Buscar
Análise
O Lula III vai fazer o contorcionismo que for necessário para chegar às urnas com indicadores econômicos superiores aos do Lula I e Lula II. Mesmo que ao custo de uma conta fiscal gigantesca para o Lula IV – ou para o Flavio I. A ordem no governo é intensificar o bombardeio de medidas capazes de reduzir a potência da política monetária restritiva do Banco Central. Ou seja: à medida que o BC desaperta o parafuso dos juros mais vagarosamente do que se previa, a equipe econômica força a mão para rosquear a chave de fenda da economia com maior velocidade. A próxima fornada de benesses deverá ser destinada a tomadores de empréstimo com pagamentos em dia, mas com custo elevado, trabalhadores informais, motoristas de aplicativos e taxistas. O Palácio do Planalto considera vital também novas ações voltadas especificamente para a classe média, até o momento agraciada apenas com a mudança da faixa de isenção do Imposto de Renda. Uma das propostas em estudo é um reforço adicional de funding para a Faixa 3 do Minha Casa, Minha Vida, com uso de recursos do Fundo Social do Pré-Sal. A cifra em discussão é de cerca de R$ 20 bilhões. A medida mira famílias com renda bruta de até R$ 9,6 mil e também atende à construção civil, setor pressionado pela Selic elevada.
As medidas do “pacote de bondades” anunciadas apenas neste ano somam apenas R$ 139 bilhões. Mais de metade desse valor se refere à ampliação de linhas de crédito para pessoas físicas e empresas de variados setores da economia, como habitação, indústria e agronegócio. É a forma encontrada pelo governo para compensar a freada no ritmo de redução da taxa de juros. No fim de fevereiro, o Boletim Focus apresentava uma projeção para a Selic em dezembro de 12%. Na edição de ontem, a estimativa chegou a 13%. Se serve de alento, tanto a equipe econômica quanto o próprio BC contam com o efeito compensatório do câmbio. A balança comercial registrou superávit de US$ 10,537 bilhões. No acumulado de janeiro a abril, o saldo positivo chegou a US$ 24,782 bilhões, alta de 43,5% sobre igual período do ano passado. Para 2026, o MDIC projeta superávit de US$ 72,1 bilhões. É um colchão suficiente para amortecer uma eventual queda no Investimento Direto no País (IDP). No primeiro trimestre, o IDP totalizou US$ 21 bilhões, uma ligeira queda de 8,7% em comparação ao mesmo período em 2025. Ainda assim, no acumulado dos últimos 12 meses encerrados em março, o IDP somou US$ 75,7 bilhões, acima dos US$ 74,1 bilhões registrados em março do ano passado.
O BNDES terá um papel central nas acrobacias do governo para fintar os efeitos contracionistas dos juros altos – vide RR (https://relatorioreservado.com.br/noticias/eleicao-se-aproxima-e-nao-ha-solucao-possivel-para-discordancia-entre-o-bc-e-o-bndes/). Somente no âmbito da Nova Indústria Brasil, o banco despejará mais R$ 70 bilhões ao longo deste ano, depois de ter alcançado, ainda em dezembro de 2025, a meta original de R$ 300 bilhões. O apetite não se limita à política industrial. No Plano Safra 2025/26, que vai até 30 de junho deste ano, o BNDES colocou à disposição R$ 70 bilhões para o setor agropecuário, o maior orçamento já destinado pelo banco ao segmento, 5% acima do ciclo anterior e 180% superior ao Plano Safra 2022/23. A base de partida já é elevada. Em 2025, os desembolsos do BNDES somaram R$ 169,7 bilhões, alta de 27% sobre 2024 e de 74% sobre 2022. As aprovações de crédito chegaram a R$ 237,9 bilhões, com avanço expressivo em indústria, comércio e serviços e agropecuária. Como de costume, haverá o bloco dos contentes e o pelotão dos insatisfeitos. Algumas empresas e setores terão dinheiro do BNDES; outros, não. É uma turma que ficará infeliz, mesmo com a queda da Selic.
