Governo vai buscar na Petrobras combustível eleitoral para a classe média

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Governo vai buscar na Petrobras combustível eleitoral para a classe média

  • 19/05/2026
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Vai ter dinheiro para a classe média. Ponto. O lançamento da linha de crédito de R$ 30 bilhões para taxistas e motoristas de aplicativo, programado para hoje, abre uma carreata de medidas que serão anunciadas nas próximas semanas com foco nesse estrato intermediário da população, um miolo no qual as taxas de aprovação de Lula patinam. Para isso, além do já asfixiado orçamento, a equipe econômica quebra a cabeça em busca de recursos para fundear as novas iniciativas. Entre as hipóteses discutidas na Fazenda, uma das ideias que já teria sinal verde do Palácio do Planalto é usar o que exceder o dividendos das estatais previstos no orçamento da União, que podemos considerar como guidance, carimbando esse dinheiro para custear novas “bondades” voltadas às Classes B e C. A proposta ganhou corpo, sobretudo, pela expectativa de um salto nos resultados da Petrobras por conta da disparada dos preços do petróleo. No primeiro trimestre deste ano, a estatal teve um lucro de R$ 32,7 bilhões, uma queda de 7,2% em relação a igual período em 2025. No entanto, cabe dizer que o balanço de janeiro e março ainda não capturou os efeitos da guerra no Irã sobre as cotações do petróleo e, consequentemente, sobre as exportações da companhia. Esse efeito dominó positivo é aguardado para as demonstrações financeiras do segundo trimestre. Com isso, cresce a possibilidade de a empresa pagar a seus acionistas um volume razoavelmente superior à cifra referente ao primeiro trimestre, de R$ 9 bilhões.

O Orçamento federal elaborado para este ano prevê um repasse ao Tesouro de R$ 54 bilhões em dividendos de estatais. Nos primeiros meses do ano, no entanto, a equipe econômica passou a trabalhar com um guidance mais modesto, na casa dos R$ 30 bilhões. A alta do petróleo e seu impacto sobre as contas da Petrobras aumentam a expectativa de aumento dessa cifra – no primeiro trimestre, ressalte-se, a companhia registrou o maior lucro entre todas as petroleiras do mundo, segundo levantamento da consultoria Elos Ayta. Ressalte-se que a estatal responde, historicamente, por algo entre 55% e 70% da transferência de recursos de empresas públicas para o Tesouro.

Dentro do governo, o cenário atual reforça a percepção de que a Petrobras pode funcionar como combustível para aditivar as medidas para a classe média. A estatal carrega ainda um tanque reserva. A direção da companhia já sinalizou ao mercado que não deverá distribuir dividendos extraordinários no curto prazo, em linha com a estratégia de preservar caixa e sustentar o plano de investimentos. Mas, dependendo das necessidades eleitorais de seu acionista controlador, quem sabe? Isso para não falar da possibilidade de um ganho adicional expressivo de arrecadação. Segundo estimativas do Ibre/FGV, publicadas na edição de ontem do Valor Econômico, com o Brent médio a US$ 90 e dólar a R$ 5,20, a arrecadação bruta adicional da União associada ao setor extrativo mineral poderia chegar a R$ 71 bilhões em 2026. Com o barril a US$ 100, o bônus subiria para R$ 104 bilhões.

Cabe enfatizar que a proposta de uso dos dividendos das estatais leva em consideração o cumprimento do arcabouço fiscal. A equipe econômica está convicta de que conseguirá entregar a meta deste ano, por conta do aumento na arrecadação. Da mesma forma, a ideia é não colocar mais nada no parafiscal, além dos quase R$ 150 bilhões que deverão entrar nesse balaio em 2026, segundo levantamento da Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado. A Fazenda não quer passar a ideia de que os benefícios à classe média serão mais uma artimanha fiscal em nome da reeleição.

Até o momento, o governo Lula fez poucos afagos à classe média. A rigor, a medida de maior impacto foi o aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda. No entanto, pesquisas internas que circulam no Palácio do Planalto indicam que a iniciativa não produziu efeito expressivo nos índices de aprovação do governo junto às Classes B e C. A leitura é que uma medida isolada não basta para alterar a percepção desse eleitorado. No entorno de Lula existe a convicção de que é necessário montar um feixe de iniciativas, uma massa crítica de benefícios capaz de ser percebida no dia a dia por essa parcela da população. E elas virão em maior escala. Uma das propostas em estudo envolve o Reforma Casa Brasil, linha operada pela Caixa para financiar reformas, ampliações e adequações em imóveis urbanos. No início do mês, o programa foi ampliado: o limite para a renda familiar dos beneficiados passou de R$ 9,6 mil para R$ 13 mil, e o teto para os empréstimos subiu de R$ 30 mil para R$ 50 mil. Agora, a equipe econômica pretende ampliar o funding. Outra “bondade” em pauta é a ampliação da Bolsa Integral no Programa Universidade para Todos (ProUni). Hoje, apenas estudantes de famílias com renda de até 1,5 salário-mínimo têm direito a financiar 100% do valor de mensalidade. A ideia é elevar esse sarrafo para 3,5 salários-mínimos.

Consequentemente, a faixa dos beneficiários com crédito de 50% (hoje exatamente de 3,5 salários) também deverá subir alguns degraus. Ainda não se tem ideia do impacto da revelação das conversas entre Flavio Bolsonaro e Daniel Vorcaro sobre o candidato do PL. Talvez seja o início de um processo de erosão da candidatura de Flavio; talvez não provoque sequer uma ranhura na sua popularidade. O fato é que o cenário atual é preocupante para Lula. As pesquisas mostram que a eleição será decidida no photochart. Assim como foi em 2022, quando Lula bateu Jair Bolsonaro por apenas 1,8 ponto percentual. Assim como foi em 2014, quando Dilma Rousseff derrotou Aécio Neves por três pontos percentuais. Se os Estados Unidos têm os chamados “estados-pêndulo”, o Brasil tem eleitores pendulares. Trata-se de um grupamento não ideológico, sem carteirinha no fã clube da polarização, que se mexe levemente do centro para a direita ou para a esquerda em razão das circunstâncias de momento. Proporcionalmente, são poucos, mas capazes de decidir a eleição. Esse contingente está majoritariamente concentrado na classe média. É sobre esses eleitores que tanto Lula quanto Flavio terão de avançar para atrair o pêndulo para o seu lado. Qual é esse intervalo de oscilação? Na mais recente pesquisa Meio/Ideia, 27,2% dos que declararam voto em Lula disseram que ainda podem mudar de candidato. No caso de Flavio, o risco de volatilidade é maior – 43,1% de seus eleitores afirmaram que podem virar casaca. É sobre esses que o governo Lula vai despejar seus “Vale IR”, “Vale Casa”, “Vale Gás”, “Vale Obra” etc.

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