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Guardadas as devidas proporções, os Montecchio e os Capuleto do setor de transportes estão sentados a mesma mesa. Em nome do futuro, as famílias Chieppe e Cola – leia-se, respectivamente, o Grupo aguia Branca e a Itapemirim – parecem dispostas a ignorar as hostilidades do passado e seguir numa só direção. Por uma só direção, entenda-se a associação de dois dos maiores conglomerados de companhias de ônibus do país, que transportam por ano cerca de 15 milhões de pessoas. A associação daria origem a uma empresa responsável pela venda de aproximadamente 12% de todas as passagens interestaduais comercializadas no país e com uma receita anual perto de R$ 3 bilhões – o valor contabiliza apenas a unidade de transporte rodoviário da aguia Branca, que corresponde a 20% do faturamento do grupo (R$ 4 bilhões em 2013). Ao volante deste comboio estão o nonagenário Camilo Cola, fundador da Itapemirim, e Nilton Carlos Chieppe, presidente e um dos principais acionistas da aguia Branca. Protagonistas de uma rivalidade histórica, as famílias Chieppe e Cola são unidas – e, ao mesmo tempo, separadas – por incríveis coincidências. Ambas saíram da Itália, instalaram-se no Espírito Santo, mais precisamente nas cidades de Colatina e Cachoeiro, e enveredaram pelo mesmo ramo de negócio quase que simultaneamente – no fim dos anos 40. Ao longo de sete décadas, não foram poucas as vezes em que se engalfinharam nas estradas brasileiras, seja disputando as mesmas concessões, seja duelando pela aquisição de ativos. Procuradas pelo RR, aguia Branca e Itapemirim negam qualquer negociação. No entanto, os caprichos do destino e o cruzamento de interesses corporativos e familiares estão aproximando os dois clãs. Os Chieppe vislumbram na parceria um movimento estratégico capaz de revigorar sua operação de transporte de passageiros, que, ano a ano, tem participação cada vez menor no faturamento do Grupo aguia Branca. No entanto, é Camilo Cola quem tem as maiores – e mais dolorosas – motivações para fechar o negócio. A operação seria uma porta de saída para o inflamável contencioso familiar e o impasse sucessório que pesam sobre os ombros do empresário e colocam em dúvida o próprio futuro da Itapemirim. O imbróglio consanguíneo teve início em 2008, com a morte de Ignez Cola, mulher de Camilo. Desde então, sua filha, Ana Maria Cola, briga na Justiça contra o pai e, por tabela, o irmão, Camilo Filho. Em seu testamento, o fundador da Itapemirim deserdou a filha e declarou o rebento como único herdeiro. Ana Maria entrou com uma ação exigindo a interdição do empresário, a anulação do testamento e a reavaliação de todo o patrimônio da família. Entre o risco de ver a Itapemirim esfacelada por descendentes que se estapeiam ou engolir diferenças históricas e se unir a um antigo adversário, Camilo Cola sequer pestaneja. Pega o primeiro ônibus que passar rumo a segunda hipótese. Perguntada sobre o contencioso, a Itapemirim não se pronunciou em relação ao assunto.
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