Buscar
Acervo RR
Não vai ser fácil a vida de Alberto Carvalho, o primeiro brasileiro a assumir o comando da Procter&Gamble (P&G) no país. Um dos seus maiores desafios é afastar a pecha de que já chegou ao cargo sofrendo precocemente da síndrome do pato manco – como os norte-americanos se referem a governantes em fim de mandato. Na empresa, a começar por seus pares na diretoria, a percepção é que ele será um presidente pela metade. Esta visão é alimentada pela nova estrutura de poder do grupo na América Latina. Carvalho terá sobre si justamente seu antecessor, o egípcio Tarek Farahat, novo número 1 da P&G na região. Na companhia, a aposta é que Farahat não vai dar nem um centímetro de autonomia ao novo presidente da subsidiária brasileira. Quem trabalhou próximo ao egípcio duvida que um executivo centralizador e voraz por poder como ele vá abrir mão da possibilidade de manter não apenas ascendência hierárquica, mas, sobretudo, interferência direta na gestão do principal negócio da P&G na América Latina. Principalmente em se tratando da subsidiária que ele comandou por seis anos e da qual conhece cada engrenagem da máquina administrativa. O problema de Alberto Carvalho pode até ser uma questão de imagem pessoal, de percepção, e não necessariamente um caso efetivo de esvaziamento de poder. No entanto, na P&G do Brasil, a leitura é que o executivo não terá o bônus, ou seja, a devida autonomia na gestão, mas o ônus está garantido: na metade da presidência que lhe caberá estarão as cobranças da matriz. E, a julgar pelo grau de satisfação dos norte-americanos, não serão poucas. As vendas de algumas marcas, como as pilhas Duracell e as fraldas Pampers, são, no mínimo, desanimadoras. Ao mesmo tempo, é difícil que a subsidiária fique imune ao turbulento cenário que envolve o próprio comando do grupo, nos Estados Unidos. O CEO mundial da P&G, Bob McDonald, está perdendo respaldo entre os acionistas por não conseguir entregar os resultados esperados. O maior crítico de sua gestão é William Ackman, do fundo Pershing Square Capital Management. Nesse clima, nada mais natural que McDonald divida com as principais filiais da P&G as pedras que pesam sobre seus ombros. No caso do Brasil, inclusive, o que era um fato positivo pode virar um agravante. Por ora, não há qualquer sinal de que o enxugamento de 4% no quadro global de funcionários do grupo vá atingir o país. Tal deferência só deve acentuar a sede dos norte-americanos por uma boa performance. Na P&G do Brasil poucos duvidam que, nesta hora, Carvalho será o presidente da empresa. E o próprio Farahat não fará a menor questão de se interpor entre ele e a matriz. Procurada, a P&G informou que “não comenta especulações de mercado”.
Todos os direitos reservados 1966-2026.