Governadores do Nordeste cobram de Lula proteção para a indústria sucroalcooleira local - Relatório Reservado

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Governadores do Nordeste cobram de Lula proteção para a indústria sucroalcooleira local

  • 1/04/2025
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A negociação com o governo Trump em torno das tarifas cruzadas do etanol e do açúcar é um nó com várias amarras, não apenas no âmbito da política externa, mas também interna. Governadores do Nordeste – à frente Raquel Lyra (PSD), de Pernambuco, e Paulo Dantas (MDB), de Alagoas – têm procurado o Palácio do Planalto com o objetivo de garantir medidas protetivas para a indústria sucroalcooleira local. Os chefes do executivo estadual pintam um cenário sombrio.

Por um efeito dominó, as usinas da região têm tudo para ser as mais prejudicadas no caso de um eventual acordo entre os dois países, com o risco de suspensão de investimentos, fechamento de plantas e demissões. Vamos por partes. O governo Lula cogita reduzir a alíquota para a importação de etanol, hoje de 18%.

Será um dos principais assuntos na agenda da comitiva liderada pelo embaixador Maurício Lyrio e enviada pelo Itamaraty a Washington para discutir possíveis tratados no comércio bilateral. O governo Trump tem feito forte pressão sobre a gestão Lula para a redução das tarifas que incidem sobre o álcool norte-americano, com reiteradas ameaças de elevar as barreiras para a entrada do combustível brasileiro no país – atualmente, o imposto de importação nos Estados Unidos é de 2,5%.

Hoje, a balança pesa a favor do Brasil, que exportou mais de US$ 200 milhões em álcool para o mercado norte-americano em 2024, ao passo que as importações não passaram de US$ 50 milhões. Mas tudo pode mudar a partir do “tarifaço” que deverá ser anunciado pelo presidente dos Estados Unidos amanhã.

Nesse contexto, além da difícil tarefa de evitar represálias do retaliador Donald Trump e, com isso, uma brusca queda dos embarques de etanol para os Estados Unidos, o corte das alíquotas teria um segundo objetivo: seria uma tentativa do governo Lula de negociar com os norte-americano o aumento da cota para a importação de açúcar brasileiro. Hoje, o país pode exportar para os Estados Unidos apenas 147 mil toneladas por ano com isenção tributária.

Qualquer grânulo de açúcar acima desse teto paga uma taxa de 80%. No ano passado, o Brasil vendeu aos EUA quase 1,2 milhão de toneladas.

E onde o Nordeste entra nesse enredo? O que está em pauta é um jogo de engrenagens muito sensíveis. Ao ajustar uma porca, corre-se o risco de descarrilar toda uma roldana. Se, por um lado, uma eventual redução das alíquotas de importação de etanol pode beneficiar as vendas de álcool e açúcar brasileiros para os Estados Unidos, por outro provocaria uma espécie de apartheid dentro da própria indústria sucroalcooleira nacional.

Seria quase que uma redistribuição de renda dentro do setor, só que em prol dos que já tem mais, leia-se os grandes produtores de açúcar e álcool do Sudeste e do Centro-Oeste. Esse é o ponto que tem levado governadores do Nordeste, maior base eleitoral de Lula, ao Palácio do Planalto. As conversas se intensificaram ao longo do dia de ontem, com o envio da comitiva diplomática a Washington.

Os governadores carregam consigo alguns pleitos, como a concessão de subsídios públicos e o aumento da cota das usinas nordestinas nas exportações de álcool e açúcar. O argumento é que o eventual corte das alíquotas de importação do etanol e o consequente aumento da entrada do produto norte-americano, notadamente de milho, no Brasil, terá impacto negativo notadamente sobre a indústria sucroalcooleira do Nordeste.

Não são poucos os fatores que apontam nessa direção.

Para começar, as usinas locais têm uma estrutura de custos superior e níveis de produtividade inferiores em comparação com empresas de outras regiões. Em São Paulo e no Centro-Oeste, a média é de 99 toneladas de cana por hectare (tc/ha). No Nordeste, esse é índice é de 88 tc/ha, mas em algumas regiões não passa de 72 tc/ha.

Além disso, por questões logísticas, a maior parte do etanol comprado dos Estados Unidos entra no Brasil exatamente pelo Nordeste, mais especificamente pelos portos de Suape (PE) e de Itaqui (MA). De cara, o produto importado já chega nessa região a preços mais competitivos, deslocando mercado dos produtores locais.

Na equipe do ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, há quem pondere que o Nordeste não precisa de tratamento diferenciado em caso de redução da alíquota para a importação de álcool combustível.

A alegação é que existem hoje projetos importantes e competitivos na região para a produção de etanol à base de milho. Não deixa de ser verdade. O Grupo Progresso, do empresário Cornélio Sanders, iniciou a construção de uma usina em Uruçuí (PI), um empreendimento de R$ 1,1 bilhão.

A Inpasa está prestes a dar a partida em sua usina de etanol de milho em Balsas (MA), na qual investiu R$ 1,2 bilhão. E promete outro projeto da mesma dimensão para a Bahia. Ocorre que, para cada um desses empreendimentos, há um punhado de usinas de álcool mais antigas, com tecnologia defasada, custos de produção elevado e notórias dificuldades logísticas para colocar seu produto nos principais mercados do país, como o Sudeste.

#Donald Trump #Lula

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