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20.08.21

Um teste nada doce para a política externa brasileira

O governo Bolsonaro vem tentando reabrir conversações com a diplomacia norte-americana em torno das cotas de importação do açúcar brasileiro. Este é um pleito crônico dos usineiros. As tratativas giram basicamente em torno de um “toma lá dá cá” sucroalcooleiro: o Brasil se dispõe a aumentar os limites para a compra de etanol produzido nos Estados Unidos em troca de redução das barreiras à entrada de açúcar no mercado norte-americano. A conversa é difícil. Ressalte-se que nem com o “aliado” Donald Trump na Casa Branca o governo brasileiro conseguiu quebrar esse muro. Consultado, o Ministério das Relações Exteriores não se manifestou.

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19.08.21

Paraguai parte para o ataque

O Paraguai vai subir o tom em relação à cobrança de uma suposta dívida de US$ 4,1 bilhões de Itaipu Binacional – ver RR de 4 de agosto. Segundo informação que chegou ao Ministério das Relações Exteriores, políticos e entidades sindicais paraguaias estão organizando uma manifestação em frente à Embaixada brasileira em Assunção para amanhã. O protesto teria o endosso do próprio governo do presidente Mario Abdo Benítez. Consultado, o Ministério informou ter ciência da manifestação e disse estar em “contato com as autoridades do estado paraguaio para assegurar a proteção de seu pessoal e de suas instalações”.

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O mérito da iniciativa é indiscutível, mas a decisão do governo Bolsonaro de doar oito mil toneladas de arroz para o Líbano e Moçambique vai custar mais do que o previsto. Segundo o RR apurou, a Agência Brasileira de Cooperação (ABC), vinculada ao Ministério das Relações Exteriores, terá de arcar com o transporte marítimo do produto. O curioso é que ações humanitárias desta natureza costumam ser bancadas pelo Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas. Não dessa vez. Vai ver, foi a forma encontrada pela ONU para abater alguns grãos dos mais de US$ 300 milhões que o governo brasileiro lhe deve. Trata-se de mais um caroço nas relações entre o organismo multilateral e o governo Bolsonaro. Em setembro do ano passado, por exemplo, o relator especial da ONU, Baskut Tunkat, pediu a abertura de uma investigação contra o Brasil por conta do desmatamento da Amazônia e por violação de direitos humanos. Procurado, o Ministério da Agricultura confirmou a doação, mas disse que questões relacionadas às despesas logísticas deveriam ser esclarecidas pela ABC. O Itamaraty, por sua vez, não se pronunciou.

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27.07.21

Taxa de incêndio

O ministro das Relações Exteriores, Carlos Alberto França, abriu conversações com os governos da Noruega e da Alemanha na tentativa de retomar os aportes dos dois países no Fundo Amazônia, suspensos desde 2019. O problema é o de sempre: segundo dados divulgados ontem pelo Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), a área desmatada da Amazônia cresceu 10% nos últimos 12 meses.

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12.07.21

Itamaraty monta força-tarefa pelos estudantes brasileiros

O Ministério das Relações Exteriores acionou suas representações internacionais na tentativa de resolver o grave problema dos estudantes brasileiros que têm sido barrados em diversos países da Europa por conta da pandemia e correm o risco de perder suas bolsas. Segundo o RR apurou, as primeiras tratativas diplomáticas bateram contra um muro. Os governos da Espanha, da Itália e da Alemanha, por exemplo, têm sido taxativos: somente autorizarão a entrada dos alunos já imunizados contra a Covid-19.

O problema tende a se agravar a partir de setembro, com o início do ano letivo na Europa. Diante da situação, o Itamaraty, com o auxílio do Ministério da Educação, tenta um plano B, que seria conseguir a extensão da validade das bolsas de estudos já conquistadas. Estima-se que existam mais de mil estudantes e pesquisadores impossibilitados de ingressar ou mesmo voltar a universidades europeias.

O governo Bolsonaro transformou o Brasil em pária do mundo. Procurado, o Ministério confirma que “pediu às embaixadas na Alemanha, Dinamarca, Espanha, França e Itália que reforcem negociações com os governos desses países para facilitar a entrada de brasileiros que já cursam em instituições de ensino locais”. O Itamaraty diz ainda que “vem fazendo o possível para alcançar solução satisfatória e seguirá realizando contatos com autoridades competentes para que considerem a adoção de medidas alternativas que permitam a retomada da emissão de vistos a estudantes e acadêmicos brasileiros.”

