Tag: COP30
O que precisa ser dito
Aquilo que não foi discutido na COP30
24/11/2025Há mais de uma década, exatamente no dia 10 de novembro de 2014, tive a honra de apresentar pesquisas em biotecnologia marinha e os recifes amazônicos para o então embaixador do Brasil no Japão, junto com o biólogo baiano Pedro Meirelles, hoje professor da UFBA, meu amigo da Universidade de Hokkaido, professor Tomoo Sawabe e o assessor do embaixador brasileiro em Tóquio, sobrinho de um grande compositor e músico brasileiro. Na ocasião destacamos a importância de projetos bilaterais, entre o Brasil e o Japão, em bioenergia e biorrecursos marinhos. Destaque especial foi dado aos estudos de recifes brasileiros, incluindo os recifes Amazônicos e Abrolhos, bem como aos recifes do Japão em Okinawa. Os corais “mesa” (table corals) japoneses formam imensos recifes que sustentam vasta biodiversidade. Estes projetos contavam com financiamento do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), no lado brasileiro, e da JST (Japan Science and Technology Agency) e da JSPS (Japan Society for the Promotion of Science), no lado japonês. Desde então, o fomento público a parcerias como esta com o Japão só tem diminuído.
Neste ano, uma grande petroleira se manifesta a favor da exploração de petróleo na foz do Amazonas, e informa, em matéria de jornal de grande circulação, que não haveria corais na foz do Amazonas (1). Na esteira desta manifestação, poucos dias depois, a Academia Brasileira de Ciências se manifesta sobre a exploração do petróleo na foz do Amazonas (2). Esta manifestação da ABC foi debatida logo na sequência (3 e 4).
Por outro lado, algumas matérias destacaram a problemática da exploração do óleo e gás na foz do Amazonas durante a COP30, ressaltando que o Brasil não poderia buscar liderança global diante da crise climática, ao explorar “a última gota de óleo” (5 e 6). Paralelamente, a situação apenas se agrava no que se refere aos navios de pesquisa brasileiros, com a crise financeira da Marinha do Brasil, devido ao corte de verbas (7). A ausência de navios de pesquisa brasileiros impulsiona a pesquisa helicóptero aqui (8). Recentemente trouxemos uma proposta concreta para o desenvolvimento da bioeconomia marinha e para o uso sustentável dos recifes Amazônicos (9 e 10).
1) https://oglobo.globo.com/economia/negocios/noticia/2025/08/05/presidente-da-petrobras-diz-que-debate-sobre-exploracao-da-margem-equatorial-esta-beirando-o-consenso.ghtml
2) https://www.abc.org.br/2025/08/07/abc-lanca-relatorio-petroleo-margem-equatorial/.
3) https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2025/08/exploracao-de-petroleo-na-margem-equatorial-demanda-mais-estudos-e-salvaguardas-diz-academia-brasileira-de-ciencias.shtml
4) https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/carlos-nobre/2025/11/22/transicao-alinhada-a-ciencia-exige-lideranca-coragem-e-coerencia.htm
5) https://www.science.org/doi/10.1126/science.aed3748
6) https://www.science.org/doi/10.1126/science.aed3752
7) https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2025/06/29/nas-forcas-armadas-ha-escassez-de-verba-para-radares-cacas-e-navios.ghtml
8) https://www.nature.com/articles/d41586-021-01795-1
9) https://www.abc.org.br/2025/11/19/abc-lanca-resumo-do-que-ha-de-mais-atual-na-ciencia-sobre-a-regiao-amazonica/
10) https://relatorioreservado.com.br/noticias/fundo-de-recifes-tropicais-para-sempre/
Fabiano Thompson é professor da UFRJ, onde coordena o Laboratório de pesquisa (https://www.thompsonlab.com.br/). É membro da Academia Brasileira de Ciências.
