Aspásia Camargo - Relatório Reservado

Artigos: Aspásia Camargo

O regime dos aiatolás: a classe política que enfrenta o Ocidente seguindo as leis de Mosca e Pareto

22/06/2026
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Recentemente, tenho observado com atenção o declarado amor de muitos brasileiros pela democracia e por suas virtudes. Trata-se de um valor incomensurável, particularmente agudo em países que sofreram longas ditaduras e souberam avaliar, pela experiência amarga, os limites e a incompetência do poder autoritário. Parece ser dever de todos defendê-la acima de tudo, sobretudo diante dos perigos que a ameaçam. Priorizamos a democracia a tal ponto que às vezes parece que a amamos mais do que a nós mesmos. E perdoamos todos os seus pecados, que se avolumam a cada dia.

No entanto, a milenar ciência política nos ensina que a democracia é um regime sedutor e frágil, cujos ciclos históricos são limitados. Quando funciona, obedece a regras impostas por uma espécie de piloto automático, fundado em dogmas indiscutíveis que impõem às instituições seus próprios limites. Lembremos que a democracia moderna está visceralmente ligada às suas origens liberais, estabelecidas a partir do sistema representativo gerado no interior do capitalismo — baseado na propriedade privada, na economia de mercado e na livre circulação das ideias, desde que elas não ameacem esses dogmas, por natureza quase intocáveis.

Os sociólogos chamados elitistas, sobretudo Gaetano Mosca e Vilfredo Pareto — dois italianos notáveis — sempre desconfiaram dessa visão ingênua da democracia, segundo a qual o povo governa porque escolhe livremente seus governantes por meio do voto. Ao contrário, ambos caminhavam em sentido inverso: por trás dos regimes ditos representativos, existe uma zona cinzenta de atuação, menos visível e mais secreta, que define a verdadeira governabilidade, garantindo a coesão e a unidade do poder.

As minorias garantem seu poder porque atuam em número restrito, concentram decisões em suas próprias mãos e se movem com base na unidade e na consistência de interesses comuns. É esse grupo homogêneo e reduzido que define a força do governo e sua possibilidade de êxito. Em suma, há abundante evidência histórica de que quem governa efetivamente, em todos os lugares do mundo — nos países democráticos ou nos regimes autoritários, em países grandes ou pequenos — são as elites do poder, para lembrar o título do famoso livro de C. Wright Mills, não dedicado à Rússia, mas aos Estados Unidos, a nação que inventou a democracia republicana moderna.

Dependendo de seu preparo e de sua qualidade, as elites realizam suas intenções — oligárquicas, pessoais ou coletivas — segundo finalidades e propósitos que elas mesmas determinam, ou que lhes são delegados por um novo grupo no poder.

O verdadeiro poder, diriam Mosca e Pareto, só se exerce efetivamente quando está concentrado nas mãos de poucos: uma minoria ativa e criativa, capaz de comandar o sistema e as instituições sob seu controle. Daí a importância da modelagem institucional integrada a uma matriz histórica: o regime político.

Regimes políticos são estruturas estáveis e imobilistas que funcionam como um piloto semiautomático, garantindo a solidez e a consistência de pactos e poderes estabelecidos. Quando as elites se dividem ou se fragmentam, o poder enfraquece — como no Brasil. Quando se revelam incompetentes, extrativistas e vorazes só existe uma saída possível: promover a troca da guarda, renovar a classe dirigente, formando um novo bloco histórico de poder. É do que o Brasil precisa.

Recentemente, tenho observado também o exemplo do Irã – e com lupa. O que se passa no Oriente Médio não é apenas insubordinação e anarquia diante do poder ordenador do Ocidente europeu e americano. É muito mais. A região foi o berço das grandes civilizações e, diante de uma globalização em curso, e que agora deu curto-circuito, sua cultura, suas tradições e suas demandas pretendem influir na construção de um novo mundo. Esta é a versão otimista que podemos oferecer diante do caldeirão de conflitos que se concentra no Oriente Médio.

O atraso milenar que o colonialismo acentuou, parece não estar impedindo a ressurreição de uma nova identidade regional, apoiada nas velhas tradições. O Irã se destaca nesse contexto, não por suas virtudes cívicas, mas por sua energia vital, seu nacionalismo patriótico que ressuscita as origens do Império Persa. O que é o nacionalismo tosco de Donald Trump e de sua famosa MAGA — Make América Great Again — diante do vigor do passado iraniano, que representa a primeira grande unificação da civilização antiga, o amálgama territorial e cultural de Alexandre, o Grande? Teria existido o Império Romano sem a contribuição anterior da Pérsia e de Alexandre?

