UE investirá R$ 4 tri por ano em energia limpa - Relatório Reservado

O que precisa ser dito

UE investirá R$ 4 tri por ano em energia limpa

  • 5/05/2026
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Hoje, converso com Amanda Rattes, sócia do escritório Gutman, Rattes, Pimenta & Cleistenes (GRPC). Com uma atuação transnacional consolidada entre o Brasil e a Europa, Amanda é uma voz respeitada na área de sustentabilidade e governança. Nesta entrevista, ela nos traz um panorama de como a Europa está acelerando sua transição energética para se descolar da volatilidade do petróleo e como as novas exigências de ESG (Ambiental, Social e Governança) europeias irão redefinir as regras de jogo para a implementação definitiva do acordo entre a União Europeia e o Mercosul. Fica o alerta: a transição energética é, acima de tudo, uma decisão sobre o futuro da nossa autonomia econômica. 

  

Fernando Thompson: Entre os dias 21 e 25 de abril de 2026, a Europa iniciou uma transição definitiva da era dos combustíveis fósseis para a era da energia limpa. O que esses dados recordes de produção renovável no primeiro trimestre de 2026 nos dizem sobre a resiliência europeia? 

Amanda Rattes: Esse recorde é emblemático porque aconteceu no pior momento possível: o inverno. Normalmente, o sol é escasso e os ventos são instáveis. Mesmo assim, a Europa produziu o recorde de 384,9 terawatts-hora de energia renovável no 1º trimestre. O segredo aqui foi a escala. A eólica cresceu 22% e a solar 15%. O que vimos foi que países como Espanha e Portugal, que investiram pesado em matrizes limpas, conseguiram descolar seus preços da volatilidade do mercado de gás e petróleo. 

  

FT: Você mencionou o petróleo, e não podemos ignorar o elefante na sala. Estamos vivendo um momento em que a política externa de Donald Trump nos Estados Unidos tem gerado uma pressão inflacionária enorme sobre os combustíveis fósseis. Como essa postura americana influenciou o lançamento do Plano AccelerateEU em Bruxelas? 

AR: Influenciou totalmente. A Europa percebeu que não pode mais ser refém do humor de mercados que ela não controla ou de políticas externas imprevisíveis que elevam o barril do petróleo a níveis astronômicos. O Comissário de Energia da Europa, Dan Jørgensen, foi claro: essa é uma “crise fóssil” e deve ser um ponto de virada. O plano não é apenas sobre metas climáticas para 2050; é sobre segurança econômica agora. Eles anunciou que a transição exige €660 bilhões por ano, até 2030. 

  

FT: Para o nosso público brasileiro ter uma ideia, €660 bilhões anuais é um valor que foge à compreensão comum. Eu fiz um cálculo: isso equivale a cerca de R$ 3,96 trilhões. Só para comparar, esse valor, apenas no primeiro ano, daria para pagar o nosso Bolsa Família por 23 anos seguidos. A Europa vai gastar isso em apenas 12 meses. É um esforço de guerra, não é? 

AR: Exatamente! É um movimento econômico sem precedentes para atrair capital privado. Por outro lado, temos um desafio novo e silencioso: a Inteligência Artificial. Enquanto celebramos os recordes verdes, a demanda elétrica dos data centers deve dobrar até 2030. Processar uma IA generativa consome dez vezes mais energia que uma busca comum. Gigantes como Google e Microsoft viram suas emissões subirem mais de 20% recentemente por causa disso. É a “sombra” que a IA projeta sobre as metas climáticas. 

  

FT: E onde o Brasil entra nessa jornada? Vejo o Brasil como um porto seguro para data centers, justamente pela nossa matriz energética mais limpa. Como você enxerga o papel do Brasil comparado ao esforço europeu? 

AR: O Brasil está em uma posição de vanguarda, que a Europa agora corre para replicar. Mais de 80% da nossa eletricidade já é renovável. Nós já temos a escala que eles estão tentando construir com esses bilhões de euros. No entanto, o Brasil enfrenta um dilema: a tentação de explorar petróleo na Margem Equatorial. Avançar nos fósseis agora, quando o mundo prova que a transição é economicamente vantajosa, seria abandonar a liderança. O Brasil conhece o caminho das hidrelétricas e das eólicas como ninguém. O desafio agora é não retroceder pelo peso fiscal do petróleo, que ainda sustenta muitos orçamentos públicos. 

  

FT: Para encerrar, qual a lição que fica dessa semana intensa na Europa para o gestor brasileiro de ESG ou para o investidor? 

AR: A lição é que a transição energética deixou de ser um debate ideológico para ser política econômica pura. A sustentabilidade é agora sinônimo de estabilidade de preços. No Brasil, já promovemos avanços que são o sonho de consumo dos europeus, mas precisamos de consistência regulatória e coragem para manter a direção. A transição não é linear, mas quem detiver a energia limpa terá a chave da competitividade neste século XXI. 

#Energia Limpa #União Europeia

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