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Parece até que o titular da Fazenda, Dario Durigan, passou a acumular também o Ministério da Defesa e o Comando do Estado-Maior do Exército. Ao menos no que diz respeito ao poder de decidir o que, quando e quanto a área militar pode gastar. Ao cortar as receitas extraorçamentárias aprovadas para o reequipamento das Forças Armadas, o governo Lula dá um sinal de descompromisso com a soberania nacional e a ordem interna justamente no momento em que o mundo caminha na direção oposta. A repentina medida causou considerável incômodo nas Forças Armadas. Segundo informações obtidas pelo RR, a Pasta da Defesa e os Altos-Comandos não foram informados previamente da guilhotina financeira e do seu impacto sobre programas considerados estratégicos. Um dos principais motivos para a insatisfação é o risco de atraso no programa de desenvolvimento de uma indústria militar de drones. A base para essa iniciativa é o projeto “Enxame de Drones”. Desenvolvido pelo Instituto Militar de Engenharia (IME) sob coordenação do Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT), o sistema utiliza inteligência artificial para coordenar a atuação simultânea de múltiplos veículos autônomos aéreos e terrestres. O projeto foi apresentado pelo Exército em março deste ano como um dos principais exemplos do esforço nacional para avançar em robótica, IA e sistemas autônomos. Para se ter uma ideia da relevância conferida a ele, a Força criou recentemente seu primeiro Batalhão de Drones, no Comando de Aviação do Exército, em Taubaté (SP). A unidade deve ser afetada pelo bloqueio de recursos.
Essa iniciativa ou parte significativa dela estava associada às verbas suplementares e excepcionais. Elas seriam um demonstração firme da preocupação nacional com a soberania – controle aéreo das fronteiras, movimentação de cargas não previstas, migração -, além de uma resposta na veia à ofensiva do Departamento de Estado norte-americano, que, com outras palavras, acusa o Brasil de leniência no combate ao crime organizado. Quem tinha uma grande expectativa com esse programa era o Comando Militar da Amazônia. Trata-se da unidade mais carente de instrumental avançado de vigilância e a que mais demanda um exército de drones. A região concentra a fronteira mais sensível do país, pressionada por garimpo ilegal, narcotráfico, contrabando de armas, pistas clandestinas, rotas fluviais e avanço de facções criminosas. A guerra entre Rússia e Ucrânia mostra a importância que os drones ganharam não apenas como instrumento de ataque, mas, sobretudo, como ferramenta de vigilância, reconhecimento, inteligência e controle territorial.
Além do já citado programa de drones do Exército, o bloqueio de verbas impõe às Forças Armadas uma dupla asfixia: uma “analógica” e outra “digital”. No primeiro caso, limita a compra de armas, mísseis, munições, blindados, aeronaves e equipamentos básicos. No segundo, ameaça justamente a fronteira mais importante da defesa contemporânea: inteligência artificial, cibernética, sensores, satélites, sistemas de vigilância e tecnologias autônomas. Ressalte-se que, no ano passado, o Exército editou novas diretrizes de governança para projetos estratégicos de cibernética, abrangendo tanto o Programa da Defesa Cibernética na Defesa Nacional quanto o Programa Estratégico de Defesa Cibernética do Exército. Certamente não contava com o revés orçamentário. A falta de verbas lança incertezas sobre outras iniciativas. Neste momento, por exemplo, o Exército está negociando a compra junto aos Estados Unidos de 100 mísseis antiaéreos FIM-92K Stinger Block I, ao valor total de US$ 330 milhões. O bloqueio coloca ainda na berlinda outros projetos não necessariamente novos, mas que têm uma série de etapas de implementação. É o caso do Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron). Seu custo histórico é estimado em aproximadamente R$ 12 bilhões, com horizonte de implantação empurrado para 2035. É justamente esse tipo de programa, já atrasado por natureza, que tende a sofrer novo baque com a tesourada na Defesa.
Da terra para o mar, a navalhada nas verbas para a Defesa lança interrogações sobre uma das maiores iniciativas do Brasil na área: o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (Prosub) da Marinha, que inclui a construção da primeira dessas embarcações com propulsão nuclear do Brasil. Em dezembro, a Força Naval recebeu um crédito antecipado de R$ 1 bilhão para evitar o rompimento de acordos internacionais, notadamente com o francês Naval Group, parceiro do Brasil na transferência de tecnologia naval. Em março, a Marinha solicitou ao governo a liberação de mais R$ 1 bilhão para evitar atrasos no desenvolvimento de etapas previstas para este ano. Não há notícia de que os recursos tenham sido liberados.
Na Aeronáutica, por sua vez, em outros investimentos, a aridez orçamentária traz a reboque o risco de atrasos no F-39 Gripen, maior programa de modernização da aviação de caça da FAB. Ele está em plena implantação: o décimo Gripen chegou ao Brasil em novembro de 2025. Em março, foi apresentado em Gavião Peixoto o primeiro caça produzido no Brasil, dentro do contrato de 36 aeronaves firmado com a Saab. Ao todo, 15 unidades terão montagem final em solo nacional, na planta da Embraer. O orçamento do F-39 Gripen prevê para este ano obrigações financeiras da ordem de R$ 2,1 bilhões.
No ano passado, o governo aprovou a destinação de R$ 30 bilhões (R$ 5 bilhões por ano no intervalo entre 2026 e 2031) fora do arcabouço fiscal para financiar projetos estratégicos das Forças Armadas. Se era para não cumprir, poderia ter anunciado R$ 1 trilhão. Não faria a menor diferença. A mesma mão que deu já tirou. O governo bloqueou R$ 4,3 bilhões do orçamento da Defesa neste ano, dos quais cerca de R$ 1,5 bilhão estava destinados ao Exército. O impacto foi imediato: a Força suspendeu operações de monitoramento e repressão nas fronteiras, justamente nas áreas sob responsabilidade dos Comandos Militares da Amazônia e do Oeste, por onde entram drogas, armas e insumos para o garimpo ilegal. Entre as ações afetadas está a Operação Ágata, uma das principais iniciativas de presença militar nas fronteiras brasileiras. O corte ocorre em um período particularmente sensível, marcado pelo avanço das facções criminosas na região e pela crescente pressão internacional sobre o Brasil para reforçar o combate ao PCC e ao Comando Vermelho. Esse recuo nos gastos se dá em um péssimo momento no que diz respeito ao humor dos oficiais dos Altos-Comandos. De um lado, Trump nos expõe como pobres e incapazes; de outro, assina um acordo de cooperação e apoio militar com a Argentina. Veja só, logo com a Argentina.
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