O fato surpreendente é que, mesmo sendo derrotado na guerra convencional, o Irã resistiu e se projetou no confronto assimétrico entre os dois países, segundo a parábola bíblica de Davi contra Golias. O país militar e tecnicamente aniquilado desconstruiu os fatos, demonstrando que sua estratégia de astúcia e ocultamento foi de grande serventia.

Subitamente vimos surgir novos recursos de poder que o país vem conseguindo utilizar, tal como o uso estratégico do Estreito de Ormuz nas pressões para a negociação do conflito. E, ainda mais, o Irã conseguiu enfraquecer os EUA em sua própria vizinhança, encorajando seus adversários a negociações mais proveitosas do que seria possível antes do conflito.

O objetivo do Irã parece ser, no entanto, o mesmo que o dos americanos: consolidar um novo pacto de poder no Golfo Pérsico.

De onde vem, afinal, a força telúrica do Irã e de seu nacionalismo que se manifesta desde os anos cinquenta? Este é um fenômeno típico da pós-modernidade que está disposta a anular a modernidade colonial que a precedeu: esvai-se o poder enganoso do Estado-nação diante dos antigos impérios que ressuscitam com a globalização. Em nome de correntes civilizatórias soterradas, estão de volta o Japão, que ressurgiu com a dinastia Meiji, e a China, que se rejuvenesce, segundo o jargão corrente de Xi Jinping, trazendo de volta a glória imperial da dinastia Ming. Também retornam a Índia de Narendra Modi, que busca transformar a antiga civilização hindu-indiana, plural e milenar, em força política de Estado, sob a bandeira do nacionalismo hindu, e a Turquia que representa a civilização e a grandeza do império otomano.

Isto quer dizer que civilizações milenares não desapareceram; hibernaram, encolheram procurando, quem sabe, a oportunidade de ressurgir dentro de um outro patamar. A presença destas formações imperiais se desfez sob o impacto da Primeira Guerra Mundial ou foi abalada pela cupidez do colonialismo europeu, que dividiu o Oriente Médio de maneira traumática, procurando aniquilar identidades políticas ameaçadoras com a intenção de enfraquecer tradições que subsistiam latentes havia séculos. Todas, de algum modo, foram submetidas à força das baionetas ou à tirania do comércio colonial.

Vale lembrar que a força do Irã derrubou o Xá da Pérsia, títere dos ingleses e do poder americano, que se afirmou antes da Segunda Guerra Mundial – e consolidou seu império religioso logo depois dela. Por trás do movimento que derrubou o Xá Reza Pahlevi estava o poder simbólico de Mohammad Mossadegh, em defesa do nacionalismo e do petróleo iraniano ainda nos anos 50 do século passado. O conflito com os Estados Unidos se agravou logo após a tomada do poder pelos aiatolás. A guerra do Iraque contra o Irã, longe de aniquilar o poder religioso recém-instalado, ensinou aos iranianos que, se quisessem enfrentar o Ocidente, teriam de organizar um grupo político coeso e quase inexpugnável, tanto militar quanto politicamente. E assim o fizeram.

Para nós, habituados às fragilidades típicas do poder democrático — sempre oscilante, instável e sujeito aos caprichos da opinião pública e do eleitorado —, impressiona a força telúrica da classe política que governa o Irã, a despeito das resistências internas da população e de uma economia que, bem ou mal, se moderniza. Pesa muito a fratura geracional que opõe os mais jovens ao poder tradicional religioso, na contramão das mudanças que a nova geração almeja.

O Irã já é, inegavelmente, parte de uma economia-mundo globalizada e, portanto, mais exposto aos bons ares da secularização e do desencantamento do mundo, como diria Max Weber, do que ao tradicionalismo religioso e autoritário que se reforça pela truculência e intransigência da elite no poder. Essa truculência transparece na humilhação das mulheres, na repressão aos dissidentes, na submissão da criatividade e no constrangimento de talentos que, apesar de tudo, nos oferecem filmes, literatura e visões de mundo de qualidade surpreendente.

No entanto, a grande surpresa a registrar é, sem dúvida, a vitória política do Irã no confronto assimétrico com os Estados Unidos. Sua vitória se esclarece pela controvérsia de Clausewitz, lembrada por Vitélio Brustolin: diz ele que se a guerra é a continuação da política por outros meios, o seu fracasso inexorável acontece quando o confronto militar não consegue atingir os seus verdadeiros e declarados objetivos políticos.

É surpreendente verificar que, a despeito dos duros golpes sofridos por suas forças regulares diante do poder militar dos Estados Unidos e de Israel, o regime iraniano não capitulou. Ao contrário, parece ter se fortalecido. A despeito das inúmeras mortes de seus principais dirigentes, o regime conseguiu substituir os seus quadros, manter sob controle o seu público interno e, sobretudo, preservar sua estrutura essencial de comando — uma verdadeira surpresa para os americanos, sobretudo depois da intervenção fulminante de Trump na Venezuela, por muito menos.

