Eike aposta no El Niño para voltar à geração térmica

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Eike aposta no El Niño para voltar à geração térmica

  • 18/06/2026
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Eike Batista mira seu retorno à área de energia. Segundo informações obtidas pelo RR, o empresário tem batido à porta de fundos soberanos, especialmente o Mubadala, em busca de um parceiro para investimentos em térmicas a gás. Fazendo jus à autodefinição que gosta de usar – “Sou um labrador caçador de trufas” – mais uma vez Eike fareja a oportunidade de ganhar dinheiro com os solavancos climáticos do país. Se, no início dos anos 2000, surfou na crise do racionamento, agora o empresário quer aproveitar os ventos do El Niño, um risco já devidamente precificado para 2027. O fenômeno climático deverá reduzir o volume de chuvas em importantes bacias hidrográficas do país, pressionando os níveis dos reservatórios e aumentando a necessidade de despacho de usinas termelétricas para garantir a segurança do sistema. É justamente essa tese que Eike está colocando na prateleira do Mubadala, de quem se aproximou há alguns meses na busca por um sócio para o seu projeto da “supercana”. Por enquanto, o investimento na cana com hiperprodutividade não colou. Mas, no ínterim dessas conversações, o empresário encontrou outro fio da meada para sensibilizar o fundo árabe de que há um negócio extremamente lucrativo logo ali na frente, com a captura do aumento da demanda por energia térmica. O segmento vive um dos momentos mais favoráveis das últimas duas décadas. Além do risco hidrológico, a expansão acelerada das fontes solar e eólica está criando uma necessidade crescente de potência firme para garantir a estabilidade do sistema elétrico. Quanto mais renovável se torna a matriz, maior passa a ser a necessidade de fontes despacháveis capazes de entrar em operação quando falta vento, quando a geração solar desaparece ao anoitecer ou quando os reservatórios hidrelétricos enfrentam períodos de estresse. É o discurso que Eike tem sussurrado ao pé do ouvido dos árabes. Consultado pelo RR, o empresário não se manifestou até o fechamento desta matéria.

Além do senso de oportunidade, Eike Batista tem usado da sua própria experiência como objeto de convencimento nas tratativas com o Mubadala e outros fundos. Eike, de fato, soube entrar na festa quando a música começou a esquentar. Na esteira dos apagões de 2001, por meio da MPX Energia, esteve à frente de empreendimentos como a Termoceará, a célebre “Termoluma”, do Complexo Termoelétrico do Parnaíba, no Maranhão. Na ocasião, fez o que quis com a Petrobras. Forçou a estatal a ser praticamente compradora única da energia de suas termelétricas, sempre a preços extremamente vantajosos, e depois empurrou a empresa contra a parede, quase a obrigando a comprar a “Termoluma”, em 2005, por US$ 137 milhões. Ou seja: ganhou dinheiro da companhia durante e depois da crise do racionamento. Há coisas que o tempo não apaga. Dessa época, vêm duas das lacunas que Eike precisa superar neste momento: a falta de crédito e as portas fechadas na Petrobras. O primeiro problema será devidamente resolvido se conseguir fechar uma parceria com o Mubadala ou com qualquer outro multitriliardário fundo soberano. O mais complicado será furar o bloqueio na Petrobras. A estatal é peça-chave no jogo da geração termelétrica. Não obstante a abertura gradual do mercado de gás natural, continua sendo a principal produtora e fornecedora do insumo. Além do suprimento, os investidores em térmicas dependem também da companhia para viabilizar a infraestrutura de escoamento e transporte do combustível. Esse é justamente um dos ativos mais valiosos dos dois principais players da geração térmica. Além da capacidade de bidar os leilões da Aneel, a Âmbar Energia, dos irmãos Batista, e a Eneva, do BTG, de André Esteves, têm notório acesso à Petrobras. E, mais ainda, ao seu acionista controlador.

Em que pese a forte presença da Âmbar, da Eneva e da própria Petrobras no setor – o trio respondeu por 9GW dos 19GW de potência contratados no mais recente Leilão de Reserva de Capacidade na Forma de Potência (LRCAP) -, há espaço para o avanço de outros investidores no negócio. Vide o próprio leilão, que teve aproximadamente 100 empreendimentos vencedores. São empresas-vagalume que se amontoam em torno da luz. Eike quer combinar um negócio mais parrudo com a consolidação dessas companhias menores. Ressalte-se que o cenário que ele encontrará agora, caso consiga sócios para o projeto, é diferente daquele que tão bem conheceu no início dos anos 2000. O que mudou não foi apenas o desenho dos leilões. Mudou a própria função das térmicas dentro do sistema elétrico brasileiro. No auge da crise do racionamento, no governo FHC, o Programa Prioritário de Termelétricas (PPT) foi concebido para adicionar cerca de 14 GW ao sistema e reduzir a dependência das hidrelétricas. A lógica era construir usinas e vender energia. Quanto mais uma térmica gerava, mais faturava. Os investidores buscavam contratos de longo prazo e receitas associadas à produção efetiva de eletricidade. Foi nesse ambiente que Eike prosperou, sugando o que podia da Petrobras. A estatal funcionava como a grande âncora do sistema. Além de controlar o gás natural, participava de projetos, garantia o fornecimento de combustível e, em muitos casos, acabava se transformando na compradora indireta da energia produzida. O risco comercial era amplamente absorvido pela estatal.

O cenário atual é outro. O Brasil não enfrenta uma escassez estrutural de geração. Ao contrário. O país vive uma explosão de investimentos em fontes renováveis, especialmente solar e eólica. O novo problema passou a ser a intermitência. Quando a geração renovável perde força ou os reservatórios enfrentam períodos de estresse hídrico, o sistema precisa de uma fonte capaz de entrar imediatamente em operação. Os Leilões de Reserva de Capacidade (LRCAP) surgiram para preencher essa lacuna. Diferentemente do modelo do início dos anos 2000, os certames atuais não contratam prioritariamente energia. Contratam potência. Em vez de pagar a usina pelo volume produzido, remuneram o investidor por manter a capacidade disponível para despacho quando o Operador Nacional do Sistema precisar. A térmica deixou de ser uma fábrica de energia e passou a funcionar como uma espécie de seguro do sistema elétrico. Eike quer voltar ao game sendo uma dessas apólices.

#Eike Batista

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