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31.03.21

Jair Bolsonaro é um ex-presidente em exercício

A data de 29 de março de 2021 marca a maior derrota de Jair Bolsonaro desde a sua chegada ao Palácio do Planalto. Em um único dia, três episódios reforçaram a ideia de que Bolsonaro é um chefe de governo de festim. A imposição de um Orçamento repleto de gambiarras e absolutamente inexequível e a demissão de Ernesto Araújo do Ministério das Relações Exteriores, ambas por pressão do Congresso, mostram um presidente acuado e feito de refém pelo Centrão. O terceiro e mais agudo sinal da fragilidade de Bolsonaro veio com a saída do general Fernando Azevedo e Silva do Ministério da Defesa, seguida, um dia depois, da decisão conjunta dos três Comandantes militares de entregarem seus cargos.

Com a renúncia em bloco, as Forças Armadas deram uma mensagem contundente de que não irão aonde o presidente da República almeja ou fantasia que elas possam ir. Bolsonaro foi derrotado pelo próprio fetiche que criou. Em meio a essa desidratação institucional, o maior risco do governo Bolsonaro neste momento é a geração de boatos autorrealizáveis e desestabilizadores. Ontem, por exemplo, surgiram rumores de que os Altos-Comandos das Forças Armadas não indicariam nomes de substitutos para o general Edson Pujol, o almirante Ilques Barbosa e o tenente-brigadeiro do ar Antonio Carlos Bermudez, deixando a decisão por conta exclusivamente de Bolsonaro.

Caso essa decisão se confirme, os comandantes abririam uma perigosa exceção, como abriram ontem: foi a primeira vez desde a redemocratização, em 1985, que os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica deixaram seus cargos simultaneamente sem se tratar de uma troca de governo. Também ontem circulava o boato de que a renúncia coletiva já havia sido cogitada antes mesmo do afastamento de Azevedo da Defesa e da pressão pela saída do general Pujol do comando do Exército. Como se sabe, os Altos-Comandos trabalham com cenários traçados com razoável antecedência. Em uma dessas conjecturas, um pronunciamento conjunto chegou a ser discutido como reação ao uso do nome das Forças Armadas, notadamente do Exército, pelo presidente Bolsonaro para justificar ações de governo.

A prioridade das lideranças militares neste momento é esfriar o ambiente, dentro e fora das Forças Armadas. O general Pujol fez questão de acalmar seus pares, afirmando que no Alto Comando todos eram iguais, tinham o mesmo voto nas decisões da Força – Pujol tinha o voto de minerva – e, portanto, estavam todos capacitados para assumir a liderança do Exército, com louvor. O tenente brigadeiro Bermudez, um dos oficiais mais respeitados pela Aeronáutica, teria dito aos seus que não existe possibilidade da Força participar de aventuras que firam a Constituição. Segundo as declarações atribuídas a Bermudez, não há condições para qualquer tentativa de subverter a democracia. A Aeronáutica não permitirá. Por sua vez, a decisão do general Pujol de não se sujeitar a eventuais pressões do presidente Bolsonaro por uma postura pró-governo também representa uma posição coesa do Exército como fiador do regime democrático.

Pujol sai do cargo, mas deixa um legado. O alerta já tinha sido dado pelo próprio general em novembro do ano passado: “Não temos partido, independentemente de mudanças ou permanências de de- terminado governo por um período longo. Não mudamos a cada quatro anos a nossa maneira de pensar”. A escolha de Braga Netto para a Defesa foi criteriosa. Ele é reconhecidamente um debelador de incêndios.

Esse atributo pode ser muito bem verificado ontem, em sua primeira ordem do dia como ministro da Defesa, na qual o general fez um texto eminentemente dirigido à pacificação. De toda a forma, por uma lógica torta e imprevisível, Bolsonaro conseguiu uma proeza: diante de um presidente mercurial e instável como ele, a candidatura Lula pode ter se tornado até palatável aos militares. O petista jamais tentou cruzar a linha que demarca as relações de respeito do comandante em chefe em relação a seus oficiais superiores. Os generais, portanto, já sabem o que o ex-presidente fez em oito anos de governo, mas não sabem o que Bolsonaro poderá fazer nos dois anos que lhe restam. Imagine se forem mais seis anos.

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A própria Tereza Cristina desarticulou o lobby que vinha sendo feito em Brasília pela sua nomeação para o Ministério das Relações Exteriores. Aos olhos de Tereza, era coisa de quem queria vê-la longe do Ministério da Agricultura e não necessariamente no Itamaraty.