Destaque
Em meio à COP30, Brasil corre risco de um curto-circuito judicial na energia renovável
18/11/2025
Infraestrutura
O país da COP30 não consegue dragar o rio Amazonas
14/11/2025Em meio à COP30, logo ali, “pertinho” de Belém, as empresas de navegação que operam no rio Amazonas cobram do ministro dos Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, a dragagem urgente da via fluvial. Segundo dados encaminhados à Pasta, o nível da lâmina d’água em alguns trechos já está abaixo dos 14 metros, contra 17,7 metros há dois anos. O assoreamento tem obrigado as companhias a reduzir o volume de carga ou mesmo interromper a circulação em determinadas rotas. Há registros de encalhes de embarcações. Entre os trechos críticos estão Manaus-Itacoatiara, Coari-Codajás e São Paulo de Olivença-Benjamin Constant. Nas conversas com emissários das empresas de logística, Costa Filho tem acenado com a liberação de verbas adicionais para o DNIT acelerar obras de desobstrução do Amazonas e afluentes. Há cerca de dois anos, o Ministério liberou R$ 280 milhões para a dragagem de rios da região. O dinheiro não deu nem para a saída.
Destaque
COP30: Nordeste busca recursos internacionais para instalação de data centers
13/11/2025
COP30
Marina tenta destravar aporte da Alemanha e evitar revés diplomático e ambiental
10/11/2025Marina Silva costura uma reunião com o ministro do Meio Ambiente, Proteção da Natureza e Segurança Nuclear da Alemanha, Carsten Schneider, nesta semana, em Belém. Será mais uma tentativa de desbloquear o esperado aporte do país europeu ao Fundo Florestas Tropicais Para Sempre (TFFF, na sigla em inglês). Marina já tratou do tema com a sua contraparte alemã em outras ocasiões, uma delas em Nice, na França, durante a realização do 3ª Conferência do Oceano da ONU (UNOC3). À época, Schneider assegurou a participação da Alemanha no fundo. Ocorre que o governo brasileiro teve uma ducha de água gélida na última sexta-feira, quando o primeiro-ministro alemão, Friedrich Merz, se encontrou com o presidente Lula. Havia a expectativa de que ele oficializasse o repasse de recursos para o TFFF, o que não ocorreu. Até o momento, apenas quatro países confirmaram o aporte no fundo: o próprio Brasil, com US$ 1 bilhão; Indonésia, também com US$ 1 bilhão; Noruega, US$ 3 bilhões; e França, 500 milhões de euros.
Destaque
Como evitar que Lula chegue à COP30 manchado pelo óleo da Margem Equatorial?
23/10/2025A menos de 20 dias da COP30, Lula tem um abacaxi ambiental para descascar. O anúncio da licença do Ibama para a Petrobras explorar um poço na Foz do Amazonas, uma das cinco bacias da Margem Equatorial, coloca em xeque, desde já, os compromissos a serem assumidos pelo Brasil durante a Conferência Climática.
O que mais será dito pelos ambientalistas durante o evento é que Lula cedeu às pressões para a ampliação do consumo de energia fóssil. Mais trabalho para Sidônio Palmeira: o assunto já está na mesa do ministro-chefe da Secom. Sidônio tem discutido com o presidente uma saída pela tangente: a invenção de uma reserva técnica de combustível.
O governo se comprometeria com a manutenção debaixo do solo de uma parcela do petróleo existente nas jazidas futuramente descobertas. Essa trava seria calculada em cima de indicadores, a começar pela demanda energética. É uma daquelas propostas que tem todo o jeito de um balão de ensaio para ser solto durante a COP30. Se tiver gás e subir, ótimo; se lamber, o governo sopra as cinzas para longe.
Como construção de narrativa, a criação dessa geringonça energética surge como uma ideia oportuna, ainda mais com a capacidade de interpretação de Lula. Só que posterga para a próxima COP uma decisão tão ou mais complexa. Diversos países vivem do trade do petróleo. Essas nações teriam de cancelar uma possibilidade de enriquecimento com a decisão do governo brasileiro de abdicar da extração de parcela expressiva das suas reservas.
É um nó a mais para ser desatado. Nesse caso, a fábrica de balões do Palácio do Planalto já teria outro modelo colorido para lançar aos céus da COP30: a ideia de um estudo para o uso do petróleo como lastro cambial. Lula apresentaria ao mundo a proposta de criação de uma moeda ou de uma cesta de moedas indexada às reservas globais do combustível.
Mais uma vez, se vai colar ou não, é o que menos importa. Para o anfitrião da Conferência Climática, seria uma iniciativa compensatória ao anúncio hiperpoluente da Margem Equatorial. É mais uma ideia para evitar que Lula, em vez de ser reconhecido como uma liderança mundial na preservação do meio ambiente, deixe a COP30 como um bufão que não faz o que prega.
