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Guardadas as devidas proporções, o BTG conseguiu com o Digimais o que tanto tentou e não alcançou no caso do Master. Da forma como a operação foi meticulosamente costurada, a partir de uma teia de exigências e de “subsídios”, na prática é como se o banco estivesse recebendo para ficar com a encalacrada instituição financeira de Edir Macedo. Além do aporte de R$ 7 bilhões do FGC e da injeção de capital feita pelo próprio Bispo Macedo – no mercado, fala-se em quase R$ 800 milhões -, o BTG montou uma blindagem que o protege dos consideráveis passivos judiciais do Digimais, especialmente do rumoroso processo movido pela gestora Yards. Trata-se de uma ação na casa dos R$ 500 milhões envolvendo uma suposta fraude na venda de créditos. Segundo informações filtradas pelo RR, o acordo de compra do Digimais prevê que o antigo controlador assumirá a responsabilidade em caso de derrota no processo. A operação prevê ainda a possibilidade de retenção de parte do preço (escrow) ou de ajustes futuros no valor da transação, vinculados ao desfecho da ação. É mais uma das bombas relógio do Digimais que o BTG vai deixar no colo alheio. Até porque a chance de explosão é grande. De acordo com informações que correm no mercado, os advogados do banco de André Esteves que se debruçaram sobre o caso teriam concluído que há uma significativa probabilidade da Yards ganhar a queda de braço na Justiça. Consultado, o Digimais não quis comentar o assunto. O RR fez também seguidos contatos com o BTG, mas o banco não se pronunciou até o fechamento desta matéria.
O contencioso entre o Digimais e a Yards tem origem na cessão de uma carteira de crédito de aproximadamente R$ 660 milhões ao fundo EXP 1, da gestora. Para se ter uma ideia do tamanho da operação, o valor representa aproximadamente um terço de todo o portfólio de empréstimos do banco na época do acordo, em março do ano passado (cerca de R$ 1,9 bilhão). Poucos meses depois, uma auditoria independente identificou problemas relevantes na qualidade desses ativos — o suficiente para implodir a relação entre as partes. Segundo a investigação, cerca de 42% das cédulas de crédito transferidas apresentavam falhas graves de documentação, incluindo casos sem comprovação adequada da existência dos contratos. A Yards sustenta que parte relevante da carteira não atende às condições contratuais de cessão, o que tornaria os créditos inválidos ou, no limite, inexistentes do ponto de vista jurídico. O Digimais, por sua vez, rebate. Alega conflito de interesses na estrutura do fundo e questiona a atuação da gestora e dos cotistas subordinados, tentando inclusive alterar a administração do veículo.
Em meio ao processo de recuperação extrajudicial, o Grupo Pão de Açúcar (GPA) prepara uma nova rodada de monetização de ativos imobiliários. A estratégia, segundo o RR apurou, combina três frentes simultâneas: venda de imóveis não estratégicos, ampliação de operações de sale and leaseback e renegociação em massa de contratos de aluguel. A companhia já iniciou um mapeamento interno para identificar imóveis passíveis de alienação. Em paralelo, abriu conversas com proprietários para reprecificar uma base de arrendamentos que soma R$ 4,37 bilhões, com foco em redução de desembolso e devolução de pontos de baixa rentabilidade. O problema é que o GPA já queimou parte relevante da lenha. Com 726 lojas em operação, a empresa não dispõe mais de um grande estoque de imóveis livres para monetização imediata. Pelas estimativas do setor, entre 60% e 80% da rede opera em imóveis alugados. Em outras palavras, a companhia já fez, na prática, a migração para um modelo asset light. O espaço para vender ativos “puros” diminuiu — e as alternativas ficaram mais complexas. Mas o principal vetor de geração de caixa pode estar fora da venda de ativos. A renegociação da base de aluguel passa a ser tão relevante quanto qualquer desinvestimento. Isso envolve desde a devolução de lojas deficitárias até a reprecificação de contratos — redução temporária de aluguel, alongamento de prazos ou conversão parcial de custos fixos em variáveis. Em termos financeiros, reduzir essa obrigação futura pode ter impacto maior do que levantar algumas centenas de milhões com vendas pontuais. Procurado pelo RR, o GPA não se pronunciou até o fechamento desta matéria.