O que faz esse governo tão forte e, pelo menos aparentemente, tão unido, a ponto de resistir com tamanha intrepidez ao tsunami do poder americano associado a Israel? Voltamos ao ponto de partida: o poder unificador das elites. Segundo o credenciado jornalista do New York Times, Neil Macfarquhar, em 1979, para defender a revolução religiosa iraniana contra a ira dos Estados Unidos – força dominante em busca de submeter o Oriente Médio – e para enfrentar a guerra do Iraque contra o Irã, criou-se a Guarda Revolucionária. Seu objetivo era proteger a revolução recém-instaurada e seu líder, o aiatolá Khomeini.

Como ensina a teoria das elites, o poder revolucionário rapidamente trocou o comando militar existente por uma nova geração de confiança, então situada entre os vinte e os trinta anos — geração que hoje se aproxima ou ultrapassa os sessenta. Naquela época, prepararam-se para o pior: resistir até o fim. A Guarda Revolucionária, extremamente bem-organizada e agressiva, criou um poder militar eficiente e resistente, de patamar operacional e guerreiro. Mas construiu, acima da organização militar, um poderoso sistema político em torno da irmandade revolucionária islâmica. Esse sistema cumpre poucas, mas decisivas funções: conecta-se ao Parlamento, ao sistema jurídico, à inteligência, ao aparelho militar e à segurança interna. Todos orbitam em torno do comando do líder supremo.

Com a morte do aiatolá Ali Khamenei, sucessor de Khomeini, que governou por décadas, o regime não se desorganizou. A sucessão por Mojtaba Khamenei, seu filho e principal assessor, representou mais continuidade do que ruptura. Mais jovem, aos 57 anos, Mojtaba encarna a revitalização possível de um regime autoritário que aprendeu a transformar sobrevivência em método de governo. Em torno dele opera um núcleo de dirigentes que compõe, com notável precisão, aquilo que Mosca chamaria de classe política — e que Gramsci denominaria de “bloco histórico”, símbolo do verdadeiro poder. Seu corpo político parece robusto e organicamente bem constituído:

  • Mohammad Bagher Ghalibaf é a ponte entre a elite política e militar. Considerado pragmático, tem atuado como um dos principais negociadores nas conversações com os Estados Unidos. Alguns suspeitam que possa estar negociando também para preservar a si mesmo como homem forte do regime.
  • Ahmad Vahidi, ex-oficial de inteligência e antigo ministro da Defesa e do Interior, assumiu o comando da Guarda Revolucionária depois dos ataques dos Estados Unidos e de Israel e da morte de seu antecessor. Seu nome está ligado a episódios de terrorismo internacional, incluindo o atentado contra o centro comunitário judaico AMIA, em Buenos Aires, em 1994, e ações associadas à projeção externa da segurança iraniana.
  • Gholam-Hossein Mohseni-Ejei, chefe do Poder Judiciário desde 2021, representa o braço jurídico-repressivo do regime. É um juiz implacável, que utiliza os tribunais para sufocar a dissidência e punir resistentes ao poder estabelecido.
  • Hossein Taeb, ligado à inteligência e à contraespionagem, simboliza a dimensão subterrânea do regime: vigilância, controle, infiltração e defesa contra ameaças internas e externas.
  • Mohammad Bagher Zolghadr talvez seja o melhor exemplo da fusão entre militares e classe política. Como secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, participa de uma instância que reúne altos funcionários militares e civis, formula a política externa e de segurança e garante a articulação entre os braços político, militar, judicial e de inteligência do Estado.

Graças a essa organização e à sua eficiência, o Irã resistiu ao poder desorganizado de Donald Trump que tinha como objetivo inicial aniquilar o regime dos aiatolás no Irã. No entanto, não foi o que ocorreu. Mesmo perdendo dirigentes importantes, a elite coesa conseguiu substituí-los, recompor hierarquias e renovar a cadeia de comando. Este é hoje o tipo de modelo político que parece eficaz nas guerras do século XXI: regime coeso, disciplinado, vertical, resiliente e capaz de resistir a choques externos.

Estamos muito distantes da instabilidade do parlamento democrático-liberal que vigora, por exemplo, em Israel, onde Benjamin Netanyahu permanece politicamente frágil, sujeito ao sabor das circunstâncias, a derrotas eleitorais e a graves acusações de corrupção ainda em curso nos tribunais. No Ocidente, a democracia liberal impotente para resolver conflitos que afloram com tamanha agressividade, parece estar na berlinda, enquanto estruturas mais coesas, autoritárias e militarizadas ganham terreno nas guerras que se multiplicam no século XXI. Tal evidência não as torna moralmente superiores. Ao contrário: revela apenas que regimes autoritários, quando organizados por elites coesas, podem adquirir uma assustadora capacidade de resistência.

