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Ainda há muitos fios soltos na operação arquitetada pela General Atlantic para assumir o controle da Serena Energia. O plano da gestora norte-americana – maior acionista individual, com 26,8% – de recomprar o restante dos papéis e fechar o capital da empresa depende de dois fatores que se entrelaçam: tempo e preço. O timing da Oferta Pública de Aquisição (OPA) é maior dilema para a General Atlantic.
De acordo com o estatuto da Serena, entre as hipóteses previstas em caso de OPA, o valor apresentado deve corresponder a 125% da cotação mais alta em bolsa nos últimos 12 meses. Até o momento, o pico do papel no período foi R$ 9,73, atingido em maio do ano passado. Acrescido do prêmio previsto no estatuto, o preço mínimo da proposta teria de ser, portanto, de R$ 12,21 por ação.
Ocorre que as circunstâncias transformam o fechamento de capital da Serena Energia quase em uma operação de bet esportiva, com seus riscos e ganhos potenciais. O impasse da General Atlantic é justamente qual a melhor aposta a se fazer: lançar a OPA agora ou deixar o tempo correr?
Hoje, tomando-se como base a proposta de R$ 12,21 por ação citada acima, os norte-americanos teriam de desembolsar cerca de R$ 3 bilhões apenas pelos 40% da Serena em circulação no mercado – a conta não leva em consideração os papéis em poder de outros acionistas de referência.
No entanto, se a General Atlantic aguardar até maio, esse valor pode ser reduzido em aproximadamente R$ 100 milhões. Isso porque, se o papel se mantiver estável, a cotação máxima dos últimos 12 meses não seria mais o R$ 9,73 de maio de 2024, mas R$ 9,37 em junho do mesmo ano. Ou seja: 3,7% a menos.
Em um jogo como esse, faz diferença. Na mão contrária, porém, paira sobre a decisão dos norte-americanos a ameaça de um aumento do valor da ação a ponto de estabelecer um novo valor recorde para os últimos 12 meses e consequentemente elevar a cifra necessária para o fechamento de capital da Serena. Por ora, a cotação do papel em bolsa ainda está abaixo do teto dos últimos 12 meses: ontem, fechou a R$ 8,57.
Mas o viés é de alta. Desde o início do ano, a ação acumula uma valorização de 62%. Consultada pelo RR, a General Atlantic não quis comentar o assunto.
No mercado, fala-se na possibilidade de a General Atlantic não capitanear sozinha a recompra de ações da Serena. Nesse caso, a operação seria vinculada à entrada de um novo acionista na empresa.
Há informações de que, entre outros potenciais investidores, os norte-americanos mantém tratativas com o GIC, o fundo soberano de Cingapura. Ao mesmo tempo, a General Atlantic tem de tourear os demais acionistas de referência da Serena Energia, a começar pela Tarpon, dona da segunda maior participação na empresa (20,4%). De acordo com informações filtradas pelo RR, a gestora de recursos brasileira tem buscado o apoio de minoritários com o objetivo de pressionar a General Atlantic a pagar um prêmio de recompra superior ao mínimo estabelecido no estatuto.
Procurada, a Tarpon não se manifestou. Nesse enredo há ainda outro personagem relevante: Antonio Bastos Filho, fundador e CEO da Serena. Como informou o Pipeline, do Valor Econômico, em 28 de fevereiro, Bastos tomou recursos de quatro bancos para acompanhar o follow on da companhia no ano passado e não ter sua participação diluída.
Para todos os efeitos, foi uma demonstração de confiança do criador na sua criatura. No entanto, há quem diga que, ao acompanhar a chamada de capital, Bastos procurou se cacifar já vislumbrando a possibilidade de uma recompra de ações da Serena. À época do follow on, a General Atlantic estava fechando a aquisição da gestora inglesa Actis, o que resultou no seu desembarque no capital da empresa de energia.
Naquele momento, já se falava na hipótese de fechamento de capital. Bastos é um fio duplamente sensível pela superposição como sócio e principal executivo da Serena. O empresário é o responsável-mor pelas diretrizes estratégicas da companhia, incluindo sua entrada nos Estados Unidos, com a instalação do complexo de geração eólica Goodnight 1, no Texas, um investimento de US$ 300 milhões.
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