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Há uma crônica da fusão anunciada sendo escrita no setor de saneamento. Menos por oportunidade e mais por necessidade, diga-se de passagem. Pressões financeiras de parte a parte estão empurrando os acionistas da Iguá e da Aegea para a mesa de negociações, em torno de uma possível combinação de ativos.
De um lado, as canadenses CPP Investments e AIMCo (Alberta Investment Management Corporation), além da BNDESPar; do outro, Equipav, GIC, fundo soberano de Cingapura, e Itaúsa. Há um ponto de interseção entre os investidores: o entendimento de que será difícil as duas companhias honrarem seus investimentos obrigatórios sem um reforço da estrutura de capital e aumento de escala.
A Iguá terá de desembolsar mais de R$ 50 bilhões em suas concessões nos próximos 35 anos – a maior parte no Rio de Janeiro, algo em torno de R$ 32 bilhões. No caso da Aegea, os aportes exigidos giram em torno de R$ 30 bilhões.
A situação da Iguá é ainda mais preocupante por conta da sua alavancagem. No balanço de junho, a relação dívida líquida/Ebitda chegou a 12 vezes, contra um múltiplo de 7,3 em junho do ano passado. Trata-se de um dos maiores índices entre as companhias abertas brasileiras, bem superior até mesmo ao de empresas em recuperação judicial, como Azul e Coteminas.
A insatisfação dos acionistas com os rumos da Iguá, até então mantida a portas fechadas, transbordou na semana passada, quando a empresa anunciou a saída de Roberto Barbuti do cargo de CEO, substituído por René Silva. Procurada pelo RR, a Iguá não retornou até o fechamento desta matéria. Também consultada, a Aegea não quis comentar o assunto.
Não obstante o senso de premência que aproxima as duas empresas, a costura do M&A entre a Iguá e Aegea tem suas complexidades. A principal delas é acomodar os interesses cruzados e não necessariamente convergentes dos acionistas.
Do lado da Iguá, o que se diz no mercado é que tanto a AIMCo quanto a BNDESPar pretendem reduzir sua posição ou mesmo vender integralmente sua participação. Ou seja: apenas a CPP Investments – principal acionista, com 66,5% do capital – estaria disposta a permanecer no negócio.
Em relação à Aegea, informações filtradas pelo RR apontam para o desejo da Itaúsa de usar a eventual fusão como porta de saída. Por sinal, os próprios Setubal já deram pistas nessa direção. O diretor-presidente da Itaúsa, Alfredo Setúbal, já defendeu em diferentes ocasiões o IPO da Aegea, o que foi interpretado pelo mercado como a busca de uma janela para deixar a companhia.
Nesse xadrez societário, com mais jogadores dispostos a deixar do que a permanecer no tabuleiro, CPP Investments e GIC despontam como regentes das tratativas para uma possível fusão e potenciais candidatos a uma posição de comando na nova empresa que venha a ser criada com a associação entre Iguá e Aegea.
Desse encontro das águas surgiria o maior grupo privado da área de saneamento do país, com receita líquida superior a R$ 12 bilhões e geração de caixa acima de R$ 7 bilhões por ano.
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