A lição que daí se extrai não é um alerta para a democracia: regimes livres que perdem coesão, autoridade, finalidade comum e capacidade de decisão tornam-se vulneráveis diante de adversários menos livres, porém mais organizados. Esta é hoje a dolorosa situação do Brasil. A democracia só sobreviverá se souber reencontrar sua energia vital e recompor sua classe dirigente. O capitalismo em seus princípios básicos só sobreviverá se conseguir adaptar-se aos desafios do que Alice Amden designou como “o resto”, isto é, aquele conjunto de países que permanecem parcial ou integralmente à margem da economia-mundo e do sistema político global. A democracia liberal parece estar na berlinda enquanto estruturas mais coesas e de composição autoritário ganham terreno nas guerras que se multiplicam no século XXI. Não basta amar a liberdade. É preciso bem governá-la.

Por quem dobram os sinos de Belém?

12/11/2025
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A COP da Implementação deveria ser a COP da esperança. Os pró e os contra

 

“Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; cada homem é uma partícula do continente, uma parte do todo. Se o mar leva um torrão de terra, a Europa fica menor, A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano; e por isso nunca perguntes por quem os sinos dobram: eles dobram por ti”.

John Donne, poeta metafísico, escreveu isso em 1624, ao ouvir os sinos dobrarem pelas mortes de uma peste que dizimava Londres. Ernest Hemingway usou a mesma expressão, ‘Por quem os sinos dobram’, em um livro que ele escreveu para alertar o mundo sobre a letalidade da Guerra Civil espanhola. Era o prenúncio de algo pior, que viria em seguida. E veio. A ferocidade de Hitler que quase escravizou a humanidade.

Quatro séculos depois, os sinos dobram novamente em Belém na COP da Salvação, a COP da implementação em pleno caos amazônico. Eles dobram, não por um indivíduo, mas por um planeta que adoece. A cada conferência do clima a humanidade se reúne para medir a elevação de sua febre e discutir a sua cura — enquanto o tempo avança, implacável. Por quem os sinos dobram? Eles dobram por ti.

As COPs — Conferências das Partes da Convenção do Clima — tornaram-se o palco das contradições do nosso tempo. De um lado, a esperança da diplomacia multilateral, a busca de metas e acordos que traduzam o princípio universal da solidariedade ambiental. De outro, a frustração das promessas não cumpridas, o impasse entre países ricos e pobres, o abismo insuperável entre o discurso e a ação. Os sinos dobram pelos que se foram nas calamidades climáticas, e também pelos que não desistiram. Mas até quando?

Cada país, cada cidade, cada geração viva deveria ouvi-los como um chamado à responsabilidade compartilhada — pois, como em Donne, quando o sino dobra, ele dobra por todos nós.

 

Os resultados da COP30 só surgirão no tempo devido — em seu momento final, nos últimos minutos do segundo tempo. Nas COPS de que participei sempre foi assim. As conclusões desses famosos encontros ganham um upgrade apenas em seu desfecho, quando o impasse nas negociações ameaça se transformar em vexame diplomático.

Mesmo assim, para nós, a conferência começou mal. Em parte porque a Região Amazônica, abandonada e precária, não está preparada para eventos dessa grandeza diplomática. Logo nos primeiros dias, Belém revelou o cenário de contradições que ronda esta COP. Houve invasão indígena de arco e flecha no recinto sagrado das Nações Unidas, com danos a equipamentos de segurança e ferimentos em funcionários internacionais.

O local do evento, a outrora linda cidade de Belém, hoje está bastante degradado como cidade de terceiro mundo. Por ironia, o local da conferência fica próximo à Margem Equatorial, onde estão prestes a serem perfurados novos poços de petróleo. Um flagrante descompasso entre o discurso ambiental e a vil prática econômica da qual não iremos prescindir. Não somos santos. Enquanto isso, a ONG prestigiada denuncia o garimpo ilegal e o narcotráfico que compromete a integridade dos ecossistemas e dos povos originários.

Para piorar, nos dois primeiros dias faltou ar-condicionado e os visitantes improvisaram leques de abano. E as longas filas para o almoço demonstram que tudo ali foi improvisado por falta de infraestrutura e serviços. Além do mais, foi um esforço diplomático conseguir a presença de um número de delegados satisfatório. A diplomacia brasileira sabe fazer milagres.

