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A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas promete cobrar uma fatura pesada do sistema financeiro brasileiro. Bancos, corretoras e fintechs terão de desembolsar somas crescentes para reforçar estruturas de compliance, monitoramento e prevenção à lavagem de dinheiro e atender a uma nova e mais rigorosa régua de compliance. O próprio ministro da Fazenda, Dario Durigan, já externalizou a sua preocupação com o assunto. Em entrevista ao Valor, publicada ontem, Durigan enfatizou que bancos brasileiros já estão sendo forçados a contratar escritórios de advocacia no exterior e fortalecer processos de compliance, mesmo cumprindo exigências da legislação nacional e da regulação do Banco Central. Por um inevitável efeito de transmissão, essa é uma conta que vai bater no cliente: “Os bancos e as fintechs vão ter que aumentar custos e, como a gente sabe, passar isso para tarifa que você paga, para o spread”, disse o ministro.
Nesse novo tabuleiro, segundo quatro analistas ouvidos pelo RR, a XP Investimentos desponta como uma das instituições mais expostas aos efeitos colaterais da medida. O impacto potencialmente maior decorre do próprio modelo de negócios do banco. A atuação comercial da XP está fortemente baseada em uma extensa rede de agentes autônimos espalhados pelo país. São mais de 18,3 mil assessores, reunidos em aproximadamente 600 escritórios. Significa dizer que, de cada três agentes autônomos credenciados no Brasil, dois trabalham para a XP. Essa atomização da força de venda foi fundamental para a instituição financeira atingir o tamanho que tem hoje. No entanto, em um ambiente de redobrada vigilância internacional, ela se torna objeto de maior escrutínio. Até que ponto é possível garantir uniformidade de procedimentos de compliance em cerca de 600 escritórios espalhados pelo país? É exequível manter um grau de supervisão sobre milhares de representantes comerciais compatível com o padrão de diligência que passa a ser exigido pelas autoridades americanas? São questionamentos que tendem a pairar sobre a XP em um cenário em que reguladores, bancos correspondentes, custodiante internacionais e autoridades americanas olharão com muito mais atenção para os mecanismos de controle das instituições financeiras brasileiras.
O debate ganha relevância justamente porque a própria CVM atribui às instituições financeiras a responsabilidade pela fiscalização dos assessores vinculados às suas plataformas. Em outras palavras, quanto maior a rede, maior a carga de supervisão. E quanto maior a carga de supervisão, maior a conta. Ou seja: o mesmo modelo de distribuição que transformou a XP na principal força de ruptura do sistema bancário tradicional pode agora se tornar uma fonte adicional de custos em um ambiente de endurecimento regulatório global.
O cacau é sempre um ingrediente de razoável peso no caldeirão eleitoral baiano. Que o digam o governador Jerônimo Rodrigues, candidato à reeleição, e o ex-ministro da Casa Civil, Rui Costa, que disputa uma vaga no Senado. Os dois petistas têm buscado junto ao governo federal uma ampliação das linhas de crédito para os produtores, em especial por meio do Banco do Brasil, Banco do Nordeste e BNDES. O movimento ocorre em meio a um paradoxo: o cacau atravessa o melhor ciclo de preços das últimas décadas, mas os produtores sofrem com elevadas dívidas e com a escassez de financiamento para expandir a produção. A situação se torna ainda mais delicada porque a explosão dos preços internacionais elevou o custo das mudas, fertilizantes e investimentos necessários para a expansão da produção. Em pouco mais de dois anos, a cotação do cacau saltou de cerca de US$ 2.500 para mais de US$ 10 mil por tonelada nos mercados internacionais, chegando a superar US$ 12 mil em determinados momentos. A Bahia responde por aproximadamente 70% da produção brasileira de cacau.
O problema é que o cacau exige capital paciente. A implantação de um hectare pode custar entre R$ 25 mil e R$ 40 mil, dependendo da tecnologia utilizada. Além disso, uma nova lavoura leva de três a cinco anos para atingir maturidade produtiva. Poucos bancos privados se dispõem a carregar financiamentos com prazo tão longo e retorno tão distante.
