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Acervo RR
Apesar das asas de chumbo, pés de cimento e inquérito na Polícia Federal, a Camargo Corrêa, neófita em aviação, vai voar bem alto com os Correios. A empreiteira foi convocada pelo governo para ser o sócio privado da estatal na criação de uma frota própria de aeronaves voltada ao transporte de cargas ? projeto batizado com o sugestivo nome de “Levar”. As negociações passam pela criação de uma joint venture que será responsável pela compra das aeronaves e pela operação do serviço de transporte de cargas. A Camargo Corrêa ficaria com 51% do capital e os Correios, com o restante. O controle privado evitaria que a nova empresa ficasse amarrada a Lei 8.666, de licitações públicas, além de garantir um acesso mais facilitado a financiamentos públicos. Ainda na prancheta, a companhia aérea dos Correios já atravessa sua primeira nebulosa. A participação da Camargo Corrêa no projeto é cercada de estranhezas. Até o momento, não se tem notícia de qualquer movimentação do governo com o intuito de promover uma licitação ou carta-convite a outros investidores privados. Não consta também que os Correios tenham consultado os parceiros mais óbvios: as companhias de aviação, que dispõem de toda a infraestrutura para a operação da frota já amortizada. Ou seja: entre os critérios usados pelo governo em sua escolha certamente não está o da expertise técnica. Vá lá que a Camargo Corrêa até tem um pezinho de areia no setor de aviação. É dona da Morro Vermelho Táxi Aéreo. No entanto, entre administrar três jatinhos ? dois Cessna Citation e um Dassault Falcon ? e um helicóptero, que mais servem a Vitor Hallack e seus pares do que ao mercado em geral, e ser sócia majoritária de uma empresa que pretende competir com os gigantes do transporte de cargas vai um céu de distância. As conversas com a Camargo Corrêa foram deflagradas ainda na gestão de Helio Costa, que, diga-se de passagem, terminou, mas não chegou ao fim. Mesmo fora do Ministério das Comunicações, Costa tem sido partícipe assíduo das discussões em torno do projeto “Levar”. A criação de uma frota própria de aeronaves é o ponto central da Medida Provisória que o governo está elaborando com o objetivo de reestruturar e impulsionar as operações dos Correios. Guardadas as devidas proporções, a entrada no transporte aéreo de cargas é vista como o grande salto capaz de transformar a estatal em uma espécie de FedEx latino-americana. Ao operar uma frota particular de aeronaves, os Correios aumentariam seu raio de ação passando a disputar mercado em outros países da região. Os Correios também precisam se blindar contra o avanço da concorrência no front interno. No ano passado, a alemã DHL, apenas para citar um exemplo, teve um aumento de 40% em sua receita no Brasil. Além das motivações de ordem concorrencial, há uma grande dose de economicidade no projeto. Atualmente, os Correios gastam por ano cerca de R$ 400 milhões com serviços aéreos terceirizados. A Camargo quer ganhar mais do que isso, só que de mãos beijadas.
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