Na equipe econômica, a previsão é que, junta daqui, soma dali, as medidas para o aquecimento da economia passarão dos R$ 500 bilhões até as eleições. Toda essa estratégia é PT na veia: Estado como indutor da atividade, banco público como contrapeso à Selic, crédito direcionado como instrumento de política anticíclica e programas sociais como alavanca simultânea de renda, consumo e popularidade. Tem as digitais de economistas influentes no partido, como Laura Carvalho e o próprio presidente do BNDES, Aloizio Mercadante. No limite, trata-se de uma tentativa de construir uma política monetária na mão contrária à do Banco Central. De um lado, o BC encarece o dinheiro para esfriar a demanda e conter a inflação; de outro, o governo usa todo o arsenal de que dispõe para impedir que o aperto chegue inteiro à economia real, ao bolso e ao voto do eleitor.
O governo Lula tem números poderosos para ostentar. A taxa de desemprego no trimestre encerrado em março ficou em 6,1%, segundo o IBGE — o menor nível já registrado para um primeiro trimestre desde o início da série histórica da PNAD Contínua, em 2012. Em relação ao mesmo período de 2025, houve queda de 0,9 ponto percentual. O contingente de desempregados recuou 13% em 12 meses, equivalente a quase um milhão de pessoas a menos procurando trabalho. O número de pessoas ocupadas permanece acima de 102 milhões, enquanto os empregos com carteira assinada no setor privado alcançaram 39,2 milhões. Já o Novo Caged registrou criação líquida de 255,3 mil vagas formais apenas em fevereiro. Outro dado relevante para o governo é a redução da informalidade. A taxa caiu para 37,3% da população ocupada, abaixo dos 38% registrados um ano antes. Também houve queda da subutilização da força de trabalho, que recuou de 15,9% para 14,3% em um ano.
Ao mesmo tempo, a renda segue avançando. O rendimento médio real habitual atingiu R$ 3.722, novo recorde da série histórica do IBGE, com crescimento de 5,5% em relação ao ano anterior. A massa de renda também bateu recorde: R$ 374,8 bilhões, alta de 7,1% em 12 meses. Na prática, isso significa mais dinheiro circulando na economia mesmo em ambiente de juros elevados. Ainda assim, ao menos até o momento, essas cifras não têm sido suficientes para alavancar a aprovação do governo e os índices de Lula nas pesquisas eleitorais. É a velha discussão de que os benefícios, por mais que se multipliquem, já foram assimilados pela população como algo ordinário, na linha “o governo não faz mais do que a sua obrigação”.
O desafio do Palácio do Planalto, portanto, não é apenas produzir bons indicadores, mas transformar esses números em percepção política. É justamente aí que entram as novas medidas. O governo quer converter estatísticas em sensação de melhora concreta: dívida renegociada, prestação menor, botijão mais barato, conta de luz aliviada, crédito habitacional acessível, financiamento para quem trabalha por conta própria e algum refresco no Imposto de Renda. A aposta é que, se o eleitor ainda não atribui ao governo a melhora do emprego e da renda, talvez passe a fazê-lo quando o benefício aparecer diretamente no orçamento doméstico.
Quanto mais o governo tenta neutralizar os efeitos da Selic, mais pode reforçar as preocupações que mantêm os juros elevados: pressão fiscal, demanda aquecida, dúvidas sobre a trajetória da dívida e deterioração das expectativas. O próprio Desenrola 2.0 pode ter um efeito bumerangue, alimentando o ciclo vicioso do endividamento e exigindo um Desenrola 3.0, 4.0 etc – ver RR. Mas essa conta parece secundária na lógica eleitoral do Lula III. O objetivo é chegar a 2026 com o máximo possível de segmentos contemplados por alguma política pública: trabalhador formal, informal, endividado, empreendedor, motorista de aplicativo, taxista, estudante, comprador de imóvel, produtor rural, industrial, classe média e baixa renda. É uma estratégia de elevado potencial político. E de alto risco macroeconômico. É só aguardar por 2027.
Todos os direitos reservados 1966-2026.