Redação RR - Relatório Reservado

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O que o BTG pretende com tanta moeda podre? Os Correios podem ser uma das respostas

24/04/2026
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Entre as tantas formulações químicas que pululam nos tubos de ensaio do BTG, surge um projeto ousado, seja pelo business, seja pela deterioração do ativo em questão: os Correios. Segundo informações que circulam no mercado, o banco vem estudando com vagar os números da estatal e do negócio de logística como um todo. Há toda uma conjugação de fatores que justificam essa iniciativa aparentemente sui generis. O primeiro deles, a conjuntura político-eleitoral. A ascensão de Flavio Bolsonaro nas pesquisas traz a reboque a expectativa de uma futura rodada de privatizações. Mais do que isso: com a hipótese de operações complexas, que exigiriam uma engenharia financeira não convencional. Acertou quem pensou em moedas podres. Talvez seja puro feeling, talvez os radares do BTG já tenham captado algum sinal vindo de 2027. O fato é que o banco de André Esteves vislumbra a possibilidade de usar seu enorme manancial de títulos em “special situation” para comprar os Correios – e eventualmente outras estatais que venham a ser colocadas sobre o balcão. O indicativo é que há uma única premissa: a venda da empresa só poderá se dar em um modelo “elas por elas”, ou seja, ativos podres em troca de um “ativo podre”.  Quer dizer, “ativo podre” dependendo das mãos em que estiver.
Controlado pelo Estado, os Correios se tornaram uma companhia não só parada no tempo, mas quebrada. A empresa é excessivamente ancorada na lógica postal tradicional, ou seja, um modelo de negócio estacionado no século passado. Sob a gestão de um player sofisticado como o BTG, os Correios poderiam se transformar em uma grande plataforma integrada de logística. A capilaridade da empresa — praticamente onipresente em todo o território brasileiro — é um ativo que, bem explorado, permitiria avançar com força no chamado “last mile”, justamente o trecho mais caro e estratégico da cadeia de distribuição. Mais do que isso: a empresa poderia se transformar em um hub nacional para o e-commerce, oferecendo soluções completas de armazenagem, fulfillment e entrega, algo que hoje é dominado por operadores privados e plataformas digitais. Procurado pelo RR, o BTG não quis comentar o assunto.
Tudo, ressalte-se, está no campo do “se”. Esse é um cenário que, de fato, depende de um determinado desfecho da eleição presidencial. É improvável – para não dizer impossível – que, reeleito, Lula decida partir para a privatização dos Correios, mesmo com a catástrofe financeira da estatal. Ontem, a empresa anunciou ter fechado seu balanço de 2025 com um prejuízo de R$ 8,5 bilhões, o triplo das perdas registradas no ano anterior. Os Correios têm dívidas a torto e a direito. O passivo junto aos fornecedores e tributos, incluindo Previdência, alcançou R$ 3,7 bilhões até fevereiro de 2026. As dívidas relacionadas a processos judiciais atingiram R$ 6,4 bilhões. Existe também um débito de R$ 7,6 bilhões com o fundo de pensão Postalis sob fiscalização do TCU. Dentro desse caldeirão, fervem R$ 12 bilhões em empréstimos bancários, com o Tesouro Nacional (contribuintes) como fiador. O BTG poderia estruturar uma proposta de compra dessas dívidas com enorme deságio e pagar com suas “moedas especiais”, também adquiridas com tremendos deságios. Uma operação complexa, mas à feição do estilo de ser do BTG.
Tudo muito bom, tudo muito bem, mas, mesmo que Flavio Bolsonaro venha a ser eleito com a promessa de um viés mais liberal na economia, isso não seria garantia da desestatização dos Correios. Um exemplo gritante: apesar da enorme concentração de poderes, o ex-ministro da Economia, Paulo Guedes, tentou colocar os Correios à venda, mas parou na vontade. Pouco conseguiu avançar nesse quesito. Seu Plano Nacional de Desestatizações previa a venda dos próprios Correios, além de EBC, Dataprev, Nuclep, Serpro, Telebras, Casa da Moeda, entre tantas outras. Todas seguiram onde estavam. No caso dos Correios, talvez haja uma “vantagem”: a degradação financeira da empresa é tão grande e está tão diante dos olhos, que, nessa situação, qualquer movimento de resistência à sua privatização já fica fragilizado, para não dizer desacreditado. De qualquer forma, aconteça o que acontecer, o BTG sabidamente já se aproximou de Flávio Bolsonaro.
O uso de moedas podres para a compra de estatais está longe de ser uma novidade no Brasil. Muito pelo contrário. O caso mais emblemático é o da Embraer: Julio Bozano despejou uma montanha desses ativos para ficar com a empresa. Nos últimos anos, a proposta de ressurreição desse modelo para deslanchar privatizações emergiu e submergiu algumas vezes, a mais recente delas exatamente na gestão de Paulo Guedes à frente do Ministério da Economia. Se voltar à tona e vier para ficar – mais um dos tantos “se” que envolvem a eventual retomada das privatizações -, não há nenhum outro investidor com tamanho arsenal quanto o BTG. Nos últimos anos, o banco tem feito um arrastão na compra de moedas podres das mais diversas naturezas: são, entre outros, créditos contra empresas, carteiras de empréstimos com inadimplência, precatórios e ativos de instituição financeiras em liquidação. Onde tem um emaranhado de distressed assets lá está o BTG. Vide a recente compra de mais de R$ 1 bilhão em dívidas da encalacrada Ambipar. O BTG não abre o valor, mas estima-se que ele tenha mais de R$ 20 bilhões em moedas podres. São recursos mais do que suficientes para comprar os Correios e outros ativos públicos bolorentos que, porventura, venham a ser despachados pelo próximo governo.