O maior problema do Brasil foi ter herdado de Baku uma COP da Implementação, justamente quando há muito pouco a implementar. Ficamos com a batata quente na mão. As emissões continuam subindo, enquanto os discursos oficiais caem no descrédito. A meta de conter o aquecimento global em 1,5ºC até o fim do século – e de, para tanto, zerar as emissões de carbono até 2050 -, já caiu por terra. A expectativa alarmante   é que já estamos ultrapassando essa marca agora! E continuamos aumentando as emissões quando elas teriam que estar em regressão. Resultado: as projeções para o final do século já estão em 2,8ºC. Um desastre que pode custar nossa sobrevivência. Vamos esperar, diante de tal gravidade, o último minuto do segundo tempo aqui também?

Há mais de três décadas que o processo decisório do clima é insolúvel e perverso. Os três maiores poluidores do planeta — China, Estados Unidos e Índia —, são responsáveis por 56% das emissões, mas garantem o seu direito de poluir as usual, para não comprometer o seu desenvolvimento. Todos apostam em uma transição gradual e tolerante. Desta vez, nenhum deles sequer enviou seus principais mandatários a Belém, ao contrário do que ocorreu em Paris (COP15) e no Rio (1992). Xi Jinping, Donald Trump e Narendra Modi estão ausentes: um sinal eloquente do esgotamento da diplomacia climática; e do fracasso do multilateralismo. A contradição é gritante: os mocinhos, isto é, a maioria dos países que nada emitem, permanecem mudos e impotentes; enquanto isso, os garanhões poluidores seguem impunes, envenenando o planeta.

Outra ironia da história é que foi o presidente George W. Bush quem, em 1997, recusou o Protocolo de Kyoto, afirmando não confiar na diplomacia e, sim, na tecnologia como caminho eficaz para a transição energética que é o X do problema.  Ele acertou na mosca. Foi exatamente o que aconteceu. Só que foi a China quem colheu os frutos dessa aposta anti-diplomática: hoje é ela que lidera as emissões enquanto, ao mesmo tempo, recebe na COP o título de líder global em inovação, responsável pela queda vertiginosa dos preços de painéis solares, baterias e equipamentos verdes. Os EUA parece que perderam sua estratégia ofensiva para a China

Enquanto isso, os países em desenvolvimento repetem há 30 anos a mesma ladainha — exigindo que os ricos paguem a conta nas famosas “responsabilidades comuns, mas diferenciadas”. De início, era o paradoxo: os países em desenvolvimento continuam a poluir enquanto os países desenvolvidos pagam a conta. Não deu certo e os ambientalistas denunciaram este jogo perverso. Na lógica ambiental, todos deveriam pagar. E o impasse continua. China e Índia, os maiores poluidores, não querem pagar. Os Estados Unidos, em disputa com a China, também não. Mas quanto custaria, afinal, a transição energética?

A McKinsey calcula que a neutralidade de carbono até 2050 exigirá investimentos globais da ordem de US$ 9,2 trilhões por ano, enquanto a Agência Internacional de Energia (IEA) estima cerca de US$ 4 trilhões anuais apenas no setor energético. Já a secretária do Tesouro dos Estados Unidos, Janet Yellen, fala em US$ 3 trilhões por ano para financiar a transição para uma economia de baixo carbono. Os países ricos alegam não ter esse dinheiro todo. Argumentam também que a dívida histórica pelas emissões passadas não se justifica. Ninguém tinha consciência do problema quando as emissões começaram a aumentar.

Além disso, dizem eles, não há razão para financiar países que não têm governança e onde ditadores e regimes cleptocráticos se disfarçam de países pobres, desviando recursos e tentando representar a pobreza. Resultado: os NDCs, compromissos nacionais de redução de emissões, tornaram-se uma panaceia ou até mesmo uma fraude coletiva. Nenhum país cumpriu as metas ou se apresentou em tempo hábil para defendê-las, como estava previsto no programa. Nem a heroica Uniao Europeia, na vanguarda do combate às emissões, conseguiram, desta vez, apresentar-se como campeões do Clima, preocupados que estão com a segurança militar de seu continente.

Apesar destes dissabores, o Brasil merece o título legítimo de superpotência ambiental. Detentor da maior floresta tropical do planeta, de uma matriz energética 50% limpa, ele se apresenta em contraste com os demais países do mundo oferecendo um imenso potencial de energia verde — do etanol à bioeconomia amazônica e marinha.  O país conserva, portanto, um capital moral e ecológico que poucos têm a honra de possuir. O Sistema de Monitoramento por Satélite, a experiência (frustrada) da Agenda 21 brasileira e o avanço recente das fontes renováveis reforçam essa credibilidade.

No entanto, o maior desafio é transformar essa vantagem comparativa em liderança efetiva, com políticas consistentes, metas factíveis e governança transparente — sem ceder à tentação de discursos grandiloquentes que o país não consegue cumprir.

