Química entre Lula e Trump vira ameaça para usineiros do Nordeste

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Química entre Lula e Trump vira ameaça para usineiros do Nordeste

  • 3/11/2025
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A química entre Lula e Donald Trump ameaça provocar um “caos molecular” na indústria sucroalcooleira do Nordeste. O motivo é a possibilidade de renegociação das tarifas cruzadas aplicadas pelos dois países no comércio de açúcar e etanol. Para os produtores da região, trata-se de uma faca de dois gumes. Se, de um lado, os usineiros nordestinos vislumbram a chance de retomar as vendas de açúcar para os Estados Unidos com uma alíquota inferior ou mesmo sem a sobretaxa de 50% imposta pelo governo Trump, do outro, temem pesadas perdas caso o Brasil, em contrapartida, reduza a tributação sobre o etanol norte-americano. O próprio presidente Lula já acenou com a possibilidade de baixar a tarifa que incide sobre o combustível proveniente dos Estados Unidos, hoje de 18%. A medida teria impacto sobre a indústria sucroalcooleira nacional como um todo. Porém, por uma perversa combinação de fatores, as usinas do Nordeste serão as mais duramente atingidas caso haja um aumento do volume de etanol norte-americano no mercado interno.
Por facilidades de ordem logística, a maior parte do combustível importado dos Estados Unidos entra no Brasil exatamente pela região, mais especificamente por Suape (PE) e de Itaqui (MA). Com isso, já na partida o etanol made in USA chega no Nordeste a preços mais baixos do que em outras áreas do país, deslocando mercado dos produtores locais. Some-se o fato de que as usinas nordestinas têm um grau de competitividade inferior ao de suas congêneres no Sudeste e Centro-Oeste. Em São Paulo, por exemplo, a produtividade média é de 99 toneladas de cana por hectare (tc/ha). No Nordeste, esse é índice é de 88 tc/ha – em algumas regiões, não passa de 72 tc/ha.
Diante das tratativas entre Brasil e Estados Unidos e da hipótese de renegociação das tarifas do açúcar e álcool sobre a mesa, governadores do Nordeste têm feito gestões junto ao Palácio do Planalto. À frente estão Raquel Lyra, de Pernambuco, e Paulo Dantas, Alagoas, os dois maiores produtores da região. Buscam mecanismos de compensação para o caso do governo reduzir a tributação sobre o etanol norte-americano. Além de subsídios, uma das propostas discutidas seria a criação de uma Tariff Rate Quota (TRQ), ou seja, tarifas diferenciadas por região para reduzir o volume de entrada do produto por portos do Nordeste. Seria uma forma também de escalonar desembarques em momento de entressafra na região.
Os usineiros do Nordeste, assim como do Norte, já são beneficiados dentro do sistema de cotas a que o Brasil tem direito para a exportação de açúcar aos Estados Unidos. As duas regiões respondem por quase todos os embarques dentro do regime especial. Na safra atual, o Brasil teve direito a 155 mil toneladas. Até abril, esse volume era isento de taxação. O governo Trump aplicou uma alíquota de 10% e, pouco depois, os 40% adicionais – o excedente à cota de 155 mil toneladas paga 80% de tributação. Em um exercício hipotético, ainda que o governo Lula consiga de volta o imposto zero dentro da cota, os usineiros alegam que o impacto positivo da medida será praticamente perdido pelo aumento da entrada do etanol norte-americano.

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