresa brasileira fez uma demonstração da aeronave ao presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, e à ministra da Defesa, Angie Motshekga. O C-390 está na disputa para substituir a frota Hércules C-130BZ, fabricado pela Lockheed. Seria, portanto, uma oportunidade de a Embraer deslocar mercado da companhia norte-americana, uma de suas principais concorrentes internacionais no setor de defesa.
Destaque
Ofensiva radical de Trump pressiona governo a reforçar orçamento da Abin
1/08/2025O governo estuda formas de aumentar a alocação de recursos na área de Inteligência, notadamente na Abin. O objetivo principal é reforçar a atuação do órgão no exterior, com foco na aquisição de equipamentos e ampliação do número de agentes fora do Brasil. A Abin tem representações em 18 países, entre os quais os Estados Unidos.
O pano de fundo da suplementação orçamentária da Agência é a ofensiva do presidente Donald Trump. O governo Lula parte da premissa de que precisa ter mais informações. Diante desse contexto, as circunstâncias exigem o fortalecimento da estrutura de Inteligência. O Brasil destina uma esquálida proporção de 0,005% do PIB para o setor – apenas a título de exemplo, sem qualquer exercício de comparação, nos Estados Unidos essa fatia chega a 0,4% do PIB.
A Abin (Agência Brasileira de Inteligência), cabeça do Sistema Brasileiro de Inteligência (Sisbin), que reúne 48 órgãos, sofre de permanente escassez de verbas. O orçamento da Agência para este ano é de R$ 831 milhões, mas, como acontece na maior parte do aparelho público, os recursos estão esmagadoramente comprometidos com o custeio. O dinheiro livre para investimentos não passa de R$ 11,5 milhões, metade do valor desembolsado no ano passado.
Nos últimos meses, as operações realizadas pela Abin rarearam, por falta de verbas. As viagens de agentes teriam sido praticamente suspensas, restringindo-se a situações excepcionais.
O entendimento no governo é que o impasse com os Estados Unidos vai além da esfera diplomática. Tão importante quanto estabelecer canais de negociação com os norte-americanos é aumentar o volume de informações que ajudem a subsidiar a tomada de decisões.
Um dos alvos são as “células” bolsonaristas que trabalham dentro e fora do país para incitar o caos, a começar por Eduardo Bolsonaro, de quem não se pode mais duvidar da capacidade de sensibilizar a gestão Trump a adotar medidas punitivas contra o Brasil. O “03”, não é de hoje, está no radar da Abin, da PF e de diplomatas brasileiros nos Estados Unidos, conforme informou o RR.
Ressalte-se que a Polícia Federal abriu uma investigação contra Paulo Figueiredo, neto do ex-presidente João Figueiredo e aliado do clã Bolsonaro. Figueiredo, que mora nos Estados Unidos, é um notório articulador e operador de Eduardo junto ao governo norte-americano nas medidas impostas contra o Brasil.
O que precisa ser dito
Brasil bom de taco…
31/07/2025É inegável que, quando se soube que Donald Trump antecipara a decretação do tarifaço a ser aplicado ao Brasil, houve um imenso suspiro coletivo de alívio ao se verificar que, num mero anexo, centenas de produtos haviam sido isentados da taxa adicional de 40%. E eram boas as razões para essa sensação de desafogo: caso não houvesse exceções, estaríamos efetivamente confrontados com um embargo comercial jamais visto que geraria pesados ônus para a economia nacional em termos de renda e de emprego.
Como a Casa Branca havia impedido qualquer tratativa tarifária com nossas autoridades apesar dos reiterados esforços de Geraldo Alckmin, felizmente os grandes lobbies norte-americanos trabalharam em silêncio e tiveram êxito em evitar os prejuízos significativos que eles também sofreriam como resultado da punição aplicada ao Brasil. Para tanto, se valeram do conhecimento da personalidade do seu presidente e de seu comportamento habitual nessa área: Trump canta de galo, proclama uma vitória arrasadora e depois volta atrás ou mitiga o efeito das medidas anunciadas. Trata-se do já famoso TACO (Trump Always Chickens Out), só que dessa vez embutido no decreto original que nenhum dos seus eleitores vai ler.
Evidente também, mais uma vez, o uso de leis de exceção em que Trump invoca autocraticamente uma “emergência nacional” a fim de driblar a Constituição que o obrigaria a submeter ao Congresso essas medidas tarifárias. Daí que o decreto afirma, ridiculamente, que “políticas, práticas e ações recentes do Governo do Brasil ameaçam a segurança nacional, a política externa e a economia dos Estados Unidos.” E só assim ficamos sabendo que possuíamos um arsenal de bombas atômicas…
Mas o fato é que ainda estão gravemente ameaçados vários produtos de grande importância no intercâmbio com os Estados Unidos, tais como café, carne bovina, pescados, frutas, armas, móveis de madeira, etc. Para alguns deles a solução poderia vir no bojo de um decreto de alcance geral, abrangendo todos os fornecedores mundiais, em particular o café e as frutas em que não há produção local (como, por exemplo, a manga e o açaí). Os demais, incluindo bens industriais diversificados, exigirão providências próprias que devem ser buscadas através da negociação entre governos – se possível – e por démarches conduzidas pelas empresas interessadas daqui e de lá. Nesse sentido, são relevantes as declarações de Alckmin e de Haddad de que as negociações começam agora – desde que encontrem interlocutores capazes de tratar das questões substantivas de comércio, inclusive no tocante às atividades das big techs.
Cumpre assinalar outro ponto positivo que, a meu juízo, não foi devidamente avaliado pela mídia: o chanceler Mauro Vieira foi recebido em Washington pelo Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. A circunstância de que o encontro se deu na própria quarta-feira, depois de anunciadas as sanções contra Alexandre de Moraes e o tarifaço, não me parece mera coincidência, pois representaria o desejo de Rubio de demonstrar que aquelas medidas tinham sido tomadas sem consulta prévia com o governo brasileiro. No entanto, sendo ele um dos auxiliares mais próximos de Trump e para muitos o formulador da nova Doutrina Monroe de submissão da América Latina à hegemonia dos Estados Unidos, o encontro em si significa que não ocorreu (ainda?) um rompimento total dos laços diplomáticos entre as duas nações. Pelo que declarou posteriormente Mauro Vieira, na reunião ele pôde confirmar que o Brasil não admite negociar sua soberania, mas não sabemos o que lhe foi dito pelo Secretário de Estado norte-americano.
Seja como for, de nossa parte o momento agora é de circunspecção uma vez que constituiu surpresa positiva a extensão limitada do tarifaço e que há outros setores necessitados de tratamento menos severo. Não é hora de retaliações apressadas nem de declarações retumbantes porque devemos deixar a Trump o monopólio da bazófia. Salvaguardado corretamente nosso repúdio à capitulação por motivos e pretextos políticos, devemos buscar os caminhos do entendimento possível e, se preciso, amparar os segmentos da economia por ventura ainda prejudicados.
Jorio Dauster é um colaborador especial do Relatório Reservado.
Destaque
Exportadores de café devem suspender embarques para os EUA
31/07/2025O setor cafeeiro traça uma estratégia defensiva para enfrentar o impacto do tarifaço de Donald Trump, inicialmente previsto para entrar em vigor amanhã e agora postergado para o dia 6. Segundo uma fonte da área de comércio exterior, a maior parte dos exportadores deverá interromper os embarques do produto nos próximos dias. O intuito é ganhar tempo. A não ser nos casos em que o importador se comprometer a assumir os custos da sobretaxa, os traders vão segurar o café à espera de mais um adiamento ou mesmo da suspensão da alíquota de 50% e de algum avanço nas tratativas entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos. É a decisão possível para o momento, ainda que com seus inexoráveis danos colaterais.
A medida inevitavelmente provocará um efeito cascata na cadeia da commodity, chegando até o campo. Cabe lembrar que o setor está na fase final da colheita, ou seja, grande parte da safra ainda se encontra nas mãos dos produtores, o que vai acarretar um custo maior de estocagem não previsto.
Em seus estudos sobre o impacto do tarifaço de Trump, produtores e exportadores de café trabalham com dois timings distintos. No curtíssimo prazo, caso o gravame de 50% seja efetivamente adotado, o processo de acomodação será doloroso. No entanto, passado o maremoto inicial, a aposta é que a médio e longo prazo os Estados Unidos não conseguirão sustentar a sobretaxa, ainda que o café tenha sido mantido no índex do governo Trump mesmo após a retirada de outros itens – como suco de laranja, celulose, petróleo e componentes da aviação – anunciada ontem.
Não há excedente de grãos no mundo. Todos os 180 milhões de sacas que o planeta produz anualmente são consumidos e, o mais importante, têm mercados definidos e cadeias comerciais muito bem amarradas com contratos de longo prazo. Da mesma forma que o Brasil não conseguirá da noite para o dia um comprador substituto para o produto que eventualmente deixe de ser embarcado para o mercado norte-americano, os Estados Unidos também terão grande dificuldade de recomposição de seus estoques. Um terço de todo o café consumido na terra de Trump sai das lavouras brasileiras, algo como oito milhões de sacas por ano.
Não se trata apenas de buscar novos fornecedores globais, por si só uma tarefa complexa. Há ainda uma questão de inadequação do produto. Não é exagero dizer que, em grande parte, o paladar do consumidor norte-americano está moldado pelo café brasileiro.
Por esses motivos, é sintomático que o próprio secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, já tenha declarado que o governo poderá rever as tarifas impostas a mercadorias não produzidas internamente. É o caso do café.
De toda a forma, nesse contexto conturbado, não há espaço para cafeomancia. Até o momento, a borra de café deixada na xícara por Donald Trump não permite qualquer exercício de futurologia. A lógica de Trump é não ter lógica. E, para além da questão econômica, o presidente norte-americano não dá sinais de recuo em sua ofensiva para interferir na dinâmica política e institucional do Brasil – vide as sanções anunciadas ontem contra o ministro Alexandre de Moraes, com base na Lei Magnitsky.
Por mais que a sobretaxa norte-americana sobre o café não pareça ser sustentável a médio e longo prazos por uma série de fatores, desde já o setor discute saídas para mitigar ou mesmo contornar os efeitos da avalanche tarifária trumpista. De acordo com a fonte do RR, em conversas reservadas, produtores e exportadores falam na possibilidade de triangulação dos embarques. Ou seja: de usar países vizinhos não atingidos pelos desvarios alfandegários de Trump para acessar o mercado norte-americano. Esse movimento exigiria algum contorcionismo. Nada que, em maior ou menor medida, já não seja feito no comércio internacional.
Em tom de blague, a fonte do RR lembra, inclusive, da célebre história do trader Marc Rich, fundador da Marc Rich & Company, que mais tarde daria origem à Glencore. No fim dos anos 70, Rich utilizou-se de um complexo sistema de empresas registradas em jurisdições offshore para ocultar a origem do petróleo. Com essa prática, conseguiu driblar sanções impostas pelos Estados Unidos e exportar grandes volumes do produto do Irã para o mercado norte-americano.
Não é o caso de se chegar a tanto. Mas, mantidas as tarifas impostas pelo governo Trump, se, na próxima safra, o Paraguai embarcar três ou quatro milhões de sacas de café para os Estados Unidos, não será difícil saber de onde saiu o produto. O país vizinho não produz sequer 20 mil sacas por ano.
Destaque
Tarifaço de Trump impõe uma dupla derrota de Lula na política externa
29/07/2025O Brasil corre o risco de ser duplamente punido pelo bombardeio tarifário de Donald Trump. Como se não bastasse o impacto direto sobre a economia brasileira, a ofensiva trumpista praticamente sanciona uma derrota da política externa do governo Lula dentro de sua principal – talvez única – área de influência, a América do Sul.
Verdugo do multilateralismo, o presidente norte-americano está dinamitando não apenas a possibilidade de reanimação do Mercosul, mas, sobretudo, de criação de um bloco econômico englobando todos os países do continente. Trata-se de uma ideia que repousa no Itamaraty e vinha sendo embalada – ou requentada – por Lula desde o início do atual mandato. Não chega a ser uma iniciativa original, mas uma versão bem mais modesta do NAFTA.
Entre idas e vindas, a história registra outras tentativas semelhantes. No governo FHC, por exemplo, o Brasil liderou discussões regionais para a formação de um bloco de livre comércio na América do Sul exatamente como resposta ao antigo NAFTA, o tratado entre Estados Unidos, Canadá e México, rebatizado de USMCA em 2020. À época, em setembro de 2000, Fernando Henrique convocou uma reunião de chefes de governo da América do Sul – à qual compareceram 12 presidentes da República – para discutir a implantação de uma zona de livre circulação de bens e serviços.
O futuro bloco chegou a ser chamado de SAFTA ou South America Free Trade Area – curiosamente um homônimo do South Asia Free Trade Area (SAFTA), acordo que viria a ser firmado posteriormente, em 2004, por Bangladesh, Butão, Índia, Maldivas, Nepal, Paquistão e Sri Lanka. No entanto, tudo ficou no campo das intenções.
Desde a campanha eleitoral e ao longo de seu terceiro mandato, Lula tem mencionado recorrentemente a necessidade de formação de um bloco econômico na América do Sul, quando não estendendo a ideia à América Central e ao Caribe. Houve conversas nesse sentido com presidentes vizinhos de maior alinhamento ideológico, como Gustavo Petro, da Colômbia, e Gabriel Boric, do Chile.
Ocorre que Lula não tem conseguido sequer conter a erosão do Mercosul, liderada, principalmente, pela Argentina, quanto mais costurar um tratado continental. No atual contexto, qualquer movimento nesse sentido é praticamente inviável. Trump parece empenhado em banir o multilateralismo do seu “quintal”.
Ao mesmo tempo em que jogou uma bomba em seus vizinhos de parede na América de cima, Canadá e México, o presidente norte-americano está esfarelando o pouco que havia de possibilidade de um tratado comercial na América de baixo. Sua política tarifária cria assimetrias, alimenta a descoordenação regional e estimula uma corrida por acordos bilaterais, em uma espécie de “cada um por si”.
O que precisa ser dito
Olhando para o dia 2 de agosto
28/07/2025A menos que Donald Trump desista inesperadamente do ultimato imperialista que lançou contra o Brasil, todos os produtos por nós exportados para os Estados Unidos estarão no dia 1º de agosto sobrecarregados com uma tarifa de 50%, o que corresponde na verdade a um embargo comercial. Os brasileiros não morrerão de fome como as crianças palestinas em Gaza sob o jugo genocida da dupla Trump-Netanyahu, porém os efeitos do tarifaço serão muito severos para alguns setores da economia, implicando perda de renda e desemprego quando não o fechamento de numerosas empresas.
É hora, pois, de pensarmos no “day after”, que para nós é o 2 de agosto, no famoso mês do desgosto assim chamado porque era quando as caravelas partiam de Portugal deixando chorosas as famílias dos bravos navegantes.
Ficamos sabendo pela mídia que o governo federal e alguns governos estaduais já preparam Planos B para auxiliar os setores atingidos, embora, segundo o que vazou, eles envolvam sobretudo empréstimos emergenciais. Sem desprezar a relevância dessas iniciativas, cumpre ter em mente que os recursos disponíveis são escassos e que o aumento da dívida do setor produtivo, mesmo em condições favoráveis de prazo e juros, não representa uma solução estrutural.
Em termos de retaliação direta, a primeira opção reside na aplicação da Lei de Reciprocidade com base na qual o governo poderia, por exemplo, aplicar tarifas sobre os produtos provenientes dos Estados Unidos e/ou tributar maiormente as remessas de dividendos de empresas norte-americanas. É fundamental que não caiamos nessas duas tentações porque a primeira só serviria para aumentar as pressões inflacionárias e a segunda para espantar o capital estrangeiro de todas as origens de que tanto necessitamos. Nada impede, contudo, que examinemos com cuidado a possibilidade de suspender as patentes de produtos farmacêuticos e sementes agrícolas detidas por grandes corporações norte-americanas, nesse caso com benefícios para o sistema de saúde e o agronegócio nacionais.
Paralelamente, cumpre buscar com afinco novos mercados para os bens afetados, porém sabemos que é impossível encontrar, a curto e médio prazos, consumidores para os grandes volumes de produtos agropecuários que vendemos tradicionalmente aos Estados Unidos. Uma alternativa seria vendê-los, a preços subsidiados, para as agências da ONU que cuidam de combater a fome em Gaza e outras regiões devastadas por conflitos que não ganham as manchetes de jornais.
No entanto, há um enorme mercado de mais de 200 milhões de consumidores que não aplica tarifas nem tem seu acesso dificultado por complexos problemas de logística: o Brasil brasileiro! Tratemos, assim, de comprar pelo menos parte dessas carnes, desses pescados, desses sucos de laranja, desses cafés e dessas frutas para reforçar as merendas escolares em todo o território nacional, para melhorar a qualidade das refeições servidas em restaurantes populares! Quem sabe essas medidas emergenciais só serão necessárias por alguns meses porque, quando os efeitos do embargo aos produtos nacionais chegar às prateleiras dos supermercados e aos balcões das lanchonetes, o imperador Donaldus verá que seu tiro saiu pela culatra.
Jorio Dauster é um colaborador especial do Relatório Reservado.
Destaque
Governo Trump quer colonizar os minerais nucleares do Brasil
28/07/2025Ao ambicionar os minerais críticos do Brasil, os Estados Unidos olham não apenas a floresta, mas, sobretudo, a árvore. Para além das terras raras como um todo, objeto de cobiça das maiores potências internacionais, o governo de Donald Trump tem um interesse específico no subsolo brasileiro: os minérios nucleares, mais precisamente urânio e tório. Segundo informações que circulam em um seleto grupo de empresários do setor, os norte-americanos já colocaram sobre a mesa algumas de suas condições, vocalizadas pelo secretário de Comércio, Howard Lutnick, com quem Geraldo Alckmin conversou na semana passada, e pelo encarregado de negócios da embaixada dos Estados Unidos no Brasil, Gabriel Escobar.
A gestão Trump quer que o governo brasileiro assuma o compromisso de não restringir exportações dos minerais estratégicos. Trata-se de um pleito antigo dos Estados Unidos, que voltou à pauta, com força e intensidade redobradas, a partir do retorno de Donald Trump à Casa Branca. Essa medida abriria caminho para o que realmente interessa aos norte-americanos: um acordo que lhes desse direito de preferência sobre os metais estratégicos brasileiros, com foco em urânio e tório.
Ainda não está claro como isso se daria na prática: se os Estados Unidos teriam acesso exclusivo ou prioritário ao excedente de produção ou uma fatia fixa sobre todos os recursos extraídos. O fato é que o governo Trump quer vestir essa camisa de força no Brasil, usando-a como dress code da sua diplomacia da chantagem. Seria o preço a ser pago para os Estados Unidos reduzirem as draconianas tarifas impostas sobre os produtos brasileiros.
O governo Trump tem como estratégia expandir fortemente a produção de energia nuclear. Atualmente, há pouco mais de 50 usinas em operação e 94 reatores ativos no país, com uma capacidade instalada em torno de 100 GW, o equivalente a 20% de toda a eletricidade consumida pelos norte-americanos. A meta da gestão de Donald Trump é quadriplicar essa produção até 2050.
O governo trumpista já anunciou a construção de dez grandes reatores, com cerca de 10 GW cada um, que deverão ser entregues até 2030. Nesse contexto, debaixo do guarda-chuva das terras raras – e dentro de um papel de subserviência -, os Estados Unidos enxergam no Brasil um potencial garantidor da sua segurança nuclear. O subsolo brasileiro concentra a sétima maior reserva de urânio do mundo.
Mais do que isso: o país é dono do segundo maior depósito de tório do Planeta, concentrando aproximadamente 20% das reservas conhecidas, algo como 630 mil toneladas. Trata-se de um ativo absolutamente estratégico, que valeria todo o tarifaço do mundo dentro da tortuosa e supremacista lógica de Trump de colocar o bode na sala e depois cobrar um preço elevado para tirá-lo. O pano de fundo, praticamente o papel de parede deste tempo, é a disputa geopolítica e geoeconômica com a China.
