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Ao ambicionar os minerais críticos do Brasil, os Estados Unidos olham não apenas a floresta, mas, sobretudo, a árvore. Para além das terras raras como um todo, objeto de cobiça das maiores potências internacionais, o governo de Donald Trump tem um interesse específico no subsolo brasileiro: os minérios nucleares, mais precisamente urânio e tório. Segundo informações que circulam em um seleto grupo de empresários do setor, os norte-americanos já colocaram sobre a mesa algumas de suas condições, vocalizadas pelo secretário de Comércio, Howard Lutnick, com quem Geraldo Alckmin conversou na semana passada, e pelo encarregado de negócios da embaixada dos Estados Unidos no Brasil, Gabriel Escobar.
A gestão Trump quer que o governo brasileiro assuma o compromisso de não restringir exportações dos minerais estratégicos. Trata-se de um pleito antigo dos Estados Unidos, que voltou à pauta, com força e intensidade redobradas, a partir do retorno de Donald Trump à Casa Branca. Essa medida abriria caminho para o que realmente interessa aos norte-americanos: um acordo que lhes desse direito de preferência sobre os metais estratégicos brasileiros, com foco em urânio e tório.
Ainda não está claro como isso se daria na prática: se os Estados Unidos teriam acesso exclusivo ou prioritário ao excedente de produção ou uma fatia fixa sobre todos os recursos extraídos. O fato é que o governo Trump quer vestir essa camisa de força no Brasil, usando-a como dress code da sua diplomacia da chantagem. Seria o preço a ser pago para os Estados Unidos reduzirem as draconianas tarifas impostas sobre os produtos brasileiros.
O governo Trump tem como estratégia expandir fortemente a produção de energia nuclear. Atualmente, há pouco mais de 50 usinas em operação e 94 reatores ativos no país, com uma capacidade instalada em torno de 100 GW, o equivalente a 20% de toda a eletricidade consumida pelos norte-americanos. A meta da gestão de Donald Trump é quadriplicar essa produção até 2050.
O governo trumpista já anunciou a construção de dez grandes reatores, com cerca de 10 GW cada um, que deverão ser entregues até 2030. Nesse contexto, debaixo do guarda-chuva das terras raras – e dentro de um papel de subserviência -, os Estados Unidos enxergam no Brasil um potencial garantidor da sua segurança nuclear. O subsolo brasileiro concentra a sétima maior reserva de urânio do mundo.
Mais do que isso: o país é dono do segundo maior depósito de tório do Planeta, concentrando aproximadamente 20% das reservas conhecidas, algo como 630 mil toneladas. Trata-se de um ativo absolutamente estratégico, que valeria todo o tarifaço do mundo dentro da tortuosa e supremacista lógica de Trump de colocar o bode na sala e depois cobrar um preço elevado para tirá-lo. O pano de fundo, praticamente o papel de parede deste tempo, é a disputa geopolítica e geoeconômica com a China.
O país asiático está derivando para o tório como principal fonte de produção de energia nuclear. Recentemente, os chineses anunciaram a descoberta de uma reserva do minério na Mongólia Interior capaz de abastecer sua demanda energética pelos próximos 60 mil anos! A tentativa de colonização do subsolo brasileiro, notadamente no que diz respeito ao tório, não é uma prerrogativa de Donald Trump e muito menos uma novidade do século XXI.
Desde meados do século passado, os norte-americanos exercem pressão para controlar as reservas mundiais do minério, assim como do urânio. Na ocasião, o Brasil exportava areia monazítica, rica em tório, para os Estados Unidos. Esse comércio foi organizado a partir de dois acordos, um firmado em 1945 e outro em 1952.
No entanto, a exportação não gerava qualquer compensação específica para o Brasil. Em 1946, o Conselho de Segurança Nacional solicitou que o primeiro acordo fosse denunciado. Ainda assim, as exportações prosseguiram, para não falar do contrabando. Entrou em cena o vice-almirante da Marinha e cientista Alvaro Alberto da Mota e Silva, que dá nome ao submarino nuclear em construção pela Força Naval Brasileira.
Tido como grande idealizador do programa nuclear no país, o vice-almirante lançou uma campanha de nacionalização do tório e do urânio. Mais do que isso: foi o artífice do Princípio das Compensações Específicas, pelo qual nenhuma transação de minerais estratégicos deveria se realizar mediante pagamento em dinheiro, mas, sim, atrelada à troca de tecnologia. Tão ou mais importante do que a conclusão do submarino nuclear que batizará, talvez o maior tributo que o governo poderia fazer ao vice-almirante Alvaro Alberto é colocar à mesa das “negociações” com os Estados Unidos o Princípio das Compensações Específicas.
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