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O que precisa ser dito
Recentemente, tenho observado com atenção o declarado amor de muitos brasileiros pela democracia e por suas virtudes. Trata-se de um valor incomensurável, particularmente agudo em países que sofreram longas ditaduras e souberam avaliar, pela experiência amarga, os limites e a incompetência do poder autoritário. Parece ser dever de todos defendê-la acima de tudo, sobretudo diante dos perigos que a ameaçam. Priorizamos a democracia a tal ponto que às vezes parece que a amamos mais do que a nós mesmos. E perdoamos todos os seus pecados, que se avolumam a cada dia.
No entanto, a milenar ciência política nos ensina que a democracia é um regime sedutor e frágil, cujos ciclos históricos são limitados. Quando funciona, obedece a regras impostas por uma espécie de piloto automático, fundado em dogmas indiscutíveis que impõem às instituições seus próprios limites. Lembremos que a democracia moderna está visceralmente ligada às suas origens liberais, estabelecidas a partir do sistema representativo gerado no interior do capitalismo — baseado na propriedade privada, na economia de mercado e na livre circulação das ideias, desde que elas não ameacem esses dogmas, por natureza quase intocáveis.
Os sociólogos chamados elitistas, sobretudo Gaetano Mosca e Vilfredo Pareto — dois italianos notáveis — sempre desconfiaram dessa visão ingênua da democracia, segundo a qual o povo governa porque escolhe livremente seus governantes por meio do voto. Ao contrário, ambos caminhavam em sentido inverso: por trás dos regimes ditos representativos, existe uma zona cinzenta de atuação, menos visível e mais secreta, que define a verdadeira governabilidade, garantindo a coesão e a unidade do poder.
As minorias garantem seu poder porque atuam em número restrito, concentram decisões em suas próprias mãos e se movem com base na unidade e na consistência de interesses comuns. É esse grupo homogêneo e reduzido que define a força do governo e sua possibilidade de êxito. Em suma, há abundante evidência histórica de que quem governa efetivamente, em todos os lugares do mundo — nos países democráticos ou nos regimes autoritários, em países grandes ou pequenos — são as elites do poder, para lembrar o título do famoso livro de C. Wright Mills, não dedicado à Rússia, mas aos Estados Unidos, a nação que inventou a democracia republicana moderna.
Dependendo de seu preparo e de sua qualidade, as elites realizam suas intenções — oligárquicas, pessoais ou coletivas — segundo finalidades e propósitos que elas mesmas determinam, ou que lhes são delegados por um novo grupo no poder.
O verdadeiro poder, diriam Mosca e Pareto, só se exerce efetivamente quando está concentrado nas mãos de poucos: uma minoria ativa e criativa, capaz de comandar o sistema e as instituições sob seu controle. Daí a importância da modelagem institucional integrada a uma matriz histórica: o regime político.
Regimes políticos são estruturas estáveis e imobilistas que funcionam como um piloto semiautomático, garantindo a solidez e a consistência de pactos e poderes estabelecidos. Quando as elites se dividem ou se fragmentam, o poder enfraquece — como no Brasil. Quando se revelam incompetentes, extrativistas e vorazes só existe uma saída possível: promover a troca da guarda, renovar a classe dirigente, formando um novo bloco histórico de poder. É do que o Brasil precisa.
Recentemente, tenho observado também o exemplo do Irã – e com lupa. O que se passa no Oriente Médio não é apenas insubordinação e anarquia diante do poder ordenador do Ocidente europeu e americano. É muito mais. A região foi o berço das grandes civilizações e, diante de uma globalização em curso, e que agora deu curto-circuito, sua cultura, suas tradições e suas demandas pretendem influir na construção de um novo mundo. Esta é a versão otimista que podemos oferecer diante do caldeirão de conflitos que se concentra no Oriente Médio.
O atraso milenar que o colonialismo acentuou, parece não estar impedindo a ressurreição de uma nova identidade regional, apoiada nas velhas tradições. O Irã se destaca nesse contexto, não por suas virtudes cívicas, mas por sua energia vital, seu nacionalismo patriótico que ressuscita as origens do Império Persa. O que é o nacionalismo tosco de Donald Trump e de sua famosa MAGA — Make América Great Again — diante do vigor do passado iraniano, que representa a primeira grande unificação da civilização antiga, o amálgama territorial e cultural de Alexandre, o Grande? Teria existido o Império Romano sem a contribuição anterior da Pérsia e de Alexandre?