O presidente Lula encarregou o vice presidente Geraldo Alckmin de fazer um movimento de união das classes produtoras. Lula, é claro, também participaria das manifestações. Qualquer relação com as eleições de 2026 não será mera coincidência. A ideia é criar um clima de diretas já, reunindo, inclusive, correntes antagônicas na seara política. O mote seria algo como “quem não participa é traidor da pátria”. Lula, que estava começando a enrolar seu governo em graves problemas macroeconômicos, recebeu um presentão. E corre hoje, em Brasília, que um outro torpedo pode estar sendo dirigido contra o Brasil: a comparação a países com práticas “análogas” à escravidão. Essa consideração poderia levar a tarifas adicionais.
O secretário de Estado, Marco Rubio, ontem, fez uma exdrúxula comparação do Brasil com Cuba. Seriam países não alinhados com a política norte-americana. Entre os mais diversos analistas de relaçóes internacionais, essa violenta pancadaria contra o Brasil é difícil de ser interpretada. O tarifaço é uma medida que corre na mão contrária do fortalecimento da candidatura de Flávio Bolsonaro. De estilingue virou vidraça. Caso a intervenção alcance o PIX, que ê incrivelmente associado a um subsídio brasileiro, a medida poderia descer ao patamar da indignação popular. O PIX é gratuito, facilitou a circulação da moeda e caiu nas graças do povo. O mais difícil de compreender é a divisão do comportamento do presidente Donald Trump e do Secretário de Estado, Marco Rubio em relação ao governo brasileiro. O comportamento parcimonioso não encontra eco na violência de Rubio contra o Brasil. Trump olha de cara feia para o país, mas comparado a Rubio parece um eleitor de Lula.
Um cientista político ouvido pelo RR considera que por trás dessa cortina encontra-se a disposição de Rubio tornar-se sucessor de Trump. Não parece que o Brasil tenha esse peso todo para enfraquecer os republicanos e fortalecer os democratas na peleja pelo poder na Nação hoje mais imprevisível do mundo.
A CBF estuda montar um fundo para financiar clubes das Séries C e D, nos moldes do programa lançado neste ano para a Série B. A pressão vem não apenas dos próprios cartolas, mas, sobretudo, de parlamentares. É um jogo feito sob medida para o Centrão. Os parlamentares vislumbram a possibilidade de tirar uma casquinha do bilionário caixa da CBF e capitalizar a iniciativa junto as suas bases eleitorais. Ressalte-se que as Séries C e D reúnem 116 times dos 26 estados brasileiros e do Distrito Federal. Ou seja: é reduto de voto que não acaba mais. As tratativas são conduzidas junto a Gustavo Dias Henrique, o poderoso vice-presidente e principal articulador político da CBF – tratado por muitos como o verdadeiro manda-chuva da entidade, acima do presidente, Samir Xaud. Em fevereiro, a Confederação lançou o PARF-B, programa de aproximadamente R$ 70 milhões destinado aos clubes da Série B. O apoio às Séries C e D existe, mas se dá de forma mais modesta, pulverizado em repasses por competição e custeio operacional. A ideia em discussão é sair do modelo de socorro por competição e criar uma linha mais previsível de apoio.
Ao entrar na Justiça contra o pedido de recuperação judicial da Cotribá, o Banco Votorantim (BV) e o Santander falam não apenas por eles próprios, mas, de certa forma, por toda a banca nacional. Há no sistema financeiro uma preocupação de que outras cooperativas agrícolas venham a seguir o mesmo caminho, provocando uma nova onda de recuperação judiciais no agronegócio. No caso específico da Cotribá, Votorantim e Santander estão, inclusive, buscando a adesão de outros bancos credores à ação movida contra a empresa, segundo informações filtradas pelo RR. O assunto é objeto de controvérsia jurídica. Muitos juristas sustentam que cooperativas não podem recorrer à Lei de Recuperação Judicial, por não serem sociedades empresariais, mas, sim, entidades sujeitas a regime próprio, incluindo liquidação extrajudicial. É o entendimento que fundamenta o litígio aberto pelo Banco Votorantim e pelo Santander. A alegação dos credores é que a cooperativa estaria tentando usar uma brecha jurídica para obter blindagem contra cobranças, ganhar tempo e forçar uma negociação coletiva mais favorável. O BV chegou a acusar a Cotribá de “má-fé” e “chicana jurídica”, afirmando que a cooperativa teria desistido de uma ação anterior e apresentado novo pedido semelhante em busca de uma decisão mais conveniente. Consultado, o Banco Votorantim não quis comentar o assunto. Também contatados pelo RR, Santander e Cotribá não retornaram.