O país asiático está derivando para o tório como principal fonte de produção de energia nuclear. Recentemente, os chineses anunciaram a descoberta de uma reserva do minério na Mongólia Interior capaz de abastecer sua demanda energética pelos próximos 60 mil anos! A tentativa de colonização do subsolo brasileiro, notadamente no que diz respeito ao tório, não é uma prerrogativa de Donald Trump e muito menos uma novidade do século XXI.
Desde meados do século passado, os norte-americanos exercem pressão para controlar as reservas mundiais do minério, assim como do urânio. Na ocasião, o Brasil exportava areia monazítica, rica em tório, para os Estados Unidos. Esse comércio foi organizado a partir de dois acordos, um firmado em 1945 e outro em 1952.
No entanto, a exportação não gerava qualquer compensação específica para o Brasil. Em 1946, o Conselho de Segurança Nacional solicitou que o primeiro acordo fosse denunciado. Ainda assim, as exportações prosseguiram, para não falar do contrabando. Entrou em cena o vice-almirante da Marinha e cientista Alvaro Alberto da Mota e Silva, que dá nome ao submarino nuclear em construção pela Força Naval Brasileira.
Tido como grande idealizador do programa nuclear no país, o vice-almirante lançou uma campanha de nacionalização do tório e do urânio. Mais do que isso: foi o artífice do Princípio das Compensações Específicas, pelo qual nenhuma transação de minerais estratégicos deveria se realizar mediante pagamento em dinheiro, mas, sim, atrelada à troca de tecnologia. Tão ou mais importante do que a conclusão do submarino nuclear que batizará, talvez o maior tributo que o governo poderia fazer ao vice-almirante Alvaro Alberto é colocar à mesa das “negociações” com os Estados Unidos o Princípio das Compensações Específicas.
Destaque
Tarifaço de Trump aumenta o protagonismo do Brasil na COP 30
23/07/2025A COP 30 tem tudo para ser a mais fervilhante edição da Conferência dos últimos anos. O motivo é o furacão tarifário imposto por Donald Trump. A Conferência ganha uma nova relevância e um maior peso diante da ofensiva do presidente norte-americano contra a ordem multilateral. A agenda e os interesses em jogo se multiplicaram.
No entendimento do próprio Palácio do Planalto, por uma conjunção de fatores de caráter geoeconômico e geopolítico, a COP 30 vai transcender a questão climática e transbordar para temas que se tornaram ainda mais prementes, do comércio internacional à própria soberania das nações. O próprio Brasil passará a ter uma centralidade que não estava no script, na esteira da chantagem explícita de Trump ao usar de barreiras alfandegárias como um instrumento de protecionismo a um réu da Justiça brasileira, no caso Jair Bolsonaro.
A expectativa é que a Conferência reúna não apenas chefes de Estado e especialistas do clima, mas também figuras influentes da sociedade global, empreendedores, ativistas e intelectuais com forte presença na mídia. Ou seja: o evento será uma vitrine para o Brasil e uma plataforma de soft power.
Em tempo: em meio a toda a efervescência criada a partir do furor tarifário de Donald Trump, há especulações no governo sobre a eventual presença de Elon Musk na COP 30. Seria uma cartada de alto impacto. De um lado, o ex-aliado que virou adversário ferrenho de Trump; do outro, o empresário envolvido com tecnologias de mitigação climática como carros elétricos e energia solar.
O que precisa ser dito
Os subterrâneos do tarifaço
22/07/2025Em toda a imprensa, são frequentes as queixas de que o governo brasileiro tem alguma responsabilidade pela ameaça de imposição por Donald Trump do tarifaço por não contar com uma diplomacia econômica eficaz. Na realidade, embora não se conheçam os detalhes das tratativas ocorridas, é sabido que Geraldo Alckmin conversou com o Secretário de Comércio norte-americano, Howard Lutnick, e o Representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, tendo havido também encontros de trabalho de seus assistentes. Como a tudo isso se seguiu uma carta-proposta do governo brasileiro em maio que nunca foi respondida, cumpre questionar a interpretação simplista de que tudo se deve a nosso desinteresse em encontrar soluções no campo comercial.
Porque, então, de surpresa, veio o tarifaço de 50% sobre o Brasil bem típico da diplomacia da chantagem executada há meses por Trump, mas certamente agora acionada por pressão das big techs (controle de postagens antidemocráticas etc.) e do sistema financeiro (PIX, etc.), numa decisão estimulada pela reunião de cúpula do BRICS+ no Rio de Janeiro e usando Bolsonaro como pretexto. Dessa forma, o que era uma negociação tarifária se transformou, num passe de mágica, no gravíssimo problema político-ideológico que estamos vivendo ao implicar inaceitáveis atentados à soberania nacional.
No entanto, numa análise fria do imbróglio é impossível escapar à conclusão de que se trata essencialmente de uma questão geopolítica em que as políticas “esquerdistas” do governo de Lula, tal como vistas pela direita norte-americana, constituem um risco a ser varrido daquilo que Trump e seus áulicos declaram ser o quintal dos Estados Unidos.
E o cerne deste movimento tem como foco o BRICS+, embora na realidade, devido à extraordinária diversidade de seus membros, ele não seja hoje e nunca será uma aliança política, e, sim, um agrupamento de cunho econômico e comercial. Todavia, é evidente que o BRICS+ refletirá o poder da China, a superpotência que se afirmou de forma quase milagrosa no curto período de três décadas e que já se ombreia com os Estados Unidos diante de uma Europa decadente e de uma América Latina e uma África quase irrelevantes em termos de influência internacional.
O fundamental é entender que as duas grandes potências JÁ ESTÃO ENGAJADAS NA SEGUNDA GRANDE GUERRA FRIA e que, por isso, todas as tensões internacionais estão se agravando (Ucrânia, Oriente Médio etc.) e tenderão a se tornar mais agudas no futuro. E o atual conflito entre o Brasil e os Estados Unidos de Trump, por iniciativa de Washington, é parte desse tsunami. Ladies and gentlemen, fasten your seat belts…
Por Jorio Dauster, colaborador especial.
Política externa
Trump e a I Guerra Comercial Planetária
16/07/2025
Destaque
Tarcísio quer ser diferente, mas não passa de farinha do mesmo saco de Trump e Bolsonaro
16/07/2025Por via oblíqua, o presidente Donald Trump acabou dando uma rasteira também no governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, virtual candidato ao mandarinato do Brasil, caso Jair Bolsonaro se torne realmente inelegível. Primeiro, porque por um desígnio do destino vestiu a carapuça do boné com os dizeres “Make America Great Again” (MAGA), praticamente às vésperas do incidente diplomático. Segundo, porque as sobretaxas trumpianas atingem 60% dos industriais no estado que governa. Ou seja, seu público-alvo com maior poder de fogo. E mais: terá que combater o grande aliado, Donald Trump, já que está no corner junto a sua base empresarial de apoio. Leia-se quase todo o setor industrial do país.
A delicadeza do assunto é enorme. Tarcísio é um dos mais agudos vocalizadores de que Bolsonaro foi injustiçado, o que é uma espécie de eufemismo do “caça às bruxas” trombeteado por Trump. Terá que se equilibrar na corda bamba entre criticar as sobretaxas sem sequer mencionar os desaforos do presidente dos EUA ao governo brasileiro e, especialmente, ao STF. Terá que pular um preâmbulo de cinco parágrafos contra a soberania do Brasil, coisa para um Houdini dos trópicos.
A estratégia de Tarcísio para fazer a mágica já começou: vai criar um gabinete paralelo ao do Governo Federal para discutir com empresários quais ações podem mitigar o desaforo de Trump. É bom reparar quais empresários vestirão um chapéu de dois bicos, ou seja, pedindo a benção a Tarcísio e também ao Vice-Presidente Geraldo Alckmin, que criou um foro idêntico. Fica o desconto para o pragmatismo que caracteriza a burguesia. Freitas certamente vai conduzir sua indignação para a ensandecida restrição tarifária, alegando que os dizeres e forma de expressão de Trump não são as suas, mas do presidente norte-americano. Ele continua apoiando Bolsonaro e não acredita que ele tenha participado de nenhum ato desabonador da sua conduta. O que seriam palavras diferentes para dizer a mesma coisa. No mais, vai falar o mínimo possível sobre a atitude do presidente dos EUA em intervir nas decisões do governo brasileiro. Qualquer escorregão, sua potencial candidatura à presidência do Brasil ou mesmo a reeleição para o governo de São Paulo vão virar farinha. Aliás, farinha do mesmo saco que contém Jair, Eduardo, Flávio e, em um patamar muito superior na hierarquia da extrema-direita, ele, ele mesmo, o presidente Donald Trump.
O que precisa ser dito
Os mais graves atentados de Trump?
14/07/2025Por fim, a bem conhecida “diplomacia da chantagem” de Trump chegou às terras brasileiras com um vil e inaceitável atentado contra nossa soberania, nossa dignidade como nação independente.
Mas, ao mesmo tempo, o megalomaníaco presidente dos Estados Unidos atentou também contra três sagradas instituições norte-americanas, o que pode lhe custar um notável surto de impopularidade se e quando seus efeitos chegarem às gôndolas dos supermercados e às lanchonetes.
A primeira instituição atingida é o café, com que os cidadãos e cidadãs daquele país abrem o dia ligando a máquina na cozinha muitas vezes antes mesmo de escovar os dentes. Mas não ficam por aí. Segundo as estatísticas disponíveis na internet, cada americano bebe em média três xícaras de café por dia, o que significa um consumo total de 400 milhões de xícaras diárias ou 146 bilhões de xícaras por ano! Mas acontece que os Estados Unidos importam por ano 27 milhões de sacas de café de 60 quilos e UM TERÇO DESSE TOTAL É FORNECIDO PELO BRASIL sem que haja fontes de suprimento no mundo capazes de substituir nossos grãos.
A segunda instituição afetada é o suco de laranja, essencial no breakfast americano. Embora não haja estatísticas precisas sobre o número de pessoas que tomam suco de laranja diariamente, o consumo anual per capita é superior a 10 litros e o setor movimenta cerca de 20 bilhões de dólares por ano. Mas acontece que O SUCO DE LARANJA IMPORTADO DO BRASIL REPRESENTA CERCA DE METADE DE TODO O CONSUMO DO PAÍS E MAIS DE 60% DAS IMPORTAÇÕES sem que haja fontes de suprimento no mundo capazes de substituir nosso produto.
A terceira instituição impactada é o hambúrguer, um ícone cultural americano que se espalhou pelo planeta. Segundo o Departamento de Agricultura, os americanos consomem em média 2,4 hambúrgueres por dia, o que significa 50 milhões por ano! Numa época em que os rebanhos de gado do país estão severamente reduzidos, os Estados Unidos são os segundos maiores importadores de carne brasileira, correspondendo atualmente a 21% do total. Mas acontece que A CARNE FORNECIDA PELO BRASIL É TODA OU EM GRANDE PARTE UTILIZADA NA PRODUÇÃO DE HAMBÚRGUERES sem que haja fontes de suprimento no mundo capazes de substituir nosso produto a preços competitivos.
Será que os americanos vão passar a tomar chá, beber água aromatizada no desjejum e comer misto-quente? Por favor, mande suas cartinhas para: Donald J. Trump, White House, Washington, DC.
O que precisa ser dito
As cadeiras de Trump e de Putin
11/06/2025Do genial Luís Fernando Veríssimo: “velhice é quando você consegue se levantar da cadeira na terceira tentativa, e aí não lembra porque se levantou”. A cadeira de Donald Trump é a mais alta do mundo. Por isso, ele se levanta facilmente, mas, uma vez de pé, não lembra que iria acabar com a guerra na Ucrânia em menos de 24 horas. Vladimir Putin, que fez a vida nas cadeiras da KGB, agora apanha da “KGB da Ucrânia”, em que ele mesmo se sentou. E deve estar se perguntando por que cadeiras de casas em cima de caminhões voam e ainda explodem sobre seus melhores aviões, a quatro mil quilômetros de suas fronteiras. Um professor de Clínica Médica me disse, certa vez, que “a única maneira de viver bastante é ficar velho”. Eu acrescentaria que depende das cadeiras…
Alceni Guerra é colaborador especial do Relatório Reservado
O que precisa ser dito
Cada um tem o Doge que merece
12/05/2025Quando Donald Trump anunciou que Elon Musk presidiria um novo órgão chamado DOGE (Department of Government Efficiency), me perguntei se alguém naquela Casa Branca sabia que a palavra tinha origem nobre, derivando do latim dux e designando por mais de mil anos o governante máximo da República de Veneza. Mas havia uma diferença capital: enquanto o magistrado veneziano era eleito, o americano era um rei ungido por outro rei, não tendo sido submetido às normas de aprovação de altas autoridades governamentais que exigem o placet do Senado.
Nos primeiros dias da nova administração, o mundo ficou pasmo ao ver, circulando à vontade no solene Salão Oval, um cidadão usando roupas esportivas e boné, por vezes na companhia do filho de quatro anos, X Æ A-Xii (que sensatamente mandou Trump se calar). Mas, já em sua primeira aparição naquele augusto recinto, o bilionário fez declarações estapafúrdias acerca da corrupção nas agências governamentais, dizendo inclusive que US$ 50 milhões em recursos públicos tinham sido usados para enviar camisas de vênus para Gaza. Comprovando o amadorismo irresponsável da equipe que ele contratou para executar tarefas supostamente de grande envergadura, verificou-se depois que se tratava de uma província de Moçambique com nome idêntico ao da massacrada Faixa do Oriente Médio, bem como de um programa de combate à AIDS e à tuberculose que não teria envolvido o fornecimento de preservativos.
Como é de conhecimento geral, nas semanas seguintes Donald Trump e Musk divulgaram inúmeras informações falsas ou distorcidas sobre fraudes e gastos injustificáveis, mas o propósito básico das intervenções de Musk consistia em reduzir o déficit orçamentário e, com isso, contribuir para sustar o crescimento aparentemente incontrolável da dívida pública americana. Como tive a oportunidade de expor em artigo publicado recentemente no Relatório Reservado sob o título de “Quo vadis, Donaldus? II” (https://relatorioreservado.com.br/noticias/quo-vadis-donaldus-ii/), esse é o maior risco para a economia do país, pois no corrente ano se estima que a dívida ultrapasse US$ 35 trilhões, o equivalente a mais de 120% do PIB norte-americano.
Usando uma motosserra idêntica à que Javier Milei lhe deu mais tarde, Musk encerrou contratos relativos a pesquisas científicas e iniciativas de mudança climática, além de programas voltados à diversidade, equidade e inclusão. Ademais, provocou a dispensa de dezenas de milhares de funcionários e desmantelou numerosas organizações, auxiliando também as incursões contra imigrantes. Em outra delicada vertente de ação, ganhou acesso a informações governamentais antes sigilosas, incluindo matérias de segurança nacional. Nessa área, o Pentágono se preparava para expor a Musk os planos secretos de uma eventual guerra contra a China quando, diante da gritaria geral, essa absurda revelação teria sido sustada.
Em suma, o que se tem de concreto é que as medidas atrabiliárias do doge americano não se basearam em análises técnicas segundo critérios de eficiência sugeridos pelo nome do novo “departamento”, e sim por princípios ideológicos caros à direita, sobretudo no tocante a raça, sexo e religião.
Embora tais medidas continuem a contar com amplo suporte dos eleitores republicanos, são cada vez mais intensas as críticas de outros setores no tocante à falta de transparência do órgão criado por um ato presidencial e não pelo Congresso, assim como ao fato de que Musk assumiu poderes totalmente incompatíveis com sua designação por 130 dias como “empregado especial do governo”. Causa também grande preocupação o potencial de conflitos de interesse, uma vez que os negócios controlados por Musk mantêm contratos de bilhões de dólares como governo e grande número das agências afetadas efetivamente lidam com questões relacionadas a seus interesses pessoais. No judiciário, cresce o número de ações movidas contra o órgão por grupos de cidadãos ou pelos procuradores-gerais de estados liderados por governadores do Partido Democrata. Em consequência, os tribunais já sustaram medidas que impunham cortes de custo ou permitiam acesso a informações pessoais mantidas nos registros do Departamento do Tesouro, gerando grave instabilidade institucional e jurídica.
O mais significativo, porém, é o fato de que, tendo Musk anunciado inicialmente que reduziria os gastos federais em US$ 2 trilhões, esse número caiu sem fanfarras para US$ 1 trilhão e, recentemente, para meros US$ 160 bilhões, dos quais apenas US$ 63 bilhões têm algum tipo de comprovação. Diante de resultados tão pífios, não surpreende que o bilionário, às voltas com mil problemas na Tesla, já viesse assumindo um perfil muitíssimo mais baixo aos olhos do público, em contraste com a impressão inicial de que se mudara para a Casa Branca e dividia o Salão Oval com Trump. Conquanto ambos ainda insistam em declarar que tiveram imenso sucesso, o doge americano diz agora que está pronto a dedicar apenas um ou dois dias por semana às duras tarefas governamentais.
Os líderes da Serenissima Repubblica di Venezia certamente conheciam as fábulas de Fedro e, por isso, saberiam que às vezes as montanhas só conseguem parirum rato. Alguns dos potentados contemporâneos fariam bem caso pudessem alcançar tal nível de sabedoria.
Jorio Dauster é colaborador especial no Relatório Reservado
O que precisa ser dito
A dissonância cognitiva de Donald Trump
16/04/2025Dissonância cognitiva é um fenômeno muito comum entre administradores que dependem de eleições e de aprovação popular. É um quadro mental em que convictas ideias pessoais têm de ser contrariadas por dúbias ações públicas, para não se perder o poder já conquistado. Em geral, leva a seguidas incoerências políticas, agravadas pelo stress do autoconhecimento, que destroem a imagem e o capital eleitoral construído durante anos de esforço pessoal.
Essas dissonâncias foram muito comuns em grandes pensadores de viés esquerdista, que eleitos, precisavam criar empregos com imediatas e constrangidas ações dentro do mercado capitalista. Agora, elas são substituídas por descontraídas e imediatas ações de viés populista, no maior de todos os mercados, os EUA.
As tarifas trumpianas começaram no Século XVIII, nos pobres EUA de então, para proteger sua insípida indústria da poderosa indústria inglesa, a mais competitiva do mundo. Em 2025, elas são dissonâncias cognitivas de um presidente recém-eleito, poderoso empresário que sempre gritou pelo livre mercado, no qual construiu um império econômico sem paralelo na história de políticos bem-sucedidos. Ele sabe que tarifas nacionais são para impedir um livre mercado internacional.
Dissonâncias cognitivas levam a incoerências, que assustam povos coerentes, levam a inesperadas perdas financeiras de aliados financiadores, a surdas brigas entre eles, à perda de confiança de aliados históricos em outras guerras históricas, à queda nas pesquisas internas de opinião, e depois… à perda de votos. E sempre à mais devastadora e unânime concordância, a da História.
Alceni Guerra é colaborador especial do Relatório Reservado
O que precisa ser dito
Quo vadis, Donaldus? I
14/04/2025A frase latina “Quo vadis?” significa “Para onde vais?” e consta de um antiquíssimo relato apócrifo segundo o qual, fugindo da perseguição promovida pelo Imperador Nero, São Paulo encontra Jesus ressuscitado e pergunta para onde ele vai, recebendo como resposta: “Vou a Roma para ser crucificado de novo”. No entanto, com o tempo, a carga religiosa da citação foi se esvaindo e a pergunta passou a ser dirigida a todos aqueles que parecem sem rumo – motivo pelo qual podemos empregá-la nos dias de hoje para indagar aonde quer chegar o imperador Donaldus, que, pelo jeito, mudou seu trono de Roma para Washington.
