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O tarifaço de Donald Trump sobre o aço importado pode ser o gatilho que faltava para um movimento de consolidação da indústria siderúrgica brasileira, já há algum tempo em processo de latência. A draconiana tributação imposta pelos Estados Unidos e seu impacto global despontam como um fator suficientemente potente para separar vencedores e perdedores no setor. Desde já, há dois fortes candidatos a protagonizar o redesenho da indústria do aço no país: ArcelorMittal e Usiminas/Ternium.
E nem é preciso dizer quem vestiria o figurino de vencedor e o de perdedor. O grupo pertencente ao empresário indiano Lakshmi Mittal é um dos gigantes da siderurgia mundial, tem massa crítica de sobra, dispõe de acesso a crédito em condições favoráveis e liderou alguns dos maiores investimentos do setor no Brasil ao longo dos últimos anos, como a compra, em 2022, da Companhia Siderúrgica do Pecém por US$ 2,2 bilhões.
Por sua vez, entre o quarteto que domina a produção de aço no país, ninguém está em uma posição tão vulnerável quanto a Usiminas, por suas notórias fragilidades financeiras, pelo seu desgaste institucional e pelos crescentes sinais de incompatibilidade entre a ítalo-argentina Ternium, seu acionista controlador, e o Brasil.
Há um terceiro personagem, não menos importante, que tangencia uma eventual incorporação da Usiminas pela ArcelorMittal: Benjamin Steinbruch. Qualquer discussão sobre o futuro da siderúrgica mineira passa hoje pela CSN, sua acionista minoritária.
Como se sabe existe um antigo contencioso entre a Ternium e a empresa de Steinbruch. Publicamente e em tom de ameaça os acionistas da siderúrgica anunciaram que o grupo pode repensar todos os seus investimentos no Brasil se a Justiça não reconsiderar uma recente decisão favorável à CSN. Nos bastidores, a empresa insinua até sair do país, fazendo algum write off dos R$ 25 bilhões de aportes já realizados e por realizar em Minas Gerais.
A Ternium não digeriu a derrota sofrida no STJ: no fim do ano passado, a Corte determinou o pagamento de uma indenização de R$ 3,1 bilhões à CSN pelo fato de o grupo não ter lançado uma oferta pública para a aquisição de ações da Usiminas ao comprar as participações da Votorantim e da Camargo Corrêa na empresa, em 2012. No entendimento do STJ, a operação configurou mudança de controle, o que tornou obrigatória a realização da OPA.
No fim do ano passado, inclusive, surgiu não se sabe muito bem de onde – ou talvez até se saiba – um suposto manifesto contra o STJ e consequentemente a favor da Ternium, prontamente desmentido por alguns dos “signatários”, conforme noticiou o RR. O RR enviou uma série de perguntas à Usiminas/Ternium, mas a empresa não se pronunciou. Também consultada, a CSN afirma que “a solução para a crise enfrentada pela indústria do aço, reflexo do cenário internacional, exige estabilidade nos negócios no Brasil e, sobretudo, segurança jurídica.
Nesse contexto, as investidas da Ternium/Techint para subverter a decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) são inaceitáveis. O tribunal já confirmou, em mais de uma ocasião, que o grupo ítalo-argentino assumiu o controle da Usiminas de forma fraudulenta, sem realizar a devida Oferta Pública de Aquisição (OPA) aos acionistas minoritários detentores de ações ordinárias. Essa conduta afronta a Lei das Sociedades Anônimas (SAs) e a jurisprudência da Comissão de Valores Mobiliários (CVM)”.
Na paralela há ainda outra questão a ser resolvida.
Em 2014, o Cade determinou que a CSN deveria reduzir sua participação no capital da Usiminas, hoje de 12,9%, para menos de 5% em cinco anos. Após um longo impasse, em 2022 o próprio órgão antitruste reconsiderou parte da decisão, deixando de estabelecer um prazo para que a CSN diminua sua posição na empresa mineira. Uma eventual oferta da ArcelorMittal pelo controle da Usiminas, com a consequente saída de cena da Ternium, teria o condão de distensionar o ambiente corporativo e desatar um nó societário que hoje amarra a própria companhia.
A aquisição da siderúrgica mineira pelo grupo de Lakshmi Mittal poderia também abrir caminho para a saída da CSN do capital. Ou não. Em outros termos de relacionamento, talvez fosse a senha para Steinbruch manter uma participação na Usiminas. E ainda que venha a deixar o capital da companhia, cabe ressaltar que a CSN tem uma posição estratégica no tabuleiro da cadeia do aço, graças a sua operação integrada, leia-se o tripé mineração, logística e siderurgia.
A CSN Mineração soma mais de dois bilhões de toneladas de minério de ferro em reservas estimadas. Tem ainda como sócio minoritário um consórcio de importantes players asiáticos, como Itochu Corporation e Posco. E reúne plenas condições de tonificar essa operação com a compra de mineradoras de menor porte. Some-se a isso o terminal de granéis sólidos (Tecar) de Itaguaí.
Este poder de fogo na mineração funciona como um hedge para a CSN, sobretudo neste momento de pressão tarifária dos Estados Unidos sobre o aço. A empresa poderia se tornar uma “Valezinha”, capaz de incomodar em alguma instância a “Valezona”.
Voltando à ArcelorMittal, a Usiminas é um ativo barato para o conglomerado de Lakshmi Mittal.
Apenas como referência, o atual valor de mercado da empresa mineira gira em torno de R$ 6,7 bilhões, o pior patamar desde maio de 2020. Somente nos últimos 12 meses, a ação da companhia acumula uma queda de quase 50%. Não chega a surpreender.
Entre as quatro grandes siderúrgicas do Brasil, a Usiminas é, disparadamente, a que apresenta os piores resultados. E não é de hoje. Em um recorte entre 2013 e 2024, a empresa perde para seus concorrentes em todos os principais indicadores de performance. No caso da ArcelorMittal Brasil, ressalte-se, os números vão até 2023, uma vez que a empresa ainda não divulgou as demonstrações financeiras do ano passado.
Na receita líquida acumulada (R$ 207 bilhões), a Usiminas fica atrás de Gerdau (R$ 625 bilhões), Arcelor (R$ 401 bilhões) e CSN (R$ 343 bilhões). No lucro líquido somado (R$ 12,7 bilhões), é mais uma vez superada, pela ordem, por Gerdau (R$ 49,1 bilhões), Arcelor (R$ 35 bilhões) e CSN (R$ 28,4 bilhões).
Em termos de geração de caixa, só para não variar, a Usiminas também vai lá para o fim da fila. No período de 2013 a 2024 (exceção feita à Arcelor, conforme já explicado), registrou um Ebitda acumulado de R$ 32 bilhões, contra R$ 110,7 bilhões da Gerdau, R$ 104 bilhões da CSN e R$ 73,2 bilhões da Arcelor. Os números mostram a tibieza da Usiminas vis-à-vis suas maiores competidoras.
Nada que não pudesse ser gradativamente revertido nas mãos de um gigante global. Juntas, Arcelor e Usiminas teriam uma capacidade de produção superior a 24 milhões de toneladas de aço por ano, quase a metade de toda a indústria siderúrgica brasileira (aproximadamente 51 milhões de toneladas). Com o furacão Trump varrendo o setor, talvez a Usiminas não tenha mesmo para onde correr.
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