Governo
Itamaraty faz tour de force no exterior para encher as cadeiras da COP30
6/10/2025A um mês da COP30, o Itamaraty lançou uma força-tarefa internacional. O corpo diplomático brasileiro no exterior está mobilizado para acelerar as negociações com os países que ainda não confirmaram presença na Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas em Belém. A missão da área de Relações Exteriores é impedir que o Brasil carregue uma marca negativa: a de realizar a COP mais diminuta dos últimos anos. Até a última sexta-feira, apenas 87 países haviam confirmado sua participação. Para efeito de comparação: a COP29, realizada no Azerbaijão, no ano passado, contou com 196 das 198 nações signatárias da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima. A COP28, que ocorreu nos Emirados Árabes, em 2023, teve 189 delegações. No ano anterior, o Egito recebeu representantes de 190 países para a COP27. Tradicionalmente, em eventos dessa natureza, há uma onda de confirmações em cima da hora. Mesmo assim, o número de nações que ratificaram sua presença é preocupantemente baixo. A esta altura do campeonato, o governo já esperava contabilizar mais de uma centena de delegações. O problema é que as notórias dificuldades de hospedagem em Belém aumentam a possibilidade de forfait.
Destaque
COP30: risco de ataques “piratas” a embarcações mobiliza Marinha e PF
18/09/2025Além de todo o aparato de proteção dos chefes de Estado e da presença das Forças Armadas nas ruas de Belém, há entre as autoridades brasileiras uma preocupação em especial com a segurança dos rios da Região Amazônica durante a realização da COP 30. A Marinha e a Polícia Federal estão montando um esquema reforçado de patrulhamento para evitar o ataque de “piratas”, notadamente a navios que servirão como hospedagem temporária durante o evento, assim como a barcos de apoio carregados de combustível e outros suprimentos.
O foco maior de atenção das autoridades se concentra nos arredores e acessos ao Porto de Outeiro, na Ilha de Caratateua, a cerca de 20 km do centro da capital paraense. Entre outras embarcações, dois transatlânticos – MSC Seaview e Costa Diadema – cada um com capacidade para três mil passageiros, ficarão ancorados no porto.
As abordagens a navios e barcos na Região Amazônica são um crescente desafio às forças de segurança. O principal crime é o roubo de combustível, posteriormente vendido de forma clandestina ou usado para abastecer embarcações do crime organizado. Entre 2020 e 2024, quase dez milhões de litros foram furtados nos rios da Amazônia. Segundo dados do Instituto Combustível Legal (ICL), o prejuízo beira os R$ 100 milhões por ano.
Em contato com o RR, a Marinha confirmou ter um “planejamento específico” para a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. A Força Naval informou que “o patrulhamento dos rios da Amazônia Oriental, que engloba a área onde ocorrerá a COP 30, é de jurisdição do Comando do 4° Distrito Naval. Esse Comando está integrado ao Comando Conjunto incumbido de prover a segurança naquele período”.
Para além da COP 30, que neste momento concentra as atenções das forças de segurança do país, há do lado da Marinha um claro esforço de combate a atividades criminosas na extensa e complexa malha hidrográfica da Amazônia. A corporação informou ao RR que o número de Patrulhas Navais (PATNAV) ao longo deste ano já supera em 16% o total de ações realizadas em 2024.
Além do aumento da presença na faixa de fronteira, a Marinha ressalta a realização de outras iniciativas: “Operação interagência na fronteira noroeste do país com uma ação no alto rio Juruá de forma conjunta com a Polícia Federal e o Grupo Especial de Operações em Fronteira do Governo do Estado do Acre; e operação combinada de controle fluvial na região da Tríplice Fronteira, junto com as Marinhas da Colômbia e do Peru”.
No campo das Operações Conjuntas e Interagências, a Marinha realizou a Operação Ágata – Comando Conjunto APOENA, “que neste ano teve o Com9DN como Comandante Operacional, coordenando tropas da Marinha do Brasil, Exército Brasileiro, Força Aérea e representantes de 10 agências governamentais dos níveis federal e estadual”.
Segundo a Força Naval, a Operação resultou no “prejuízo total de aproximadamente R$ 225 milhões ao crime organizado, destacando-se a neutralização de 34 dragas de garimpo ilegal na região fronteiriça Brasil-Colômbia”.