As dúvidas universais sobre os reais propósitos dessa personificação do presidente norte-americano se tornaram mais agudas em virtude da recente reviravolta ocorrida na questão do tarifaço. Segundo os áulicos de Donald Trump, tratou-se simplesmente de mais uma cartada do mestre, que já obtivera o resultado desejado ao trazer à mesa de negociação dezenas de “ass kissers” (tradução literal vedada para alminhas delicadas), com a óbvia exceção da atônita nação de camponeses que atende pelo nome de China. Mas somente um “imbecil” do porte do czar das tarifas, Pete Navarro, segundo a caracterização pública dele feita por Elon Musk, não veria que o presidente de fato “amarelou” diante dos trilhões de dólares que evaporaram no curso de poucos dias em todas as bolsas de valores do planeta.
E, sem dúvida, quando bilionários como Sam Altman e Musk, embora adversários declarados, vieram a público condenar a festa do Dia da Libertação, não restou alternativa a Trump senão proclamar como vitória uma pausa de 90 dias enquanto aplicava a todos os países uma taxa de 10% (exceção feita, cumpre repetir, do inimigo n° 1). Pior ainda, numa notinha lançada sem fanfarras, uma obscura repartição pública anunciou mais recentemente a eliminação de tarifas sobre celulares e dezenas de outros produtos eletrônicos, incluindo aqueles provenientes da China e com efeito retroativo. Xi Jinping e os tech-bilionários devem ter soltado gargalhadas de abalar os alicerces da Casa Branca!
Não surpreende que os mercados financeiros tenham recuperado ao menos parte do que haviam perdido na semana anterior ao que Tio Sam chama de flip-flop, mas o saldo final está longe de representar um alívio permanente. Em primeiro lugar, porque Trump perdeu definitivamente o que restava de confiança entre amigos e inimigos no mundo todo, mas também no seu próprio país, como já o demonstram as pesquisas de opinião pública. Em segundo lugar, e mais importante, porque a suspensão da aplicação dos tarifaços é, mais uma vez, temporária, permanecendo assim a ameaça mafiosa de que a loja ainda pode ser arrebentada com bastões de beisebol ou decepada a cabeça do cavalo de estimação. Em terceiro lugar, como consequência dos fatores já indicados, porque permanece ou mesmo se agrava o clima generalizado de incerteza que os empresários e financistas odeiam – e que tornam inviável qualquer investimento de peso em qualquer lugar.
Com isso, a reindustrialização dos Estados Unidos pretendida pelo presidente fica ainda mais distante, sendo substituída por ações como aquela tomada pela Apple ao encher enormes aviões de carga na Índia para importar 1,5 milhão de celulares antes da imposição das tarifas que incidiriam sobre aquele país. Imaginem, como é previsível, que outros setores que necessitam de importações maciças façam o mesmo para acumular estoques nesses 90 dias. Só a indústria de roupas importa quase US$ 100 bilhões anualmente de países como Bangladesh, Camboja, Índia, Indonésia e Paquistão, todos mortalmente atingidos pelo tarifaço.
Ora, é bem possível que nesses próximos três meses o valor das compras externas dos Estados Unidos registre um aumento excepcional, mas já podemos também prever qual será a narrativa falsa da Casa Branca: como tais compras terão de pagar o pedágio de 10%, Trump dirá que a receita derivada da aplicação das tarifas teve um crescimento formidável, demonstrando como era correta e brilhante sua estratégia! E não faltarão os aplausos dos vassalos desmiolados.
A chantagem tarifária perturba gravemente todas as cadeias de suprimento em nível global, mas terá impactos de curto prazo na economia real sobretudo dentro dos próprios Estados Unidos devido à suspensão de facto das importações provenientes da China (com as vergonhosas exceções que já surgiram). É óbvio ademais que as incertezas sobre o futuro aumentam a probabilidade de recessão e inflação também em escala planetária. Mas há riscos ainda maiores para os Estados Unidos de que trataremos em outro artigo.
Jorio Dauster é colaborador especial do Relatório Reservado
Destaque
Efeito Trump pode jogar a Usiminas nas mãos da ArcelorMittal
7/04/2025O tarifaço de Donald Trump sobre o aço importado pode ser o gatilho que faltava para um movimento de consolidação da indústria siderúrgica brasileira, já há algum tempo em processo de latência. A draconiana tributação imposta pelos Estados Unidos e seu impacto global despontam como um fator suficientemente potente para separar vencedores e perdedores no setor. Desde já, há dois fortes candidatos a protagonizar o redesenho da indústria do aço no país: ArcelorMittal e Usiminas/Ternium.
E nem é preciso dizer quem vestiria o figurino de vencedor e o de perdedor. O grupo pertencente ao empresário indiano Lakshmi Mittal é um dos gigantes da siderurgia mundial, tem massa crítica de sobra, dispõe de acesso a crédito em condições favoráveis e liderou alguns dos maiores investimentos do setor no Brasil ao longo dos últimos anos, como a compra, em 2022, da Companhia Siderúrgica do Pecém por US$ 2,2 bilhões.
Por sua vez, entre o quarteto que domina a produção de aço no país, ninguém está em uma posição tão vulnerável quanto a Usiminas, por suas notórias fragilidades financeiras, pelo seu desgaste institucional e pelos crescentes sinais de incompatibilidade entre a ítalo-argentina Ternium, seu acionista controlador, e o Brasil.
Há um terceiro personagem, não menos importante, que tangencia uma eventual incorporação da Usiminas pela ArcelorMittal: Benjamin Steinbruch. Qualquer discussão sobre o futuro da siderúrgica mineira passa hoje pela CSN, sua acionista minoritária.
Como se sabe existe um antigo contencioso entre a Ternium e a empresa de Steinbruch. Publicamente e em tom de ameaça os acionistas da siderúrgica anunciaram que o grupo pode repensar todos os seus investimentos no Brasil se a Justiça não reconsiderar uma recente decisão favorável à CSN. Nos bastidores, a empresa insinua até sair do país, fazendo algum write off dos R$ 25 bilhões de aportes já realizados e por realizar em Minas Gerais.
A Ternium não digeriu a derrota sofrida no STJ: no fim do ano passado, a Corte determinou o pagamento de uma indenização de R$ 3,1 bilhões à CSN pelo fato de o grupo não ter lançado uma oferta pública para a aquisição de ações da Usiminas ao comprar as participações da Votorantim e da Camargo Corrêa na empresa, em 2012. No entendimento do STJ, a operação configurou mudança de controle, o que tornou obrigatória a realização da OPA.
No fim do ano passado, inclusive, surgiu não se sabe muito bem de onde – ou talvez até se saiba – um suposto manifesto contra o STJ e consequentemente a favor da Ternium, prontamente desmentido por alguns dos “signatários”, conforme noticiou o RR. O RR enviou uma série de perguntas à Usiminas/Ternium, mas a empresa não se pronunciou. Também consultada, a CSN afirma que “a solução para a crise enfrentada pela indústria do aço, reflexo do cenário internacional, exige estabilidade nos negócios no Brasil e, sobretudo, segurança jurídica.
Nesse contexto, as investidas da Ternium/Techint para subverter a decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) são inaceitáveis. O tribunal já confirmou, em mais de uma ocasião, que o grupo ítalo-argentino assumiu o controle da Usiminas de forma fraudulenta, sem realizar a devida Oferta Pública de Aquisição (OPA) aos acionistas minoritários detentores de ações ordinárias. Essa conduta afronta a Lei das Sociedades Anônimas (SAs) e a jurisprudência da Comissão de Valores Mobiliários (CVM)”.
Na paralela há ainda outra questão a ser resolvida.
Em 2014, o Cade determinou que a CSN deveria reduzir sua participação no capital da Usiminas, hoje de 12,9%, para menos de 5% em cinco anos. Após um longo impasse, em 2022 o próprio órgão antitruste reconsiderou parte da decisão, deixando de estabelecer um prazo para que a CSN diminua sua posição na empresa mineira. Uma eventual oferta da ArcelorMittal pelo controle da Usiminas, com a consequente saída de cena da Ternium, teria o condão de distensionar o ambiente corporativo e desatar um nó societário que hoje amarra a própria companhia.
A aquisição da siderúrgica mineira pelo grupo de Lakshmi Mittal poderia também abrir caminho para a saída da CSN do capital. Ou não. Em outros termos de relacionamento, talvez fosse a senha para Steinbruch manter uma participação na Usiminas. E ainda que venha a deixar o capital da companhia, cabe ressaltar que a CSN tem uma posição estratégica no tabuleiro da cadeia do aço, graças a sua operação integrada, leia-se o tripé mineração, logística e siderurgia.
A CSN Mineração soma mais de dois bilhões de toneladas de minério de ferro em reservas estimadas. Tem ainda como sócio minoritário um consórcio de importantes players asiáticos, como Itochu Corporation e Posco. E reúne plenas condições de tonificar essa operação com a compra de mineradoras de menor porte. Some-se a isso o terminal de granéis sólidos (Tecar) de Itaguaí.
Este poder de fogo na mineração funciona como um hedge para a CSN, sobretudo neste momento de pressão tarifária dos Estados Unidos sobre o aço. A empresa poderia se tornar uma “Valezinha”, capaz de incomodar em alguma instância a “Valezona”.
Voltando à ArcelorMittal, a Usiminas é um ativo barato para o conglomerado de Lakshmi Mittal.
Apenas como referência, o atual valor de mercado da empresa mineira gira em torno de R$ 6,7 bilhões, o pior patamar desde maio de 2020. Somente nos últimos 12 meses, a ação da companhia acumula uma queda de quase 50%. Não chega a surpreender.
Entre as quatro grandes siderúrgicas do Brasil, a Usiminas é, disparadamente, a que apresenta os piores resultados. E não é de hoje. Em um recorte entre 2013 e 2024, a empresa perde para seus concorrentes em todos os principais indicadores de performance. No caso da ArcelorMittal Brasil, ressalte-se, os números vão até 2023, uma vez que a empresa ainda não divulgou as demonstrações financeiras do ano passado.
Na receita líquida acumulada (R$ 207 bilhões), a Usiminas fica atrás de Gerdau (R$ 625 bilhões), Arcelor (R$ 401 bilhões) e CSN (R$ 343 bilhões). No lucro líquido somado (R$ 12,7 bilhões), é mais uma vez superada, pela ordem, por Gerdau (R$ 49,1 bilhões), Arcelor (R$ 35 bilhões) e CSN (R$ 28,4 bilhões).
Em termos de geração de caixa, só para não variar, a Usiminas também vai lá para o fim da fila. No período de 2013 a 2024 (exceção feita à Arcelor, conforme já explicado), registrou um Ebitda acumulado de R$ 32 bilhões, contra R$ 110,7 bilhões da Gerdau, R$ 104 bilhões da CSN e R$ 73,2 bilhões da Arcelor. Os números mostram a tibieza da Usiminas vis-à-vis suas maiores competidoras.
Nada que não pudesse ser gradativamente revertido nas mãos de um gigante global. Juntas, Arcelor e Usiminas teriam uma capacidade de produção superior a 24 milhões de toneladas de aço por ano, quase a metade de toda a indústria siderúrgica brasileira (aproximadamente 51 milhões de toneladas). Com o furacão Trump varrendo o setor, talvez a Usiminas não tenha mesmo para onde correr.
Destaque
Governadores do Nordeste cobram de Lula proteção para a indústria sucroalcooleira local
1/04/2025A negociação com o governo Trump em torno das tarifas cruzadas do etanol e do açúcar é um nó com várias amarras, não apenas no âmbito da política externa, mas também interna. Governadores do Nordeste – à frente Raquel Lyra (PSD), de Pernambuco, e Paulo Dantas (MDB), de Alagoas – têm procurado o Palácio do Planalto com o objetivo de garantir medidas protetivas para a indústria sucroalcooleira local. Os chefes do executivo estadual pintam um cenário sombrio.
Por um efeito dominó, as usinas da região têm tudo para ser as mais prejudicadas no caso de um eventual acordo entre os dois países, com o risco de suspensão de investimentos, fechamento de plantas e demissões. Vamos por partes. O governo Lula cogita reduzir a alíquota para a importação de etanol, hoje de 18%.
Será um dos principais assuntos na agenda da comitiva liderada pelo embaixador Maurício Lyrio e enviada pelo Itamaraty a Washington para discutir possíveis tratados no comércio bilateral. O governo Trump tem feito forte pressão sobre a gestão Lula para a redução das tarifas que incidem sobre o álcool norte-americano, com reiteradas ameaças de elevar as barreiras para a entrada do combustível brasileiro no país – atualmente, o imposto de importação nos Estados Unidos é de 2,5%.
Hoje, a balança pesa a favor do Brasil, que exportou mais de US$ 200 milhões em álcool para o mercado norte-americano em 2024, ao passo que as importações não passaram de US$ 50 milhões. Mas tudo pode mudar a partir do “tarifaço” que deverá ser anunciado pelo presidente dos Estados Unidos amanhã.
Nesse contexto, além da difícil tarefa de evitar represálias do retaliador Donald Trump e, com isso, uma brusca queda dos embarques de etanol para os Estados Unidos, o corte das alíquotas teria um segundo objetivo: seria uma tentativa do governo Lula de negociar com os norte-americano o aumento da cota para a importação de açúcar brasileiro. Hoje, o país pode exportar para os Estados Unidos apenas 147 mil toneladas por ano com isenção tributária.
Qualquer grânulo de açúcar acima desse teto paga uma taxa de 80%. No ano passado, o Brasil vendeu aos EUA quase 1,2 milhão de toneladas.
E onde o Nordeste entra nesse enredo? O que está em pauta é um jogo de engrenagens muito sensíveis. Ao ajustar uma porca, corre-se o risco de descarrilar toda uma roldana. Se, por um lado, uma eventual redução das alíquotas de importação de etanol pode beneficiar as vendas de álcool e açúcar brasileiros para os Estados Unidos, por outro provocaria uma espécie de apartheid dentro da própria indústria sucroalcooleira nacional.
Seria quase que uma redistribuição de renda dentro do setor, só que em prol dos que já tem mais, leia-se os grandes produtores de açúcar e álcool do Sudeste e do Centro-Oeste. Esse é o ponto que tem levado governadores do Nordeste, maior base eleitoral de Lula, ao Palácio do Planalto. As conversas se intensificaram ao longo do dia de ontem, com o envio da comitiva diplomática a Washington.
Os governadores carregam consigo alguns pleitos, como a concessão de subsídios públicos e o aumento da cota das usinas nordestinas nas exportações de álcool e açúcar. O argumento é que o eventual corte das alíquotas de importação do etanol e o consequente aumento da entrada do produto norte-americano, notadamente de milho, no Brasil, terá impacto negativo notadamente sobre a indústria sucroalcooleira do Nordeste.
Não são poucos os fatores que apontam nessa direção.
Para começar, as usinas locais têm uma estrutura de custos superior e níveis de produtividade inferiores em comparação com empresas de outras regiões. Em São Paulo e no Centro-Oeste, a média é de 99 toneladas de cana por hectare (tc/ha). No Nordeste, esse é índice é de 88 tc/ha, mas em algumas regiões não passa de 72 tc/ha.
Além disso, por questões logísticas, a maior parte do etanol comprado dos Estados Unidos entra no Brasil exatamente pelo Nordeste, mais especificamente pelos portos de Suape (PE) e de Itaqui (MA). De cara, o produto importado já chega nessa região a preços mais competitivos, deslocando mercado dos produtores locais.
Na equipe do ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, há quem pondere que o Nordeste não precisa de tratamento diferenciado em caso de redução da alíquota para a importação de álcool combustível.
A alegação é que existem hoje projetos importantes e competitivos na região para a produção de etanol à base de milho. Não deixa de ser verdade. O Grupo Progresso, do empresário Cornélio Sanders, iniciou a construção de uma usina em Uruçuí (PI), um empreendimento de R$ 1,1 bilhão.
A Inpasa está prestes a dar a partida em sua usina de etanol de milho em Balsas (MA), na qual investiu R$ 1,2 bilhão. E promete outro projeto da mesma dimensão para a Bahia. Ocorre que, para cada um desses empreendimentos, há um punhado de usinas de álcool mais antigas, com tecnologia defasada, custos de produção elevado e notórias dificuldades logísticas para colocar seu produto nos principais mercados do país, como o Sudeste.
O que precisa ser dito
A loucura de Trump: uma falácia bem exitosa
11/03/2025Jorio Dauster, colaborador especial
A enxurrada de declarações estapafúrdias e fantasiosas que flui diariamente da Casa Branca, bem como as reviravoltas frequentes nas questões tarifárias, têm levado muitas pessoas a dizer, perplexas: “Esse Trump é doido de pedra!” Doce e ledo engano, estão sendo induzidas a confundir astúcia com demência.
Não há dúvida de que o presidente dos Estados Unidos revela traços de personalidade perturbadores que são objeto de especulação por psiquiatras de todo o mundo. A opinião geral dos especialistas é de que ele apresenta diversos sintomas do transtorno de personalidade narcisista, uma conhecida condição psiquiátrica que se caracteriza pela arrogância, falta de empatia e necessidade de admiração, combinada em seu caso com um espírito vingativo dirigido a todos que supostamente o perseguem. Mas daí à loucura existe uma larga faixa em que Trump vem operando com sucesso há décadas.
Vejamos de início a questão dos pronunciamentos sensacionalistas e carregados de fake news. Com sua experiência de showman na televisão, Trump passou a utilizar as redes sociais em 2009, tendo tuitado cerca de 57 mil vezes nos doze anos seguintes! Desse total assombroso de mensagens, muitas delas de caráter racista e homofóbico ou propagando teorias conspiratórias, aproximadamente oito mil foram postadas durante sua campanha para a presidência nas eleições de 2016 e mais de 25 mil durante os quatro anos de seu primeiro mandato, quando foram suspensas as entrevistas diárias da porta-voz de imprensa da Casa Branca e os tuítes passaram a ser declarados como manifestações oficiais. Não é de admirar que, no momento em que o Twitter (pré-Musk) suspendeu Trump da plataforma em 8 de janeiro de 2021 na esteira do ataque ao Capitólio, ele tinha aproximadamente 90 milhões de seguidores.
A maestria de Trump na manipulação das redes sociais voltou a ficar evidente na campanha em que derrotou uma adversária mais chegada às formas tradicionais de fazer política, sobretudo mediante o uso da televisão. Para dar apenas um exemplo, a narrativa fictícia de que imigrantes haitianos comiam os cachorros e gatos de estimação na cidade de Springfield, Ohio, embora desmentida de forma cabal e reiterada, se transformou numa das principais bandeiras trumpianas na cruzada para deportar os “malignos invasores” do país. Não surpreende, pois, que ele continue a se valer de um recurso valiosíssimo desde que voltou ao poder ao declarar recentemente, por exemplo, que Musk havia descoberto haver “milhões e milhões de pessoas com mais de 100 anos recebendo benefícios previdenciários”.
Mas, para nós brasileiros, o mais interessante, por assim dizer, é que seus métodos foram obedientemente copiados aqui por Jair Bolsonaro e seu gabinete do ódio. conquistando um domínio valiosíssimo das redes sociais. Como toque pessoal, Bolsonaro substituiu as conferências de imprensa pelas comunicações diretas com seus eleitores no famoso “cercadinho” situado em frente ao Palácio da Alvorada. Além das extravagâncias e invencionices proclamadas a cada manhã, o ex-presidente também aproveitava aquelas ocasiões para hostilizar os representantes da imprensa escrita, falada e televisiva que eram contrários a seu governo, tornando o local perigoso para os profissionais que precisavam se misturar aos apoiadores inflamados que compareciam para festejar um mito.
Donald Trump deverá continuar a utilizar uma ferramenta que pode fazê-lo parecer louco, mas que serve de fato a propósitos políticos friamente ponderados e testados ao longo do tempo. O objetivo consiste em criar uma cortina de fumaça, sustentada paradoxalmente pela própria mídia que se vê obrigada a comentar o conceito estrambótico do dia e verificar sua autenticidade, deixando assim de analisar com a devida profundidade as ações e omissões efetivas do governo. E a patuleia que o idolatra acreditará em suas palavras como se tivessem origem divina sem conhecer os questionamentos e desmentidos posteriores.