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Depois da Caixa, Polícia Federal investiga fraudes contra o Banco do Brasil

23/04/2026
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O crime organizado tomou de assalto os bancos federais. Segundo uma fonte da própria PF, investigações apontam que o Banco do Brasil também teria sido vítima de fraudes financeiras cometidas pelo Comando Vermelho. Trata-se do mesmo esquema de lavagem de dinheiro que impôs perdas de aproximadamente R$ 500 milhões à Caixa Econômica, de acordo com as apurações no âmbito da Operação Fallax. Cabe lembrar que o Grupo Fictor também é citado nas investigações, vinculado a supostos crimes de gestão fraudulenta, apropriação indébita financeira e emissão de títulos sem lastro. No dia 25 de março, Rafael Góis, fundador e CEO da instituição financeira, foi alvo de uma operação de busca e apreensão. O grupo se notabilizou pela tentativa de compra do Master às vésperas do BC decretar a liquidação do banco. O RR fez várias tentativas de contato com a Fictor, mas não obteve retorno. Também consultado, o Banco do Brasil não se pronunciou. A Polícia Federal, por sua vez, disse ao RR que “não se manifesta sobre eventuais investigações em andamento”. 

#Banco do Brasil #Polícia Federal

Da carne ao grão: Arábia reforça posição do Brasil em busca de segurança alimentar

23/04/2026
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A redução da participação acionária do Salic (Saudi Agricultural and Livestock Investment Company) na MBRF está longe de ser um mero ajuste de portfólio. O que há por trás da decisão é um realinhamento mais amplo dos interesses geoeconômicos da Arábia Saudita no Brasil, notadamente no que diz respeito a segurança alimentar. Além da proteína animal, o agronegócio brasileiro deverá se tornar um dos principais fornecedores de grãos para os árabes. Esse reposicionamento passa pelo recente aumento da posição societária do Salic – vinculado ao PIF (Public Investment Fund), um potentado soberano, com mais de US$ 1 trilhão em ativos – na Olam Agri, de Cingapura. Os árabes saltaram de 35% para 80%, assumindo o controle da empresa, uma das oito maiores tradings de commodities agrícolas do mundo. O Brasil é uma peça valiosa nesse mosaico. O país representa algo como 10% de todo o volume de grãos transacionado pela Olam. Ao assumir o mando da trading asiática, a Arábia Saudita passa a ter uma posição privilegiada em um canal estratégico de abastecimento. Na prática, os sauditas controlarão uma engrenagem capaz de conectar oferta, logística e distribuição, influenciando decisivamente em três pontos cardeais da cadeia: na originação de alimentos, no volume comercializado e no preço. No caso do Brasil, o que está em jogo é a primazia sobre o variado cardápio de exportações da Olam, que inclui café, algodão, açúcar, soja e milho.

Mesmo com a recente redução da participação, o Salic manteve 10% da MBRF, a gigante criada a partir da fusão da Marfrig com a BRF. Ao mesmo tempo, o fundo é o principal acionista da Minerva Foods. Ou seja: o Brasil já é responsável por uma parcela considerável da proteína animal que chega aos pratos dos sauditas. Com a ascensão do Salic sobre a Olam, o país se consolida como um multi supridor de alimentos para a Arábia Saudita. Estamos falando de uma nação que importa mais de 80% da comida que consome. Em alguns casos, como trilho e milho, a dependência das importações é quase total. No passado, a Arábia Saudita – uma das regiões mais áridas do mundo, sem rios permanentes e com regime de chuvas extremamente limitado – tomou a decisão de praticamente extinguir o cultivo desses cereais para preservar seus recursos hídricos. Essa combinação de restrição aquífera estrutural e dependência externa transforma o abastecimento alimentar questão de Estado. Não basta comprar no mercado internacional. É preciso garantir acesso direto às cadeias produtivas, reduzindo vulnerabilidades em momentos de estresse global. Nesse contexto, controlar a originação de grãos significa, na prática, controlar o ponto de partida de toda a cadeia alimentar. A mudança de ênfase ganhou força após uma sequência de choques que expuseram a fragilidade do sistema global de alimentos. A guerra na Ucrânia, as restrições de exportação adotadas por diversos países e a volatilidade crescente das commodities agrícolas reforçaram a percepção de risco. 

Diante desse panorama, o Brasil conquista um protagonismo ainda maior na balança comercial alimentar dos sauditas. No ano passado, as exportações de carnes e grãos para a Arábia chegaram a US$ 2,8 bilhões. A estimativa é que esse volume atinja a casa dos US$ 4 bilhões em até três anos, na esteira dos acordos firmados entre os dois países. Nos últimos anos, a relação bilateral tem sido marcada por sucessivas liberações sanitárias, que permitiram a entrada de novos produtos brasileiros no mercado saudita — de derivados bovinos a frutas tropicais.

 

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