Caos social não é mais apenas uma figura de retórica - Relatório Reservado

Acervo RR

Caos social não é mais apenas uma figura de retórica

  • 13/08/2012
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Há algo fora da ordem no reino da Dinamarca de macacão e botas. O trabalho está a  deriva, acéfalo, sem lideranças para negociar com os empresários e o governo. O vendaval de greves que vem ocorrendo em setores essenciais de serviços públicos e nos canteiros de obra dos principais projetos de infraestrutura pode até parecer, mas não é conduzido por interesses ideológicos e nem sequer tem organicidade. Nem a CUT, nem a Força Sindical ou mesmo grupelhos, como o Conlutas, têm hoje representatividade para segurar o descontrole dessas classes trabalhadoras. Ao mesmo tempo, o governo não sabe o que faz e os empresários, muito menos. É verdade que Dilma Rousseff pediu ao ex-presidente Lula ajuda para dialogar com os grevistas. Teria ouvido de volta algo similar ao que já havia lhe dito o ministro Gilberto Carvalho: “Não tem jeito. O governo e os empresários vão ter de ceder sem dar a impressão de que estão cedendo.” Ou seja: algo como enternecer, sem perder um tiquinho de dureza. As críticas, dentro e fora do governo, são todas disparatadas. O ministro do Trabalho, Brizola Neto, está a dois palmos da crucificação. É chamado de omisso, ausente e desqualificado. A batalha jurídica iniciada pela Advocacia Geral da União (AGU) para assegurar que percentuais mínimos de funcionários públicos mantenham suas atividades foi considerada precipitada porque não precedida de uma negociação mais firme. Mas negociar com quem? Na área de infraestrutura, o processo de entropia não é diferente. Só para ser ter uma ideia, depois de o Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias da Construção de Estradas, Pavimentação e Terraplenagem de Pernambuco (Sintepav- PE) ter fechado com os patrões um acordo para reajuste salarial na Justiça do Trabalho, seus dirigentes foram anunciar a boa nova a  categoria. Apanharam que nem boi ladrão e foram expulsos do canteiro de obras. Piquetes, barras de ferro e porretes, utilização de capuzes têm sido comuns em greves tão distantes e díspares quanto a s da hidrelétrica de Belo Monte quanto do projeto petroquímico do Comperj. O dramático é que o contingente humano dessas manifestações tornou-se gigantesco. São 12 mil, 15 mil, 17 mil homens enfurnados no mesmo ambiente fazendo reclamações não muito bem compreendidas pela maioria. Nos tempos em que era um grande dirigente sindical, Lula se consagrou fazendo comícios em pé, em cima de uma Kombi, junto a públicos de 500 a mil metalúrgicos. Hoje, o último homem no fim da multidão nem o enxergaria. O risco maior, não obstante menos provável, é o de caos social. O risco menor, que, por sua vez, já assombra o país, é o de atraso de 100% das obras de infraestrutura, desorganização do sistema de preços e choque de oferta e perdas no comércio exterior.

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