Já as cambalhotas na área do comércio internacional, parte integral do que chamo de diplomacia da chantagem, são mais fáceis de entender embora também possam parecer tresloucadas à primeira vista. Seu propósito é desequilibrar o “inimigo”, colocando-o numa situação de total incerteza porque se mantém erguida sobre sua cabeça a espada de Dâmocles da aplicação efetiva das tarifas punitivas. Assim, Trump espera obter concessões adicionais ao se aproximar cada data fatal, buscando humilhar os líderes com os quais se defronta quando eles demonstram publicamente o desejo de buscar soluções amigáveis. Esses gestos de “rendição”, por sua vez, minariam o apoio interno de que os chefes de Estado visados necessitam para reagir à altura com medidas retaliatórias.
Há, portanto, uma lógica perversa e poderosa na aparente loucura, mas às vezes o feitiço vira contra o feiticeiro: Pierre Trudeau (que estava nas cordas) e Claudia Sheinbaum, com suas firmes respostas às ameaças de Trump, foram capazes de mostrar que estão prontos a atender a certas exigências do parceiro agressivo sem, contudo, comprometer a soberania de suas nações e sem abandonar a possibilidade de aplicar tarifas retaliatórias. E nunca alcançaram níveis tão altos de popularidade.
O que precisa ser dito
Talvez Donald Trump tenha de parar o carro para trocar os pneus
7/03/2025Alceni Guerra, colaborador especial
Éramos apenas 12 ministros de Estado em 1990, no começo do governo Collor. No segundo dia de governo, um deles falou que estávamos trocando pneu com o carro andando, referindo-se às abruptas medidas de mudanças na economia – e foi assim que a imprensa se referiu a elas.
A inflação era de 84% ao mês, e o pacote econômico incluiu a troca da moeda (de cruzado novo para cruzeiro), a criação de um imposto sobre operações financeiras, o congelamento de preços e salários por 45 dias, o aumento das tarifas de serviços públicos, a extinção de 24 empresas estatais e a demissão de 81 mil funcionários públicos. E principalmente, o inesquecível bloqueio das cadernetas de poupança e das aplicações financeiras, que ficaram retidas no Banco Central por 18 meses. O governo confiscou o equivalente a US$ 100 bilhões, igual a 30% do Produto Interno Bruto, para diminuir o ativo circulante, e zerar a inflação.
Até hoje o ex-presidente Collor se recrimina de algumas medidas, principalmente do bloqueio das aplicações financeiras, que produziu um trauma político jamais recuperado. E a inflação continuou muito alta. Fazíamos concorrências públicas com ela beirando os 50% ao mês, o que tornava cada licitação um mar imaginário de superfaturamentos. Durou até o Plano Real, que foi a volta do macaco para trocar pneus.
Agora, Donald Trump também trocou pneus com carro andando nos seus primeiros dias de governo, e teve de voltar a usar macaco imediatamente, com a suspensão de várias medidas econômicas. Ou, para piorar a expressão, teve de dar a mão à palmatória do México e do Canadá.
Medidas controversas no começo de um governo tornam eufóricos seus eleitores e paralisam sua oposição. Não foi o caso agora dos EUA. Só a oposição interna paralisou. Europa, China, Canadá e México estão a mostrar que um pneu sempre deve ser trocado com… prudência…
O que precisa ser dito
Estados Unidos ou Lojas Americanas?
6/03/2025Jorio Dauster, colaborador especial
Muitos acadêmicos e comentaristas buscam encontrar paralelos históricos ou enquadramentos doutrinários a fim de explicar as ações de Donald Trump no seu primeiro mês e meio na Casa Branca. Mas um bom número deles já entendeu que a explicação básica é surpreendentemente comezinha: Mr. Donald age como o gerente de uma cadeia de lojas que, a seu ver, encontrou o negócio em situação pré-falimentar devido aos erros do antecessor e deve, por isso, executar as medidas de recuperação que se encontram em qualquer manual para empresários encrencados: cortar gastos fechando lojas menos eficientes e/ou despedindo parte significativa da força de trabalho; renegociar aluguéis e o custo dos serviços; obrigar os grandes fornecedores a baixar o preço de seus produtos ou oferecer maiores prazos de pagamento – e por aí vai.
E ele entende bem disso. Embora nunca tenha pedido falência pessoal, Trump recorreu à recuperação judicial (o chamado Chapter 11 nos Estados Unidos) para quatro de seus negócios: Taj Mahal, em 1991; Trump Plaza Hotel, em 1992; Trump Hotels and Casinos Resorts, em 2004; e Trump Entertainment Resorts, em 2009 – sem dúvida, deixando uma legião de credores e investidores bem infelizes. Nesses casos, as empresas – essencialmente cassinos em Atlantic City – se mantêm vivas, mas a participação de Trump passou a ser irrelevante.
No entanto, uma tentativa fracassada de recuperação judicial leva a empresa à falência por várias razões: falta de planejamento competente para lidar com a crise, dispensa de funcionários estratégicos, reação dos supridores às exigências agressivas em matéria de preços, escolha errada das lojas a permanecerem abertas etc. – fatores que, na ponta, se refletem na deterioração da qualidade do serviço oferecido aos fregueses.
Acontece que um país – sobretudo a maior potência mundial nos últimos cem anos – não pode ser administrado como um simples negócio. Ao longo dos últimos séculos foi sendo construída a chamada “ordem internacional”, um complexo conjunto de regras, instituições e acordos capazes de disciplinar as interações entre nações soberanas cujo objetivo final consiste em evitar conflitos e proteger os direitos humanos. Significativamente, parte importante dessa estrutura foi criada desde a Segunda Grande Guerra por inspiração dos Estados Unidos para garantir sua posição hegemônica no mundo. E essas conquistas da humanidade, que ultrapassam de muito o horizonte de um gerente de lojas, estão sendo hoje desprezadas por Trump, como demonstrado pela retirada do país da OMS e do Acordo de Paris.
Na área do comércio internacional, relevante elemento da ordem global, a diplomacia da chantagem instituída por Trump escolheu como arma predileta a imposição de tarifas. Ignora, assim, que dois séculos e meio atrás o próprio Adam Smith já caracterizava essas tentativas de substituir a demanda de importações pelo aumento da produção interna como uma forma de “beggar thy neighbor” (ou, em tradução vulgar, “que se dane meu vizinho”). Como esses vizinhos não estão dispostos a serem empobrecidos em favor do parceiro agressivo, a tendência é que se trave uma guerra tarifária como aquela vista com trágicos resultados durante a Grande Depressão da década de 1930. E, em última instância, semelhantemente ao que acontece com os fregueses numa cadeia de lojas mal administrada, são os cidadãos do país que terminarão pagando mais caro por produtos essenciais de consumo.
Como já vimos que reina o caos na mente e na administração de Trump, com mudanças de postura a cada 24 horas, devemos aguardar para ver o que, de toda a algaravia produzida na Casa Branca, é mera bazófia ou se reflete em medidas concretas. Até lá, a única certeza é que nos meios políticos e econômicos mundiais já se instalou um clima de grande incerteza, senão de pânico, que afeta negativamente todas as decisões públicas e privadas. Para os amantes da distopia, é recomendável a leitura (ou releitura) de “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley, “1984”, de George Orwell, e “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury.
O que precisa ser dito
Gold Card: uma oportunidade de ouro para a bandidagem internacional
27/02/2025Jorio Dauster, colaborador especial
Seria ridículo se não fosse um risco imenso para os Estados Unidos e para o resto do mundo: enquanto expulsa do seu território os “soldados” dos cartéis, gangues de assaltantes e organizações terroristas, Donald Trump anuncia que concederá a cidadania norte-americana a seus chefes em todo o planeta pela irrisória quantia de US$ 5 milhões, quando esses senhores do crime comandam atividades variadas que rendem anualmente bilhões e bilhões de dólares.
Evidente que será implementado algum sistema de triagem para as centenas de milhares de candidatos a esse precioso cartão, mas as incursões da dupla Trump-Musk contra o FBI, a CIA e outras agências de inteligência já prejudicarão esse esforço. Além das fraudes facilitadas pela IA, sem dúvida há milhões de bandidos nos quatro continentes não fichados que buscarão para sempre a proteção da cidadania norte-americana.
Assim, não se surpreendam até mesmo se, em breve, a polícia do Rio de Janeiro tiver de enfrentar “americanos” nas vielas das comunidades que margeiam a Avenida Brasil e a Linha Amarela.
Destaque
Trump usa aparelho de Estado americano a serviço dos interesses políticos de Bolsonaro
21/02/2025Donald Trump está fazendo política dentro do Brasil. O processo contra o ministro Alexandre de Moraes em um tribunal federal na Flórida movido pela Trump Media & Technology Group, da qual o presidente norte-americano é sócio majoritário, é apenas a ponta mais visível dos movimentos de Trump. O RR apurou que a cooperação militar e dos serviços de inteligência norte-americanos com o clã Bolsonaro não apenas vem se intensificando como já tem uma importante agenda prevista para abril.
O híbrido de lobista e ideólogo Steve Bannon deverá vir ao país para um encontro com a família e agregados do primeiro time. Bannon já não ostenta o poder do passado, mas reza o mesmo credo de Trump e tem trânsito na Casa Branca. E é sempre uma referência para os Bolsonaro: na última quarta-feira, por exemplo, Eduardo Bolsonaro postou em suas redes um discurso de Bannon dizendo que Bolsonaro será assassinado na cadeia, caso seja preso.
É nesse contexto que o clã busca ampliar o alinhamento e iniciar o conhecimento das mudanças na alta burocracia dos Estados Unidos com o retorno de Donald Trump à presidência. Trump fez uma limpeza na CIA e no FBI, trocando os mandantes de cada uma das agências. Eduardo Bolsonaro, que tem notório acesso ao presidente norte-americano e a auxiliares no departamento de Estado, já estaria sendo apresentado aos novos titulares da CIA e FBI.
O RR apurou ainda que as duas agências acompanham acuradamente a decisão do Congresso em relação à anistia dos envolvidos na tentativa de golpe do dia 8 de janeiro de 2023.
O mês de abril é tratado como um starting point para que alguma iniciativa seja adotada, o que pode ser dar por meio de declarações ou manifestações de apoio ou até mesmo a adoção de ações na área econômica favoráveis ao Brasil, que seriam capitalizadas pela família Bolsonaro como uma conquista sua e não do governo Lula. Nesse sentido, a ação contra o inimigo figadal Alexandre de Moraes foi recebida entre os Bolsonaro como um sinal do colaboracionismo de Donald Trump por meio das mais diversas frentes. Trump está disposto a interferir no ambiente político brasileiro seja valendo-se do próprio aparelho de Estado norte-americano, seja por meio de suas empresas.
A Trump Media & Technology Group afirma que se juntou à plataforma de vídeos Rumble para entrar com “uma ação judicial para impedir as tentativas do juiz da Suprema Corte brasileira, Alexandre de Moraes, de forçar o Rumble a censurar contas pertencentes a um usuário brasileiro baseado nos Estados Unidos”.
Nesse contexto de cooperação explícita entre os Bolsonaro e Donald Trump, um fato aparentemente isolado merece atenção. A revista da Sociedade Militar, uma publicação restrita a poucos, divulgou que o site oficial do Exército dos EUA publicou, em 25 de janeiro, um artigo inteiro sobre a atuação do coronel brasileiro Sergio Reis Matos como oficial de ligação entre os dois países.
O texto destaca que Matos tem uma presença marcante na cooperação militar entre Brasil e Estados Unidos. “O alinhamento militar com os Estados Unidos se mantém em um contexto político peculiar. Enquanto o governo brasileiro mantém uma postura crítica em relação a Trump e busca se distanciar de sua retórica, os militares brasileiros, por outro lado, seguem aprofundando laços institucionais e operacionais com as Forças Armadas dos EUA, que, durante a gestão Trump, tendem a ter um papel central na defesa dos interesses dos Estados Unidos no hemisfério sul.”
Sem dúvida, são alhos e bugalhos. Uma coisa não tem a ver com a outra. Ou tem? De qualquer maneira, a conjuntura é favorável a interpretações e teorias conspiratórias. Nada disso parece impedir o namoro em praça pública de Trump e Bolsonaro.
A revista da Sociedade Militar informa que, desde julho de 2023, Matos atua como Oficial de Ligação da Nação Parceira (PNLO) junto ao Exército norte-americano, sendo um dos quatro representantes militares latino-americanos no Comando Sul da Força dos EUA. Sua missão é fortalecer a parceria histórica entre Brasil e Estados Unidos, promovendo a interoperabilidade militar e a realização de operações conjuntas. “É imperativo reconhecer os 200 anos de relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos.
Minha posição aqui demonstra o compromisso em aprimorar essa relação histórica e aumentar a interoperabilidade entre nossos exércitos”, afirmou o coronel Matos.
Destaque
OEA entra na alça de mira do governo Trump
6/02/2025A OEA deve ser o próximo alvo da ofensiva do governo Trump contra órgãos multilaterais. Segundo uma fonte do Ministério das Relações Exteriores, as sinalizações provindas da Casa Branca tornam mais do que provável a interpretação de que serão suspensos os repasses financeiros para o Comitê Interamericano Contra o Terrorismo (CICTE) e a Comissão Interamericana para o Controle do Abuso de Drogas (CICAD), vinculados à Organização dos Estados Americanos. As contribuições giram entre US$ 30 milhões e US$ 50 milhões por ano.
De acordo com a mesma fonte ouvida pelo RR, técnicos do CICTE e da CICAD, inclusive, já cancelaram reuniões que estavam marcadas para esta semana, algumas nos Estados Unidos.
No dia de sua posse, Donald Trump anunciou a saída dos Estados Unidos da OMS. Na última terça-feira, decretou a retirada do país do Conselho de Direitos Humanos da ONU. No mesmo dia, confirmou também que fechará a Agência dos Estados Unidos para Desenvolvimento Internacional (USAID, na sigla em inglês).
A rigor, é um estamento interno; na prática, porém, funciona como um organismo multilateral. A USAID é responsável por executar programas de ajuda humanitária em todo o mundo. No caso da OEA, o que está por trás do esvaziamento do CICTE e do CICAD é um projeto de captura. Talvez Trump não consiga anexar a Groelândia.
Muito menos o Canadá. Mas, em relação à OEA, a tarefa é mais simples – mesmo porque 60% do orçamento da entidade são bancados pelos Estados Unidos. Trump pretende usar a entidade como um instrumento de pressão dos Estados Unidos sobre a região. A Casa Branca vai influenciar pesadamente na eleição do próximo secretário-geral da OEA, marcada para este ano.
O candidato de Washington é o chanceler do Paraguai, Rubén Ramírez Lezcano. Em novembro do ano passado, logo após ser eleito, Trump recebeu Lezcano em sua casa em Mar-a-Lago, na Flórida. O economista paraguaio é um nome talhado para os interesses do presidente dos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, é visto como um linha dura e como alguém que será subserviente a Washington. O fechamento das torneiras norte-americanas praticamente inviabiliza a manutenção das atividades da CICTE e da CICAD, altamente dependentes dos recursos dos Estados Unidos – como de resto, toda a OEA. Ou seja: diversas iniciativas relevantes conduzidas pelas entidades estão sob risco.
É o caso do Plano de Ação Hemisférico sobre Drogas (2021-2025), que apoia os estados-membros a colocar indivíduos no centro das políticas e programas sobre drogas. O CICAD até aqui funcionou em estreita colaboração com a ONU, com o Conselho Internacional de Controle de Narcóticos, com a OPAS, com a Comunidade do Caribe e com o Centro Europeu de Monitoramento de Drogas e Dependência Química. Também implementou o Mecanismo de Avaliação Multilateral, que analisa se os países membros da organização vêm atuando bem no combate ao problema.
Já o Comitê de Interamericano contra o Terrorismo, criado pela Assembleia Geral da OEA, em 1999, se reúne anualmente para discutir e avaliar ações para fortalecer a cooperação regional na matéria. Desde então, os países membros adotam um Plano Anual de Trabalho, preparado pela Secretaria-Executiva do Comitê Interamericano contra o Terrorismo (SE-CICTE). Atualmente, o CICTE coordena programas de cooperação em importantes matérias, como defesa cibernética, segurança de fronteiras e prevenção ao terrorismo. Logo após o 11 de setembro, por exemplo, o Comitê recebeu de uma só vez US$ 100 milhões dos Estados Unidos.
O que precisa ser dito
Donald Trump e a “diplomacia” da chantagem
5/02/2025A partir de hoje o RR passa a contar com as análises de um “colaborador especial”: o embaixador Jorio Dauster. Jorio é diplomata de carreira. Foi secretário do consulado brasileiro em Montreal e nas embaixadas de Praga e Londres . Também na capital inglesa, chefiou o escritório do então poderoso Instituto Brasileiro do Café, do qual viria a ser presidente. Jorio foi ainda negociador-chefe da dívida externa, no governo Collor, e embaixador do Brasil junto à União Europeia, em Bruxelas. Ocupou também a presidência da Vale. Em sua coluna de estreia, Jorio desconstrói o uso da chantagem como instrumento “diplomático, expediente que está no centro a política externa de Donald Trump no espocar do seu segundo mandato.
Jorio Dauster
Nenhum país pode impunemente fazer política externa chantageando seus aliados. Depois do que aconteceu com México e Canadá, de que vale um acordo comercial negociado com os Estados Unidos e aprovado pelos congressos dos três países como o USMCA, sucessor do NAFTA? Quem acreditará em qualquer outro acerto com Trump se as normas internacionais, desenvolvidas ao longo de séculos para oferecerem certa segurança no relacionamento entre nações independentes, podem ser rasgadas ao bel-prazer de um suposto estadista que, no dia seguinte, trombeteia publicamente a humilhação imposta a seus vizinhos? Mas é preciso ficar claro que não se trata de gestos ocasionais ou tresloucados. Trump assumiu a presidência com o propósito declarado de torpedear um arranjo internacional que fora promovido pelos próprios Estados Unidos quando era de longe o país hegemônico a fim de substituí-lo por uma (des)ordem internacional em que aquilo que resta de poder norte-americano possa ser explorado sem amarras formais. A saída do Acordo de Paris e da Organização Mundial de Saúde, bem como o desmonte da USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional), são outros sinais do que vem pela frente. E a Europa já sabe que será o próximo alvo.
Destaque
CPI das Redes Sociais entra no radar do Palácio do Planalto
31/01/2025Há uma articulação, com apoio do governo, para a criação de uma CPI das Redes Sociais. A proposta circula em petit comité, em conversas que vêm sendo conduzidas pelo ministro Alexandre Padilha junto a líderes de partidos da base aliada. A questão já foi levada também ao deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), virtualmente eleito para a presidência da Câmara no lugar de Arthur Lira.
O governo quer abrir a “caixa preta” dos algoritmos, notadamente em relação à disseminação de notícias. Tarefa difícil. Esse é praticamente um segredo de Estado. Ainda assim não se trata de uma jabuticaba intervencionista. Mundo afora, diferentes governos fecham o cerco na tentativa de perscrutar os modelos computacionais que regem a distribuição de conteúdo online.
A União Europeia, por exemplo, aprovou em 2023, a Lei de Serviços Digitais (Digital Services Act – DSA), que estipulou uma série de exigências para as plataformas de mídias sociais aumentarem a transparência sobre seus algoritmos e como eles funcionam. Em dezembro entrou em vigor no Reino Unido o Online Safety Bill. A legislação prevê dispositivos para regular discursos nocivos e crimes nos meios digitais, desde a violência de gênero até terrorismo.
As empresas e seus altos executivos poderão ser legalmente responsabilizados em caso de descumprimento das novas normas. Nos Estados Unidos, um dos movimentos mais agudos veio da Califórnia. O California Consumer Privacy Act (CCPA) e o California Privacy Rights Act (CPRA) exigem que as plataformas de redes sociais informem como os dados dos consumidores são usados, incluindo informações sobre algoritmos personalizados.
O governo vislumbra a possibilidade de criar um fato político e criar mais embaraço às plataformas de redes sociais. A ideia ganha corpo na esteira do alinhamento entre Mark Zuckerberg e Donald Trump e da decisão da Meta de remover seu sistema de checagem, por ora restrita aos Estados Unidos. Não por acaso, o nome de Conrado Leister, country manager do grupo no Brasil, tem sido citado como uma das primeiras convocações a ser feita pela CPI.
