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Fernando Haddad costura uma rodada de encontros com investidores internacionais nos Estados Unidos. A ideia é “vender” seus projetos para o governo de São Paulo, notadamente na área de infraestrutura. Haddad pretende aproveitar o capital político ainda quente da sua passagem pelo Ministério da Fazenda para fazer campanha eleitoral de fora para dentro do Brasil. Jogado aos leões pelo seu partido, em uma disputa com reduzidas chances de vitória, o petista tenta transitar por um terreno no qual Tarcísio de Freitas circula com notória desenvoltura. Com o handicap de ter sido o “ministro das obras” do governo Bolsonaro, Tarcísio transformou a infraestrutura em um dos pilares da sua gestão em São Paulo. Desde que assumiu, acumula viagens ao exterior para angariar recursos ao programa de concessões de São Paulo. O Programa de Parcerias de Investimentos do estado reúne mais de R$ 550 bilhões em projetos. Na missão inglória que recebeu do PT, Haddad já identificou que o duelo com Tarcísio terá de passar obrigatoriamente pela raia da infraestrutura. Tanto que, nos primeiros movimentos de pré-campanha, divulgou vídeos nas redes sociais destacando obras federais em São Paulo, em uma tentativa clara de associar sua imagem à entrega de projetos concretos no estado.
O novo ministro dos Transportes, George Santoro, terá pouco menos de oito meses para tentar resolver um impasse que seu antecessor, Renan Filho, com todo o suporte político, não conseguiu em mais de três anos: destravar as negociações com a Vale para a repactuação das concessões da Vitória-Minas e da Estrada de Ferro de Carajás. Segundo informações apuradas pelo RR, não houve qualquer avanço nas últimas rodadas de conversas conduzidas por Renan. Há divergências de valores e de interpretação contratual das duas concessões. O ponto de partida da disputa remonta à renovação antecipada das concessões, concluída em 2020, quando a Vale pagou R$ 11,8 bilhões de outorga para operar as ferrovias até 2057. O governo atual sustenta que esse valor foi subavaliado e trabalha com estimativas de que seria possível extrair algo próximo de R$ 30 bilhões adicionais nessas revisões contratuais. Nas negociações mais recentes, a tentativa foi encontrar um meio-termo. A Vale já antecipou R$ 4 bilhões como sinal de boa-fé e discutia um novo desembolso de aproximadamente R$ 7 bilhões, o que levaria o pacote total a cerca de R$ 11 bilhões adicionais. Ainda assim, o governo considera o valor insuficiente diante das revisões de cálculo feitas pela área técnica. O impasse não se limita à outorga. Há divergências relevantes sobre os investimentos associados às concessões. A Vale assumiu, por exemplo, a obrigação de construir um trecho da Ferrovia de Integração Centro-Oeste (Fico), com custo estimado em cerca de R$ 2,7 bilhões, peça-chave para viabilizar o corredor Fico-Fiol. A empresa, no entanto, tentou reduzir sua participação ou substituir a execução por indenização — chegou a colocar na mesa uma compensação da ordem de R$ 1,3 bilhão, rejeitada pelo governo.
Ronaldo Caiado está montando uma frenética agenda de viagens pelo país, na tentativa de deixar a bolha regional e se tornar mais conhecido fora do Centro-Oeste. O pré-candidato à Presidência da República planeja visitar ao menos 15 estados ao longo deste mês, com prioridade para Sudeste e Nordeste. Além de encontros com prefeitos do PSD, em busca de capilaridade eleitoral, o roteiro que vem sendo desenhado prevê uma peregrinação por federações industriais e associações do agronegócio. Ao mesmo tempo, o staff de comunicação de Caiado planeja uma leva de vídeos para as redes sociais nos quais o ex-governador de Goiás falará especificamente para a população de cada estado, como se estivesse se apresentando ao Brasil que não o conhece. Caiado disputa uma corrida contra o relógio. Dentro das próprias hostes do PSD, o que se comenta é que ele precisa atingir no mínimo 10% nas pesquisas até junho – nas últimas sondagens, aparece com algo em torno de 6%. Caso contrário, é grande a chance da sua candidatura ser defenestrada pelo comandante-em-chefe do PSD, Gilberto Kassab.
Enquanto, à luz do dia, a Aneel abre formalmente o processo de caducidade da Enel São Paulo, na penumbra da noite grandes players do setor já se movimentam para substituir a companhia italiana. Segundo informações que circulam no mercado, CPFL, EDP Brasil e Equatorial têm mantido intensas conversações com o ministro de Minas e Energia, Alexandre da Silveira, e o governador Tarcísio de Freitas. As três empresas já teriam se comprometido, inclusive, a apresentar um plano preliminar reestruturação da distribuição de energia em São Paulo — um desenho que passa por revisão de investimentos, recomposição de equipes técnicas, modernização da rede e, sobretudo, recuperação dos indicadores de qualidade que se deterioraram sob a gestão da Enel. A simples manifestação de interesse da CPFL, EDP Brasil e Equatorial em assumir a concessão em São Paulo piora ainda mais o cenário para a companhia italiana. A sinalização de que haverá concorrência pelo espólio dos italianos aumenta a pressão política para que a Aneel decrete a caducidade do contrato. Procuradas, CPFL e Equatorial não quiseram comentar o assunto. Também consultada, a EDP não se manifestou até o fechamento desta matéria.
