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O Brasil corre o risco de ser duplamente punido pelo bombardeio tarifário de Donald Trump. Como se não bastasse o impacto direto sobre a economia brasileira, a ofensiva trumpista praticamente sanciona uma derrota da política externa do governo Lula dentro de sua principal – talvez única – área de influência, a América do Sul.
Verdugo do multilateralismo, o presidente norte-americano está dinamitando não apenas a possibilidade de reanimação do Mercosul, mas, sobretudo, de criação de um bloco econômico englobando todos os países do continente. Trata-se de uma ideia que repousa no Itamaraty e vinha sendo embalada – ou requentada – por Lula desde o início do atual mandato. Não chega a ser uma iniciativa original, mas uma versão bem mais modesta do NAFTA.
Entre idas e vindas, a história registra outras tentativas semelhantes. No governo FHC, por exemplo, o Brasil liderou discussões regionais para a formação de um bloco de livre comércio na América do Sul exatamente como resposta ao antigo NAFTA, o tratado entre Estados Unidos, Canadá e México, rebatizado de USMCA em 2020. À época, em setembro de 2000, Fernando Henrique convocou uma reunião de chefes de governo da América do Sul – à qual compareceram 12 presidentes da República – para discutir a implantação de uma zona de livre circulação de bens e serviços.
O futuro bloco chegou a ser chamado de SAFTA ou South America Free Trade Area – curiosamente um homônimo do South Asia Free Trade Area (SAFTA), acordo que viria a ser firmado posteriormente, em 2004, por Bangladesh, Butão, Índia, Maldivas, Nepal, Paquistão e Sri Lanka. No entanto, tudo ficou no campo das intenções.
Desde a campanha eleitoral e ao longo de seu terceiro mandato, Lula tem mencionado recorrentemente a necessidade de formação de um bloco econômico na América do Sul, quando não estendendo a ideia à América Central e ao Caribe. Houve conversas nesse sentido com presidentes vizinhos de maior alinhamento ideológico, como Gustavo Petro, da Colômbia, e Gabriel Boric, do Chile.
Ocorre que Lula não tem conseguido sequer conter a erosão do Mercosul, liderada, principalmente, pela Argentina, quanto mais costurar um tratado continental. No atual contexto, qualquer movimento nesse sentido é praticamente inviável. Trump parece empenhado em banir o multilateralismo do seu “quintal”.
Ao mesmo tempo em que jogou uma bomba em seus vizinhos de parede na América de cima, Canadá e México, o presidente norte-americano está esfarelando o pouco que havia de possibilidade de um tratado comercial na América de baixo. Sua política tarifária cria assimetrias, alimenta a descoordenação regional e estimula uma corrida por acordos bilaterais, em uma espécie de “cada um por si”.
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