André Esteves combina trumpismo com terras raras para se associar à Vale

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André Esteves combina trumpismo com terras raras para se associar à Vale

  • 15/08/2025
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André Esteves enxergou uma fresta aberta para se sentar em uma cadeira na Vale. A porta em questão é o binômio Donald Trump e terras raras. O interesse dos Estados Unidos na aquisição preferencial de minérios estratégicos do Brasil já foi vocalizado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin e pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Os minerais críticos entrariam como moeda de troca para a redução das sobretaxas às exportações do Brasil para os EUA.

Esteves enxergou a oportunidade de fazer um refogado que junta soberania nacional, jazidas gigantescas de terras raras, retorno das tarifas americanas a um nível comparável ao praticado anteriormente, trazer Trump para negociações bilaterais com o Brasil e, depois de mexer muito com a colher de pau das suas relações privilegiadas, colocar um pé no melhor ativo do país, um tesouro chamado Vale. Ousado o moço.

Esteves quer surfar nessa crise, usando diferentes figurinos: lobista, adviser e investidor. O banqueiro acha que é capaz de conseguir acordos para o processamento das terras raras. Em primeiro lugar, entende que pode vir a ter um papel importante à frente da diplomacia empresarial com os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, já teria soprado a interlocutores no governo a proposta de que a Vale seja o fio condutor de um grande projeto para a exploração e processamento de terras raras – esta última é a fase mais complexa, por exigir tecnologia avançada.

E onde o próprio Esteves entraria? Audacioso, como de hábito, a narrativa do dono do BTG é que esse é um projeto ganha-ganha. No qual, é claro, ele ganharia mais, transformando uma companhia lastreada no passado em uma gigantesca corporação fincada no futuro, com um valuation de múltiplos a perder de vista. Caberia ao banqueiro buscar recursos internacionais, inclusive junto a fundos soberanos, para financiar os investimentos da Vale em terras raras e outros minérios que o mundo demandará em grande escala para a renovação da matriz energética.

Toda essa engrenagem dependerá do aval do Palácio do Planalto. O governo tem direito de veto em mudanças estatutárias estratégicas na atuação da companhia. Eles são exercidos através da golden share, que são ações preferenciais de classe especial. Mesmo que a Vale tenha seu controle protegido por poison pill, o banqueiro, em tese, poderia escalar até 25% do seu capital. É um jogo muito pesado.

Esteves mantém uma vasta rede de personagens poderosos, no governo e no mundo. Aliás, trata o governo brasileiro como um picadeiro do seu circo de bilhões e bilhões. O assunto, como tangencia a segurança nacional e atravessa feito uma faca quente a manteiga eleitoral, é tratado como segredo de Estado. Mas que segredo de Estado é segredo de Estado no Brasil quando as conversas envolvem inúmeras fontes? O crédito do furo é do RR. Mas no entorno das articulações já começam a vazar as terras raras do disse-me-disse.

Da terça-feira, dia 5, para cá, estranhas contradições permearam as andanças de André Esteves e os comunicados do Palácio do Planalto. Primeiro, com o vazamento de uma informação pretérita de que o banqueiro teria comparecido ao Palácio do Planalto para uma reunião com o presidente Lula, que se recusou de última hora a recebê-lo. Segundo fontes de Brasília, o motivo do meia-volta de Lula foi ter reconsiderado a agenda do encontro, que poderia gerar especulações desfavoráveis.

A Secom confirmou que o banqueiro teria comparecido no dia 5 de agosto ao Palácio, mas para um encontro com o chefe de gabinete do presidente, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola. E disse que em momento algum Esteves pediu para se encontrar com Lula. A informação foi publicada no site Metrópoles. Mas são muitos os meteoritos que cruzam o espaço da mídia, induzindo a um mal-estar do presidente com o banqueiro.

Lula não teria atendido seus telefonemas depois de duas horas de insistência. No princípio do ano, teria proibido Esteves de participar de uma reunião para discutir o consignado. E outras e tantas outras. O RR fez seguidos contatos, por telefone e e-mail, com a assessoria do BTG desde terça-feira à tarde. O banco, no entanto, não se manifestou até o fechamento desta matéria.

E o que diria, então, a Secom? Com o objetivo de esclarecer o mínimo de uma história tão rocambolesca, o RR enviou uma série de perguntas ao órgão na tarde da última terça-feira. Manteve sucessivos contatos telefônicos e por e-mail com a Secretaria de Comunicação da Presidência até o fim da tarde de ontem, em busca de um posicionamento oficial para elucidar tantas informações cruzadas, mas não obteve retorno.

A fonte do RR, que tem dois pés plantados no Palácio do Planalto, considera que Lula e Esteves são dois cínicos. Seus limites são elásticos quando se trata de poder, no primeiro caso, e de dinheiro, no segundo. Andam de mãos dadas mesmo quando estão de costas. A operação que envolve a Vale cola os dois personagens.

Um cientista político afamado junto às casas bancárias considera que o dono do BTG tem um discurso sob medida para dar um laço numa provável campanha da oposição contra a tacada. A entrada da Vale manteria também a aura de nacionalismo em torno da exploração de minerais críticos, ajudando a afastar a ideia de que um eventual acordo com os Estados Unidos venha a representar um risco à soberania.

Há ainda um fator adicional: consta que a empresa já detém depósitos de terras raras associados a reservas de cobre em Salobo (PA), além de reservas em Minas Gerais. Cabe enfatizar ainda que esse não é um assunto que está longe do radar da mineradora. Muito pelo contrário. No ano passado, a Vale e o BNDES montaram um fundo focado em minerais estratégicos. O valor previsto, de R$ 1 bilhão, não passaria de um test driver. Também procurada, a Vale não se manifestou.

A se confirmar a informação central dessa matéria, o ingresso de André Esteves em uma Vale turbinada por terras raras, a incursão não chega a ser original. O ex-embaixador Walther Moreira Salles foi banqueiro e minerador, aliás, dono de uma companhia mineradora de nióbio, monopólio mundial, uma empresa exemplar na qual se via a luz do sol. Bem ao inverso dos negócios que são urdidos por Esteves, cuja sensação é de que parecem surgir das trevas, mesmo que não haja motivação para tal sentimento.

#André Esteves #Vale do Rio Doce

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