Também consultada pelo RR, a Polícia Federal não se manifestou.
Destaque
Governo quer usar COP30 como vitrine para projetos de infraestrutura
11/09/2025O governo Lula quer aproveitar a visibilidade da COP30, em Belém, para “vender” alguns dos principais projetos de infraestrutura da Amazônia e do Norte do país. A estratégia, conduzida pela Casa Civil em articulação com os Ministérios dos Transportes e dos Portos e Aeroportos, é reenquadrar empreendimentos estratégicos dentro de uma moldura ESG, de modo a atrair o financiamento de bancos multilaterais como Banco Mundial, Banco dos Brics e CAF (Corporación Andina de Fomento).
Segundo o RR apurou, entre outros dirigentes das agências de fomento, o governo já convidou formalmente para a COP o vice-presidente da área de infraestrutura do Banco Mundial, o chinês Guangzhe Chen. A instituição soma cerca de US$ 1,8 bilhão em recursos disponibilizados ao Brasil vinculados a metas de sustentabilidade. O Palácio do Planalto vislumbra a possibilidade de alavancar esse número sob a atmosfera política e diplomática da Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas.
Não é um movimento trivial. O desafio do governo é virar pelo avesso projetos historicamente associados a controvérsias ambientais, reposicionando-os como oportunidades de desenvolvimento sustentável a partir de ajustes na sua concepção. As discussões envolvem empreendimentos que somam mais de R$ 50 bilhões.
Entre eles, está a polêmica Ferrogrão, orçada em mais de R$ 25 bilhões, e as concessões das hidrovias do Tocantins e do Madeira, que prometem ganhos logísticos expressivos, mas suscitam questionamentos sobre impactos nos ecossistemas aquáticos e comunidades ribeirinhas.
No balcão, há espaço também para empreendimentos na esfera estadual. É o caso da construção da Ferrovia do Pará, estimada em mais de R$ 10 bilhões. O traçado de 1,3 mil km entre Marabá e o porto de Vila do Conde é a menina dos olhos do governador Helder Barbalho, aliado próximo de Lula. Em 2019, Barbalho chegou a assinar um protocolo de intenções com a China Communication Construction Company para a implantação da ferrovia. Mas tudo ficou no campo das intenções.
O desafio do governo será conciliar o discurso verde com a execução de obras de grande impacto socioambiental. Enquanto o Planalto tenta vender as iniciativas como símbolos de uma nova logística de baixo carbono, pressões de ONGs, Ministério Público e órgãos de controle alertam para o risco de que, sob a embalagem ESG, repitam-se velhos dilemas: desmatamento, deslocamento de comunidades e fragilidades na governança de concessões.
A COP30, nesse sentido, é tanto uma janela de oportunidade quanto um campo minado, em que o Brasil terá de provar se consegue compatibilizar infraestrutura pesada com credenciais climáticas robustas.
O que precisa ser dito
Spin off da COP30 surge como solução para contornar os gargalos de Belém
1/08/2025A pressão internacional pela retirada da COP30 de Belém exige um esforço concentrado de todos os agentes públicos e privados envolvidos na organização do evento. Uma solução que poderia ser pensada, se é que já não foi, seria o spin off da Conferência em várias cidades, a começar por Manaus, com todo o seu simbolismo de capital do estado que concentra quase um quarto da Amazônia Legal. Seria uma forma de o governo atenuar as dificuldades impostas pelo notório esgotamento de Belém. Do ponto de vista logístico, o deslocamento de parte da agenda e dos participantes para Manaus não exigiria grandes contorcionismos. A necessidade de descentralização da COP30 cresce em função da dimensão tomada pelo evento. Conforme o RR já informou, a expectativa no próprio governo é que a Conferência tenha uma ambiência próxima ao do Fórum Econômico de Davos, com um amplo ecossistema para muito além das autoridades e especialistas do clima presentes. Economistas, intelectuais e artistas deverão ter uma participação expressiva. Circula que Lula já teria convidado diretamente Chico Buarque. Seu ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil é tido também como presença certa.
A desconcentração da COP30 em outras cidades facilitaria também a realização de importantes eventos paralelos vinculados à Conferência. É fundamental, por exemplo, a organização de espaços para negócios na esfera empresarial. O governo avalia deslocar essa agenda exatamente para Manaus. A COP30 desponta como o vitrine de ouro para o Brasil mostrar ao mundo, por exemplo, o potencial bioeconômico da Amazônia.