Há de se ressaltar que o Congresso já tateou o problema ao realizar uma CPI correlata, das Fake News, que saiu do nada e chegou a lugar algum. De toda a forma, a criação de uma nova Comissão Parlamentar levaria para o Legislativo uma ofensiva institucional contra as plataformas sociais que já vem sendo travada pelo Executivo e, sobretudo, pelo Judiciário. O cerco maior vem do STF, mais precisamente das investigações conduzidas pelo ministro Alexandre de Moraes.
Agora é a AGU que ensaia uma investida sobre as empresas do setor. Na semana passada, o advogado geral da União, Jorge Messias, convocou executivos da Meta (Facebook, Instagram e WhatsApp), Alphabet, dona do Google e do YouTube, TikTok, Kwai, Discord, X e LinkedIn para uma audiência pública sobre moderação de conteúdo. Convite feito, convite solenemente ignorado.
Nenhuma empresa mandou representantes. Uma semana antes, a AGU notificou a Meta, questionando como o grupo combaterá crimes como racismo e homofobia com o encerramento do seu programa de verificação de fatos.
Destaque
“Michelle golpista” desponta como uma candidata sob medida para a extrema direita
29/01/2025O principal cabo eleitoral da candidatura de Michelle Bolsonaro à Presidência da República é o bolsonarista mais próximo do governo de Donald Trump. Trata-se de Eduardo Bolsonaro. O “03” teria, inclusive, conversado sobre o assunto com o guru político da extrema direita mundial, o marqueteiro Steve Bannon, a quem sabidamente desfruta de acesso direto.
Eduardo não é Jair, que não é Flavio, que não é Carlos. Mas é o que bate mais forte. E deve ganhar maior dimensão com o governo Trump. Melhor para a ex-primeira-dama. Jair Bolsonaro é um grande eleitor, mas não é o melhor personagem para fazer a chancelaria de Michelle no exterior.
Graças a essa circulação conduzida por Eduardo, a percepção é que a candidatura da Sra. Bolsonaro tende a crescer de fora para dentro. Isso no momento em que a ambiência doméstica também lhe é favorável. Michelle, que até o último final de semana era virtual candidata do PL ao Senado Federal ou à vice-Presidência da República, galgou 10 mil degraus em um domingo.
Os novos trechos da delação do tenente-coronel Mauro Cid, publicados pelo colunista Elio Gaspari, mexeram fortemente com o algoritmo político-eleitoral de 2026. A “Michelle golpista” surge para preencher um vazio deixado pela inelegibilidade de Jair Bolsonaro: com ela, o bolsonarismo volta a ter um candidato competitivo à Presidência de extrema direita.
A personagem que emerge da delação de Mauro Cid é uma primeira-dama que participou ativamente das discussões travadas no Palácio do Planalto e no Alvorada após a eleição de Lula e defendeu uma ruptura institucional capaz de assegurar a permanência de Bolsonaro no Poder. No cálculo político bolsonarista, o que menos importa é o risco de criminalização de Michelle.
O que para uns é visto como um escândalo, para outros é uma insígnia. Trata-se de uma construção com forte potencial de turbinar o apelo da ex-primeira-dama junto à parcela mais leal de seguidores do marido.
Nem Romeu Zema nem Ronaldo Caiado trajam de todo o figurino do candidato da extrema direita, apesar de vez por outra se travestirem como tal, mais por pragmatismo do que por essência. O próprio Tarcísio Freitas talvez corresponda ainda menos a esse perfil. Não obstante a proximidade e o sentimento de lealdade em relação a Bolsonaro, o governador de São Paulo está longe do arquétipo de um radical.
Ele pode até ser enquadrado como um conservador, mas não se tem registros de Freitas defendendo intervenção militar, proferindo discursos de ódio contra grupos identitários, desprezando vacinas ou dizendo que o aquecimento global é invencionice. Pelo contrário. Há uma semana, por exemplo, o governador anunciou a criação de um Conselho de Mudanças Climáticas. É uma agenda que não conversa nem um pouco com o eleitorado cativo de Bolsonaro.
Até então, o nome de Michelle Bolsonaro sempre esteve mais vinculado a uma primeira-dama suave, que colaborava com o marido através da sua inserção religiosa. Os fatos trazidos à tona na delação de Mauro Cid, devidamente reinterpretados pelo eleitorado mais extremista, embaralham essa lógica e aumentam seu status de presidenciável. Michelle parece talhada para defender o legado eleitoral do marido.
Seu nome já é mencionado com fervor em alguns templos neopentecostais que visita. Além de evangélica “ativista”, identificada com um conservadorismo moral e um discurso de defesa dos valores cristãos e da família, Michelle tem carisma e fala ao eleitorado feminino, no qual sempre houve um bolsão de resistência a Jair Bolsonaro. Não bastasse a revelação das denúncias de Mauro Cid, é importante prestar a atenção a outros movimentos políticos recentes. Juntamente com o próprio Eduardo Bolsonaro, Michelle foi a Washington para a posse de Donald Trump.
O que fica para o seu potencial eleitorado é que ela representou Bolsonaro junto a Trump. É sintomática também uma declaração dada por seu marido em recente entrevista. Perguntado sobre a possibilidade de Michelle disputar a eleição à Presidência, Bolsonaro disse “Não tenho problemas, seria também um bom nome com chances de chegar”. O melhor foi a frase seguinte: “Obviamente, ela me colocando como ministro da Casa Civil”.
Foi uma mensagem nada subliminar ao seu eleitor mais fiel, um recado de que ele, Bolsonaro, teria forte influência no governo caso Michelle assumisse a Presidência da República. Seria a sua volta ao Palácio do Planalto.
Política externa
Deportação é um recado didático de Trump ao mundo
27/01/2025Do embaixador Jorio Dauster em conversa com o RR: “Não há a menor dúvida de que, em obediência às leis internacionais e eventuais tratados de cunho bilateral, um país é obrigado a receber de volta seus nacionais que tenham entrado ilegalmente em outro país. No entanto, essa transferência é regida por uma série de normas que incluem o pré-aviso acerca do envio dessas pessoas e o respeito à integridade física delas mesmo que sejam usadas algemas e outras formas de controle durante o transporte em aviões.
Como aparentemente tais procedimentos não foram observados pelos Estados Unidos ao recambiar os primeiros colombianos durante a atual administração, o presidente Gustavo Petro se recusou de início a permitir a entrada no espaço aéreo de seu país de dois aviões militares norte-americanos, mas foi obrigado a ceder diante da reação autoritária de Donald Trump, pois nenhuma nação latino-americana pode sobreviver à suspensão de suas exportações para os Estados Unidos do dia para a noite.
Cuba e Venezuela já tiveram tempo para se adaptar e, no caso dessa última, são empresas norte-americanas e europeias (santa hipocrisia!) que vendem no exterior metade ou mais do petróleo daquele país. No entanto, a truculência como forma de atuação internacional não constitui uma prova de liderança e, sim, de força bruta, servindo como exemplo (caso Rússia e Israel, aliás, ainda precisassem disso) de que quaisquer outras nações que se julguem poderosas possam comportar-se da mesma forma mesmo que, no caso em tela, as canhoneiras dos tempos do big stick hajam sido substituídas por tarifas.
Além, é claro, de reavivar as chamas do anti-imperialismo e estimular grupos extremistas. Espero que o governo brasileiro cuide com grande sobriedade dessa questão, porém é certo que todos nós pagaremos um alto preço por tamanho retrocesso histórico gerado por aqueles que dizem comandar a maior democracia do planeta”.
Destaque
Itamaraty cria “gabinete Trump” para monitorar medidas do novo governo americano
23/01/2025O Ministério das Relações Exteriores está montando um “gabinete Trump”. Segundo fontes do próprio Itamaraty, trata-se de uma equipe enxuta, escolhida a dedo, que vai se reunir duas ou três vezes por semana para acompanhar os movimentos do novo presidente dos Estados Unidos e suas possíveis consequências para o Brasil. Trata-se de uma iniciativa que deve ser mantida sob a maior discrição, nas franjas do sigilo.
Caberá a esse grupo produzir relatórios periódicos para municiar instâncias superiores da Pasta e outros ministérios. As promessas já colocadas à mesa por Donald Trump têm enorme transversalidade: imigração – estima-se que haja mais de 230 mil brasileiros ilegais nos Estados Unidos -, tarifas alfandegárias, eventuais retaliações à China, maior parceiro comercial do Brasil, além do impacto direto e indireto sobre câmbio, inflação e juros, entre outras.
De acordo com as informações apuradas pelo RR, de tudo o que foi dito até o momento, o Itamaraty entende que a medida com maior probabilidade de sair em um espaço mais curto de tempo é a retomada do Canal do Panamá.
Segundo a interpretação da diplomacia brasileira, haveria base jurídica no direito internacional para os Estados Unidos recuperarem a posse sobre a estratégica veia entre o Atlântico e Pacífico.
No próprio Itamaraty, prevalece a leitura de que, por ora, há mais “bravatização” do que problematização nas medidas ou projetos alardeados por Trump na sua posse. A tendência é que o tempo separe o joio do trigo, ou seja, as efetivas propostas de governo das costumeiras provocações e fanfarronices de Trump. O que não quer dizer que os passos do presidente norte-americano em relação às aludidas agendas não tenham de ser monitorados e devidamente dissecados.
É uma preocupação compartilhada por todos os países que, em maior ou menor medida, poderão ser mais afetados por eventuais decisões da Casa Branca. No Itamaraty, há informações de que o governo francês também vai criar um gabinete similar. E a medida não se resume a atores soberanos, vide o JP Morgan, que instituiu uma sala de guerra para acompanhar o início da gestão Trump.
Política
Eduardo Bolsonaro, o embaixador de Trump na América do Sul? Era só o que faltava
19/11/2024O clã Bolsonaro saiu vazando ontem que o convite a Eduardo Bolsonaro para comparecimento à cerimônia de posse de Donald Trump já está confirmado – e seria extensivo ao próprio Jair Bolsonaro se ele não estivesse com seu passaporte retido pelo STF. Pode haver alguma coisa mais esdrúxula? Pode. Os bolsonaristas afirmam que existem negociações para emplacar Eduardo como conselheiro formal do governo Trump para assuntos referentes à América do Sul, uma espécie embaixador plenipotenciário dos EUA na região. Os Estados Unidos permitem a dupla cidadania. Portanto, o país de origem do “03” não seria um empecilho. O interlocutor notório do clã é o já nomeado Secretário de Eficiência – que muito pode ser um cargo equivalente ao de Secretário de Estado -, Elon Musk. Este certamente não desgostaria da ideia. Musk é próximo de Jair Bolsonaro e se posicionou publicamente em diversas vezes apoiando o ex-presidente. Imagine só tratar a Venezuela e o Brasil como uma coisa só. Noves fora algum exagero, seria esse o encargo do embaixador plenipotenciário dos EUA na região, unificar a chancelaria na área, o que daria bem a ideia da importância de que Trump confere aos países da América do Sul.
Quem com ferro é ferido com ferro fere. Em 2019, no início do mandato, Jair Bolsonaro cogitou nomear Eduardo Bolsonaro para o posto de embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Desistiu antes do óbvio veto do Senado Federal. À época, a simples especulação já foi algo escalafobético. Agora, a aprovação do nome do deputado federal como um híbrido de conselheiro político e embaixador pode significar algo ainda pior. A aludida possibilidade de Eduardo ser o diplomata do governo Trump na América do Sul tem lugar no topo do ranking das bizarrices.
Política
Sempre cabe mais um na excursão bolsonarista à posse de Trump
14/11/2024A “vovó” Stella Barros, simpática decana das agências de turismo no Brasil, orgulhava-se, nos áureos tempos, de levar mais de 25 mil brasileiros a Orlando por ano. Eduardo Bolsonaro não almeja chegar a tanto, mas não para de “vender” pacotes para a “Disney da extrema direita”, a posse de Donald Trump, em janeiro. Além de parlamentares, a maior parte do PL, Eduardo está arregimentando governadores, como Jorginho Mello, de Santa Catarina, prefeitos recém-eleitos e outros “parças”. Ernesto Araújo, ex-chanceler no governo de Jair Bolsonaro, também já teria confirmado presença. Atualmente, Araújo presta consultoria para a Fundação Disenso, vinculada ao partido de extrema direta espanhola Vox. Eduardo quer fazer da posse de Trump uma demonstração de força do bolsonarismo raiz, que saiu chamuscado das últimas eleições municipais.
Telecomunicações
Com Trump de volta, Brasil vira peça ainda mais importante para a Huawei
8/11/2024Corre no setor de telecomunicações a informação de que a Huawei avalia instalar mais um data center no Brasil. Os chineses já têm três zonas de disponibilidade (como são chamados os clusters de data center) no país. Trata-se de um movimento importante do ponto de vista geoeconômico. A Huawei está concentrando na América Latina uma parcela importante da sua estrutura de armazenamento na nuvem.
No início deste ano, anunciou a implantação de outros três data centers na região, mais precisamente no Chile e no México. O novo investimento no Brasil funcionaria também como mais um afago ao governo Lula, com quem os asiáticos estabeleceram uma relação bastante fluida. A multinacional já carrega uma expressiva carteira de contratos de prestação de serviços para órgãos da gestão federal.
O maior volume de investimentos no Brasil e na América Latina como um todo ganha ainda maior relevância com o retorno de Donald Trump à Casa Branca. Em seu primeiro mandato, Trump elegeu a chinesa Huawei como um dos grandes inimigos da América, impondo pesadas restrições a sua atuação nos Estados Unidos, posteriormente ampliadas por Joe Biden.
Economia
Corte de gastos públicos está indexado a Donald Trump
7/11/2024Não há, em todo o mundo, sequer um canto de jardim imune ao efeito Trump. A eleição norte-americana mudou o senso de urgência do governo Lula em relação ao tão aguardado pacote de corte de gastos. O repentino cancelamento da viagem de Fernando Haddad à Europa a pedido do próprio presidente da República levou a crer que as medidas seriam anunciadas na última segunda-feira – ver RR.
E, de fato, o governo ensaiou a divulgação das iniciativas para aquele dia. Mas recuou. Segundo fontes palacianas, na reunião de mais de três horas realizada na tarde da própria segunda-feira, houve um pedido dos ministros presentes, sete ao todo, para que Lula aguardasse o resultado da disputa eleitoral nos Estados Unidos para sacramentar as medidas. Ainda há sensatez nesse mundo.
A julgar pelo impacto já observado da vitória de Trump sobre a economia global, o cenário de curto e médio prazos exigirá do governo Lula um contorcionismo de ginasta chinês para cortar gastos em um ambiente de maior pressão inflacionária. E com uma trava que faz toda a diferença: no salário-mínimo, Lula não aceita mexer de jeito algum.
No D+1 ou “D+T”, leia-se o day after da eleição de Donald Trump, o dólar chegou a bater em R$ 5,72 – fechou o dia em R$ 5,67, praticamente estável em relação a ontem. Nos juros futuros, a taxa DI para os contratos em janeiro de 2025 passou dos 12,95% de ontem para 13,0005%. No mercado, já quem preveja um câmbio acima dos R$ 6,00, para alguns com risco de bater próximo dos R$ 6,50 – em recente entrevista ao InfoMoney, por exemplo, Alfredo Menezes, fundador e CEO da Armor Capital, mencionou a possibilidade de o dólar chegar a R$ 6,40.
Nessa hipótese, automaticamente a inflação dispararia. Maior inflação leva ao aumento da taxa de juros, que leva ao aumento do déficit nominal, que leva ao aumento da dívida pública. Ou seja: um cenário fiscal catastrófico. Some-se a isso o fato de que uma parcela expressiva da economia está indexada à inflação, a começar pelo salário-mínimo, o totem e tabu do corte de gastos. Lula não quer nem ouvir falar na hipótese de mudança nas regras de reajuste do mínimo, com base na inflação do ano anterior e da variação do PIB de dois anos antes.
O mesmo se aplica à ideia de desvinculação da aposentadoria e de outros benefícios do salário-mínimo, resistência que encontra eco no Ministério. Hoje, em entrevista ao jornal O Globo, o ministro da Previdência, Carlos Lupi, disse textualmente que deixará o governo caso o corte de gastos afete direitos previdenciários adquiridos ou o aumento do salário-mínimo acima da inflação.
A blindagem do salário-mínimo e a previsão de uma pressão inflacionária ainda maior, no rastro do fator Trump, aumentam consideravelmente o desafio da equipe econômica. Em entrevista ao Valor, o economista sênior para Brasil do Itaú BBA, Luiz Cherman, afirma que a eleição de Donald Trump exige que o governo entregue um pacote de cortes superior a R$ 50 bilhões.
Destaque
Soft power ou “no power” ? O dilema do governo brasileiro na eleição da OEA
23/09/2024A sucessão no comando da OEA (Organização dos Estados Americanos), no início de 2025, já mobiliza o governo brasileiro. Antes dela há outra eleição, ou melhor, a eleição, nos Estados Unidos, que deverá ser determinante para a posição do Brasil no tabuleiro geopolítico das Américas.
Por ora, segundo o RR apurou, o Itamaraty trabalha com dois cenários. Um deles, mais “simples”, é apoiar a candidatura do atual ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Rúben Lezcano, ao cargo de secretário-geral da OEA. Na mais recente reunião de cúpula do Mercosul, em Assunção, Lezcano cumpriu uma agenda de conversas reservadas com o objetivo de articular e viabilizar sua participação no pleito.
Mas o Itamaraty também considera a hipótese de um Plano B, que pode virar Plano A dependendo das circunstâncias. Seria o lançamento de uma candidatura própria para o lugar hoje ocupado pelo uruguaio Luis Almagro. Esta possibilidade teria em Celso Amorim, assessor direto do presidente Lula na área de política externa, o seu principal mentor. Amorim é sabidamente defensor da ideia de que o país deve buscar uma maior representatividade nas organizações multilaterais.
No caso de uma candidatura made in Brazil, dois nomes despontam nos meios diplomáticos. Um deles é o da embaixadora Maria Laura da Rocha, atual secretária-geral do Ministério das Relações Exteriores. Maria Laura é próxima do próprio Celso Amorim – foi chefe de gabinete do então chanceler entre 2008 e 2011. A diplomata tem um razoável track records em organismos multilaterais: foi representante do Brasil na Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) e na FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura).
Outra indicação cogitada é do embaixador Benoni Belli, que atualmente chefia a representação do Brasil na própria OEA. Ou seja: sob certo aspecto, Belli teria a possibilidade de trabalhar sua candidatura por dentro da entidade. No fim de semana, em entrevista à CNN, Belli disse que a OEA “vive uma crise de legitimidade”.
O lançamento de uma candidatura própria para a OEA depende de delicadas costuras, transversais a uma série de outros interesses cruzados e agendas diplomáticas de relevância ainda maior. O soft power do Brasil, ou, no limite, do próprio Lula sobre a vizinhança seria um handicap para angariar apoios na América do Sul e Central.
No entanto, esta é uma disputa que, basicamente, passa por um único grande eleitor. Na prática, a votação na OEA é decidida a pouco menos de uma milha do edifício-sede da entidade, mais precisamente na 1600 Pennsylvania Avenue NW. O secretário-geral da Organização é aquele que a Casa Branca escolher. A questão é saber quem estará no salão oval em 2025: Donald Trump ou Kamala Harris.
Política
Jair Bolsonaro quer grudar em Donald Trump mais uma vez
13/11/2023De primeira: Eduardo Bolsonaro articula um encontro de Jair Bolsonaro com Donald Trump. As conversas são conduzidas junto a Jason Miller, ex-assessor de Trump e fundador da rede social Gettr, identificada com a extrema direita norte-americana. Para o “03”, as circunstâncias são as melhores para Bolsonaro voltar a colar sua imagem à de Trump, no embalo das últimas pesquisas presidenciais nos Estados Unidos, que colocam o ex-presidente à frente de Joe Biden.