O fato surpreendente é que, mesmo sendo derrotado na guerra convencional, o Irã resistiu e se projetou no confronto assimétrico entre os dois países, segundo a parábola bíblica de Davi contra Golias. O país militar e tecnicamente aniquilado desconstruiu os fatos, demonstrando que sua estratégia de astúcia e ocultamento foi de grande serventia.
Subitamente vimos surgir novos recursos de poder que o país vem conseguindo utilizar, tal como o uso estratégico do Estreito de Ormuz nas pressões para a negociação do conflito. E, ainda mais, o Irã conseguiu enfraquecer os EUA em sua própria vizinhança, encorajando seus adversários a negociações mais proveitosas do que seria possível antes do conflito.
O objetivo do Irã parece ser, no entanto, o mesmo que o dos americanos: consolidar um novo pacto de poder no Golfo Pérsico.
De onde vem, afinal, a força telúrica do Irã e de seu nacionalismo que se manifesta desde os anos cinquenta? Este é um fenômeno típico da pós-modernidade que está disposta a anular a modernidade colonial que a precedeu: esvai-se o poder enganoso do Estado-nação diante dos antigos impérios que ressuscitam com a globalização. Em nome de correntes civilizatórias soterradas, estão de volta o Japão, que ressurgiu com a dinastia Meiji, e a China, que se rejuvenesce, segundo o jargão corrente de Xi Jinping, trazendo de volta a glória imperial da dinastia Ming. Também retornam a Índia de Narendra Modi, que busca transformar a antiga civilização hindu-indiana, plural e milenar, em força política de Estado, sob a bandeira do nacionalismo hindu, e a Turquia que representa a civilização e a grandeza do império otomano.
Isto quer dizer que civilizações milenares não desapareceram; hibernaram, encolheram procurando, quem sabe, a oportunidade de ressurgir dentro de um outro patamar. A presença destas formações imperiais se desfez sob o impacto da Primeira Guerra Mundial ou foi abalada pela cupidez do colonialismo europeu, que dividiu o Oriente Médio de maneira traumática, procurando aniquilar identidades políticas ameaçadoras com a intenção de enfraquecer tradições que subsistiam latentes havia séculos. Todas, de algum modo, foram submetidas à força das baionetas ou à tirania do comércio colonial.
Vale lembrar que a força do Irã derrubou o Xá da Pérsia, títere dos ingleses e do poder americano, que se afirmou antes da Segunda Guerra Mundial – e consolidou seu império religioso logo depois dela. Por trás do movimento que derrubou o Xá Reza Pahlevi estava o poder simbólico de Mohammad Mossadegh, em defesa do nacionalismo e do petróleo iraniano ainda nos anos 50 do século passado. O conflito com os Estados Unidos se agravou logo após a tomada do poder pelos aiatolás. A guerra do Iraque contra o Irã, longe de aniquilar o poder religioso recém-instalado, ensinou aos iranianos que, se quisessem enfrentar o Ocidente, teriam de organizar um grupo político coeso e quase inexpugnável, tanto militar quanto politicamente. E assim o fizeram.
Para nós, habituados às fragilidades típicas do poder democrático — sempre oscilante, instável e sujeito aos caprichos da opinião pública e do eleitorado —, impressiona a força telúrica da classe política que governa o Irã, a despeito das resistências internas da população e de uma economia que, bem ou mal, se moderniza. Pesa muito a fratura geracional que opõe os mais jovens ao poder tradicional religioso, na contramão das mudanças que a nova geração almeja.
O Irã já é, inegavelmente, parte de uma economia-mundo globalizada e, portanto, mais exposto aos bons ares da secularização e do desencantamento do mundo, como diria Max Weber, do que ao tradicionalismo religioso e autoritário que se reforça pela truculência e intransigência da elite no poder. Essa truculência transparece na humilhação das mulheres, na repressão aos dissidentes, na submissão da criatividade e no constrangimento de talentos que, apesar de tudo, nos oferecem filmes, literatura e visões de mundo de qualidade surpreendente.
No entanto, a grande surpresa a registrar é, sem dúvida, a vitória política do Irã no confronto assimétrico com os Estados Unidos. Sua vitória se esclarece pela controvérsia de Clausewitz, lembrada por Vitélio Brustolin: diz ele que se a guerra é a continuação da política por outros meios, o seu fracasso inexorável acontece quando o confronto militar não consegue atingir os seus verdadeiros e declarados objetivos políticos.
