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Responsável pelas tragédias de Mariana e Brumadinho e por suas 291 mortes, a Vale deveria ser a empresa brasileira mais rigorosa no cumprimento de suas obrigações socioambientais. Não parece ser o caso. A mineradora segue acumulando passivos e denúncias que atravessam praticamente todas as letras do acrônimo ESG. O mais novo episódio vem de Canaã dos Carajás (PA), epicentro do Projeto Sossego, uma de suas principais operações de cobre no Brasil – a companhia já investiu mais de US$ 800 milhões no empreendimento. A Vale está sendo acusada de ter se apropriado, de forma irregular, de um hospital e de uma escola que deveriam ser incorporados ao patrimônio público da cidade. Segundo o RR apurou, no último dia 28 de abril o Ministério Público do Estado do Pará (MP-PA) instaurou procedimento (nº 02.2026.00030168-8) para investigar a companhia, suspeita de causar ao município e à população local um prejuízo da ordem de R$ 180 milhões, com o beneplácito de autoridades locais. O que está na mira do MP-PA são compromissos socioambientais firmados pela Vale para a implantação do Projeto Sossego. Em 2002, a empresa assinou uma série de protocolos, convênios e condicionantes como contrapartida para obter as autorizações à exploração do mineral na região. Entre as obrigações assumidas estavam a transferência ao município do Hospital 5 de Outubro e a doação de uma unidade educacional conhecida como Escola da Vale, localizada no bairro Novo Horizonte. Esses ativos deveriam ser incorporados ao patrimônio público sem qualquer ônus. Não foi o que aconteceu, segundo denúncia do Instituto Movimento Voto Consciente Canaã, entidade do terceiro setor que se dedica ao controle social, fiscalização dos recursos públicos e combate à corrupção na cidade paraense.
Já se passaram 11 anos desde o rompimento da barragem de Mariana e outros sete da tragédia de Brumadinho, e a Vale ainda não pagou a totalidade das indenizações firmadas com a Justiça e demais órgãos públicos – respectivamente, R$ 132 bilhões e R$ 37 bilhões. O vai-e-vem judicial joga a favor da empresa, não das vítimas. Cada recurso, cada rediscussão de cláusula, cada perícia adicional, cada impasse sobre critérios de elegibilidade e comprovação de danos empurra a reparação para adiante, permitindo à mineradora administrar desembolsos, negociar termos, modular impactos financeiros e, em última instância, converter uma tragédia humana em passivo contábil de longo prazo. Por razões mais do que óbvias, Mariana e Brumadinho acabaram se tornando sinônimos de crise socioambiental na Vale. Mas a força simbólica dessas duas tragédias também produz um efeito colateral: eclipsa uma série de outras falhas e omissões da mineradora que se acumulam. Não faltam exemplos.
Em fevereiro de 2026, o Ministério Público Federal pediu o bloqueio de R$ 60 milhões da mineradora para bancar estudos independentes e medidas de recuperação ambiental no Rio Cateté, área impactada pelo empreendimento de níquel Onça Puma. O caso envolve comunidades indígenas Xikrin, que, segundo o MPF, estariam expostas à contaminação por metais pesados. A ação civil pública remonta a 2011. A imagem da empresa também tem sido contaminada por acidentes de trabalho fatais em suas operações. Em janeiro de 2026, um funcionário da Construtora Pontal, prestadora de serviços da mineradora, morreu em um acidente de trabalho em Brumadinho, justamente em uma área associada ao rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão. Poucas semanas antes, em dezembro de 2025, outro trabalhador terceirizado, da SBV Soluções Ambientais, também contratada da Vale, morreu durante uma atividade na operação Gelado, em Parauapebas, no Pará.
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