Estava escrito nas estrelas e no RR que a Mosaic reduziria sua produção de fertilizantes no Brasil. Os cortes, no entanto, não devem se restringir ao encerramento das atividades e à venda do complexo mineiro e químico de Araxá (MG), anunciados pela companhia na semana passada. Corre no setor que o grupo norte-americano avalia desativar definitivamente a produção de superfosfato em Paranaguá (PR), “temporariamente” paralisada desde dezembro. Significaria o fim das operações de fertilizantes da Mosaic no Brasil. O motivo principal seria a disparada dos preços do enxofre, insumo para a fabricação de adubos fosfatados. Haveria ainda uma razão paralela e estrutural: uma guinada estratégica, que levaria a Mosaic a concentrar seus investimentos no Brasil em terras raras e nióbio. Neste segundo caso, a empresa já tem um projeto para expandir a extração do mineral em Patrocínio (MG). A ideia é reprisar no nióbio o modelo de parceiras já iniciado pelos norte-americanos na exploração de terras raras no Brasil. O primeiro acordo, com a Rainbow Rare Earths Limited, de origem britânica, envolve um projeto em Uberaba.
Flávio Bolsonaro e o deputado federal Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, têm atuado em duas frentes na disputa pela vaga aberta no TCU. De um lado, fazem campanha pela escolha da deputada Soraya Santos (PL-RJ), do outro têm procurado outros postulantes à cadeira no Tribunal de Contas na tentativa de convencê-los a sair do páreo. Nos últimos dias, Flavio conversou diretamente com Elmar Nascimento (União-BA) e Hugo Leal (PSD-RJ). A ambos teria acenado, inclusive, com a possibilidade de ocuparem cargos em seu eventual governo. Os dois são vistos como concorrentes diretos de Soraya por votos dentro da Câmara, uma divisão que tende a favorecer a candidatura de Odair Cunha (PT-MG).
Qual será o próximo passo no processo de diversificação de investimentos dos Ermírio de Moraes? Onde o Grupo Votorantim vai alocar os R$ 8 bilhões que tem em caixa? Neste momento, a área de saneamento desponta como a resposta para ambas as questões. Segundo informações filtradas pelo RR, a Votorantim tem estudos avançados para entrar no setor e avalia, inclusive, participar do leilão da Copasa, prometido pelo governo mineiro para este ano. O grupo analisa também oportunidades para ingressar no capital de players privados. Em ambos os casos, todos os caminhos levam na direção da CPP Investments. O potentado de investimentos canadense, que administra um patrimônio na casa dos US$ 800 bilhões, já é sócio dos Ermírio de Moraes em duas empresas de energia, a Auren e a Floen. Ao mesmo tempo, tem um pé no setor de saneamento, como principal acionista da Iguá, com 66,5%. É uma porta que parece chamar pela Votorantim. Uma troca de ações com a CPP Investments permitiria o ingresso do grupo no capital da Iguá. Seria muitíssimo bem-vindo. A Iguá está hoje no centro de uma equação típica do novo ciclo do saneamento no Brasil: carteira relevante de concessões, forte pipeline de investimentos – cerca de R$ 30 bilhões até 2030 – e ativos ainda longe de assegurar uma geração de caixa. No passado, a CPP e seus sócios – a também canadense AIMCo e a BNDESPar – chegaram a ensaiar o IPO da companhia, mas a operação virou água diante das condições adversas do mercado. Consultado pelo RR, o Grupo Votorantim não se pronunciou.
Nos últimos anos, o Grupo Votorantim tem avançado sobre novas avenidas de crescimento ligadas a infraestrutura e energia renovável. A criação da Auren, fruto da reorganização dos ativos de geração e comercialização, marcou a entrada mais estruturada em energia renovável como negócio independente e não apenas suporte industrial. Na mesma linha, a parceria com a canadense CPP Investments na Floen consolidou uma plataforma voltada a projetos de energia e infraestrutura de longo prazo. A holding também estruturou veículos mais flexíveis, como a Altre, voltada a real estate e projetos urbanos, e passou a olhar com mais atenção setores como saúde e infraestrutura. Na contramão, reciclou portfólio com desinvestimentos relevantes — o maior deles, a venda recente de participação na CBA. Os números mostram o quanto a orquestra regida pelos Ermírio de Moraes está afinada. Em 2025, a Votorantim registrou lucro líquido de R$ 4,8 bilhões, o maior resultado da sua história. A receita bateu em R$ 47,6 bilhões e o Ebitda atingiu R$ 11,5 bilhões. São cifras hiperbólicas, assim como a saga dos Ermírio de Moraes.