Política
Governo Lula planeja acionar Steve Bannon na Justiça
17/01/2023O governo brasileiro pretende processar na Justiça norte-americana o ideólogo, estrategista e guru da extrema direita, Steve Bannon. Conversações já estão sendo realizadas pela área de relações externas do governo Lula com o Departamento de Estado norte-americano. O GSI, comandado pelo general Gonçalves Dias, também participa dos entendimentos, buscando colaboração do FBI para rastreamento das comunicações de Bannon com Bolsonaro, seus filhos e bolsonaristas de proa. O estrategista estaria por trás da rede de blogs internacionais responsável pela produção maciça de fake news sobre o episódio de vandalismo em Brasília. O “noticiário” das mídias de Bannon subverte os fatos. As “informações” são de que o governo brasileiro está fazendo prisões em massa à margem da Justiça, criando campos de concentração, cerceando a liberdade de ir e vir e manipulando e censurando a imprensa.
Bannon, como se sabe, foi condenado por desacato ao Congresso dos Estados Unidos. O “bruxo” foi uma espécie de eminência parda de Donald Trump, responsável, entre outras traquinagens, pela criação da rede trumpista na internet. No auge do governo Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do ex-presidente, era o responsável pelos contatos e aconselhamento estratégico com Bannon e o falecido filósofo Olavo de Carvalho. O “03” organizou, inclusive, um jantar de Bolsonaro, em Washington, com sua cúpula estratégica internacional, digamos assim, juntando Olavo e Bannon. O evento teve, propositalmente, uma publicidade ampla.
Steve Bannon nomina Jair Bolsonaro como líder da extrema direita mundial. Ou seja, não há nenhum “político” no mundo que tenha poder de comando ou convocação sobre 20 milhões de cidadãos, no mínimo. Um verdadeiro exército. É atribuído a ele a frase de que os atentados em Brasília somam o equivalente a dezenas de invasões do Capitólio, fichinha perto do ocorrido na capital do país. O projeto do governo brasileiro é somar esforços com o governo Biden para colocar o “bruxo de Donald Trump” no xilindró. Já vai tarde para a prisão.
Política
Clube da direita
26/10/2022A campanha de Jair Bolsonaro está tentando obter um vídeo de Matteo Salvini, um dos líderes da extrema direita italiana, em apoio à reeleição do presidente. O expediente já foi usado no primeiro turno, com gravações feitas pelo ex-presidente norte- americano Donald Trump e pelo primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán.
Jair Bolsonaro quer ter a sua própria rede social
27/07/2022Carlos Bolsonaro foi beber mais uma vez na fonte de Donald Trump. Responsável pela comunicação da campanha de Jair Bolsonaro, “Carluxo” está debruçado sobre o projeto de criação de uma rede social própria, voltada majoritariamente a eleitores da direita. Qualquer semelhança não é mera coincidência: o “benchmarking” é a Truth Social,
plataforma criada por Donald Trump.
A própria Trump Media Media & Technology Group, empresa de tecnologia do ex-presidente norte -americano, estaria sendo buscada para auxiliar no desenvolvimento de um aplicativo congênere. Elasticidade eleitoral não é exatamente o objetivo prioritário: a princípio, Bolsonaro circularia entre um público que já predominantemente é seu. No entanto, a plataforma on demand permitiria municiar a militância digital com in- formações e mensagens de interesse, especialmente ataques a adversários, que poderiam ser replicadas posteriormente em outras plataformas.
Tudo sem que as postagens originais tenham de passar pelo crivo das redes sociais do mainstream, leia-se Twitter, WhatsApp, Instagram etc. Todas essas utilizam instrumentos cada vez mais rigorosos de controle e checagem de fake news. Em outras palavras: no mundo ideal do bolsonarismo, seria uma rede à prova de STF e TSE.
Fundo americano recua alguns hectares em terras brasileiras
24/03/2022Segundo o RR apurou, o TIAA, o fundo de pensão dos professores universitários norte-americanos, estaria vendendo terras na região do Cerrado. Um dos candidatos ao negócio seria a Radar, companhia de propriedades agrícolas controlada pela Cosan. Não é de hoje que os caminhos da dupla se cruzam em solo brasileiro.
Em setembro do ano passado, o grupo de Rubens Ometto recomprou uma participação de 47% na própria Radar, fatia essa que havia sido vendida pela Cosan, em 2016, à Mansilla Participações, veículo de investimento do TIAA. Ambos também teriam mantido negócios conjuntos no setor por meio da Tellus Brasil Participações. Procurados pelo RR, Cosan e TIAA não se pronunciaram.
Tão ou mais importante do que os personagens da operação e esse vai-e-vem societário é o histórico de suspeições lançadas sobre os negócios da TIAA com terras no Brasil. O fundo de pensão chegou a ser acusado de ter comprado propriedades agrícolas no país de forma irregular, driblando as restrições à presença de capital estrangeiro no setor. As denúncias foram alvo de investigação por parte de órgãos públicos. No fim de 2020, um relatório preliminar do próprio Incra apontou indícios de que o TIAA violou a legislação brasileira.
De lá para cá, no entanto, parece terem jogado terra em cima do assunto. Consultado, o Incra não quis se manifestar. Segundo o RR apurou, à época, a questão chegou a provocar mal-estar junto ao governo norte-americano. Na ocasião, Donald Trump ainda estava na Casa Branca. O que não quer dizer que, do ponto de vista diplomático, o tema possa ter perdido peso com a chegada de Joe Biden ao poder. Pelo contrário. Roger Ferguson Jr., que até maio do ano passado ocupava o cargo de CEO do TIAA, é ligado ao Partido Democrata e bastante próximo de Biden. Ex-vice-presidente do FED, Ferguson esteve cotado para assumir a Secretaria do Tesouro.
Chumbo grosso
22/11/2021Eduardo Bolsonaro estaria costurando com Steve Bannon, o marqueteiro de Donald Trump, uma consultoria formal para a campanha de Jair Bolsonaro em 2022. O jogo ficou mais duro: além de bater no “comunista” Lula, Bolsonaro terá de desconstruir o “conservador” Sergio Moro.
Governo Biden quer cortar na raiz imigração ilegal de brasileiros
18/10/2021A gestão Biden está colocando a imigração ilegal no centro das relações diplomáticas com o Brasil. Segundo uma fonte do Itamaraty, os Estados Unidos costuram um acordo de cooperação com o governo brasileiro. O objetivo é combater quadrilhas especializadas no tráfico de pessoas que agem dentro do Brasil e, com isso, conter o fluxo de imigrantes clandestinos nos Estados Unidos.
Os norte americanos deverão dar apoio às investigações em território brasileiro, possivelmente com o envio de agentes do Homeland Security Investigations (HSI), braço do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos. Consultado pelo RR, o Ministério das Relações Exteriores não se pronunciou. De certa forma, chama a atenção que uma negociação diplomática desta natureza entre Brasil e Estados Unidos se desenrole agora, com Joe Biden na Casa Branca.
Em tese, esta seria uma agenda mais afeita a Donald Trump, o presidente do muro na fronteira com o México. Ocorre que o problema ganhou novas proporções nos últimos meses. De outubro de 2020 a setembro deste ano, 46 mil brasileiros foram detidos nos Estados Unidos ao tentarem entrar de forma clandestina no país.
Trata-se de um número seis vezes maior do que o registrado no período entre outubro de 2019 e setembro de 2020. O governo Biden está tentando matar o “mal” pela raiz. O acordo de cooperação pode ser interpretado como uma forma sutil – ou nem tanto – dos Estados Unidos pressionarem o governo Bolsonaro a combater as quadrilhas que atuam no tráfico de pessoas dentro do território brasileiro.
Bolsonaro recorre à “internacional direitista”
16/09/2021O presidente Jair Bolsonaro fará viagens oficiais à Hungria e à Polônia no início do próximo ano, assegurou ao RR uma fonte próxima a Eduardo Bolsonaro. O “03” é quem estaria articulando os encontros com o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, e o presidente polonês, Andrzej Duda – dois dos mais notórios representantes da extrema direta internacional. Consultada pelo RR, a Presidência da República preferiu não se pronunciar sobre o assunto. A programação das visitas demonstra a convicção do presidente Bolsonaro de que o apoio da extrema direita internacional tem importância simbólica para a sua reeleição. É um contraponto às relações que o ex-presidente Lula mantém com líderes da esquerda mundial. Não por coincidência, as tratativas para os encontros com Viktor Orbán e Andrzej Duda surgem poucas semanas depois de Eduardo Bolsonaro se reunir nos Estados Unidos com Steve Bannon – estrategista do ex-presidente norte-americano Donald Trump e uma espécie de elo entre diversos líderes e governos da extrema direita. Em tempo: Bannon deverá acompanhar o presidente Bolsonaro nas visitas.
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Por falar em política externa: Filipe Martins perdeu. O assessor especial de Jair Bolsonaro para a área de política externa tentou emplacar Roberto Goidanich, ex-presidente da Fundação Alexandre de Gusmão – think tank do Itamaraty -, em uma embaixada de primeira linha, notadamente na Europa. Não dobrou o chanceler Carlos Alberto França, responsável direto pela nomeação de Goidanich para o Departamento de Índia, Sul e Sudeste da Ásia do Ministério das Relações Exteriores. Com isso, França garantiu o “exílio” do “olavista” em um posto de menor relevância na diplomacia internacional. Se fosse na era Ernesto Araújo, Martins e Goidanich ganhavam a parada.
O reverso da diplomacia
30/08/2021Eduardo Bolsonaro estaria articulando um encontro de Jair Bolsonaro com Donald Trump ainda neste ano. A ideia teria sido discutida na conversa que o “02” teve com o próprio Trump no início de agosto. Eduardo também tratou do assunto no recente encontro com Steve Bannon, estrategista do ex-presidente norte- americano. Trump viria ao Brasil na condição de convidado por um grupo de empresários para realizar duas palestras. Em tempo: no caso de Bolsonaro, seria um movimento na contramão da praxe diplomática. Ele se reuniria com o ex-presidente dos Estados Unidos sem ter se encontrado com seu sucessor, Joe Biden. E daí?
O “melhor” aliado de Bolsonaro
21/01/2021Ontem, durante a posse de Joe Biden, um diplomata de quatro costados do Itamaraty lembrava ao RR da proeza conseguida por Jair Bolsonaro. Donald Trump foi o primeiro presidente dos Estados Unidos a não visitar o Brasil desde desde Gerald Ford, que ocupou o cargo entre 1974 e 1977.
Espelho, espelho meu
14/01/2021Em conversa com um político de quatro costados, fonte do RR, o ex-presidente José Sarney defendeu enfaticamente o impeachment de Donald Trump. A justificativa foi sucinta: “Bolsonaro precisa de um susto”.
Diplomacia dos sinais trocados
13/01/2021Circula no Itamaraty a informação de que Ernesto Araújo sugeriu a Jair Bolsonaro convidar Donald Trump para uma visita ao Brasil após sua saída da Casa Branca. Possivelmente seria a primeira vez que um chefe de governo brasileiro se encontraria com um candidato derrotado sem sequer um telefonema ou mensagem oficial ao presidente eleito e empossado. Sentido, não faz. Mas, tratando-se de Bolsonaro e Araújo, pode se esperar qualquer coisa.
Não consigo fazer nada
7/01/2021O presidente Jair Bolsonaro cogitou telefonar para Donald Trump ontem, no final do dia. Seria mais uma situação em que caberia a máxima de Bolsonaro: “Não consigo fazer nada”.
Cabo eleitoral
29/09/2020Abraham Weintraub tem causado constrangimentos no Banco Mundial. Sua atividade principal é fazer campanha pró-Donald Trump. Pelo menos é o que se diz no Ministério da Economia.
“Ameaça” Biden chacoalha o tabuleiro do Itamaraty
25/09/2020O RR apurou no epicentro do governo que já estão sendo debatidas as hipóteses de reconstrução da política externa com os Estados Unidos caso o democrata Joe Biden seja eleito. Ela começa por mudanças nos “móveis” da própria casa, ou seja, o Ministério das Relações Exteriores. A premissa é que a permanência de Ernesto Araújo à frente da Pasta será incompatível com o retorno dos democratas à Casa Branca. Segundo fontes ligadas ao Itamaraty, três diplomatas despontam na linha de frente dos candidatos à sucessão de Araújo.
Todos têm um traço em comum: combinam experiência, tamanho para o cargo de chanceler e guardam alguma proximidade com o clã Bolsonaro. Ou seja: emprestariam ao Ministério o pragmatismo necessário para o novo cenário, permitiriam que o Brasil azeitasse suas relações com um eventual governo democrata nos Estados Unidos sem que, para isso, Bolsonaro precisasse promover uma mudança de rota mais brusca. Um dos candidatos tidos como mais fortes é Luis Fernando Serra, ex -embaixador brasileiro em Paris.
Serra ganhou muitos pontos no Palácio do Planalto quando foi à TV francesa defender Bolsonaro, com fervor patriótico, dos ataques do presidente Emmanuel Macron ao governo brasileiro por conta das queimadas na Amazônia. O embaixador chama a atenção de seus colegas pela flexibilidade retórica em agradar Bolsonaro sem necessariamente ferir posições históricas da diplomacia brasileira. Serra é conhecido também pela boa articulação junto a diplomatas mais antigos.
Pela sua experiência, é visto como alguém capaz de dar um tom mais sereno nas relações com os Estados Unidos sem desagradar Bolsonaro e os seus. Outro nome forte é o da diplomata Maria Nazareth Farani Azevedo, esposa do ex-diretor-geral da OMC, Roberto Azevedo. Há algum tempo Maria Nazareth é cotada em Brasília para algum alto cargo no Itamaraty. Assim como Luis Fernando Serra, ela tem demonstrado habilidade para combinar um discurso pró-Bolsonaro com a defesa de posições mais pragmáticas nas Relações Exteriores. Um nome que corre por fora é o de Pompeu Andreucci Neto, ex-embaixador do Brasil em Madri.
Andreucci não tem a mesma conexão direta com Bolsonaro que Serra e Maria Nazareth. Mas dispõe de um trunfo político: é ligado ao ex-presidente Michel Temer, hoje cada vez mais próximo de Bolsonaro. Uma solução menos natural seria a escolha de um “forasteiro”, ou seja, não necessariamente de um diplomata de carreira. Trata-se de uma hipótese menos provável, mas dois nomes são ventilados: o vice-presidente Hamilton Mourão e a ministra da Agricultura, Tereza Cristina. Nesse caso, tanto um quanto o outro acumulariam funções no governo. A gestão de Tereza Cristina é um dos principais cases de sucesso desse governo. Tirá-la da Agricultura seria despir um santo para vestir o outro.
In Donald Trump we trust
11/09/2020Segundo fontes ligadas ao Itamaraty, nos últimos dias Ernesto Araújo manteve contatos com chanceleres de países da América Central em busca de apoio à eleição do norte-americano Maurício Claver-Carone para a presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) – o pleito ocorrerá neste fim de semana. Puro jogo de cena de Araújo. Claver-Carone já tem o número de eleitores necessários – a começar pelos próprios EUA, que, no sistema proporcional do BID, controlam 30% dos votos. Além disso, Araújo não tem punch na comunidade diplomática internacional para influenciar a votação. Mas, o teatro interessa a Jair Bolsonaro, que aproveita mais uma oportunidade para demonstrar sua devoção a Donald Trump. A sucessão do BID, ressalte-se, é cercada de polêmicas: Trump quebrou uma tradição de 60 anos ao lançar um candidato norte-americano para o comando do banco, que, por um acordo tácito, sempre coube a um país latino-americano.
Bilateralismo de mão única
2/09/2020Segundo informações auscultadas do Itamaraty, há tratativas diplomáticas para que Jair Bolsonaro e Donald Trump mantenham contato telefônico nos próximos dias. É um forte indício de que Bolsonaro poderá prorrogar por mais 90 dias o prazo para o etanol norte-americano entrar no Brasil livre de tarifa. O problema é a contrapartida reivindicada pela indústria sucroalcooleira nacional: a disposição da Casa Branca de reduzir as taxas para o açúcar brasileiro é proporcional ao seu empenho em trabalhar pelo ingresso do Brasil na OCDE.
BID é de Trump e ninguém tira
20/07/2020O Brasil jogou a toalha em relação à possível candidatura de Rodrigo Xavier, ex-UBS, para a presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Primeiro porque o governo Bolsonaro não vai bater de frente com Donald Trump: os Estados Unidos quebraram a tradição e indicaram um candidato próprio ao cargo, Maurício Claver-Carone, diretor sênior do Conselho de Segurança Nacional para Assuntos do Hemisfério Ocidental. Além disso, segundo fonte do Itamaraty, o Brasil ficou isolado na América do Sul. Argentina e Chile, que poderiam liderar um apoio do continente à candidatura brasileira, não vão se aliar à indicação de Xavier.
Prêmio de consolação
9/06/2020Além do pedido de ajuda ao presidente Jair Bolsonaro contra as cotas impostas pelos Estados Unidos – como se Donald Trump o escutasse – os siderurgistas brasileiros reivindicam ao governo a elevação das alíquotas de importação para o aço chinês. Em 2019, a entrada do produto no Brasil subiu 35%.
Brasil está ameaçado de isolamento internacional
22/05/2020O Brasil corre o risco de sofrer um lockout internacional. Há indícios de que o país poderá ser colocado em isolamento pelas grandes nações e blocos econômicos. Por isolamento entenda-se a adoção de medidas restritivas, tanto na circulação de pessoas quanto de mercadorias. A quarentena englobaria, entre outras punições, a suspensão de voos provenientes do Brasil, a proibição do tráfego marítimo e o bloqueio à entrada de produtos brasileiros em importantes mercados, como Estados Unidos, China e União Europeia. As sanções seriam uma resposta à perversa combinação da escalada de casos de coronavírus no país com a desconexa política externa do governo Bolsonaro.
Entre diplomatas e especialistas em comércio exterior, corre, inclusive, a versão de que a decisão de Roberto Azevedo de renunciar à direção da OMC teria sido motivada pela incapacidade de domar os desvarios do governo brasileiro na área de relações exteriores e pela iminência de sanções contra o país. Na comunidade internacional, há um entendimento de que o país está se consolidando como o novo epicentro do coronavírus, percepção acentuada pelo desgoverno do presidente Jair Bolsonaro na gestão da pandemia. Cresce o temor de que o Brasil possa vir a ser o irradiador de uma segunda onda de contaminação em países que já deixaram para trás o pico da curva, sobretudo na Europa e na Ásia.
A insistência de Bolsonaro em confrontar a ciência e contrariar protocolos globais tem sido vista como um fator de risco a mais. Um dos sinais de que o país pode enfrentar uma quarentena internacional veio do “aliado” Donald Trump. Na última terça-feira, o presidente dos Estados Unidos citou a possibilidade de proibir o transporte aéreo de passageiros entre os dois países – “Não gostaria dessas pessoas vindo contaminar os americanos”. Se os países estão isolando o próprio povo, por que não iriam isolar o povo alheio? Outra evidência de um possível isolamento do Brasil partiu da China. Desde a semana passada circula a informação de que o governo chinês sugeriu ao seu parque industrial antecipar as compras de soja e formar estoques.
Em certa medida, a preocupação global em frear o ir e vir do coronavírus transforma o Brasil na nova China. Um exemplo: somente as exportações brasileiras de café movimentam por ano cerca de 120 mil contêineres. Não há um estudo científico definitivo sobre o risco ou não de contaminação com o manuseio desses equipamentos. Mas, é importante lembrar, que, no pico da pandemia na China, mais de um terço dos contêineres de todo o mundo ficou retido no país asiático pelo receio de que eles espalhassem o coronavírus pelo mundo. A mesma preocupação se aplica a produtos agrícolas. Por quanto tempo o coronavírus sobrevive em um grão de café ou de soja? Não se sabe. No caso do setor cafeeiro, a ameaça é ainda maior devido ao calendário agrícola.