CPFL e EDP despontam nessa disputa energizadas pelo capital chinês de suas respectivas controladoras, State Grid e Three Gorges. A Equatorial, por sua vez, reúne uma biodiversidade de investidores, que vai de Opportunity à BlackRock, passando pela canadense CPPIB e pela também brasileira Squadra Investimentos. Todos reúnem razões de sobra, notadamente de ordem geoeconômica, para cobiçar o lugar da Enel. CPFL e EDP já controlam concessões no interior do estado de São Paulo. A primeira atende 234 municípios; a segunda, 28 localidades. Assumir o posto dos italianos significaria conquistar uma posição de primazia no mapa do setor elétrico paulista, colocando os pés no maior PIB do maior PIB nacional, ou seja, a cidade de São Paulo. A Equatorial, por sua vez, aspira um protagonismo ainda maior na concessão de serviços públicos no estado. Acionista de referência da Sabesp e, na prática, quem manda na empresa, o grupo passaria a ter um pé no saneamento e outro na distribuição de energia elétrica. Some-se a esse colar a Emae (Empresa Metropolitana de Águas e Energia), controlada pela própria Sabesp.
A abertura do processo de caducidade tem o som de um réquiem para a Enel. No setor, sua situação é vista como praticamente insustentável, por mais que a empresa venha a ter “a garantia de contraditório e ampla defesa”, como disse ontem o diretor-geral da Aneel, Sandoval Feitosa. Por ora, no entanto, o procedimento aberto ontem pelo órgão regulador é um túnel escuro. Há vários cenários possíveis caso a cassação do contrato da Enel São Paulo se confirme. Um deles é a permanência da empresa à frente da operação, como um morto-vivo, até a relicitação via novo leilão. Seria uma tentativa de assegurar uma solução de continuidade menos traumática. Outra hipótese seria uma intervenção direta do poder concedente, com a Aneel assumindo temporariamente a operação ou designando um interventor até a definição de um concessionário definitivo. Há também a possibilidade de uma transferência assistida ou solução negociada, em que um ou mais operadores assumiriam partes da concessão mediante acordo com o poder público, sem a necessidade de um novo certame imediato. Embora previsto em lei, é o menos provável dos caminhos.
A passagem de Carlos Gil pelo comando da Oncoclínicas pode ser breve. Corre à boca miúda no mercado que a MAK Capital, acionista da empresa, manobra nos bastidores para substituir o executivo, no cargo há pouco mais de um mês. Dona de pouco mais de 6% do capital, a gestora norte-americana tornou-se uma pedra pontiaguda no sapato dos demais acionistas e dos dirigentes da Oncoclínicas. Já formalizou um pedido de destituição de todo o conselho da companhia e, ontem, apresentou uma chapa com quatro nomes para a eleição do novo board, marcada para o próximo dia 30. Os norte-americanos travam uma queda de braço com a atual administração, que não apenas defende a permanência de Gil como CEO, mas também indicou seu nome para a vice-presidência do Conselho. Uma nova e abrupta troca na gestão executiva seria um solavanco a mais para a rede de clínicas oncológicas, afetada pela crise do Master. O banco foi seu sócio até o ano passado. Além disso, a empresa mantinha cerca de R$ 478 milhões aplicados em CDBs da instituição financeira. Com dívidas superiores a R$ 4 bilhões, a Oncoclínicas enfrenta uma situação financeira delicada. Consta que seu caixa é suficiente apenas para manter os custos operacionais por mais 15 dias. Porto, Starboard e a própria MAK já apresentaram propostas para injetar capital na companhia. Consultada, a Oncoclínicas não quis comentar o assunto. A MAK não retornou até o fechamento desta matéria.
Os credores da Fictor se mobilizam para impor à mesa um conjunto de exigências que pode redefinir os rumos da recuperação judicial. Entre elas, a substituição da atual gestão e questões de ordem contábil, como a reclassificação de créditos — especialmente no caso de estruturas como SCPs. Além disso, devem exigir garantias adicionais e um cronograma mais crível de geração de caixa. A Fictor, que um dia se apresentou para comprar o Banco Master, entrou em recuperação judicial com uma dívida superior a R$ 4 bilhões. São mais de 13 mil credores.