Ontem, enquanto Lula desfiava mais uma de suas tantas bravatas — “se depender de mim, a gente fecha as bets” —, o setor de apostas dava mais uma demonstração do seu poderio. Reunidos no BiS SiGMA South America, em São Paulo, investidores e executivos de algumas das principais plataformas internacionais – vindos de Malta, Reino Unido, Albânia, Turquia, entre outros – discutiram os próximos passos para conquistar ainda mais terreno no mercado brasileiro. Segundo o RR apurou, as grandes casas de apostas pretendem acelerar investimentos em tecnologia a marketing para consolidar market share. Na prática buscam se antecipar a eventuais apertos regulatórios enquanto o ambiente ainda permite uma razoável flexibilidade. Na prática, significa dizer que vem por aí mais uma forte temporada de contratos com clubes de futebol, compra de farto espaço em mídia e campanhas de aquisição de usuários em larga escala. Ou seja: é a realidade correndo em paralelo à velha e surrada aposta de Lula de jogar para a galera.
José Batista Júnior, o “Junior Friboi”, o irmão mais discreto de Joesley e Wesley Batista, deve sacramentar nos próximos dias a compra da Fazenda Conforto, em Nova Crixás (GO). Controlada pela família Negrão, trata-se da maior estrutura de confinamento bovino do Brasil, com capacidade de aproximadamente 80 mil animais. Além disso, a propriedade conta com fábrica de ração, silos de grãos, produção própria de biofertilizantes, geração de energia solar e cerca de cinco mil hectares de lavouras irrigadas. O faturamento estimado para este ano é superior a R$ 1,3 bilhão. A aquisição se encaixa no plano declarado de “Júnior Friboi” de construir o maior grupo de gado de corte do Brasil. Nos últimos anos, a JBJ, sua empresa, vem consolidando ativos estratégicos — como a compra da Fazenda Ressaca por mais de R$ 600 milhões — e ampliando sua capacidade de confinamento e integração com a indústria frigorífica. No fim do dia, fica tudo em família: a JBJ é a maior fornecedora de gado para a JBS.
O único partido dos Bolsonaro são os próprios Bolsonaro. O clã está atropelando a direção do PL e impondo uma nova engenharia para a eleição à Câmara dos Deputados e às Assembleias Legislativas. A estratégia da família, já em curso nos estados, prevê reduzir o número de postulantes em favor de candidaturas de partidos aliados com grande potencial de puxar votos. A avaliação é que, diante do limite legal de candidaturas proporcionais — número de vagas mais um —, há um “engarrafamento” em diversos estados, o que impede acomodações políticas mais amplas. Ao redistribuir candidatos, o grupo busca ganhar capilaridade e garantir palanques regionais mais fortes para Flávio Bolsonaro, ainda que o expediente venha a custar algumas cadeiras a menos na Câmara e nas Assembleias em determinados estados. Ocorre que Valdemar da Costa Neto, cioso dos compromissos internos que precisa honrar e sempre de olho no fundo partidário, resiste à ideia por enxergar risco direto à musculatura do PL nas eleições proporcionais.
