Durigan coloca a atual meta de inflação na marca do pênalti - Relatório Reservado

Destaque

Durigan coloca a atual meta de inflação na marca do pênalti

  • 17/06/2026
    • Share

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, deu tratos a uma bola que estava passando ao largo da Copa do Mundo. Trata-se do regime de metas de inflação. Na última segunda-feira, Durigan, por conta própria, levantou a pelota do centro da meta. Palavras do ministro: “Eu, hoje, não mexeria na meta de inflação”. Sabe-se que o número de 3% é o ponto mais controverso do inflation target. A discussão entre acadêmicos, dirigentes do mercado financeiro e mesmo Banco Central e Fazenda é sobre a viabilidade do centro da meta: se ela somente tem sentido indutivo ou se é efetivamente realizável; se ela engessa em demasia a política monetária ou existe justamente para engessar a margem de dispersão do regime de metas. Durigan, por ora, disse que não alteraria a controversa meta. Mas lançou uma pulga no ar. Por que levantar a questão no condicional? Muda no ano que vem? Muda em 2028?

Sabe-se que manter a meta de 3% no próximo biênio vai exigir um esforço de juros elevados com um cenário de recessão, aumento de endividamento e exigência de um choque fiscal. No momento, a discussão é se o país entrou na chamada dominância fiscal, quando os juros elevados não são mais suficientes para reduzir a inflação. Mas, se reeleito, Lula terá força política para fazer os cortes de gastos necessários para potencializar a política monetária? Tudo indica que, devido a gastança deste ano, o presidente, caso seja reconduzido ao Palácio do Planalto, terá de aplicar um choque fiscal na economia. Estão encomendadas despesas acima de R$ 400 bilhões fora do orçamento. São gastos que não afetam o resultado primário, mas atingem de chofre a dívida pública, o principal indicador da economia. E a dívida pública pressiona a taxa Selic.

A meta de 3% é uma fábula do “procura-se Alice”. O target, estabelecido pelo CMN em 2024, nunca foi alcançado. O mercado entendeu que o horizonte da política monetária sempre foi o teto da banda. Mas, mesmo assim, a margem de manobra da política monetária jamais deixou de estar apertada. Para se comparar com a diferença histórica, quando da criação do regime, em 1999, o centro da meta era de 8%. Nesses 26 anos, o Brasil somente furou a meta em oito vezes. Parece uma performance razoável. Seria não fosse o danoso efeito colateral para conseguir esse resultado em que o teto da banda sempre foi considerado uma medida de bom tamanho para o combate da inflação: o país passou a sustentar uma taxa básica real de 5,7% e um crescimento pífio do PIB inferior à média mundial. Nesses 26 anos de adoção do regime de metas inflacionárias, o Brasil ficou abaixo da média do PIB mundial em todos os períodos. Em tempos de Copa, é um 7×1 que se repete ano após ano. Somente a título de ilustração: se o intervalo de análise for mais extenso, ao longo dos últimos 45 anos, a disparidade é ainda maior. O PIB per capita mundial cresceu cerca de 675% e o brasileiro, 428%. Trata-se de um baita atraso estrutural.

Lula passou seus dois primeiros anos de mandato metralhando Roberto Campos Neto por aplicar uma Selic escorchante sobre a economia. Em janeiro de 2025, o Copom, já tendo à frente Gabriel Galípolo, indicado pelo próprio ministro da Fazenda de Lula, Fernando Haddad, elevou a Selic real para 9,18%, a maior do mundo. Abaixo da nossa taxa básica real, somente a da Rússia, com 8,91%. A ideia que povoa com mais frequência os adversários da meta de 3% seria elevar o centro para 4% ou 4,5%, o que permitiria dar alguma credibilidade ao target e soltar um pouco a política monetária, ficando com uma banda de 5,5% para baixo e 6% a 6,5% para cima. Mesmo assim, há quem defenda um pouquinho de inflação, na medida em que mesmo essa mudança de alvos forçará uma Selic real elevada por um biênio, no mínimo. É claro que um corte fiscal violento pode mudar o cenário. Mas, com a descrença em relação a essa hipótese, o laboratório de cientistas econômicos do BC pensa em colocar nas mãos do CMN ideias para serem pensadas.

Uma delas é usar um single range (intervalo único), como o adotado pelo Banco Central da África do Sul, que utiliza uma meta de 3%, com a possibilidade de flutuação entre o piso e 6%. Não falta também quem bata na já citada tecla de um tiquinho a mais de inflação, o que ajudaria a desafogar as imensas dívidas do país e segurar o risco de recessão. Mas aí seria preciso segurar os inercialistas. O fato que parece inexorável é que a meta de 3%, como dizia Fernando Haddad, é irrealizável, e que teremos de conviver com uma inflação próxima do teto da banda de cima. Esse é o centro. Daí para cima.

#Dario Durigan

Leia Também

Todos os direitos reservados 1966-2026.

Rolar para cima