Recuperação extrajudicial do GPA é a pá de cal na era Casino

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Recuperação extrajudicial do GPA é a pá de cal na era Casino

  • 11/03/2026
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A recuperação extrajudicial do Grupo Pão de Açúcar (GPA), anunciada ontem, representa o fim da era Casino. O plano para renegociar cerca de R$ 4,5 bilhões em dívidas foi conduzido inteiramente à margem do grupo, que ainda mantém uma participação acionária de 22,5% na empresa. O isolamento é absolutamente calculado e faz parte da própria ação medicamentosa na tentativa de sobrevivência da rede varejista. Nos bastidores, a nova gestão do GPA, indicada pela família Coelho Diniz, hoje maior acionista, atribui a deterioração da companhia a uma sucessão de erros estratégicos, omissões operacionais e decisões financeiras desastrosas do Casino ao longo dos últimos anos. O legado deixado pelos franceses inclui ziguezagues estratégicos que desnortearam a companhia, desinvestimentos que reduziram sua musculatura operacional, incapacidade de reagir à migração do consumidor para formatos mais baratos e a insistência em uma estrutura de capital tóxica, que se tornou insustentável com a escalada dos juros. A crise, nessa leitura, não é só financeira. É também a conta atrasada de um ciclo de gestão marcado por perda de foco, destruição de valor e erosão progressiva da capacidade competitiva do GPA.

Os números mostram a profundidade do estrago. O GPA encerrou 2025 com capital circulante líquido negativo de R$ 1,22 bilhão e R$ 1,7 bilhão em vencimentos financeiros previstos para 2026. No curto prazo, cerca de R$ 400 milhões a R$ 500 milhões vencem em maio e outros R$ 1,2 bilhão a R$ 1,3 bilhão em julho, o que ajuda a explicar a pressa em costurar o acordo com os credores.

O estrago da era Casino se reflete na Bolsa. Apenas neste ano, o GPA perdeu mais de um terço do seu valor de mercado, hoje na casa de R$ 1,3 bilhão. Os próprios franceses sentem no bolso o derretimento da empresa. Em pouco mais de dois meses, o valor da sua participação caiu de R$ 424 milhões para R$ 275 milhões. E é justamente aí que se instala a especulação do mercado: o que o Casino fará com sua participação remanescente? Uma venda imediata em bolsa parece improvável, porque pressionaria ainda mais um papel já fragilizado. Uma saída negociada, em bloco, para um investidor estratégico ou financeiro, seria mais compatível com o momento. Outra hipótese é o grupo francês simplesmente esperar a poeira da reestruturação baixar para tentar se desfazer da posição em condições menos desfavoráveis. E, quando isso ocorrer, é provável que ninguém no Pão de Açúcar venha a sentir saudades.

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