O Brasil está no meio da colheita de café. São mais de 800 mil trabalhadores no setor, a maioria esmagadora oriunda dos estratos mais baixos de renda e exposta a condições sanitárias de risco. Em algumas regiões produtoras do país, a colheita ainda é majoritariamente humana, aumentando o risco de eventual contaminação do café. No Espírito Santo, por exemplo, mais de 70% dos grãos passam pelas mãos dos trabalhadores. Nesse contexto, outro ponto preocupante é o enfraquecimento do Brasil no grande jogo das relações internacionais.
O país tem perdido representatividade nos organismos multilaterais. Com a saída de Roberto Azevedo da OMC, a rigor, o Brasil tem apenas uma posição de liderança entre entidades do primeiro time: José Sette, na direção da Organização Internacional do Café. No ano passado, José Graziano deixou a FAO. Da mesma forma, praticamente toda a geração de diplomas que acompanhou Rubens Ricúpero na Unctad já se aposentou. Some-se a isso o fato de que o Itamaraty, hoje, sob o comando de Ernesto Araújo, se notabiliza mais pela defesa do presidente Bolsonaro do que por sua capacidade de fazer diplomacia.
Pingo nos is
30/04/2020O RR, na edição da última terça-feira, deu uma de Donald Trump, recomendando a ingestão de desinfetante para tratar o novo corona-vírus. Foi induzido por uma fonte equivocada a dar uma informação desencontrada. A afirmação de que Jair Bolsonaro interveio junto ao Comando Logístico do Exército para a revogação de portarias sobre o controle de munições e armas com o intuito de aumentar os dispositivos de fiscalização não procede. O pedido de Bolsonaro foi exatamente o contrário: permitir o ingresso dos artefatos bélicos sem numeração, o que dificulta tremendamente a fiscalização. Está certíssimo o Ministério Público em investigar a gestão do presidente em decisão do Exército Brasileiro. Pedimos desculpas a nossos leitores.
Onde os fracos não têm vez…
17/04/2020É avançar ou avançar: pesquisa de opinião encomendada pelo Palácio do Planalto identificou uma melhora na avaliação da performance do presidente Jair Bolsonaro na gestão da crise do novo coronavírus. Pois é…
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Depois da Áustria, Dinamarca e Espanha anunciarem o relaxamento de algumas medidas de contingência contra a Covid-19, ontem foi a vez de Donald Trump divulgar diretrizes para reabertura da economia norte-americana. O presidente Jair Bolsonaro assiste a tudo fazendo figa. Vai lá que sua desacreditada peroração em prol da liberação parcial da quarentena esteja em linha com o mundo. Ciência para que, não é?
O replicante
16/04/2020O embate entre Jair Bolsonaro e Luiz Henrique Mandetta parece mimetizar a conflitante relação entre Donald Trump e o imunologista Anthony Fauci, médico conselheiro da Casa Branca. Fauci tem sido um defensor ferrenho do isolamento social, além de um crítico ao uso indiscriminado da hidroxicloroquina no tratamento de infectados com o coronavírus. Nos últimos dias, Trump chegou a retuitar nas redes sociais mensagens de apoio à demissão do cientista.
Os “coronafilhos” alertas e vigilantes
6/04/2020O deputado Eduardo Bolsonaro tem insistido com o pai para que o libere em uma ação diplomática junto aos Estados Unidos. A proposta é costurar um encontro com o governo norte-americano em Brasília. Os assuntos a serem tratados seriam uma colaboração entre os países para o combate da pandemia do novo coronavírus e soerguimento da economia. O verdadeiro objetivo, já que ninguém acredita na efetividade dessa troca de apoios, é reafirmar o alinhamento entre as duas nações.
Eduardo seria o embaixador excepcional do Brasil. O chanceler Eugênio Araújo permaneceria dormitando no Ministério das Relações Exteriores. Antes que alguém imagine o envolvimento direto de Donald Trump nessa história, o convite seria feito a uma autoridade do Departamento de Estado norte-americano. Quem vier, é jogo. Ainda com relação ao “03”, Eduardo fala permanentemente com Olavo de Carvalho, pedindo sugestões e prestando contas das estratégias do Palácio do Planalto.
Bolsonaro, seja lá por qual protocolo informal ou acordo feito com o filho, não conversa com o guru. É informado diretamente pelo caçula sobre as reflexões e dicas do Rasputin da Virgínia. Por essas e por outras, pode se dizer que Olavo está confinado virtualmente no epicentro do governo. É um ministro sem pasta, que responde unicamente ao filho do presidente. O ódio não tem, nem terá fim. O
presidente Jair Bolsonaro não aceita pressão para que o filho Carlos, o “02”, seja deslocado do Planalto, onde encontra-se lotado por sua própria vontade.
Carlos comanda um grupo de operadores de internet, chamado de “gabinete do ódio”. É quem está por trás das campanhas mais pestilentas destiladas nas redes sociais contra os adversários de Bolsonaro. O ministro chefe do GSI, general Augusto Heleno, considerado o “militar do Planalto” com maior influência sobre o presidente, tentou apeá-lo do Palácio pelo menos duas vezes. Em ambas, ouviu defesa radical da atual importância de “02” e da sua lealdade absoluta. Para quem não lembra, a influência de “Carluxo” pode ser medida pela presença no Rolls Royce que levou Bolsonaro ao Planalto, na posse do presidente.
Não há precedente para tamanha manifestação de prestígio. O filho Flavio Bolsonaro, o “01”, tem passado os seus dias bastante dividido. Flávio é o mais apavorado com a pandemia e, ao contrário do pai, não dá apertos de mão ou entabula conversas a menos de um metro de distância. Se, por um lado, o coronavírus lhe causa pavor, por outro colabora para esfriar os seus rolos no Judiciário. Flávio ganha tempo e acredita que a sociedade não voltará a ser a mesma depois que a epidemia passar. O senador quer ficar recluso um bom tempo ainda. É distanciamento social do STF, do Legislativo, Polícia Federal etc. Melhor em casa do que na prisão.
Figuração
13/03/2020O ministro Ernesto Araújo e o novo embaixador brasileiro em Washington, Nestor Forster, fizeram apenas backing vocal no encontro
entre Jair Bolsonaro e Donald Trump no último fim de semana. Só para não variar, os diplomatas foram eclipsados pelo “chanceler” Eduardo Bolsonaro.
À espera da OCDE
28/02/2020Informação de fonte do Itamaraty: a primeira missão da OCDE para avaliar o ingresso do Brasil desembarcará no país em abril. Vem para produzir um diagnóstico sobre a política de direitos humanos e de meio ambiente do governo Bolsonaro. Por ora, é tudo meio jogo de cena. Enquanto Trump não der o sinal – se é que vai dar -, o Brasil continuará enxergando a OCDE de binóculos.
O novo e o velho Itamaraty
30/01/2020A recente deportação de 80 brasileiros que viviam nos Estados Unidos, sem qualquer reação contrária do governo Bolsonaro, remete a um episódio similar na gestão Lula. Em 2008, após duras negociações diplomáticas, o então presidente conseguiu impedir que os norte-americanos despachassem um grupo de cidadãos brasileiros. Segundo relato de um ex-ministro de Lula ao RR, o nível de tensão, à época, chegou a tal ponto que o petista informou ao então presidente George W. Bush que não autorizaria o sobrevoo da aeronave dos Estados Unidos em território nacional. A Casa Branca, então, recuou. Os ventos mudaram de direção. Na gestão Bolsonaro, esta foi a segunda vez em que o país aceitou receber um avião fretado pelo governo Trump trazendo brasileiros deportados.
O presidente e o ídolo
14/01/2020O Itamaraty solicitou, mas a Casa Branca ainda não respondeu ao pedido de um novo encontro entre Jair Bolsonaro e Donald Trump no fim de fevereiro. O Capitão vai aos Estados Unidos para reuniões com investidores, notadamente do setor de energia. Mas o que ele quer mesmo é mais um aperto de mão com Trump.
Diálogo de mão única
12/12/2019A cúpula do Instituto Aço Brasil está colérica com o silêncio do governo Bolsonaro diante das barreiras ao aço brasileiro anunciadas por Donald Trump. As seguidas consultas ao Ministério da Economia e ao Itamaraty sobre o assunto encontram apenas o silêncio. Os siderurgistas estão saudosos de quando a interlocução se dava com o vicepresidente Hamilton Mourão.
Usineiros tentam erguer uma barricada contra etanol de Trump
27/09/2019Escancarar de vez as portas para o etanol norte-americano ou atender aos apelos da indústria sucroalcooleira nacional, com as insondáveis consequências de um raríssimo “não” a Donald Trump? Com a palavra, o governo Bolsonaro, em especial o virtual embaixador brasileiro em Washington, Eduardo Bolsonaro. Grandes usineiros do país têm buscado uma interlocução mais próxima com o “03” na tentativa de conter o avanço do combustível norte-americano no mercado brasileiro. Reunidos sobre a égide da Única, empresários do setor vêm municiando Eduardo com estudos que apontam para o risco de uma nova quebradeira de usinas e demissões em massa caso o governo brasileiro faça ainda mais concessões ao etanol produzido nos Estados Unidos, sobretudo nas condições de baixa reciprocidade colocadas sobre à mesa.
Há pouco mais de um mês, o governo Bolsonaro cedeu algumas jardas. Ampliou a cota a que os Estados Unidos têm direito sem cobrança do tributo de 20%. O teto para a venda de etanol ao Brasil isento de tarifa subiu dos 600 milhões, limite fixado no governo Temer, para 750 milhões por ano. A nova cota corresponde a mais de 60% do total de exportações norte-americanas para o Brasil, em torno de 1,2 bilhão de litros por ano. O Tio Sam, como de hábito, quer mais.
Os Estados Unidos têm feito crescente pressão para garantir plena isenção alfandegária, como era até 2017. A julgar pelo poder de persuasão de Trump sobre os Bolsonaro, esta se anuncia como uma batalha perdida para os usineiros. Para a indústria sucroalcooleira nacional, a única contrapartida razoavelmente palatável à perda de mercado local para o etanol norte-americano seria a possibilidade de aumentar as vendas de açúcar aos Estados Unidos. Para isso, no entanto, é necessário que Trump aceite reduzir as draconianas barreiras tributárias para a entrada do produto brasileiro no país.
Hoje, a tonelada do açúcar fabricado no Brasil chega aos Estados Unidos em torno de US$ 270. Mas cada tonelada que supera a cota anual a que o Brasil tem direito é sobretaxada em US$ 339. Não há qualquer sinal de que Trump esteja disposto a baixar esse sarrafo . Segundo fonte do Palácio do Planalto, os norte-americanos acenam com um “troco” de duvidosa valia para o Brasil: investimentos de grandes grupos norte-americanos para fomentar a produção de etanol de milho em território brasileiro. Para a indústria sucroalcooleira, a proposta não passa de um cavalo de troia dentro do cavalo de troia, uma vez que estas empresas também chegariam para deslocar mercado das usinas nacionais.
Capítulo automotivo
12/09/2019Na troca de interesses entre Donald Trump e Eduardo Bolsonaro há um capítulo automotivo.
Menos médicos
23/08/2019Jair Bolsonaro e Donald Trump têm mais um ponto de afinidade: Brasil e Estados Unidos são os dois maiores “caloteiros” da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS). O governo brasileiro já deve cerca de US$ 25 milhões ao coletivo multilateral. A dívida dos EUA, por sua vez, soma mais de US$ 100 milhões. Com carência de recursos, a entidade, que reúne 35 países, sangra. Segundo uma fonte da própria OPAS, a direção da instituição já discute a demissão de três mil dos mais de dez mil contratados da área médica. No Brasil, um dos órgãos mais afetados deverá ser o Centro Latino-Americano de Informações em Ciências da Saúde (Bireme), em São Paulo.
Subsolo brasileiro será a moeda de troca do embaixador Eduardo Bolsonaro
5/08/2019Uma missão prioritária está reservada para Eduardo Bolsonaro, futuro Embaixador em Washington e chanceler in pectore do governo Bolsonaro. Caberá ao “03” colocar em marcha uma política de troca de recursos minerais estratégicos por acordos comerciais bilaterais. O projeto nasce da premissa de que o Brasil não tem outra moeda de negociação com o mundo: o subsolo é o único grande ativo que sobrou para ser colocado sobre o tabuleiro das relações internacionais. A ideia explica a ênfase com que Bolsonaro tem se referido à abertura de reservas indígenas e de áreas de proteção ambiental para investidores privados, assim como sua insistência em nomear Eduardo para a Embaixada do Brasil em Washington.
Os Estados Unidos despontam como parceiros preferenciais. Para além da relação de proximidade ideológica entre Donald Trump e Bolsonaro, razões de ordem geoeconômica empurram os norte americanos para o negócio. O governo Trump teria todo o interesse de reduzir o espaço para a entrada dos chineses na extração de minerais estratégicos no Brasil. À exceção de minério de ferro, manganês, nióbio e cobre, abundantes nestas terras, um acordo com o Brasil faria da China um monopsônio das importações dos demais minerais do país. Ela poderia se tornar o único ou, ao menos, o principal comprador, transformando as reservas nacionais em enclaves orientais em solo brasileiro. Seria uma guerra fria polimetálica se o Tio Sam já não fosse o eleito.
No que depender das motivações de parte a parte, a Amazônia tem tudo para virar uma espécie de 51º segundo estado norte-americano. O projeto envolveria dois grandes perímetros territoriais da Região Amazônica: a Reserva Nacional do Cobre (Renca) e a Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Jair Bolsonaro quer dar sequência ao que Michel Temer ensaiou, mas não fez, notadamente no caso da Renca. Em agosto de 2017, Temer assinou decreto extinguindo a Renca e liberando a área para a exploração privada. Um mês depois, diante da pressão que sofreu, revogou a decisão. Guardadas as devidas proporções, a Reserva Nacional do Cobre é uma espécie de pré-sal da mineração. Trata-se de uma próspera província metalogenética.
No subsolo de seus mais de 46 mil quilômetros quadrados espalhados pelo Pará e Amapá, repousam, além do metal que lhe dá nome, ouro, titânio, fósforo, estanho, tântalo e grafita, segundo dados da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM). Há ainda registros de bauxita, manganês e diamante. A Reserva Raposa Serra do Sol, por sua vez, ocupa uma extensão de 17 mil quilômetros em Roraima. O governo Bolsonaro oferecerá aos investidores internacionais, de acordo com estudos da CPRM, seu subsolo cravejado de diamante e ouro. Nesse grande projeto de entrada de investidores internacionais nos “santuários” minerais do Brasil, ficariam faltando apenas os nódulos polimetálicos. São depósitos de minerais no fundo do oceano.
A costa brasileira está cheia deles. O maior e mais cobiçado é a Elevação do Rio Grande, na altura do Rio Grande do Sul. Essa Atlântida multimineral está localizada além das 200 milhas náuticas. Mas existe uma possibilidade do país ampliar seu mar territorial caso fique comprovado que a área é uma extensão geológica de terras brasileiras quando da separação da América do Sul da África.O governo já solicitou permissão à Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos para fazer pesquisas no local. É mais fácil dizer o que não há naquelas profundezas. Já foram comprovadas as presenças de cobalto, níquel, cobre e manganês, além de zincônio, tântalo, telúrio, tungstênio, nióbio, tório, bismuto, platina, cério, európio, molibdênio e lítio. Vão para o portfólio com que Eduardo Bolsonaro correrá o mundo.
Que Guedes é esse?
29/07/2019Intrigante a forma como a Amcham Brasil está promovendo a palestra do secretário de Comércio Exterior dos EUA, Wilber Ross, amanhã, em São Paulo. Ele é chamado pela Câmara de “Paulo Guedes do governo Trump”. Longe disso. Ross tem sido criticado por Trump e está com a cabeça a prêmio.
Política interna será o termômetro para o “Itamaraty de Jair Bolsonaro”
18/12/2018O incomum desconvite aos chefes de estado e de governo de Cuba e da Venezuela para a posse de Jair Bolsonaro foi uma decisão de fora para dentro do Itamaraty. Não houve qualquer tipo de recomendação do ministério das Relações Exteriores nessa direção; nem agora, nem em nenhum momento anterior. A medida partiu do próprio núcleo duro de Bolsonaro e, mais do que qualquer outro significado no âmbito internacional, teve como objetivo principal atender as bases eleitorais domésticas. Com a decisão, o presidente eleito corrobora o discurso de campanha e avança no processo de “vilanização” dos governos socialistas dos dois países. Trata-se de um gesto que pode ser interpretado, desde já, como uma avant première da condução da área de Relações Exteriores no governo Bolsonaro.
Mesmo antes de Ernesto Araújo assumir o Ministério, a linha já está sendo ditada e imposta ao Itamaraty: tudo leva a crer que a política externa brasileira será, em grande parte, indexada e condicionada à política interna. A partir deste entendimento de que as relações internacionais do Brasil serão guiadas com um olho na opinião pública, já existem preocupações no corpo diplomático do Itamaraty quanto aos possíveis desdobramentos desse primeiro movimento de agravo a Cuba e Venezuela. Não são pequenas as chances de que a medida descambe para atos ainda mais contundentes como a retirada do embaixador brasileiro de Havana e Caracas ou, em um caso mais extremo, no rompimento das relações diplomáticas com os dois países.
Ressalte-se que a eventual ruptura diplomática não precisaria ser automaticamente acompanhada de um rompimento das relações comerciais, não obstante os dois países terem participação pouco relevante na balança brasileira. Há antecedentes nesta direção na própria história brasileira. Durante o governo de Juscelino Kubitschek, mais precisamente em 1958, o Brasil retomou os negócios com a União Soviética embora o Senado tenha vetado o reatamento das relações diplomáticas com o país, suspensas em 1947 pelo então presidente Eurico Gaspar Dutra. Em um primeiro momento, o atípico movimento em relação a Venezuela e Cuba poderia soar como uma espécie de oferenda ao governo Trump, um ponto de alinhamento extremo à política diplomática norte-americana.
Não que inexistam sinais nesta direção. Muito pelo contrário. Mas, segundo informações auscultadas do próprio Itamaraty, eles não passam pelos dois países latino americanos. Basta lembrar que representações diplomáticas de ambas as nações socialistas estiveram presentes à própria posse de Trump, em janeiro de 2017. O governo de Donald Trump certamente veria com bons olhos sinais de distanciamento do Brasil em relação ao Irã, que tem sido alvo de seguidas e pesadas sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos.
Do ponto de vista pragmático, no entanto, trata-se de um afago mais custoso de ser feito pela gestão Bolsonaro. O Brasil tem um superávit comercial alto com os iranianos. Entre janeiro e setembro deste ano, por exemplo o saldo foi de aproximadamente US$ 4,5 bilhões, impulsionado, sobretudo, pelo aumento de mais de 520% nas exportações de milho. No mesmo período, este número só foi superado pelo superávit com a China (US$ 20 bilhões). Em outro front, existe a já notória questão de Israel. Tudo indica que Jair Bolsonaro cumprirá a promessa de transferir a Embaixada brasileira de Tel-Aviv para Jerusalém, seguindo os passos do governo Trump. Um gesto ainda mais bem-visto pelos Estados Unidos seria o reconhecimento pelo Brasil da cidade santa como a capital de Israel, algo que dependeria de um ato executivo da Presidência da República.
ESPECIAL – Christian Lynch, jurista e cientista político – Jair Bolsonaro: candidato a “Trumputin”
9/10/2018Ouço sempre comparações entre Jair Bolsonaro e Donald Trump. Não gosto muito desse tipo de análise porque presume que o que acontece na vida política brasileira é mero eco do que chega lá de fora, quando na verdade o que há é uma interação com o que existe de preexistente na cultura política brasileira. Aqui dentro, há uma tradição de conservadorismo estatista em versão militar, que, pela doutrina do “cidadão fardado”, atribui ao Exército a função de guardião da República em última instância, diante da ameaça da “anarquia”, especialmente a comunista.
Essa ideologia está aqui misturada com o culturalismo (a cultura brasileira é cristã e conservadora; liberalismo e socialismo são ideologias “alienígenas”) e, pela primeira vez, com o “liberalismo judiciarista” e o liberalismo de mercado. É a mesma coalizão em torno de Carlos Lacerda que derrubou Jango em 1964. Por tudo isso, acho que a melhor comparação em termos do que acontece lá fora não é com Trump, mas com Vladimir Putin.