Francisco Ourique é um colaborador especial do Relatório Reservado.
Destaque
Tarifaço de Trump aumenta o protagonismo do Brasil na COP 30
23/07/2025A COP 30 tem tudo para ser a mais fervilhante edição da Conferência dos últimos anos. O motivo é o furacão tarifário imposto por Donald Trump. A Conferência ganha uma nova relevância e um maior peso diante da ofensiva do presidente norte-americano contra a ordem multilateral. A agenda e os interesses em jogo se multiplicaram.
No entendimento do próprio Palácio do Planalto, por uma conjunção de fatores de caráter geoeconômico e geopolítico, a COP 30 vai transcender a questão climática e transbordar para temas que se tornaram ainda mais prementes, do comércio internacional à própria soberania das nações. O próprio Brasil passará a ter uma centralidade que não estava no script, na esteira da chantagem explícita de Trump ao usar de barreiras alfandegárias como um instrumento de protecionismo a um réu da Justiça brasileira, no caso Jair Bolsonaro.
A expectativa é que a Conferência reúna não apenas chefes de Estado e especialistas do clima, mas também figuras influentes da sociedade global, empreendedores, ativistas e intelectuais com forte presença na mídia. Ou seja: o evento será uma vitrine para o Brasil e uma plataforma de soft power.
Em tempo: em meio a toda a efervescência criada a partir do furor tarifário de Donald Trump, há especulações no governo sobre a eventual presença de Elon Musk na COP 30. Seria uma cartada de alto impacto. De um lado, o ex-aliado que virou adversário ferrenho de Trump; do outro, o empresário envolvido com tecnologias de mitigação climática como carros elétricos e energia solar.
O que precisa ser dito
A COP 30 e o desafio do trabalho infantil
2/07/2025Em novembro deste ano, com a realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30) na cidade de Belém, os olhos do mundo examinarão a sustentabilidade de tudo que o estado do Pará produz. Suas cadeias de produção mineral, vegetal, agrícola e pecuária têm grande valor econômico e social, apesar de serem em certos casos objeto de críticas devido a práticas prejudicais ao meio ambiente ou atentatórias aos direitos humanos. Nesse último caso, sobressai o grave impacto do trabalho infantil na colheita do açaí.
Há séculos, aquela frutinha roxa vem sendo importante complemento nutricional para os povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e moradores das cidades da região. Na década de 1980, graças ao gosto peculiar e benefícios para a saúde, seu consumo começou a se estender para o resto do Brasil e terminou por atingir o mercado externo, fazendo com que a cadeia global do açaí movimente atualmente muitos bilhões de dólares por ano.
Entretanto, fora da Amazônia poucos têm ideia de que, na base dessa imensa estrutura de produção e comercialização, encontramos o gravíssimo problema social da exploração sistemática do trabalho infantil. Embora exista um número crescente de cultivos dos açaizeiros em escala comercial, a maior parte do “ouro roxo” é colhida nas palmeiras altas e frágeis que são encontradas nos quintais das casas ou em meio à floresta. E cabe sobretudo a meninos, a partir dos oito anos, escalar o fino tronco com a ajuda apenas da peconha – um simples laço de corda ou de pedaço de saco que lhes permite apoiar os pés de encontro ao caule e subir usando a força de seus braços e pernas. Levam nessa árdua ascensão, que pode chegar a 20 metros, uma faca afiada com que vão cortar os grandes cachos de açaí que pesam em média mais de 5 quilos.
No passado, quando o fruto era consumido unicamente pela própria família, admitia-se tal função dos filhos mais novos como um fato cultural perfeitamente aceitável. Hoje, com o aumento da demanda e o crescente consumo mundial, essa prática familiar de subsistência tornou-se um modelo de operação com graves consequências sociais, tais como a evasão escolar e a exposição ao risco de sérios acidentes. O inevitável resultado é um índice altíssimo de analfabetismo entre os jovens, contribuindo para que se reproduzam as aviltantes condições econômicas e sociais dos seus pais.
