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Uma associação aparentemente inusitada, entre o empresário Elon Musk e a Vale, começa a se tornar uma hipótese viável. A operação não seria diretamente com a companhia, mas com a sua controlada Vale Base Metals (VBM). Para não dizer que tudo está no terreno das intenções, advisers de ambas as partes já mantêm contatos. Cabe ressaltar que Musk e Vale não são dois estranhos. Em 2022, a Tesla assinou contrato com a mineradora para a compra de níquel, destinado à fabricação de baterias para os veículos elétricos da montadora. A aquisição de uma participação na VBM seria um salto nessa relação, transformando a parceria comercial em um enlace societário. As circunstâncias parecem apontar nessa direção. Musk é um “heavy user” de metais nobres para suprir seus negócios voltados à economia do futuro, notadamente a SpaceX e a própria Tesla – alguns modelos da montadora chegam a ter, no total, 82 kg de material de cobre. A Vale, por sua vez, entre jazidas compradas e prováveis, é dona de mais de 1,7 bilhão de toneladas em reservas de cobre, níquel e cobalto, espalhadas por Brasil, Canadá, Indonésia, Japão e Reino Unido. Como se não bastassem esses ativos já precificados, Musk estaria comprando também o que não foi inferido. As reservas da VBM podem conter um volume de minerais estratégicos ainda não quantificados. No ano passado, não custa lembrar, a Vale vendeu 10% da subsidiária para a Manara Minerals, joint venture entre a mineradora saudita Ma´aden e o PIF, fundo de investimento público daquele país, por US$ 2,5 bilhões. Ou seja: a companhia tem margem acionária de sobra para negociar uma fatia razoavelmente expressiva do capital da VBM para Elon Musk sem perder o controle do negócio. O RR enviou uma série de perguntas para a Vale, mas a empresa não se pronunciou.
A eventual entrada da Elon Musk no capital da Vale Base Metals seria um jogo de ganha-ganha para ambas as partes. Hoje, o mundo corre atrás de especiarias minerais assim como, na Idade Média, a Europa desbravou todas as rotas possíveis, por terra e mar, em busca de “jazidas” de pimenta, gengibre, noz-moscada, canela, entre outros. Ao se associar à Vale, Musk teria o seu “caminho para a Índia”, passando a contar com uma fonte cativa de metais nobres para a produção de carros elétricos e a fabricação de satélites e outros equipamentos aeroespaciais. Além disso, Musk colocaria o pé em uma companhia destacada no cenário global da mineração, com enorme perspectiva de valorização. Ressalte-se que, nos últimos anos, o empresário tem feito seguidos movimentos com o objetivo de assegurar o fornecimento de metais estratégicos para suas companhias. Além de acordos comerciais com grandes mineradoras, como com a própria Vale, Musk já ensaiou investir na produção de níquel na Indonésia – onde a Tesla fechou contratos para a compra de US$ 5 bilhões do metal. No ano passado, o empresário chegou a discutir com o governo da Mongólia um projeto para a extração de cobre no país. Volta e meia, surgem no mercado internacional notícias sobre o interesse de Musk de comprar uma participação na Glencore. Além do contrato de fornecimento com a Vale, não é de hoje que o empresário tenta também cavoucar o solo brasileiro, entrando diretamente em negócios na área de mineração. No ano passado, houve rumores sobre a possibilidade da Tesla se unir a um projeto de níquel no Piauí conduzido pela britânica Brazilian Níquel. Musk flerta também com o lítio brasileiro.
Por sua vez, para a Vale, a venda de parte da VBM a Elon Musk agregaria enorme valor ao seu negócio em metais básicos. Não obstante ser um potentado da mineração mundial, a mineradora é uma empresa um tanto quanto “retrô”, ainda bastante indexada a um insumo da velha economia, o minério de ferro, e concentrada em um cliente cativo, a China. No contexto do mercado mundial, o grande diferencial da empresa é a qualidade do seu minério, notadamente de Carajás. A Vale já teve um alto grau de beneficiamento de seus produtos e um elevado nível de diversificação, com negócios em fertilizantes, celulose, siderurgia, entre outros setores. Com o passar do tempo, acabou praticamente se concentrando em uma única commodity. O minério de ferro, somando-se o produto in natura e as pelotas, respondem por 81% do faturamento da companhia. Para efeito de comparação, os metais para transição energética representam ainda apenas 18% da receita. Em termos de geração de caixa, o fosso é ainda maior. Cobre, níquel e cobalto contribuem com algo em torno de 10% do Ebitda da companhia; o restante vem todo do minério de ferro. Ou seja: a Vale ainda vive no século XX. Mesmo que muito bem, obrigado.
A associação com Elon Musk daria à VBM uma capacidade de valuation imensurável, sabe-se lá por que múltiplo. De quebra, a inflexão para uma matriz energética limpa ajudaria a empresa a higienizar sua reputação. Não é pouca coisa. A imagem que se tem da Vale hoje é de uma corporação descuidada e leniente com o meio ambiente e o social. Até o momento, por exemplo, a companhia sequer conseguiu resolver seu passivo financeiro decorrente das tragédias de Mariana e Brumadinho.
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