Ambos ex-agentes e símbolos de um antigo regime autoritário e militarista, percebido depois idilicamente como uma época de ordem e paz desfeita pela anarquia liberal e pela corrupção. São símbolos patrióticos “restauradores”, que poderão governar “democraticamente” através da exploração de um populismo de direita auxiliado pela burocracia do Estado, na forma de um “Estado forte de direito” (seja lá o que isso signifique). Por outro lado, tendo em vista nosso notório gosto por macaquear os irmãos do Norte, o Brasil oferece uma alternativa média: nem Trump, nem Putin: Bolsonaro é candidato a ser o nosso “Trumputin”.
O pato manco e a águia doida
19/09/2018O Itamaraty ainda tenta confirmar um encontro reservado entre Michel Temer e Donald Trump no próximo fim de semana, quando o presidente brasileiro estará em Nova York para participar da assembleia geral da ONU. Por ora, no entanto, não tem encontrado reciprocidade da parte da diplomacia norte-americana.
Google se arma contra a eleição do fake news
5/04/2018O escândalo do vazamento e do uso de dados do Facebook na campanha de Donald Trump acendeu todos os sinais de alerta no Google. O site de buscas vai adotar políticas rigorosas nas eleições brasileiras, que servirão de laboratório para operações da empresa em outros países. Segundo o RR apurou, parte do cardápio de medidas profiláticas foi apresentada por executivos do Google Brasil ao então presidente do TSE, Gilmar Mendes, em reunião no fim de janeiro. A venda de mailings e informações de usuários para terceiros está fora de questão – foi nessa que Mark Zuckerberg mergulhou na maior crise da história do Facebook. O Google vai testar um novo sistema para brecar a proliferação de fake news, com base na ferramenta conhecida como “Snippsets”. A empresa pretende também trazer para o Brasil um modelo similar ao First Draft, desenvolvido nos Estados Unidos em parceria com a Harvard Kennedy School, que combina mecanismos de checagem de informações e de rastreamento de notícias falsas nas redes sociais. O site vai ainda restringir a comercialização de anúncios políticos por meio da ferramenta Google Adwords, na tentativa de evitar a associação de nomes de candidatos a determinadas palavras chave, notadamente aquelas que claramente ataquem a imagem de adversários.
Trump dá uma nova direção à Gerdau
15/03/2018A Gerdau está reavaliando o processo de venda de ativos nos Estados Unidos na esteira da decisão do governo Trump de taxar o aço importado. Segundo o RR apurou, negociações já em andamento para a transferência de duas usinas, uma no Michigan e a outra no Tennessee, foram colocadas em banho-maria. A medida restritiva do governo norte-americano trouxe um novo cenário para a Gerdau, com mais benefícios do que perdas. As exportações das suas usinas brasileiras para os Estados Unidos são residuais, em torno de cem mil toneladas ano. Por sua vez, a subsidiária norte-americana responde por mais de 40% das receitas da companhia. Em relatório divulgado na semana passada, o BTG estima um aumento no Ebitda do grupo de até 18% em razão da barreira alfandegária. Ou seja: os ativos na América ganharam mais valor, nem que seja, por puro pragmatismo dos Gerdau, para serem vendidos mais à frente a preços melhores.
Questão delicada
11/12/2017A bancada evangélica ficou atiçada com a decisão de Donald Trump de transferir a Embaixada norte-americana para Jerusalém. Não é de hoje que os parlamentares da fé reivindicam ao Itamaraty que o Brasil tenha uma representação diplomática na Cidade-Santa. Com o controverso movimento dos Estados Unidos, o lobby deve ganhar ainda mais fervor.
Mexicano GAP tira seu bilhete para as licitações do PPI
8/02/2017O Grupo Aeroportuario del Pacífico(GAP) está aterrissando no Brasil em busca de uma espécie de seguro para a “Era Trump”. A companhia mexicana vai disputar o leilão de licenças aeroportuárias previsto para março. Deverá chegar de braços dados com um grande operador europeu do setor já presente no país.
Segundo o RR apurou, representantes do GAP estiveram reunidos recentemente com o agora ministro Moreira Franco, controlador de voo das PPIs. Os “destinos” preferidos dos mexicanos são os terminais de Salvador e de Porto Alegre – também estão sobre o balcão as licenças de Fortaleza e Florianópolis. A aposta do GAP no Brasil é um hedge à perda de altitude do mercado aeroportuário no México, que deverá se acentuar com as restrições econômicas e as barreiras imigratórias impostas por Donald Trump.
Em 2016, o fluxo de passageiros no país cresceu 13%. Para este ano, a estimativa é que a taxa chegue a 9%, caindo para perto de 5% até 2020. Hoje, o GAP está inteiramente indexada aos altos e, neste momento, baixos da economia mexicana. Todas as 12 concessões sob o seu guarda chuva estão localizadas no país, com destaque para as duas maiores: os aeroportos de Guadalajara e Tijuana.
Lemann vs. Trump
2/02/2017Jorge Paulo Lemann não está entendendo nada, ou está entendendo tudo. A decisão da Budweiser de exibir um comercial exaltando a imigração no intervalo do Superbowl, no próximo domingo, associada ao seu passado recente de demissões em massa nos Estados Unidos faz o empresário colidir de frente com Donald Trump. Lemann é um destruidor de empregos, mas, vai ver, enxergou alguma vantagem nessa súbita aparição como democrata radical”.
Um Delfim para cada ocasião
19/12/2016O ex-ministro Delfim Neto hoje critica duramente os métodos do big stick de Donald Trump para despertar o espírito animal dos empresários. Delfim meteu o malho na bravata de Trump – o futuro presidente norte-americano disse que ligaria para cada um dos empresários que estivesse ameaçando deixar o país e produzir desemprego, resolvendo o assunto no grito.
No entanto, nos idos do regime militar, o então ministro usava de um procedimento similar e ainda se gabava disso. Dizia que bastava juntar os grandalhões em uma mesma sala e anunciar o que ganhariam e o que perderiam se caminhassem “contra o interesse nacional”. O “gordo” costuma rebater quem o acusa de incoerência citando Ortega y Gasset: “O homem é o homem e suas circunstâncias”. Delfim parece ter vivido mais circunstâncias do que a maioria dos homens públicos.
Trump não é Reagan. Pena!
9/12/2016O diretor do Centro de Estudos FGV – Crescimento e Desenvolvimento, Roberto Castello Branco, bateu um papinho rápido com o RR sobre a “Trumpmania”. Ele colocou no lugar certo as elucubrações que o RR insistia em fazer sobre pontos em comum entre Donald Trump e Ronald Reagan. São palavras do economista:
“Reagan, antes de ser presidente, foi governador da Califórnia por oito anos, onde fez uma boa gestão. Apesar de muito firme em suas ideias, era um conciliador. A evidência disso é que atraia simpatizantes do Partido Democrata. Uma arma para ganhar eleições se constituía nos chamados ‘Reagan Democrats’.
Trump, por sua vez, não tem qualquer experiência política ou na gestão pública. Mesmo sua trajetória como homem de negócios é no mínimo controvertida e, como sabemos, desperta ódio até mesmo no Partido Republicano. Trump é protecionista; Reagan era a favor do livre comércio. Quando Reagan e Gorbachev se encontraram pela primeira vez, Reagan chamou o russo para um bate papo informal. Disse que ambos haviam nascido em cidadezinhas cujos nomes não se sabia e que, na juventude, ninguém daria nada pelos dois. No entanto, naquele instante estavam ali como homens com poder para destruir o mundo. Então, propôs Reagan, era hora de ambos voltarem a serem homens simples e chegarem a um acordo razoável para seus países.
Faço essas miúdas reflexões, relembrando o almoço de que participei em 1990 no The Plaza, em Nova York, com a presença de Fernando Collor e Trump. Ele já era um empresário famoso, mas nunca pensei que fosse dar tanto o que falar…”
Mr. Dados
28/11/2016Eike Batista pretende estrear como dono de cassino no Brasil trazendo um grupo sul-coreano a tiracolo. Kid Megalô Batista vem dizendo que, se Donald Trump tivesse perdido a eleição, chamaria o magnata para ser seu sócio. Mr. Batista aposta um outro Grupo EBX como a lei que libera o jogo será aprovada.
Uma tradução diferente do governo Trump
22/11/2016Nem tudo que vem de Mario Garnero merece crédito. Mas se há um assunto que ele domina com autoridade é geopolítica, especialmente a norte-americana. O empresário brasileiro com mais acesso a ex-presidentes dos Estados Unidos joga água fria nas previsões catastróficas que pululam no mercado a reboque da eleição de Donald Trump. Para Garnero, o candidato das promessas polêmicas dará lugar a um presidente pragmático, um caçador de resultados. Diferentemente do que muitos pregam, o empresário não espera mudanças substanciais nas relações econômicas com os Estados Unidos. Ele acredita que a manutenção e até mesmo a expansão dos acordos comerciais entre os dois países dependerá mais da solução da grave crise econômica brasileira do que de questões exógenas.
Mario Garnero tem especial habilidade em psicografar governos republicanos. Coincidência ou não, seus principais relacionamentos políticos e empresariais na América se aninham no partido, um naipe que vai de George Schultz, ex-secretário de Estado e do Tesouro, a Ronald Reagan e, sobretudo, o clã dos Bush – houve um tempo em que George Bush era figurinha carimbada dos convescotes empresariais que a Brasilinvest, de Garnero, costuma organizar mundo afora. Acredite quem quiser: foi ele que fez a aproximação do governo Lula com George W. Bush a pedido de José Dirceu. Garnero também tocava de ouvido com o vice-presidente Dick Cheney. Não se pode, portanto, desprezar seu feeling em relação à política externa do novo governo norte-americano. Garnero aposta suas fichas que Trump não adotará medidas excessivamente protecionistas capazes de causar estrago no tabuleiro do comércio internacional. Em outras palavras: candidato é candidato e presidente é presidente. Até parece que fala em nome do departamento de estado norte-americano.
Cenário “urubulino”
17/11/2016• ? Donald Trump deixou o ambiente sob medida para os analistas “urubulinos”. Um hiper festejado gestor de fundo, que já foi tido como Midas do mercado, coloca entre as suas apostas uma boa probabilidade do BC paralisar a queda da taxa de juros em uma Selic de 14% e voltar a vender carradas de swaps cambiais. O sinal para esses dois movimentos é o dólar disparar em direção aos R$ 4,00. É ruim para o fiscal, para a inflação e para a atividade econômica. Mas, do jeito que o tal gestor do fundo mega rentável tem “acertado” nos últimos tempos, dificilmente esse cenário “urubulino” se confirmará.
Trump é um sobrenome maldito na contabilidade do Serpros
11/11/2016Para os mais de 25 mil funcionários e aposentados do Serpro, a empresa de processamento de dados do governo federal, o sobrenome Trump é sinônimo de escândalos, farto noticiário policial e, na última linha, prejuízos. Sob intervenção da Previc, o Serpros, fundo de pensão da estatal, deverá lançar no balanço deste ano uma provisão de aproximadamente R$ 40 milhões. A cifra equivale a pouco mais da metade do aporte de R$ 77 milhões feito pela entidade no FIP LSH, fundo constituído para financiar a construção do Trump Rio de Janeiro – hotel localizado na Barra da Tijuca, no Rio. A participa- ção do Serpros no negócio é investigada no âmbito da Operação Greenfield. O Ministério Público Federal tem fortes indícios de que o projeto foi superfaturado e parte dos recursos desembolsados pela fundação foi desviada para o pagamento de propinas. O projeto nasceu de uma parceria entre uma empresa carioca chamada LSH Barra Empreendimentos Imobiliários e a The Trump Organization, grupo do futuro presidente norte-americano – mais do que um sobrenome uma marca que cobra alto para batizar ativos de real estate mundo afora. Procurado pelo RR, o Serpros não se pronunciou. A trajetória recente do Serpros é repleta de solavancos. Esta é a segunda vez em pouco mais de um ano que a Previc decreta intervenção no Serpros. A primeira se deu em maio do ano passado, quando o órgão regulador bloqueou os bens de 17 ex-executivos da fundação. Há cerca de cinco meses, em meio a suspeitas de irregularidades, Claudio Albuquerque Nascimento renunciou à presidência. No caso específico do aporte no FIP LSH, a provisão no balanço é vista no próprio Serpros apenas como uma mera formalidade, um rito de passagem para o inevitável: o write off de pelo menos metade do valor investido. Para se ter uma ideia do peso da operação, basta dizer que, individualmente, o aporte no Trump Rio de Janeiro é o hoje o segundo maior investimento em participações na carteira do fundo de pensão – o total de ativos é de R$ 5,1 bilhões. Trata-se de mais uma conta que os beneficiários da fundação serão chamados a pagar devido às estripulias cometidas pelas últimas gestões da entidade.
Todos os homens do presidente Trump
10/11/2016A eleição de Donald Trump já pertence aos livros de história. A partir da agora, a pergunta é outra: quais serão os homens mais poderosos do mais poderoso dos homens? Blogs norte-americanos, como o Politico.com, já começam a montar o quebra-cabeças do futuro secretariado. Alguns nomes são tratados como pule de dez; outros como fortes probabilidades, sempre com as devidas ressalvas – não custa lembrar que o próprio Trump, há poucos dias, tinha 30% de chance de ser eleito. As maiores expectativas se concentram na escolha dos secretários de Estado e de Defesa. No primeiro caso, o mais cotado é o ex-presidente da Câmara dos Representantes, Newt Gingrich. Em comum com Trump, o estilo agressivo e o gosto por declarações polêmicas. No ano passado, disse que a ONU é um órgão ineficiente e corrupto. Outro postulante é o presidente do Comitê das Relações Exteriores do Senado, Bob Corker. Para a Defesa, as apostas recaem sobre o senador Jeff Sessions, ex-conselheiro para a segurança nacional, e o ex-senador Jim Talent. A Secretaria do Tesouro deverá manter a tradição, especialmente entre os republicanos, da porta giratória entre o mercado financeiro e Washington. O favorito é o diretor financeiro da campanha de Trump, Steven Mnuchin, que passou pela Goldman Sachs e recentemente comandava a Dune Capital Management. Para o posto de secretário do Interior, o mais cotado também vem da iniciativa privada: Forrest Lucas, fundador da petrolífera Lucas Oil. Corre por fora Robert Grady, ex-oficial da Casa Branca no governo George Bush. Para a nevrálgica Secretaria de Comércio, quem é apontado como principal candidato é Wilbur Ross, que guarda alguma familiaridade com o discurso de Trump de proteção às corporações nacionais e de recuperação de empregos. Investidor agressivo, conhecido por aquisições alavancadas de empresas em dificuldade, Ross tem um longo histórico de reestruturações corporativas. Uma personagem cercada de polêmica, bem ao estilo Trump, é Myron Bell, cotada para o comando da Agência de Proteção do Ambiente. Bell é conhecida por ruborizar os verdes. Já insinuou que o aquecimento global é uma fraude da União Europeia para prejudicar a economia norte-americana. Outra peça controversa é Boris Epshteyn, um jovem de 34 anos. Nos Estados Unidos não há muita clareza de que função ele poderá ocupar, embora sua influência no futuro governo independa de cargo. Republicano de carteirinha, banqueiro e advogado, foi um dos estrategistas políticos da campanha de Trump. Como o nome sugere, Boris nasceu na antiga União Soviética e vive nos Estados Unidos desde os 11 anos. Um de seus ativos é a boa relação com o Kremlin. Organiza um evento chamado “Invista em Moscou”, um convescote por onde circulam empresas russas e norte-americanas. Há dois anos, foi preso acusado de agressão em um bar de Scottsdale, no Arizona. Não há registro se bebia um bourbon ou vodka.
Política
Donos da bola
18/05/2016Um grupo de investidores de Nova York ligados ao candidato republicano Donald Trump tem circulado pelos gramados tupiniquins. Em jogo o interesse de associar a um grande clube brasileiro. Recentemente, estes mesmos investidores tentaram, sem sucesso, comprar o San Lorenzo, de Buenos Aires, e o Atlético Nacional de Medellín.
Búlgaros tiram Trump Towers da prancheta
9/04/2015Depois de muitas idas e vindas, tudo indica que o Trump Towers, um dos maiores projetos imobiliários do Rio de Janeiro, enfim, vai sair do chão. Ao contrário do que o nome possa sugerir, a solução não passa pelo magnata Donald Trump, um dos idealizadores das torres comerciais na região do Porto Maravilha. A argamassa que dará liga ao empreendimento vem da Bulgária, terra dos Rousseff. A MRP International, companhia de investimentos imobiliários com sede em Sofia, será a responsável pela construção dos cinco prédios de escritórios orçados em R$ 5 bilhões. O nome original, Trump Towers, será mantido, mais pelo apelo comercial do que por qualquer participação do investidor norte-americano. Donald Trump não passará nem na porta dos edifícios. Apenas sublocará, digamos assim, seu sobrenome para a marca fantasia do empreendimento. Os parceiros da MRP serão a construtora paulista Even e a inglesa Salamanca Group.
“Trump Towers” balançam antes mesmo de sair do chão
10/04/2014Um a um, todos os projetos imobiliários de Donald Trump no Brasil têm virado ruína sem sequer sair do papel. O exibido personagem nunca desmorona sozinho; a cada fracasso, leva consigo uma fieira de parceiros. Que o digam a construtora paulista Even, a espanhola Salamanca Group e a incorporadora búlgara MRP International. O trio está tentando sair dos escombros e salvar o projeto de construção de cinco torres comerciais na Avenida Francisco Bicalho, próximas a região portuária do Rio de Janeiro. Na semana passada, Trump teria comunicado aos sócios sua saída do negócio, colocando em risco a continuidade do projeto. O investidor norte-americano era o principal fiador do empreendimento, orçado em R$ 2 bilhões. Dizia, inclusive, estar trazendo para o projeto um grande fundo de pensão dos Estados Unidos. Even, Salamanca Group e MRP já saíram em busca de um novo parceiro capaz de garantir a construção dos cinco edifícios – por ironia, batizados de “Trump Towers”. Correm contra o relógio: o início das obras estava originalmente previsto para o segundo semestre deste ano. A desistência de Donald Trump é fator de apreensão para os próprios investidores do mercado imobiliário. No setor, há um receio de que um eventual cancelamento do projeto cause um efeito dominó, desestimulando outros investimentos programados para a região. O Porto Maravilha, área que passa por um grande processo de reurbanização a reboque dos Jogos Olímpicos de 2016, concentra alguns dos maiores empreendimentos imobiliários em andamento no Rio. Even, Salamanca Group e MRP tentam escapar do obituário de parcerias que acompanha as frustradas investidas de Donald Trump no Brasil. Entre outros investidores, figuram nesta lista a família Depieri, uma das acionistas do laboratório Aché, e os Meyerfreund, antigos controladores da fabricante de chocolates Garoto. No início da década passada, ambos embarcaram em projetos capitaneados por Trump no Brasil, acreditando estar a bordo de um transatlântico. Quando deram por si, eram passageiros de uma canoa furada. a€ época, foram sócios da Trump Realty Brazil, criada em 2003 e pouco depois desativada. Entre os fracassos do magnata norte-americano no país, o mais retumbante foi o Villa Trump – o Narciso do real estate só acha bonito o que leva o seu nome. O projeto previa a construção de um condomínio de luxo em Itatiba (SP), ao custo de US$ 100 milhões. Os 500 lotes, cada um com cinco mil metros quadrados, o hotel de luxo e o campo de golfe assinado pelo ex-jogador norte-americano Jack Niklaus – uma das lendas da modalidade – nunca saíram da maquete.
Acervo RR
Trump in Rio
21/08/2013Donald Trump, que já espalhou muita espuma e pouco concreto no Brasil, estaria comprando dois grandes terrenos na Zona Portuária do Rio. Trump, ressalte-se, já anunciou um grande empreendimento imobiliário na área do Porto Maravilha.