Mas, se tal situação é praticamente desconhecida pela maioria dos apreciadores da frutinha, já foi objeto de reportagens extremamente críticas em importantes órgãos da mídia internacional, como o Washington Post e a CNN, tendo o governo norte-americano incluído o açaí na lista de itens produzidos com trabalho infantil. Isso implica o grande risco de que o produto venha a ser objeto de boicotes de ativistas preocupados com os direitos humanos ou mesmo de embargos de importação impostos por governos pressionados por tais grupos.
Não será fácil superar uma condição degradante que tem fundas raízes culturais e está vinculada à extrema pobreza das comunidades em que ela ocorre: na verdade, o pagamento recebido pelo esforço dos meninos, apesar de ser uma fração insignificante do preço final do produto, constitui complemento essencial da renda familiar, hoje garantida apenas pelo Bolsa Família.
Todavia, caso não se queira que as conquistas do Brasil e do Pará na área da sustentabilidade sejam empanadas durante a COP 30 por críticas contundentes, é imprescindível que a ministra Marina Silva e o governador Helder Barbalho proponham soluções concretas para a erradicação do trabalho infantil na colheita do açaí, valendo-se para tanto dos conhecimentos dos setores acadêmicos e dos empresários envolvidos nessa cadeia produtiva, bem como do fato de que já existe um robô que pode substituir o trabalho perigoso e exaustivo das crianças.
Jorio Dauster é colaborador especial do Relatório Reservado
Finanças
Itaú está cumprindo à risca as exigências ambientais para concessão de crédito?
24/01/2025A política de crédito vinculada a compromissos ambientais do Itaú Unibanco está sendo contestada por alguns analistas de instituições financeiras. As especulações são de que há mais números vazios do que uma realidade construtiva na propaganda do banco. Nos últimos dias, circularam rumores de que o Itaú fará um estardalhaço em torno da sua atuação ambiental por ocasião da COP30, que será realizada em Belém no próximo mês de novembro.
A iniciativa, do ponto de vista do marketing e dos bons números da instituição financeira nessa área, parece correta. Mas a profecia de fontes do mercado é que não há números tão bons assim quanto supõe a vã filosofia dos dados bancários já jogados. O Itaú se gaba de ter concedido aproximadamente R$ 430 bilhões em crédito sustentável entre 2019 e 2024, acima da meta estabelecida para o período, de R$ 400 bilhões. E assegura que esse valor chegará a R$ 1 trilhão até 2030.
A princípio, as dúvidas compactuadas com o RR causam certa estranheza. Como se não bastassem as cifras divulgadas pelo Itaú, o banco consta tanto do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da B3 quanto do Dow Jones Sustainability World Index (DJSI World). Trata-se de dois importantes avalistas da performance da instituição na área ambiental. Bem, o mercado, por vezes, tem má índole.
Os Iagos financeiros estão sempre à procura de um Othelo, com um poder de envenenamento que não deve ser desprezado. O fato é que, entre analistas financeiros, começa a se espalhar a percepção de que o Itaú afrouxou as regras para concessão de crédito, flexibilizando suas exigências relacionadas a normas ambientais. Talvez seja a ânsia de cumprir a ousada meta ; talvez falte alinhamento interno. Ou pode ser que a lupa da auditoria não alcance alguns detalhes.
Os relatórios sociais das empresas são e serão cada vez mais um documento validador de boas práticas. Muito provavelmente em um mundo no qual as operações de greenwashing serão maiores do que o número de companhias realmente comprometidas com o acrônimo ESG. É difícil imaginar o banco dos Setúbal soltando números e metas irreais, mas muita instituição financeira internacional bem maior do que o Itaú já fez suas bobagens nessa área.
O enredo acima é apenas um pequeno trecho do script. As duas fontes que relataram ao RR as dúvidas em relação ao bom mocismo ambiental do Itaú – uma delas com notória capacidade de disseminação de informações no mercado – escalaram o assunto para o andar de cima da instituição. Afirmam que o disse me disse não apenas já chegou ao Itaú como subiu para o conhecimento dos grandes acionistas. Entre os controladores, já haveria um receio de que eventuais questionamentos à política de crédito do Itaú vinculada a compromissos ambientais possam gerar danos à reputação de um banco que se vende como líder dessa área no Brasil.
