Buscar
Acervo RR
Só uma coisa é capaz de afligir ainda mais os Constantino do que o atual momento da Gol. Trata-se do receio de que o futuro pode ser ainda pior do que o presente. A reinvenção do modelo de negócio da empresa tornou-se um pensamento recorrente de Constantino de Oliveira Junior. Ele considera que o formato original da companhia se transformou em um fator de risco para a própria sobrevivência da operação. Há som, fúria e medo na cabine de piloto da aeronave. Definhar ou repaginar a Gol e promover uma mudança radical na estrutura de negócios da empresa? A questão está longe de ser um consenso dentro da família. Principal defensor da cirurgia plástica, Constantino Jr. tenta convencer o clã sobre o projeto de criação de um grande grupo com atuação integrada nas áreas de aviação e de infraestrutura aeroportuária. Segundo a fonte do RR, este conglomerado reuniria sob o mesmo guarda-chuva as operações de transporte, tanto de passageiros quanto de cargas, e a administração de aeroportos. Ou seja: a família deixaria de ser dona apenas de uma companhia aérea para se tornar controladora de uma operação holística no setor. Para isso, aportaria sua participação na Gol no novo negócio. Nesta configuração, haverá poltronas de sobra na primeira classe da nova holding para o embarque de sócios das mais diversas latitudes, notadamente empreiteiras e fundos de investimento. Há dúvida se este modelo híbrido e, notadamente, a entrada no segmento aeroportuário poderão funcionar como um hedge capaz de evitar o possível esgarçamento da empresa, ao menos no atual modelo de operação. Ninguém, por exemplo, perguntou a Anac, ao Cade e a SDE se um mesmo grupo acionista controlador de uma das maiores companhias aéreas do país pode sair comprando aeroportos por aí, mesmo que em regime de consórcio. O exercício de pensar e repensar o modelo de negócio deve ser visto como um mea culpa dos Constantino. A família parte da premissa de que a Gol ficou no meio do caminho. Nem se manteve como uma empresa de low cost, sua marca de nascença, e tampouco se tornou uma companhia com importância no cenário internacional. Em alguns momentos, a Gol chegou a conquistar a liderança no mercado doméstico, no qual praticamente concentra toda a sua operação. Esta posição, no entanto, foi decorrência muito mais de uma política de tarifas camicase – valendo-se da ausência da tipificação de dumping no setor aéreo – do que exatamente de um crescimento sustentável do número de clientes. Portanto, o trade off da Gol é dramático: nunca a companhia precisou tanto ser low cost e nunca foi tão inviável o seu retorno a condição original. Constantino Jr. tateia algumas vantagens na recauchutagem da Gol. Além de servir como um antídoto aos péssimos resultados acumulados na aviação, a reestruturação permitirá ao grupo dividir o core business sem sair do ramo de transporte aéreo. Não se pode ter tudo, mas se pudessem, além da aviação e da concessão de aeroportos, os controladores da Gol colocariam no mesmo caldeirão suas empresas de ônibus, de forma a criar uma holding multimodal no setor. Seria uma forma de estender o diploma de bons modos da aviação ao transporte rodoviário. No entanto, as notórias estripulias fiscais da família neste segmento recomendam uma chinese wall da altura do Empire State. Nem os Constantino querem se misturar com os Constantino.
Todos os direitos reservados 1966-2026.