Sabendo que a situação seria difícil, a estratégia brasileira — conduzida por hábeis diplomatas como André Corrêa do Lago e Maurício Lyrio, a ambientalista Ana Toni e a ministra Marina Silva — reservou para a COP duas importantes cartadas. A primeira foi desviar-se das dificuldades na redução das emissões, isto é, do esforço de mitigação, deslocando o eixo central da conferência para o tema sempre relegado da adaptação climática. Mais dramático e inicialmente mais barato. Tal mudança visa proteger os países mais vulneráveis contra os devastadores eventos extremos — secas, enchentes, incêndios e colapsos alimentares — que se agravam com o aquecimento global. Resta agora garantir os recursos de US$ 300 bilhões prometidos para honrar este compromisso e transformar a adaptação climática em pilar real de justiça ambiental global.

A segunda estratégia está sendo conduzida pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e por Tatiana Rosito, sua secretária de Assuntos Internacionais. Eles decidiram apostar na reunião de ministros da Fazenda para explorar melhor os aspectos econômicos e financeiros da transição climática — uma medida acertada, que transfere o centro das operações do palco desgastado dos governos ineficientes para a área mais promissora das empresas inovadoras e das organizações da sociedade civil.

Essa inflexão reposiciona o Brasil como articulador de uma nova agenda, bem mais inteligente, que envolve iniciativas financeiras da economia verde, aproximando a diplomacia ambiental da economia real — e recolocando o país no eixo das soluções, e não apenas dos diagnósticos. Foi com esse propósito que o Ministro da Fazenda entregou ao urbanista Philip Yang o desafio de mobilizar, não o eixo azul das propostas, mas o eixo verde da ação climática, reunindo as cidades, que são as principais emissoras, e convocando o poder subnacional para assumir este papel de vanguarda que dependerá mais das empresas e das iniciativas civis.

Temas polêmicos — denominados de fight issues — serão resolvidos nos próximos dias. O Brasil tentará hoje ainda melhorar a NDC dos países preguiçosos, insistindo para que assumam compromissos mais firmes e coerentes com a urgência da crise climática. O Brasil deveria fazer o mesmo.

A estratégia perspicaz das NDCs brasileiras merece reparos: optou-se pela lei do menor esforço, concentrando-se apenas em zerar o desmatamento e reduzir as emissões no uso da terra- nossos vilões climáticos.  Ficou de fora a economia urbana, como setor de transportes, que poderia migrar para o transporte de massa e reduzir significativamente as emissões. Podemos também atacar o tema da eficiência energética, que permanece entre as mais precárias do mundo.

Há ainda para animar o país anfitrião, a luta pelo fundo de preservação das florestas tropicais. A nossa, a floresta amazônica, é a maior do mundo e compartilhada com países vizinhos. Esta é uma luta antiga que parecia perdida, mas que acabou dando certo, com a arrecadação de fundos que já alcançam US$ 5 bilhões e podem crescer mais.

A cartada de Lula na abertura da COP foi das mais oportunas: propor um Conselho Climático diretamente ligado ao Secretário-Geral e à Assembleia da ONU, livrando-se, assim, dos restos mortais da própria COP agonizante. Mas o problema é que o Secretário-Geral tampouco funciona. A ONU respira por aparelhos.

E, enquanto isso, os sinos de Belém continuam a tocar.  Por você? Por nós? Quem viver verá.

#COP

O Nobel que demorou demais a chegar, premiando a inovação

21/10/2025
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“O mundo levou mais de cem anos para reconhecer a genialidade de Schumpeter.”  

O grande homenageado do Prêmio Nobel de Economia de 2025 não está entre os vivos. Chama-se Joseph Schumpeter e há quase 90 anos, em seu livro “Capitalismo, Socialismo e Democracia” (1942), formulou a genial ideia que o mundo inteiro agora aplaude e reconhece: a força do capitalismo reside na sua capacidade de autodestruição criativa, isto é, de se reinventar. E a História comprova que este capitalismo, embora conserve o mesmo nome ao longo dos séculos, vem periodicamente sofrendo tais metamorfoses que às vezes a gente mal o reconhece. Schumpeter já havia antecipado o conceito em 1911, em “A Teoria do Desenvolvimento Econômico”, ao descrever o capitalismo como um sistema que vive de romper o próprio equilíbrio — uma intuição juvenil que a História levou um século para confirmar.  

Curiosamente, o grande economista nunca recebeu o Nobel — não por falta de mérito ou reconhecimento, mas porque o prêmio ainda não existia quando morreu, em 1950. O Prêmio de Economia só seria criado em 1968, pelo Banco Central da Suécia. O de 2025 é, portanto, uma reparação histórica tardia — uma homenagem a quem entendeu o futuro antes mesmo que ele chegasse. É apenas surpreendente que o conceito tenha levado tanto tempo para ser testado e comprovado. A criatividade humana, afinal, é veloz para inventar máquinas e aplicativos — mas lenta para compreender as ideias que as inspiram.  