Os próprios acionistas da instituição sempre fizeram questão de associar sua imagem à agenda ESG. De Roberto Setubal – líder do banco, diga-se o que se disser – a Candido Bracher, ex-CEO e acionista minoritário, todos assinam os principais manifestos pró-ambiente do empresariado. Para não falar de nomes que estão fora da gestão do banco. Neca Setubal, por exemplo, liderou a criação de um fundo para investimentos na Amazônia. Milu Villela, por sua vez, tem uma longa e notável trajetória ligada à filantropia.
Portanto, qualquer percepção de relaxamento em relação a metas de ordem ambiental da parte do Itaú, ou mesmo do comportamento ESG, por menor que seja, cala fundo entre seus controladores.
Até hoje, por exemplo, ainda causa incômodo aos Setúbal um episódio ocorrido em 2023. Na ocasião vazou o áudio de uma suposta reunião interna em que o então coordenador de estratégia ESG do banco, Guilherme Treu, relatava ter sido pressionado por Pedro Barros, à época diretor de agronegócio da instituição, para liberar um financiamento de R$ 25 milhões à AgroSB, do banqueiro Daniel Dantas. O caso nunca foi devidamente esclarecido.
Consultado pelo RR, o Itaú reafirmou a meta de R$ 1 trilhão até 2030, ressaltando que os recursos serão direcionados para “setores estratégicos como energia renovável, saúde e educação, produção de alimentos, infraestrutura sustentável e obras de infraestrutura”. Segundo a instituição, a cifra não é destinada apenas “na forma de financiamentos, mas também de outros produtos que reforçam o engajamento do banco com os objetivos de transição dos seus clientes em direção a uma economia de baixo carbono e a promoção de um futuro mais sustentável”. O Itaú afirma ainda que “para serem classificadas como parte desse compromisso, as iniciativas passam por avaliações incluindo critérios que vão muito além do cumprimento da legislação, considerando também as melhores práticas de mercado e passando pela avaliação de órgãos independentes”. O banco assegura também que “é possível encontrar todas essas informações, de forma detalhada nos Relatórios ESG e Climático.
Política externa
Apoio à COP 30 provoca curto-circuito entre os sócios de Itaipu
30/09/2024O apoio financeiro de Itaipu Binacional à realização da COP 30, programada para novembro do ano que vem, em Belém, está causando faíscas bilaterais. A direção do lado paraguaio está questionando o desembolso de aproximadamente US$ 230 milhões para financiar a conferência climática. A temperatura interna subiu nas últimas semanas. Do lado de lá da fronteira, o assunto passou a ser instrumentalizado politicamente pela oposição ao governo do presidente do Paraguai, Santiago Peña. Parlamentares estão pedir a instauração de uma auditoria para fiscalizar a destinação das verbas, pleito que deverá ser levado pela gestão paraguaia ao Conselho de Itaipu.
Meio ambiente
Governo Lula quer colocar foco nos extremos climáticos na COP30
14/05/2024A catástrofe do Rio Grande do Sul vai dividir o protagonismo da exposição do governo brasileiro na COP30. Em paralelo às demonstrações das ações federais e estaduais para enfrentar o flagelo, Lula pretende apresentar dados sobre o empenho brasileiro em ações de toda ordem para conter a fúria do clima. Para isso, há recomendação para que os ministérios coletem iniciativas voltadas à preservação do meio ambiente. Todo o material seria centralizado na ministra Marina Silva. Os números sobre redução do desmatamento devem liderar a fila de medidas, mas as exigências de bom comportamento ambiental dos diversos setores dará o colorido da apresentação. Isso inclui as regras “verdes” para concessões de financiamento, planejamento urbano, uso de águas, proteção das matas, atuação do Ibama e mesmo a preocupação para que os investimentos privados se enquadrem nessas normas, entre muitas outras ações.
A convicção no governo é que o Brasil tem muito o que mostrar, mas os dados estão dispersos. É preciso agregá-los para que se tenha uma visibilidade real da colaboração do Brasil no esforço para conter a voracidade climática. A mensagem do presidente Lula será na linha de que os países deveriam seguir o exemplo brasileiro e atuar em todas as áreas da economia, além de estimular que a sociedade colabore com o problema ambiental. Será a hora de verificar se o Brasil é mesmo um case no enfrentamento climático ou uma fake news sob medida para a COP30. É uma oportunidade para o país falar e se mostrar ao mundo que não deve ser perdida.