Os irmãos Batista costumavam escrever por linhas retas. Foram décadas assim. Até que cresceram demais no seu core business, o mercado de proteína. O gigantismo fez com que o arranha-céu não coubesse mais na velha casa própria. E vieram a energia elétrica, com a Âmbar, a celulose, com a Eldorado, e o setor financeiro, com o Banco Original. Mas, até agora, o grupo seguia um mapa mais ou menos clássico de diversificação de empreendimentos. Pois eis que agora Joesley e Wesley Batista podem ir bem além, criando um mercado de negócios geopolíticos ou uma geopolítica dos negócios. Os dois irmãos vêm se articulando junto aos presidentes dos Estados Unidos e Brasil para ingressar no setor de minerais críticos, o ativo mais cobiçado do mundo na atual conjuntura. Os donos da JBS têm interlocução direta com Donald Trump. Em setembro, Joesley foi recebido por Trump em uma audiência na Casa Branca. O que se disse à época é que o tema do encontro foi a taxação da carne. Ora, sabe-se muito bem a dificuldade que é para se chegar ao presidente norte-americano. Não é um cartucho que deva ser queimado para se tratar da demanda e do preço de bovinos. Com Lula, por sua vez, nem é preciso dizer: é como se os Batista tivessem as chaves do Palácio do Planalto. O RR encaminhou uma série de perguntas para a J&F, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.
Até aí esse duplo acesso não explicaria sequer metade do que se trata. A questão é que, em meio a taxas, sobretaxas, soberania do STF e outros quejandos, há um assunto que é considerado um raro insumo no acordo entre Brasil e Estados Unidos: um tratado envolvendo a garantia de fornecimento de terras raras, entre outros minerais estratégicos. Essa seria uma linha cirúrgica na (re)costura das relações entre Brasil e Estados Unidos. A montagem de uma tão delicada operação binacional teria de ser feita através do setor privado, para não caracterizar um acordo entre nações. É aí que entram os irmãos Batista. Bem antes dessa engenharia com estadistas em relação à defesa da matriz industrial dos seus países, não é de hoje, guardadas as devidas proporções, que a dupla de empresários quer replicar na transição energética a onipresença que já ostenta na segurança alimentar. Em outubro, a J&F Investimentos, holding do clã, comprou junto à Axia (ex-Eletrobras) o equivalente a 68% do capital total e 35,3% do capital da Eletronuclear. Com isso, tornou-se sócia do governo nas usinas Angra 1 e Angra 2. Mais ainda: os Batista passaram a ser uma peça fundamental para a possível conclusão das obras de Angra 3, que exige investimentos superiores a R$ 20 bilhões. Todos os fios se cruzam.
Ao entrar na produção de minérios nucleares, a J&F reforçaria sua posição em elos estratégicos da cadeia da transição energética: um pé na matéria-prima e outro na ponta final, na produção de energia nuclear. Nesse mosaico, além de produtor e comprador do insumo no front interno, o grupo poderia se consolidar também como um importante exportador de minérios críticos. Não se pode perder de vista outras movimentações simultâneas dos Batista que apontam nessa direção. Há informações de que a J&F busca um sócio minoritário para a LHG Mining, seu braço de mineração. A empresa já anunciou o plano de investir US$ 4 bilhões para aumentar a produção de minério de ferro e de manganês. No entanto, a entrada de um parceiro no capital dia parece dialogar não com o que a LHG já tem, mas, sim, com o que quer ter: a exploração de minerais críticos. Consta que no mesmo solo encontram-se reservas auspiciosas de terras raras. Toda a operação é tão ambiciosa que nem parece crível. Para os EUA, as terras raras que eles não têm, e a China tem em abundância; para a China, comida, porque por lá sobram terras raras, mas há quase 1,5 bilhão de bocas para alimentar. E o Brasil? Por enquanto, só tem o que aplaudir. Os Batista estão devolvendo com juros tudo aquilo que receberam do país e de seus governos.