A metade do prêmio deste ano coube ao brilho erudito do veterano Joel Mokyr, o historiador cuja obra reescreveu a Revolução Industrial no início da década de 90, não como epopeia das máquinas, mas como trama das ideias quando elas se sustentam em uma cultura de confiança no conhecimento na qual engenheiros, cientistas e artesãos qualificados exercem o seu talento e curiosidade. A outra metade foi repartida entre Philippe Aghion e Peter Howitt, dois economistas que traduziram a intuição de Schumpeter em equações — e provaram, matematicamente, que o progresso é um processo de substituições sucessivas através das quais o novo mata o velho com a elegância impiedosa de uma lei natural darwiniana.   

Há prêmios que celebram novas descobertas; mas este celebra uma evidência tardia. Afinal, hoje a inovação, que é o nome atual que damos para destruição criativa, está por toda parte e é vertiginosa, desdobrando-se e multiplicando-se incessantemente.  Virou um método de produzir, um estilo de vida, dos algoritmos à inteligência artificial que não nos dá sossego.   

No Brasil, a cultura oficial dominante tem se revelado hostil à inovação, isto é, a qualquer mudança profunda que possa abalar o status quo.  Vivemos a inovação por tabela, inventada por outros longe daqui. E, além do mais, ainda não percebemos que a destruição criativa também se dedica a demolir ideias, elites fracassadas e instituições que envelhecem. Nossas elites estão fora de compasso, comprometendo o futuro de um país que precisa se reinventar.  

Outra questão crucial que permanece em aberto é se o capitalismo, nesta sucessão de metamorfoses que ele viveu nos dois últimos séculos, continua o mesmo, ou se não foi perdendo também a sua própria identidade.  Mudou de figura, mas não mudou de nome. Não estamos, talvez, caminhando para uma sociedade pós-capitalista, ou que nome tenha, no limiar de uma nova civilização e de uma nova era? Caberá – quem sabe? – a outro prêmio Nobel nos esclarecer sobre essa importante controvérsia.

 

Aspásia Camargo é Doutora em Sociologia pela École des Hautes Études da Universidade de Paris, foi vereadora e deputada estadual, além de ter ocupado a Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro. Presidiu o IPEA e comandou a Secretaria Executiva do Meio Ambiente, colaboradora especial do Relatório Reservado.

#Joseph Schumpeter #Nobel

O furacão Trump e o nacionalismo brasileiro

7/08/2025
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O furacão Trump vem incomodando e irritando a Deus e a todo mundo, desde que ele ganhou a eleição, provocando animosidade e revolta. Mas o fato real é que sua arrogância não conseguiu esconder as fraquezas cravadas em sua própria testa: “Make America Great Again”. Parece que o império americano, que já foi tão grande, deixou mesmo de ser. Assi como parece que Trump se tornou a busca da dignidade perdida. Dificilmente os Estados Unidos voltarão a ser tão grandes quanto no passado, e o “Maga” não é apenas uma frase de efeito, mas o sinal de debilidade que vinha se agravando por surtos desde o início dos anos 70.

O fato paradoxal é que a globalização dos anos 90, que deixou o Brasil de calças curtas, pode ter sido o último soluço de grandeza do império americano, que brotou dos escombros da velha União Soviética como o momento triunfal do liberalismo e da democracia. É surpreendente. Parece que a globalização americana deu errado… para os americanos! Mesmo com o enriquecimento colossal das big techs. Não obstante o poder mundial do capital financeiro, os Estados Unidos se protegem graças às lamúrias de Trump no altar dos sacrifícios de um liberalismo que parecia triunfal. Agora, ele o líder está tentando se livrar da ordem global a picaretas, quem sabe para inventar uma outra que lhe pareça melhor.

A demolição das instituições globais provoca protestos e revoltas, mas, para nós, brasileiros, pouco há do que lamentar. A globalização foi a grande madrasta do Brasil e não temos por que chorar no seu enterro, e muito menos no altar dos sacrifícios de um multilateralismo que pouco fez por nós. Na verdade, muita coisa permanece errada no multilateralismo tosco das Nações Unidas: as guerras incontroláveis e fratricidas que prosperam sob o olhar complacente do Conselho de Segurança da ONU; o acordo global sobre as mudanças climáticas, que já vem se arrastando há décadas sem produzir nenhum resultado; e o planeta Terra que já alcançou 1,5oC de aumento da temperatura global, ultrapassando o seu limite e aproximando-se de uma calamidade global.

Também pudera: seis países do mundo são os grandes poluidores que não assumem sua responsabilidade, enquanto os quase 200 restantes não emitem nada. Apenas participam como figurantes e vítimas que não mandam nada. É a tragédia dos Commons que respondem pelos crimes de uma minoria que tem poder de veto. As decisões são tomadas por unanimidade nesse falido sistema multilateral! Ninguém lamenta o morticínio que continua no coração da África. E o Haiti, continua violento, ignorando as tentativas frustradas das Nações Unidas de organizar o caos.