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04.12.20

As aproximações sucessivas de Bolsonaro e Putin

Ainda é cedo para dizer que Vladimir Putin vai ocupar o lugar de Donald Trump como “o melhor amigo do Brasil”. Mas o governo Bolsonaro identifica circunstâncias propícias para uma aproximação com a Rússia. De acordo com uma alta fonte do Itamaraty, já existe, inclusive, uma troca de sinais entre os dois países para uma possível visita do presidente Jair Bolsonaro a Moscou no primeiro semestre de 2021 – se a pandemia permitir. O Ministério das Relações Exteriores vislumbra oportunidades para o Brasil aumentar sua pauta de exportações para a Rússia, notadamente no agronegócio.

Hoje, a balança pende para o lado de lá. Em 2019, o Brasil teve um déficit comercial com a Rússia de US$ 2 bilhões, impactado, sobretudo, pelo embargo à carne brasileira e pela queda das exportações de açúcar. Nesse caso, talvez as cifras sejam apenas um detalhe. Como já ficou provado, a política externa do presidente Jair Bolsonaro vive mais de fantasias e fetiches do que de movimentos efetivos e ganhos econômicos para o país. Na tortuosa lógica diplomática do governo, Putin pode ser um substituto para Trump – como o novo líder global a ser adulado – tanto quanto a aproximação com a Rússia pode funcionar como uma provocação calculada à China.

Recentemente, não custa lembrar, ao fim de uma reunião da própria Cúpula dos BRICS, Vladimir Putin teceu comentários elogios à “coragem” de Jair Bolsonaro. As aproximações sucessivas entre os dois chefes de governo parecem, inclusive, já ter reflexos na estratégia geoeconômica de importantes grupos russos. O RR apurou, por exemplo, que o Acron Group estaria interessado na compra de uma participação na Heringer, fabricante de fertilizantes com 19 unidades de produção, capacidade instalada da ordem de sete milhões de toneladas e faturamento anual superior a R$ 1 bilhão.

Curiosamente, a Heringer já tem um sócio russo, a Uralkali, com quem os acionistas controladores da empresa vivem às turras. No ano passado, por sinal, a Acron negociou a aquisição da unidade de nitrogenados da Petrobras em Três Lagoas (MS), mas não chegou a um acordo com a estatal. Em outro front, investidores russos, com o respaldo do governo Putin, já assinaram um acordo para a construção de um terminal portuário de uso privado em Arroio do Sal (RS), empreendimento orçado em R$ 3,5 bilhões.

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08.09.20

Itamaraty raspa o tacho do orçamento

Já contestado pelos “itamaratecas” puro-sangue, o ideológico chanceler Ernesto Araújo enfrenta um crescente clima de insatisfação dentro do Ministério das Relações Exteriores. A três meses do fim do ano, a Pasta sequer iniciou o período de promoções e remoções de diplomatas, que costumam ser realizadas ao longo de todo o segundo semestre. A demora, segundo o RR apurou, está ligada a dificuldades orçamentárias. A dotação prevista para este ano tem se mostrado um cobertor curto para o custeio da máquina diplomática e os gastos decorrentes dos upgrades e transferências dos servidores do Ministério. Consultado pelo RR, o Ministério das Relações Exteriores confirma que o mecanismo de remoções teve “seu período de execução excepcionalmente estendido.” Segundo o Ministério, 330 servidores (170 diplomatas e 160 servidores administrativos) se inscreveram, dos quais serão removidos 292. Quanto ao orçamento para os meses restantes de 2020 e para 2021, a Pasta diz que “o processo de definição ainda se encontra em curso.”

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21.08.20

Itamaraty deixa frigoríficos brasileiros ao relento

A ministra Tereza Cristina e grandes frigoríficos brasileiros têm cobrado do Ministério das Relações Exteriores uma participação mais ativa no imbroglio com a China. Até o momento o Itamaraty e a Embaixada brasileira em Pequim pouco ou nada fizeram para reverter o que, na visão da Pasta da Agricultura e de empresários do setor, é um ataque deliberado dos chineses contra a indústria brasileira de abate. No entendimento de Tereza e dos produtores nacionais, já está passando da hora da Pasta das Relações Exteriores apoiar o lançamento de uma campanha internacional para defender os players da cadeia da proteína animal no Brasil. A alta dose de ideologia da política externa brasileira e a notória “sinofobia” do chanceler Ernesto Araújo são vistas como os fatores para a indiferença do Ministério das Relações Exteriores em relação ao caso. Pior: as seguidas provocações de Araújo contra os chineses contribuem para aumentar o impasse geoeconômico. Nos últimos dois meses, a China suspendeu as importações de carne bovina de sete frigoríficos do Brasil. Nos últimos dias, os asiáticos também decidiram voltar suas baterias contra a carne de frango, anunciando supostamente ter
encontrado traços do coronavírus em embalagem que teria saído de uma fábrica da Aurora Alimentos.

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