É surpreendente verificar que, a despeito dos duros golpes sofridos por suas forças regulares diante do poder militar dos Estados Unidos e de Israel, o regime iraniano não capitulou. Ao contrário, parece ter se fortalecido. A despeito das inúmeras mortes de seus principais dirigentes, o regime conseguiu substituir os seus quadros, manter sob controle o seu público interno e, sobretudo, preservar sua estrutura essencial de comando — uma verdadeira surpresa para os americanos, sobretudo depois da intervenção fulminante de Trump na Venezuela, por muito menos.
O que faz esse governo tão forte e, pelo menos aparentemente, tão unido, a ponto de resistir com tamanha intrepidez ao tsunami do poder americano associado a Israel? Voltamos ao ponto de partida: o poder unificador das elites. Segundo o credenciado jornalista do New York Times, Neil Macfarquhar, em 1979, para defender a revolução religiosa iraniana contra a ira dos Estados Unidos – força dominante em busca de submeter o Oriente Médio – e para enfrentar a guerra do Iraque contra o Irã, criou-se a Guarda Revolucionária. Seu objetivo era proteger a revolução recém-instaurada e seu líder, o aiatolá Khomeini.
Como ensina a teoria das elites, o poder revolucionário rapidamente trocou o comando militar existente por uma nova geração de confiança, então situada entre os vinte e os trinta anos — geração que hoje se aproxima ou ultrapassa os sessenta. Naquela época, prepararam-se para o pior: resistir até o fim. A Guarda Revolucionária, extremamente bem-organizada e agressiva, criou um poder militar eficiente e resistente, de patamar operacional e guerreiro. Mas construiu, acima da organização militar, um poderoso sistema político em torno da irmandade revolucionária islâmica. Esse sistema cumpre poucas, mas decisivas funções: conecta-se ao Parlamento, ao sistema jurídico, à inteligência, ao aparelho militar e à segurança interna. Todos orbitam em torno do comando do líder supremo.
Com a morte do aiatolá Ali Khamenei, sucessor de Khomeini, que governou por décadas, o regime não se desorganizou. A sucessão por Mojtaba Khamenei, seu filho e principal assessor, representou mais continuidade do que ruptura. Mais jovem, aos 57 anos, Mojtaba encarna a revitalização possível de um regime autoritário que aprendeu a transformar sobrevivência em método de governo. Em torno dele opera um núcleo de dirigentes que compõe, com notável precisão, aquilo que Mosca chamaria de classe política — e que Gramsci denominaria de “bloco histórico”, símbolo do verdadeiro poder. Seu corpo político parece robusto e organicamente bem constituído:
Graças a essa organização e à sua eficiência, o Irã resistiu ao poder desorganizado de Donald Trump que tinha como objetivo inicial aniquilar o regime dos aiatolás no Irã. No entanto, não foi o que ocorreu. Mesmo perdendo dirigentes importantes, a elite coesa conseguiu substituí-los, recompor hierarquias e renovar a cadeia de comando. Este é hoje o tipo de modelo político que parece eficaz nas guerras do século XXI: regime coeso, disciplinado, vertical, resiliente e capaz de resistir a choques externos.
Estamos muito distantes da instabilidade do parlamento democrático-liberal que vigora, por exemplo, em Israel, onde Benjamin Netanyahu permanece politicamente frágil, sujeito ao sabor das circunstâncias, a derrotas eleitorais e a graves acusações de corrupção ainda em curso nos tribunais. No Ocidente, a democracia liberal impotente para resolver conflitos que afloram com tamanha agressividade, parece estar na berlinda, enquanto estruturas mais coesas, autoritárias e militarizadas ganham terreno nas guerras que se multiplicam no século XXI. Tal evidência não as torna moralmente superiores. Ao contrário: revela apenas que regimes autoritários, quando organizados por elites coesas, podem adquirir uma assustadora capacidade de resistência.
A lição que daí se extrai não é um alerta para a democracia: regimes livres que perdem coesão, autoridade, finalidade comum e capacidade de decisão tornam-se vulneráveis diante de adversários menos livres, porém mais organizados. Esta é hoje a dolorosa situação do Brasil. A democracia só sobreviverá se souber reencontrar sua energia vital e recompor sua classe dirigente. O capitalismo em seus princípios básicos só sobreviverá se conseguir adaptar-se aos desafios do que Alice Amden designou como “o resto”, isto é, aquele conjunto de países que permanecem parcial ou integralmente à margem da economia-mundo e do sistema político global. A democracia liberal parece estar na berlinda enquanto estruturas mais coesas e de composição autoritário ganham terreno nas guerras que se multiplicam no século XXI. Não basta amar a liberdade. É preciso bem governá-la.
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