No caos da Era Trump estamos cercados pelo inesperado e pelas incertezas. Às vezes positivos. A última surpresa foi assistir ao ressurgimento no Brasil do pulsante nacionalismo que há muito parecia ter sido enterrado pela globalização. E o mais curioso é que este nacionalismo se espalhou no espectro político brasileiro, cobrindo de A a Z e chegando até os redutos do povão. Ouvimos daqui e dali vozes de admiração por uma “Embraer é nossa” e que trouxe de volta o orgulho perdido. Até o presidente Lula vem declarando solenemente que “o Brasil é nosso e nossos minerais estratégicos não estão à venda. Uma boa intenção logo desmentida por seu angustiado e menos patriótico ministro da Fazenda. Os minerais estratégicos, afinal, estão ou não estão à venda?

#Brasil #Trump

China descobre a economia do mar brasileira

17/04/2025
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Há muito tempo que nossos pensadores apontam a importância de dar maior valor agregado à exploração de nossos recursos naturais. Helio Jaguaribe desde os anos 50 falava em diversificar essa produção agroextrativista e aumentar sua produtividade, acumulando assim capital para promover outros investimentos mais caros e complexos. Como secretária executiva do Meio Ambiente, ainda nos anos 90, adaptamos esta linguagem aos novos tempos: precisamos fazer o casamento feliz entre a biodiversidade e a biotecnologia. O estoque de biodiversidade é o nosso bem mais precioso, pois somos um país megadiverso, o mais diverso do mundo. Esta riqueza natural que cantamos em prosa e verso desde nossas origens, louvando o verde de nossas matas e a riqueza de nossos minérios, agora se converteu em um precioso ativo para gerar recursos e enriquecer o país, desde que possamos ligar a biodiversidade aos ganhos da biotecnologia. Como todos sabemos esta é a esfera mais inovadora e criativa da revolução tecnológica mundial.

Mas há agora um novo nicho que se abre de maneira promissora: a geoeconomia marinha, isto é, a economia do mar, de valor incalculável que temos em superabundância e que desperta o interesse de todos os países sábios e espertos do mundo. Nossos maravilhosos cientistas estão fazendo milagres, explorando as possibilidades genéticas das espécies marinhas e descobrindo sua capacidade regenerativa. Trabalham com muita inteligência e capacidade de inovar, mas com raros, raríssimos recursos porque o governo prefere alocar o pouco que tem no lugar errado.

Lançamos recentemente, com a brilhante colaboração da revista Insight Inteligência (https://insightinteligencia.com.br/), uma campanha para que o Brasil evolua do pré-sal ao “pré-mar”. É isto mesmo. Queremos e podemos liderar este processo. Por enquanto, porém, na lista dos países sábios e espertos não está o Brasil, mas, sim, Noruega e China, maior produtora de pescado do mundo. O Brasil não está na lista dos demais. Somos sempre um pouco lerdos, mas, se quisermos, podemos ser a superpotência em bioeconomia no mundo, pelo menos na relação dos dez mais!

E agora surge uma extraordinária oportunidade criada, pasmem todos, pela China e não pelo Brasil. No seu radar em busca de rápidas respostas à crise internacional, chegou hoje ao Brasil uma delegação chinesa disposta a abrir o seu mercado para os peixes brasileiros. Esta é a oportunidade que temos para produzir mais e melhor, usando tecnologia avançada e pesquisadores de altíssimo gabarito, para promover e reativar a indolente economia nacional. Vamos lá!

Esta leva de recursos marinhos pode permitir a produção de alimentos:  peixes, vieiras finíssimas, camarão etc. Podemos fabricar cosméticos de alto valor agregado que custam os olhos da cara. Podemos promover corais que reproduzem naturalmente as espécies marinhas e que descarbonizam os oceanos, hoje caminhando para a fase terminal. Podemos ser os salvadores do planeta ao produzir algas que são, além de fertilizantes, espécies que absorvem carbono. Seu preço vem subindo no mercado. A Costa do Rio de Janeiro está pronta para descobrir esses produtos.

Terminando por onde comecei: corremos o risco de exportar, como sempre, nossos produtos sem maior valor agregado e depois receber os peixes de volta processados industrialmente. Foi assim com a soja. Não podemos repetir a experiência. O perigo é esse: ficar onde sempre estivemos. Na periferia das grandes potências. E ainda nos arriscamos de comprar do país que industrializa o produto aquilo que nós produzimos. Eita, Brasil!

Aspásia Camargo é colaboradora especial do Relatório Reservado

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