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A Oncoclínicas é um enfermo em disputa sobre a mesa de cirurgia. Como se não bastassem as graves sequelas financeiras deixadas pelo Banco Master, a empresa está no centro de uma batalha societária. Corre no mercado que a Mak Capital voltou a comprar ações da Oncoclínicas na Bolsa. Já teria ultrapassado os 7% de participação no capital. A investida é um sinal de que os norte-americanos decidiram aumentar a aposta no embate societário com o Lumen Fundo de Investimento Financeiro Multimercado Crédito, de Arnoldo Wald Filho e Alexandre Wald, sob administração da Exa Capital. Em uma guinada até certo ponto surpreendente, o Lumen, detentor de 5% de participação, desbancou a Mak na última assembleia geral extraordinária, no fim de abril, elegendo três representantes para o Conselho da Oncoclínicas. Com isso, alcançou o mesmo número de integrantes da Mak, que esperava conquistar a maioria dos assentos do board, mas conseguiu apenas passar de dois para três conselheiros – ao todo, são sete cadeiras. Era a condição imposta pelos norte-americanos para liberar uma linha de crédito de até R$ 150 milhões à rede de clínicas oncológicas, que atravessa uma delicada situação financeira. A eleição redesenhou o mapa de poder da Oncoclínicas. Nesse contexto, a aquisição de ações sugere que a Mak pretende aumentar sua munição societária para voltar à carga, seja em nova rodada de pressão sobre o conselho, seja em eventual disputa futura por influência na companhia. Procuradas pelo RR, Oncoclínicas e Exa Capital não quiseram comentar o assunto. Também consultada, a Mak Capital não retornou.
Nesse contexto belicoso, há ainda a Latache, que desponta como uma espécie de tertius da disputa societária da Oncoclínicas. Dona de 14,6% da empresa de medicina, a gestora trava outro duelo, com a também norte-americana Centaurus, dona de 18,3% do capital. A Latache exige que a casa de investimentos texana lance uma OPA, alegando que ela descumpriu a pílula de veneno prevista no estatuto da Oncoclínicas, de 15%. Diante da gravidade da situação da Oncoclínicas, o que os fundos de investimento disputam? Mesmo com as suas moléstias financeiras, a empresa continua sendo um ativo de relevância no setor de saúde. A companhia reúne uma rede de aproximadamente 140 clínicas e unidades de atendimento e fatura mais de R$ 5 bilhões por ano, mantendo posição estratégica em um dos segmentos mais resilientes da medicina privada. No caso de uma reestruturação bem-sucedida – a “medicina financeira” evoluiu muito -, estar mais bem posicionado no capital e no conselho significará capturar a recuperação de valor da empresa.
Há muitas facetas na crise da Oncoclínicas. Em meio à contenda entre os investidores, o management da empresa se movimenta em busca de uma solução que eventualmente passe ao largo dos atuais acionistas. A companhia negocia uma capitalização de pelo menos R$ 500 milhões com três interessados, como parte do plano para protocolar uma recuperação extrajudicial – segundo informou o Pipeline, do Valor Econômico, na última quinta-feira. A operação está sendo estruturada pelo BR Partners. Dinheiro novo é apenas uma parte da equação. O plano prevê ainda alongamento e desconto no valor da dívida, com haircut ainda em discussão com os credores. A Oncoclínicas carrega um passivo de R$ 3,2 bilhões, dos quais R$ 1,5 bilhão em CRIs pulverizados. A régua do mercado é dura: uma estrutura minimamente equilibrada precisaria reduzir a dívida em pelo menos R$ 1,5 bilhão. Ou seja, a disputa societária se mistura agora à disputa pela caneta da reestruturação — quem aporta, quem aceita perder, quem dilui e quem fica de pé quando a cirurgia terminar.
A Oncoclínicas é um exemplo corporativo da devastação deixada pelo Banco Master. Em 2024, o banco surgiu como uma espécie de âncora de salvação da companhia ao liderar um aumento de capital de R$ 1,5 bilhão. O medicamento foi pior do que a doença. Parte relevante desses recursos foi aplicada em CDBs emitidos pelo próprio Master. Com o colapso da instituição financeira, a rede de clínicas oncológicas viu aproximadamente R$ 478 milhões ficarem travados nesses papéis, obrigando a empresa a reconhecer perdas e provisões bilionárias. O episódio atingiu em cheio a liquidez da Oncoclínicas justamente no momento em que o grupo já enfrentava forte pressão de endividamento, dificuldades para geração de caixa e necessidade urgente de refinanciamento. O efeito foi devastador: deterioração adicional do balanço, aumento da desconfiança do mercado e intensificação da disputa societária em torno do futuro da companhia.
A situação da Oncoclínicas se deteriorou a tal ponto que a própria auditoria independente coloca em dúvida a sobrevivência da rede de clínicas. No balanço do primeiro trimestre, a PwC alertou sobre “incerteza relevante” em relação à continuidade operacional da companhia. O parecer chama atenção para o capital circulante negativo de R$ 2,3 bilhões, decorrente sobretudo do descumprimento de índices financeiros previstos em contratos de empréstimos, financiamentos e debêntures. Com a quebra dos covenants — a alavancagem chegou a 4,27 vezes dívida líquida/Ebitda, acima do limite contratual de 3,5 vezes — uma parcela significativa das dívidas foi reclassificada para o curto prazo, aumentando dramaticamente a pressão sobre o caixa da empresa.
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