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A descoberta das relações “fraternais” entre Flavio Bolsonaro e Daniel Vorcaro caiu dos céus para Lula. Além do potencial impacto eleitoral, o caso dá ao governo brasileiro um fato político, institucional e policial para acelerar as negociações com os Estados Unidos em torno de um acordo de cooperação envolvendo paraísos fiscais. Conforme o RR informou (Leia aqui), a proposta em discussão com autoridades norte-americanas prevê que jurisdições de baixa transparência e suas respectivas instituições financeiras passem a disponibilizar “…prevê que jurisdições de baixa transparência e suas respectivas instituições financeiras passem a disponibilizar, em regime de intercâmbio de informações, dados sobre contas numeradas, beneficiários finais, offshores e estruturas societárias. A questão foi tratada no recente encontro entre Lula e Donald Trump na Casa Branca. O objetivo é cavoucar as trincheiras do crime organizado e trazer à luz a imensa rede de túneis subterrâneos por onde o dinheiro ilícito circula mundo afora. Ou seja: o imenso ervanário oriundo do tráfico internacional de drogas e de armas, milícias, jogo ilegal, desvio de recursos públicos, lavagem de dinheiro por fintechs e congêneres etc.
Seja pelos personagens envolvidos, seja pelo que ainda pode vir à tona, o repasse de recursos de Daniel Vorcaro para o clã Bolsonaro dá materialidade policial às negociações diplomáticas com os Estados Unidos para essa ofensiva contra o dinheiro do crime organizado. O governo brasileiro passou a ter nas mãos um caso concreto, rumoroso e de notório impacto, que envolve um pré-candidato à Presidência da República e filho de um ex-presidente e o banqueiro responsável pelo que já pode ser considerado a maior fraude financeira da história do Brasil. Mais do que isso: o episódio em questão envolve diretamente os Estados Unidos. O dinheiro suplicado por Flavio e repassado por Vorcaro – até onde se sabe R$ 61 milhões para supostamente financiar o filme-exaltação “Dark Horse” – deixou um rastro que sai do Brasil e risca o solo norte-americano. Segundo as investigações da Polícia Federal, o pagamento foi efetuado pela Entre Investimentos, ligada ao ex-controlador do finado Master. Parte dos recursos foi repassada ao Havengate Development Fund LP, fundo sediado no Texas. De acordo com a PF, o gestor legal do fundo é Paulo Calixto, advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro.
Calixto assessora Eduardo em articulações políticas e jurídicas nos Estados Unidos, além de atuar como representante do Instituto Liberdade, registrada no mesmo endereço onde estão a sede do Havengate e do seu escritório de advocacia. É tudo tão óbvio e escancarado que das duas uma: ou denota um certo amadorismo ou uma convicção de impunidade.
Ao que tudo indica, há outros “cavalos pretos” cavalgando nesse pasto, que não apenas a película em tributo a Jair Bolsonaro. A PF suspeita que uma parcela do ervanário repassado por Daniel Vorcaro a título de financiamento do filme tenha sido usada para custear as despesas de Eduardo e de sua família, que vivem um confortável autoexílio nos Estados Unidos. Ou seja: é dinheiro desviado em cima de dinheiro desviado, crime em cima de crime. O fato é que todo esse road map automaticamente transforma a investigação em uma questão bilateral. É o clássico “follow the money”, que investigações conjuntas entre autoridades do Brasil e dos Estados Unidos. É um bom ponto de partida para os dois países puxarem o fio da meada da lavagem de dinheiro internacional em paraísos fiscais. Caso as investigações da PF estejam no caminho certo, o episódio Flavio/Vorcaro mostra que o problema não está apenas em offshores clássicas no Caribe, mas também em fundos, bancos, contratos, sociedades de investimento e escritórios localizados sob jurisdição norte-americana. (Ver listas de paraísos fiscais ao fim desta matéria).
Esse é um ponto sensível, que favorece o Brasil. As investigações sobre Flavio Bolsonaro e Daniel Vorcaro abrem um espaço delicado para Washigton, ao expor que os Estados Unidos também têm sua culpa no cartório da lavagem de dinheiro. Ao mesmo tempo de que dispõe de instrumentos poderosos de rastreamento financeiro e influência sobre o sistema bancário global, o país abriga suas zonas de opacidade, como Delaware, Dakota do Sul e Nevada. Os três estados são apontados como jurisdições com características típicas de paraísos fiscais. Delaware por exemplo, estado facilita a criação de LLCs e empresas com baixa exigência de identificação pública dos beneficiários finais. Por isso, é amplamente usado para holdings, trusts e estruturas patrimoniais. Embora não seja um paraíso fiscal clássico de baixa tributação, como Cayman ou Bahamas, funciona como uma praça de anonimato corporativo.
