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Acervo RR
O Banco Itaú escolheu a véspera do último Dia de Finados para mostrar que é aquilo tudo que diz e muito mais. Nessa data, quando já se antevia o tristonho porvir, divulgou os feéricos números do seu balanço, alardeando um lucro recorde de R$ 10,9 bilhões no acumulado de janeiro a setembro. O resultado espocou nos jornais que foram a s bancas no feriado. Coincidências da vida: enquanto a casa bancária festejava seu feito, mulheres carpiam a saudade dos seus homens, e crianças choravam a ausência dos pais. Coincidência? Pode ser, mas o que interessa mesmo é que o Itaú está vivíssimo. Vivo até demais, reclamam os velhos exegetas do mercado financeiro, para os quais a obsessão estética do banco foi tanta que exigiu até uma operação puxa e estica, maldosamente chamada de -plástica das demonstrações contábeis-. Para os que acreditam ou não na volta das almas do além, o Itaú deixou um recado preventivo, afirmando que seus números são conservadores. O lucro do trimestre poderia ser superior em R$ 140 milhões, caso fossem descon tados eventos não recorrentes, tais como perdas judiciais. Ninguém prestou atenção na mãe de todos os resultados bancários, exceto os velhos exegetas do mercado financeiro. Essa pequena confraria de contadores ortodoxos enxergou uma economia tão extraordinária na parte tributária do Itaú, que decidiu acender uma vela para se proteger de um eventual erro de interpretação. A redução vertiginosa do pagamento de Imposto de Renda do banco chegou a 64% no acumulado até setembro. Só a diferença no trimestre ficou ao redor de R$ 1 bilhão – algo próximo do que o Unibanco dava de lucro nesse mesmo período, antes de ser absorvido pelo Itaú. No acumulado do ano o banco pagou apenas R$ 1,4 bilhão contra R$ 3,9 bilhões no mesmo período de 2010. É curiosa a comparação com o Bradesco, que só conseguiu bater em 22% de redução no pagamento do Imposto de Renda, e com o Santander, que ficou na casa dos 27,4%. Das duas, uma: ou o Itaú chegou ao píncaro dos píncaros porque é um laboratório de sofisticados experimentos financeiros ou porque não teme usar expedientes aeróbicos para administrar seu balanço bancário quando tal se faz necessário. A hiperbólica prudência dos Setubal parece ter se reduzido nessa safra. Nossos peritos não veem nada de mais em flexionar a provisão para devedores. Chama a atenção, porém, que, no caso do Itaú, a ginástica teve sua importância para construção do saldo positivo no balancete do trimestre. Mesmo com aquele bólido em alta rotação, a provisão para devedores aumentou apenas 17,1% no acumulado do ano. A turma que vem correndo atrás provisionou bem mais no mesmo período de janeiro a setembro deste ano: Bradesco, 35,4%; Santander, 39,1%. Trucagem? Os exegetas batem com o punho fechado, três vezes, em uma mesa de madeira; não há suspeita de manobras heterodoxas, intenção de denúncia ou mesmo dúvida da competência do Itaú. O resultado é que o balanço do banco perde em organicidade. É provável que o baronato financeiro da pauliceia veja com desdém o comentário casmurro de analistas. Afinal, para aristocratas de convicção inabalável, o mercado, que tudo enxerga, é quem dará sua interpretação no final. No mais, bradariam os construtores da lucratividade do Itaú, parafraseando um poeta que não rima com a casa: tudo vale a pena, se a alma não é pequena. Ao que responderia o exegeta: se a alma é penada, de que adianta uma lucratividade turbinada. Que nosso Senhor esteja conosco, na hora da nossa morte. Amém!
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