A transferência dos ativos da Bamin (Bahia Mineração) é uma negociação que pode ser dividida em duas camadas. A mais visível envolve as tratativas para a portuguesa Mota-Engil assumir a reserva de minério de ferro de Caetité, a concessão da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) e a licença para a construção de um porto em Ilhéus. Abaixo da superfície, no entanto, há uma outra operação dentro da operação, protagonizada pela CCCC (China Communications Construction Company), um dos principais acionistas do grupo lusitano, com um terço do capital. Os chineses vislumbram a aquisição dos ativos da Bamin como um possível atalho na corrida por minerais nucleares no Brasil. Dentro do mesmo complexo geológico de Caetité, em área praticamente contígua às reservas de minério de ferro, encontra-se a segunda maior jazida de urânio do Brasil – e única mina em operação no país. O volume de depósitos já identificados beira 90 mil toneladas – a título de exemplo, o suficiente para abastecer uma usina do porte de Angra 2 por mais de 700 anos. A INB (Indústrias Nucleares do Brasil) já manifestou a intenção de buscar um parceiro privado para a exploração de urânio em Caetité. O Artigo 177 da Constituição e a Lei nº 4.118, de 1962, determinam o monopólio da União sobre pesquisa, lavra, enriquecimento, reprocessamento, industrialização e o comércio de minérios nucleares. Porém, cabe lembrar que essas amarras foram afrouxadas em 2022, no governo Bolsonaro. A Lei nº 14.514 abriu caminho para a entrada de investidores privados na exploração desses elementos, desde que em parceria com a INB (Indústria Nucleares do Brasil).
Caso a Mota-Engil sacramente a compra dos ativos da Bamin – leia-se o Eurasian Resources Group, do Cazaquistão -, a CCCC ficaria em uma posição privilegiada para se associar à INB na extração do urânio de Caetité. Além de colocar os pés no complexo geológico, os chineses teriam, por meio da companhia portuguesa, uma ferrovia e um porto para o escoamento da produção. Essa dobradinha minério de ferro/urânio daria um maior sentido econômico para a construção da ferrovia e do terminal portuário, um investimento estimado em mais de R$ 12 bilhões.
Ainda que usando a Mota-Engil como front, este seria um movimento estratégico dos chineses em sua disputa global com os Estados Unidos por minerais críticos, neste caso mais precisamente por minério nuclear. O governo norte-americano vem adotando uma série de medidas para reativar a cadeia produtiva de urânio no país, incluindo subsídios bilionários para enriquecimento doméstico, recomposição de estoques estratégicos e incentivos à construção de reatores modulares (SMRs), além de restrições à importação de combustível nuclear russo. Em janeiro de 2026, o Departamento de Energia anunciou um pacote de US$ 2,7 bilhões para expandir a capacidade doméstica de enriquecimento, distribuindo cerca de US$ 900 milhões para cada um de três projetos industriais, voltados à produção de urânio enriquecido convencional (LEU) e avançado (HALEU), essencial para os reatores de nova geração. Esse movimento se soma a um esforço mais amplo de reindustrialização da cadeia nuclear, incluindo US$ 2,8 bilhões adicionais em infraestrutura de enriquecimento e incentivos regulatórios para acelerar o licenciamento de novos reatores, com metas de reduzir o prazo de aprovação para cerca de 18 meses. O pano de fundo é crítico: os EUA produzem apenas uma fração do urânio que consomem — cerca de 0,4% da demanda anual — e ainda dependem fortemente de importações, sobretudo de países como Canadá e Cazaquistão. A restrição progressiva ao combustível russo, com banimento total previsto até 2028, reforça a urgência dessa estratégia e deve pressionar ainda mais a busca por novas fontes de suprimento.
A China, por sua vez, avança de forma ainda mais agressiva e estruturada. O país já opera 59 reatores nucleares e mantém outros 28 em construção — o maior pipeline do mundo —, com capacidade adicional de mais de 32 GW em implantação. No horizonte mais longo, o plano é ainda mais ambicioso: atingir cerca de 200 GW até 2035, com a construção de aproximadamente 150 novos reatores, em um programa estimado em US$ 440 bilhões. Paralelamente, Pequim vem expandindo sua presença internacional no ciclo do combustível nuclear por meio de estatais como a China National Nuclear Corporation, que atua diretamente na aquisição e desenvolvimento de jazidas no exterior, especialmente na África e na Ásia Central. Essa estratégia é acompanhada por um esforço de exportação de tecnologia: há planos para mais de 30 projetos nucleares fora do país até 2030, com investimentos que superam US$ 140 bilhões, frequentemente financiados por crédito soberano altamente subsidiado.
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