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Donald Trump, ao que parece, conseguiu o que os Estados Unidos desejavam há décadas: o direito preferencial de importação do excedente da extração de terras raras do Brasil. A contrapartida vigoraria a contar do acordo para redução das sobretaxas impostas ao país.
A forma despretensiosa como o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou que os minerais críticos serão uma moeda de troca importante para a diminuição das tarifas demonstra o quanto o Brasil está disposto a se ajoelhar a Trump. Haddad não diria o que disse se já não soubesse as cenas dos próximos capítulos. É sintomático que Lula tenha convenientemente se calado diante da postura do “leva o que quiser” adotada publicamente por seu ministro. Ajoelharam-se todos. Mesmo sabendo da importância estratégica das terras raras ou mesmo que a desistência camuflada do fim da soberania sobre minérios nucleares pode levar a algum transtorno com os chineses, nosso principal parceiro comercial. Governar é gerenciar riscos. Espera-se que Lula tenha acertado na conta.
O domínio chinês nessa área é absoluto. O país asiático é detentor do primeiro lugar no ranking dos maiores depósitos de terras raras. O Brasil aparece no segundo posto, empatado com a Rússia. Em terceiro vem a Índia, outra nação que começa a sofrer as dores do tacape de Trump. A China também é o maior importador do minério brasileiro (60,8%), seguida da França (19,6%) e do Japão (8,5%).
Se existissem coincidências, elas explicariam o fato de que os três países com maiores reservas das terras raras são membros dos BRICs. Mas o RR não acredita em coincidências. Aliás, vem alertando para o assunto recorrentemente – leia aqui:
As terras raras já foram tratadas como assunto de Segurança Nacional no Brasil. A história do pantagruélico interesse dos EUA pelos minérios críticos nacionais é matusalêmica. Dois acordos estranhamente redigidos, o primeiro em 1945, e o segundo em 1952, organizavam a exportação de monazita em grandes quantidades, sem compensação específica para o Brasil.
Documentos dos governos brasileiro e norte-americano, pesquisas acadêmicas, notícias de jornais da época e fotografias de arquivos públicos comprovam o envio de areia monazítica de Guarapari e de outros municípios capixabas, do Rio de Janeiro e da Bahia para os Estados Unidos – além de França, Alemanha e Inglaterra –, desde o fim do século XIX até a década de 1960. Muitas vezes o envio era feito a “preço de banana” ou de forma clandestina, com a monazita declarada como areia comum para preencher o lastro dos navios.
Em 1946, o Conselho de Segurança Nacional pediu que o primeiro acordo fosse denunciado, mas as exportações continuaram, além do contrabando, que gerou ação disciplinar em 1952. A baderna foi contida em parte.
Hoje, a regulamentação da exploração e produção de terras raras está sob jurisdição do Ministério de Minas e Energia, com o apoio do Departamento Nacional da Produção Mineral. Mas o rigor do controle da política para as terras raras é o próprio espelho da expressão facial do ministro Alexandre da Silveira.
Segundo o presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Raul Jungman, a maior reserva de terras raras do Brasil está em Serra Verde, Goiás. A empresa Serra Verde Pesquisa e Mineração já fincou seus pés em Minaçu, região norte do estado, e é a única mineradora fora da Ásia a produzir em escala comercial quatro elementos magnéticos essenciais: disprósio (Dy) e térbio (Tb), além de neodímio (Nd) e praseodímio (Pr).
A Serra Verde se apresenta como empresa brasileira, com sede no estado de Goiás, mas tem entre seus investidores de referência o fundo americano Denham Capital Management. Por alguma triangulação de difícil compreensão, a Serra Verde exporta a maior parte da sua produção para a China. Mistério!
Além dela, cinco outras empresas mineram tório, mas em muito menor escala. Somente uma é realmente de capital nacional. O tório, que é a pedra preciosa a ser extraída das terras raras, pouco é mencionado. Fala-se mais na monazita, que contém tório, bastnasita, xenotima e loparita e as argilas lateríticas, todos com maior função econômica.
O Ministério de Minas e Energia destaca como elementos de relevo a bastnasita e xenotima. Quem? Engraçado realmente ninguém falar no tório. Talvez haja alguma intenção de disfarce no silêncio em relação ao mineral.
O tório assumiu uma importância estratégica para os chineses. Neste ano, o país asiático conseguiu pela primeira vez na história reabastecer um reator nuclear com tório – elemento radioativo – sem precisar desligar o equipamento. O teste foi realizado em um reator localizado no Deserto de Gobi, no noroeste da China.
Segundo informações do jornal estatal chinês Guangming Daily, a unidade experimental pode gerar 2 megawatts de energia, utilizando sal fundido para transportar o combustível, tendo o tório como fonte nuclear geradora.
O tório, assim como as terras raras, é de difícil processamento. As principais reservas desse minério estão na Índia e China. O Brasil vem em sétimo lugar. Se juntarmos os três países, eles somam mais da metade das reservas planetárias de tório. Coincidência que os três sejam os founding fathers dos BRICs? O RR, como já dito, não acredita em coincidências.
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