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A mudança no comando da Randoncorp (antigo Grupo Randon) está causando tremores sísmicos dentro e fora da companhia. Neste momento, a empresa enfrenta uma crise de confiança no mercado no que diz respeito a sua governança. O discurso oficial é que o retorno do acionista controlador Daniel Randon ao cargo de CEO, anunciado na semana passada, “reflete um cenário momentâneo, cuja duração está atrelada ao desenvolvimento de sucessores”. Pode ser.
No entanto, aos olhos dos investidores, a evasiva em relação ao horizonte de tempo não poderia ser mais reveladora. Entre os próprios minoritários, a percepção é que esse “momentâneo” tem tudo para ser duradouro, com um “tranco” no modelo de governança da Randoncorp. Mesmo porque, de acordo com informações filtradas pelo RR, não é de hoje que a família Randon tem dado sinais de descontentamento com os rumos do grupo e demonstrado a disposição de retomar as rédeas da gestão.
O desapego do clã durou pouco. Sergio Carvalho, primeiro executivo de fora da família a comandar o conglomerado industrial, assumiu em dezembro de 2021 e deixará o cargo no próximo mês de setembro. Ou seja: o período de afastamento dos Randon da administração executiva não chegará sequer a quatro anos.
Se é que o clã efetivamente se afastou, dado o modelo de gestão um tanto quanto exótico da Randoncorp. Além do CEO, há também um presidente, o próprio Daniel Randon, que se manteve no cargo mesmo após a ascensão de Carvalho. A partir de setembro, para que não haja dúvida sobre quem manda, Daniel passará a acumular os dois chapéus.
Procurada pelo RR, a Randoncorp informou que “como uma empresa de origem familiar referência no mercado pela sua governança, a alta gestão da empresa está em constante revisão de suas estruturas no sentido de atender às necessidades que o mercado impõe”.
Ao mesmo tempo em que coloca em xeque a confiança do mercado em relação à governança da Randoncorp, a mudança no comando faz subir a temperatura interna. Como em qualquer grande grupo empresarial, há um caldeirão corporativo onde fervilham expectativas, vaidades, jogos de influência, disputas veladas etc.
Dentro do próprio conglomerado, diante dos indícios de que Sergio Carvalho deixaria o posto de CEO, dois executivos vinham sendo apontados como potenciais candidatos à sua sucessão: Anderson Pontalti, atual diretor de operações da Frasle Mobility, e Ricardo Escoboza, vice-presidente internacional e responsável pelas áreas de autopeças e montadoras na América do Sul. A brusca guinada, com a decisão de Daniel Randon de assumir o posto, deixou ambos a ver navios. Pontalti ainda recebeu um prêmio de consolação – foi nomeado presidente da Frasle. Escoboza, nem isso.
Permaneceu onde já estava. Para todos os efeitos, seguem na linha sucessória. Ocorre que a mudança anunciada na semana passada embaralhou as cartas e bagunçou o que parecia ser um caminho natural em relação à governança da Randoncorp. A questão agora é saber quando – e se – Daniel – filho de Raul Randon, fundador do grupo, falecido em 2018 – deixará o posto de CEO.
Curiosamente, a repentina alteração de rota e a suposta insatisfação da família com a gestão da Randoncorp não encontram justificativa nos resultados da companhia. O conglomerado, um dos maiores fabricantes de autopeças e implementos rodoviários da América Latina, teve uma receita de quase R$ 12 bilhões no ano passado, alta de 9,4% em relação a 2023. O lucro, por sua vez, subiu 7%, chegando a R$ 408 milhões. Já o Ebitda bateu em R$ 1,6 bilhão, 3,3% superior ao do ano anterior. No entanto, nem tudo são flores.
Se há um ponto de incômodo dos acionistas controladores com a gestão é em relação ao aumento da alavancagem. A expansão internacional cobrou seu preço. Entre 2023 e 2024, o passivo de curto prazo do grupo saltou de R$ 3,1 bilhão para R$ 4,6 bilhões, um crescimento de 47,5%. No mesmo período, a relação dívida líquida/Ebitda saiu de duas para 2,89 vezes. Uma das missões de Daniel Randon é frear esse caminhão.
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