A Cotribá sustenta na Justiça que, embora formalmente cooperativa, atua materialmente como grande empresa agroindustrial, com faturamento bilionário, milhares de associados, originação de grãos, insumos, armazenagem e forte impacto econômico regional. É justamente essa ambiguidade que torna o caso explosivo. Se o Judiciário aceitar a tese da Cotribá, outras cooperativas em dificuldade poderão seguir o mesmo caminho. A preocupação dos bancos é com o chamado efeito manada: um precedente que permita a grandes cooperativas agropecuárias usar a RJ para suspender execuções, reordenar passivos e impor descontos ou alongamentos a credores financeiros.
Não há uma estatística pública consolidada sobre o número de cooperativas agropecuárias em dificuldade financeira, mas o entorno do caso Cotribá mostra um agro sob forte estresse. O setor fechou abril com 539 empresas em recuperação judicial. Em 2025, houve 1.990 pedidos de RJ no agronegócio, alta de 56,4% sobre 2024. O caso específico da Cotribá mostra a dimensão do problema: são 20.614 credores e mais de 78 mil registros de débitos, espalhados por 1,7 mil páginas. Do passivo de R$ 1,4 bilhão, cerca de R$ 1,3 bilhão é formado por créditos quirografários, sem garantia real. Há ainda R$ 99,7 milhões em créditos com garantia real e R$ 10,2 milhões em créditos trabalhistas. A maior parte do drama está entre produtores rurais associados e instituições financeiras, com bancos e cooperativas de crédito somando ao menos R$ 527,1 milhões em exposição.
Transição energética não parece ser exatamente o que move os interesses do Claifund (China-LAC Industrial Cooperation Investment Fund) no Brasil. Segundo o RR apurou, o fundo chinês, criado para financiar investimentos de longo prazo na América Latina e no Caribe, vem prospectando termelétricas a gás no país. Um dos seus alvos seria a térmica GNA II, localizada no Porto do Açu, em São João da Barra, no norte fluminense, que tem entre seus acionistas a também chinesa SPIC (State Power Investment Corporation). Trata-se da maior termelétrica a gás natural do Brasil. Inaugurada em 2025, tem 1,67 GW de capacidade instalada
Ressalte-se que, no início deste ano, o Claifund comprou as participações da Shell e da Mitsubishi Power na termelétrica Marlim Azul, em Macaé, tornando-se sócio do Pátria Investimentos na usina. O movimento reforçou a leitura de que o apetite do fundo no Brasil passa menos pela pureza do discurso verde e mais por ativos de energia firme, com contratos, previsibilidade de caixa e papel estratégico em um sistema cada vez mais pressionado pela intermitência das fontes renováveis.
O Claifund é financiado por recursos das reservas internacionais da China e pelo China Development Bank. Seu mandato é amplo: infraestrutura, energia, mineração, recursos naturais e cooperação industrial. Cabe lembrar que, há cerca de dois anos, o fundo chinês firmou um acordo com o BNDES para investimentos conjuntos no país. Até o momento, no entanto, a parceria produziu mais sinalizações institucionais do que operações visíveis. Enquanto o discurso bilateral segue embalado pelo vocabulário da economia verde, o dinheiro do Claifund parece seguir em outra direção: térmicas a gás, segurança energética e ativos capazes de entregar energia quando sol e vento não bastam.
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