Há um agravante doméstico que aproxima o caso Master do submundo que o governo Lula pretende jogar na mesa com Washington. Segundo a Polícia Federal, as investigações sobre Daniel Vorcaro e seu entorno identificaram suspeitas de vínculos com operadores do jogo do bicho e milicianos no Rio de Janeiro. O nome de Henrique Moura Vorcaro, pai do ex-controlador do Master, aparece nesse contexto como peça relevante das apurações. A PF já havia apontado que Daniel teria usado uma conta ligada ao pai para ocultar cerca de R$ 2,2 bilhões de credores e vítimas do banco. Agora, as suspeições sobre conexões com contraventores e grupos milicianos reforçam a leitura de que o caso extrapola a fraude bancária e encosta no circuito mais amplo de lavagem, coerção privada, fundos de investimento, operadores financeiros e crime organizado. É exatamente esse ecossistema — meio banco, meio fundo, meio política, meio contravenção — que o Planalto quer transformar em argumento para uma ofensiva bilateral contra fluxos financeiros subterrâneos.
Para o governo Lula, o caso Flavio/Vorcaro tem um efeito Bombril, com suas mil e uma utilidades. Flávio Bolsonaro é a ponta solta que apareceu em ótima hora. O descortinamento da relação com o “irmãozinho” Vorcaro é a primeira grande crise da campanha de Flavio à Presidência da República. Mas não é apenas o clã Bolsonaro que está sob risco. A avaliação em Brasília é que o caso pode ajudar a iluminar um circuito muito mais amplo: fundos estrangeiros, empresas intermediárias, escritórios de advocacia, estruturas opacas, bancos com baixa transparência e veículos usados para deslocar recursos entre Brasil e Estados Unidos. Essa é a parte que amedronta a classe política. O Centrão que se segure.
Uma cooperação mais profunda entre os governos brasileiro e norte-americano pode abrir gavetas há muito tempo trancadas. Além de Jair, Flavio, Eduardo e Carlos, a ofensiva pode desbaratar outros “Bolsonaro” que se aninham no Congresso e se valem de arranjos heterodoxos para receber e circular dinheiro, pagar serviços, contratar advogados, financiar campanhas paralelas ou proteger ativos de investigações.
O governo Lula pode ainda auferir outros dividendos políticos desse episódio. Se a investigação avançar, como tudo indica, o caso tem tudo para marcar a ruptura definitiva de Donald Trump com o clã Bolsonaro. A família sempre capitalizou politicamente sua proximidade com o trumpismo. Eduardo Bolsonaro, em especial, fez dessa ponte com Washington um ativo de poder, inclusive na ofensiva contra o STF. Foi nesse contexto que o governo Trump impôs punições a autoridades brasileiras, como a revogação de vistos de Alexandre de Moraes, de aliados no Supremo e de familiares, além das sanções posteriores pela Lei Magnitsky contra Moraes — medidas apresentadas nos EUA como reação à suposta perseguição judicial a Jair Bolsonaro. Mas o cálculo muda de figura se o caso Vorcaro/Flávio deixar de ser uma narrativa de “perseguição política” e passar a ser tratado como fluxo financeiro suspeito dentro do território norte-americano, envolvendo fundo no Texas, advogado ligado ao entorno de Eduardo e eventual uso de estruturas privadas para movimentar dinheiro de origem brasileira. Nesse cenário, o clã Bolsonaro deixaria de ser apenas aliado ideológico incômodo e passaria a representar um problema jurídico e reputacional para Washington.
| PARAÍSOS FISCAIS |
| Lista da Receita Federal do Brasil (Instrução Normativa nº 1.037)
O Brasil utiliza o termo “países ou dependências com tributação favorecida” em referência a que tributam a renda a uma alíquota inferior a 17% ou que não permitem acesso a informações sobre a composição societária de empresas.
Ilhas Cayman, Ilhas Virgens Britânicas (BVI), Bahamas, Barbados, Aruba, Curaçao, Anguilla, Bermudas, Granada, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas, Turks e Caicos.
Andorra, Gibraltar, Ilha de Man, Ilhas do Canal (Jersey e Guernsey), Liechtenstein, Mônaco, San Marino e Irlanda (que entrou na lista brasileira recentemente).
Hong Kong, Macau, Singapura, Maldivas, Seychelles, Vanuatu, Samoa e Líbano.
Panamá, Belize e Costa Rica. |
| O ÍNDEX DA UNIÃO EUROPEIA |
A UE foca na cooperação fiscal e transparência. A lista atual de jurisdições não cooperativas inclui 10 nomes:
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| INDICE DE SIGILO FINANCEIRO (TAX JUSTICE NETWORK) |
Diferente das listas oficiais, a ONG Tax Justice Network aponta países que, embora não sejam “paraísos” no sentido clássico de imposto zero, oferecem leis de sigilo que facilitam a evasão fiscal global. Os principais nomes em 2025/2026 são:
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