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Governo
A africanização da indústria brasileira tem muitos culpados. Participaram da sua demolição os governos da abertura democrática, a começar pela gestão Collor, que, apesar de ter feito reformas importantes, tais como a abertura comercial, também se somou aos primitivistas vindouros. Também faz parte do estrago a arritmia de falsas prioridades dos órgãos de fomento, que se tornaram um bazar de empréstimos conforme o setor da indústria que mais vendia votos ou jornais. Veio a era da estigmatização do planejamento. Nos tempos dos antigos PNDs (Planos Nacionais de Desenvolvimento), havia rota, rumo, prazo e previsibilidade, insumos fundamentais para fertilização da indústria. A Faria Lima matou com um punhal sangrento as premissas de que o longo prazo e a necessidade de projetar o futuro eram a semente de uma indústria vigorosa. O desprezo pelo ideário de um projeto de Estado, que diferenciava a indústria perfunctória – muitas vezes quinquilharias de baixo custo e, por isso mesmo, de alta rentabilidade – das usinas de energia, logística, telecomunicação, petroquímica, ferrovia etc colocou de joelhos um Brasil que andaria para frente. Mentiram todos aqueles que afirmaram que a industrialização dos países centrais foi realizada com base somente no investimento de capitais privados. Como se um das maiores indústrias do mundo, a bélica – sinérgica a todos os setores, intensiva em capital humano e valor adicionado – fosse uma fabricazinha de rolimã e não o trator do setor fabril. As próprias entidades do setor se transformaram em balcão de pelegos e não de paladinos da indústria.
O que mais dói no peito da esquálida indústria é a pusilanimidade das “lideranças” do setor real da economia. Há muito tempo, como começam as histórias da Carochinha, havia uma indústria pesada, obras, planejamento, uma substituição de importações bem estruturada (a China errou?) e, principalmente, industrialistas com espada e lança na mão. Enfrentavam, de um lado, o rentismo – o Brasil tem taxas de juros entre as mais altas do mundo há mais de 50 anos – e, do outro, o regime militar. Os generais achavam que qualquer um dos que discordassem da ditadura era um comunista de carteirinha. Era uma época de cartas abertas nos jornais, nos quais industrialistas como Cláudio Bardella, Antônio Ermírio de Moraes, José Mindlin, Paulo Velinho, Eugênio Staub, Paulo Villares e outros tantos, aproveitavam a coragem de Luiz Fernando Levy – dono da mídia de economia monopólica da época, a Gazeta Mercantil – e despejavam artigos e manifestos defendendo a indústria e aferroando os juros siderais. No final, como sabemos, a indústria perdeu, os juros nunca desceram, chegou-se à triste conclusão de que os militares fizeram mais pela infraestrutura do que todos os governos pós-abertura. Os empresários de capa e espada ficaram amassados nas páginas de algum livro velho à venda nas bancas de obras usadas na Av. Paulista. Fala-se agora em desenvolver uma tecnologia made in Brazil. Risos. Oremos pela Embraer, santa solitária, que, se possível fosse, seria beatificada.
Obs: o texto acima deve conter diversas injustiças, tal como omitir o espetacular sucesso da exploração de petróleo offshore e o êxito da agropecuária, ambos puxadores da demanda na indústria. Loas a ambos. Mas o desenvolvimento de alguns não justifica a estagnação ou mesmo o assassinato de tantos.
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