O endurecimento da postura reflete a percepção de que o problema da Fictor vai além de uma crise de liquidez e toca na própria estrutura do negócio. A companhia operava com um modelo fortemente apoiado em captação contínua de recursos e em estruturas societárias supostamente pouco transparentes, o que agora levanta dúvidas sobre a real segregação de ativos e a extensão das garantias disponíveis.
A eleição no Ceará está no centro das discussões no Palácio do Planalto. Há uma crescente pressão para a retirada da candidatura à reeleição do governador Elmano de Freitas, por conta do seu raquítico desempenho nas pesquisa. Elmano vem perdendo cada vez mais terreno para Ciro Gomes. No entorno de Lula, existe um temor de perda de votos em um estado que é ampla e historicamente favorável ao seu nome. Uma disputa fragilizada no plano local pode comprometer a performance do presidente no Ceará em um eleição que será disputada voto a voto. Por isso, aumenta nos bastidores a articulação para que Elmano deixe a disputa e abra espaço para a entrada em cena do ex-ministro da Educação Camilo Santana. Ele é apontado nas fileiras petistas como o único nome capaz de brecar o retorno de Ciro ao cargo. Dirigentes petistas avaliam que Elmano não conseguiu traduzir o peso da máquina estadual em intenção de voto.
A sucessão no comando da B3 vai além da escolha de um nome para substituir Gilson Finkelsztain, de saída do cargo de CEO para assumir a presidência do Santander no Brasil. A mudança se dá em um momento fulcral de transição da empresa do papel clássico de uma bolsa – monopolista, diga-se de passagem – para um modelo de infraestrutura financeira digital, em que negociação, registro e liquidação passam a ser integrados em novas arquiteturas tecnológicas. A missão no 1 do novo será avançar na tokenização de ativos e na digitalização de registros. Segundo informações filtradas pelo RR, a estratégia discutida no Conselho de Administração é consolidar a B3 como uma provedora de infraestrutura financeira para bancos, corretoras e fintechs. Nesse modelo, a companhia deixaria de capturar valor apenas na intermediação de negociações e passaria a monetizar o uso de sua estrutura por terceiros.
Em tempo: esse contexto aumenta a complexidade da sucessão de Gilson Finkelsztain e ajuda a explicar as divergências existentes dentro do Conselho da B3. Parte do board defende a escolha de um executivo da casa. Os principais candidatos são Luiz Masagão, VP de produtos e clientes, Mario Palhares, VP de operações – conforme informou ontem o Pipeline, do Valor Econômico. No entanto, há um grupo de conselheiros que prega a contratação de um nome de fora, no mercado.
A agonia da Oi não tem fim. Segundo o RR apurou, Pimco, Ashmore e SC Lowy pretendem recorrer da decisão da juíza Simone Chevrand, da 7ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro, que autorizou a venda da participação da operadora de telefonia na V.tal para o BTG. O ataque do trio de credores da Oi deve começar pelo valor da negociação, de R$ 4,6 bilhões. Os fundos sustentam que o ativo foi subapreciado – o valuation correto, segundo eles, seria da ordem de R$ 12 bilhões. Ou seja: para as três gestoras, houve destruição de valor e prejuízo objetivo aos credores. Assim é se lhe parece. Outro eixo de contestação é o desenho do processo. Pimco, Ashmore e SC Lowy alegam que a operação foi realizada sem competição efetiva e, nos bastidores, insinuam que teria havido um direcionamento implícito ao BTG. O banco, ressalte-se, já é o principal acionista da V.tal, maior empresa de fibra óptica do Brasil, com uma rede de mais de 400 mil quilômetros. No recurso, as três gestoras deverão ainda resgatar a tese do credit bid, defendendo o direito de usar seus próprios créditos para assumir o ativo. No mercado, a interpretação é que há uma boa dose de blefe no contencioso. O objetivo da tríade não seria anular a venda ao BTG e, muito menos, assumir a fatia de 27,5% da Oi na V.tal, mas, sim, obter a reabertura da negociação e consequentemente forçar a apresentação de uma oferta maior pelas ações. Procurada pelo RR, a Ashmore não quis comentar o assunto. Também consultadas, Pimco e SC Lowy não se manifestaram até o fechamento desta matéria.
A fatia de 27,5% na V.tal é, na prática, o último ativo de escala da Oi capaz de mexer ponteiro no seu segundo plano de recuperação. Depois de vender o que era vendável — móvel, torres, data centers —, sobrou um portfólio residual, com baixa tração operacional e pouca capacidade de geração de caixa. A V.tal, ao contrário, é um ativo estruturado, com receita previsível e relevância sistêmica no mercado de fibra. É o único cheque que ainda pode ser escrito com algum tamanho. É exatamente por isso que virou o principal campo de batalha entre a companhia e seus credores mais agressivos. Para Ashmore, Pimco e SC Lowy, a hora é de espremer o máximo do último fruto da Oi que ainda carrega algum sumo.
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