Business as usual - Relatório Reservado

O que precisa ser dito

Business as usual

  • 27/10/2025
    • Share

A reunião formal entre os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos na Malásia confirmou a reviravolta prenunciada no rápido encontro entre ambos (que nada teve de fortuito) durante a Assembleia Geral da ONU. Astuto negociador, Donald Trump não teve o menor pejo de, em meio a cortesias de parte a parte, completar mais um acrobático TACO enterrando de vez a machadinha de guerra dos povos indígenas norte-americanos – que, aliás, se chamava “tomahawk”. Na realidade, ficou evidente que Trump compreendeu haver cometido dois erros no relacionamento com o Brasil que cabia corrigir o mais cedo possível. 

Do ponto de vista político, ele havia sido ludibriado pelas ideias fantasiosas da trinca Steve Bannon-Eduardo Bolsonaro-Paulo Figueiredo ao usar o julgamento do ex-presidente para justificar uma intervenção nos negócios soberanos do Brasil. No entanto, em vez de obrigar o país a se curvar covardemente, esbarraram na resistência impávida dos três Poderes, provocando um surto popular de nacionalismo e prestando imenso serviço eleitoral a Lula com o consequente efeito deletério sobre as pretensões da direita. De fato, o longo silêncio da Casa Branca e do Departamento de Estado sobre o julgamento e condenação de Jair Bolsonaro, antes objeto de estridentes e reiteradas objeções, foi, enfim, rompido em Kuala Lumpur pelo próprio Trump, mas não de moto próprio, como possível forma de intimidar Lula, e, sim, respondendo a um repórter brasileiro. E, para a infinita tristeza das cassandras bolsonaristas, que sempre previram que este assunto constituiria um carro-chefe de Trump e que Lula seria humilhado num encontro presencial, o presidente norte-americano se limitou a algumas expressões condescendentes de comiseração sobre aquele que antes era o pretexto-mor para punir o Brasil. Ao que se sabe, na reunião fechada que se seguiu à entrevista coletiva, teria cabido ao próprio Lula suscitar a questão Bolsonaro, mas, então, para explicar a Trump as circunstâncias que justificaram sua longa sentença. Portanto, em condições normais de temperatura e pressão se trata de uma página definitivamente virada.  

O segundo grande erro ocorreu na área comercial, embora desde o primeiro dia do tarifaço já houvessem sido excluídos numerosos itens sensíveis, tal como suco de laranja e aviões comerciais. No entanto, os produtos que continuam a enfrentar tarifas predatórias e arbitrárias de 50% vêm gerando sérias dificuldades para vários segmentos da economia norte-americana e provocando ameaçadores aumentos de preço para o consumidor, como é o caso do café e da carne (cujos cortes provenientes do Brasil servem sobretudo para a produção de hambúrgueres). Muito relevante também foi o fato de que as vendas do Brasil para o exterior não sofreram um baque generalizado como muitos desejavam, uma vez que, pelo contrário, provocaram a busca de novos mercados como China, México, Argentina, Oriente Médio, Índia e outros países asiáticos. Assim, conquanto em setembro as vendas para os Estados Unidos tenham caído 20,3% (sobretudo no tocante a ferro gusa, carnes, açúcar, armas e fumo), as exportações totais alcançaram US$ 30,5 bilhões, com um incremento de 7,2% sobre igual mês em 2024. Em suma, Trump e seus assessores compreenderam que estavam empurrando o Brasil para outros mercados, em particular o chinês, ao mesmo tempo em que estimulavam as tendências inflacionárias que são o maior pavor de qualquer ocupante da Casa Branca.    

Diante do desejo dos dois chefes de Estado de que começassem prontamente as tratativas sobre assuntos comerciais, já na manhã de hoje Mauro Vieira e seus interlocutores norte-americanos estabeleceram um cronograma de trabalho técnico que, como chegou a transpirar em Kuala Lumpur, pode incluir a suspensão ao menos temporária das tarifas punitivas de 40% sobre todos ou alguns produtos exportados pelo Brasil, em particular o café. Impossível prever a duração dessas tratativas, porém o importante é reconhecer que as relações com os Estados Unidos, se não alcançaram ainda o pleno estágio de “business as usual” invocado no título deste artigo, entram agora em terreno positivo que era impensável semanas atrás. 

Do lado brasileiro, além do discreto profissionalismo de nossa diplomacia, vale mencionar alguns pontos positivos que facilitaram a revisão das posturas de Trump: 1) o sistemático oferecimento de Lula para realizar um encontro presencial; 2) sua disposição de discutir qualquer assunto, até mesmo os de natureza política que muitos o aconselhavam a evitar; e 3) o oferecimento para servir como intermediário nas questões da Venezuela e da Ucrânia, evitando com isso se identificar com apenas um dos lados desses conflitos. 

Aguardemos, pois, notícias construtivas que poderão servir como grandes presentes natalinos a todos que vêm sofrendo com o tarifaço nos dois lados do balcão.

Jorio Dauster é diplomata de carreira e foi embaixador do Brasil junto à União Europeia, colaborador especial do Relatório Reservado. 

#Donald Trump #Lula

Leia Também

Todos os direitos reservados 1966-2026.

Rolar para cima