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O setor cafeeiro traça uma estratégia defensiva para enfrentar o impacto do tarifaço de Donald Trump, inicialmente previsto para entrar em vigor amanhã e agora postergado para o dia 6. Segundo uma fonte da área de comércio exterior, a maior parte dos exportadores deverá interromper os embarques do produto nos próximos dias. O intuito é ganhar tempo. A não ser nos casos em que o importador se comprometer a assumir os custos da sobretaxa, os traders vão segurar o café à espera de mais um adiamento ou mesmo da suspensão da alíquota de 50% e de algum avanço nas tratativas entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos. É a decisão possível para o momento, ainda que com seus inexoráveis danos colaterais.
A medida inevitavelmente provocará um efeito cascata na cadeia da commodity, chegando até o campo. Cabe lembrar que o setor está na fase final da colheita, ou seja, grande parte da safra ainda se encontra nas mãos dos produtores, o que vai acarretar um custo maior de estocagem não previsto.
Em seus estudos sobre o impacto do tarifaço de Trump, produtores e exportadores de café trabalham com dois timings distintos. No curtíssimo prazo, caso o gravame de 50% seja efetivamente adotado, o processo de acomodação será doloroso. No entanto, passado o maremoto inicial, a aposta é que a médio e longo prazo os Estados Unidos não conseguirão sustentar a sobretaxa, ainda que o café tenha sido mantido no índex do governo Trump mesmo após a retirada de outros itens – como suco de laranja, celulose, petróleo e componentes da aviação – anunciada ontem.
Não há excedente de grãos no mundo. Todos os 180 milhões de sacas que o planeta produz anualmente são consumidos e, o mais importante, têm mercados definidos e cadeias comerciais muito bem amarradas com contratos de longo prazo. Da mesma forma que o Brasil não conseguirá da noite para o dia um comprador substituto para o produto que eventualmente deixe de ser embarcado para o mercado norte-americano, os Estados Unidos também terão grande dificuldade de recomposição de seus estoques. Um terço de todo o café consumido na terra de Trump sai das lavouras brasileiras, algo como oito milhões de sacas por ano.
Não se trata apenas de buscar novos fornecedores globais, por si só uma tarefa complexa. Há ainda uma questão de inadequação do produto. Não é exagero dizer que, em grande parte, o paladar do consumidor norte-americano está moldado pelo café brasileiro.
Por esses motivos, é sintomático que o próprio secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, já tenha declarado que o governo poderá rever as tarifas impostas a mercadorias não produzidas internamente. É o caso do café.
De toda a forma, nesse contexto conturbado, não há espaço para cafeomancia. Até o momento, a borra de café deixada na xícara por Donald Trump não permite qualquer exercício de futurologia. A lógica de Trump é não ter lógica. E, para além da questão econômica, o presidente norte-americano não dá sinais de recuo em sua ofensiva para interferir na dinâmica política e institucional do Brasil – vide as sanções anunciadas ontem contra o ministro Alexandre de Moraes, com base na Lei Magnitsky.
Por mais que a sobretaxa norte-americana sobre o café não pareça ser sustentável a médio e longo prazos por uma série de fatores, desde já o setor discute saídas para mitigar ou mesmo contornar os efeitos da avalanche tarifária trumpista. De acordo com a fonte do RR, em conversas reservadas, produtores e exportadores falam na possibilidade de triangulação dos embarques. Ou seja: de usar países vizinhos não atingidos pelos desvarios alfandegários de Trump para acessar o mercado norte-americano. Esse movimento exigiria algum contorcionismo. Nada que, em maior ou menor medida, já não seja feito no comércio internacional.
Em tom de blague, a fonte do RR lembra, inclusive, da célebre história do trader Marc Rich, fundador da Marc Rich & Company, que mais tarde daria origem à Glencore. No fim dos anos 70, Rich utilizou-se de um complexo sistema de empresas registradas em jurisdições offshore para ocultar a origem do petróleo. Com essa prática, conseguiu driblar sanções impostas pelos Estados Unidos e exportar grandes volumes do produto do Irã para o mercado norte-americano.
Não é o caso de se chegar a tanto. Mas, mantidas as tarifas impostas pelo governo Trump, se, na próxima safra, o Paraguai embarcar três ou quatro milhões de sacas de café para os Estados Unidos, não será difícil saber de onde saiu o produto. O país vizinho não produz sequer 20 mil sacas por ano.
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