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O que fazer com a AcerBrag? Essa é a pergunta que vem sendo repetida pelos próprios dirigentes da Votorantim. A fotografia de momento da siderúrgica argentina, última sobrevivente entre os negócios dos Ermírio de Moraes no setor, é preocupante. A produção foi suspensa até o dia 17 de março.
Trata-se da segunda paralisação da usina, localizada em Bragado, na Província de Buenos Aires, em pouco mais de seis meses. Na Argentina, há rumores de demissões em massa – a companhia emprega aproximadamente 500 trabalhadores. São as consequências da forte queda da atividade na indústria de construção civil no país.
Em 2024, a retração do setor chegou a 27%, com um inevitável baque sobre a demanda por aços longos. Somente no mês de dezembro, o recuo foi de 10% em comparação ao mesmo mês em 2023. Há também o “efeito Trump”, leia-se a sobretaxação do aço importado pelos Estados Unidos, em vigor a partir de hoje, de consequências ainda insondáveis para a siderurgia argentina.
Ou seja: se a análise da Votorantim for guiada predominantemente pelo curto prazo, a AcerBrag pode ser considerada um negócio na corda bamba. No entorno dos Ermírio de Moraes há quem diga até que já era para a empresa ter sido vendida, a exemplo do que o grupo fez com seus ativos em siderurgia no Brasil e na Colômbia. A questão é que nunca teria aparecido um comprador. Procurada pelo RR, a Votorantim não se manifestou.
Há, no entanto, o outro lado da moeda. Se o presente tem pontos de corrosão, o jogo pode virar no médio prazo. Para começar, existem sinais de recuperação da atividade econômica na Argentina. Ainda que o PIB tenha fechado o ano de 2024 com queda em torno de 1,8%, a economia local cresceu nos dois últimos trimestres do ano.
O FMI projeta uma alta do PIB argentino de 5% tanto para 2025 quanto para 2026. Significa dizer que há uma alta do consumo de aço contratada logo ali na frente. E o track records mostra que, com a economia minimamente azeitada, a AcerBrag responde com bons resultados. Em 2023, por exemplo, antes do agravamento da crise da construção civil, a empresa teve uma performance satisfatória, com uma receita de US$ 482 milhões (5% de alta em relação ao ano anterior) e um Ebitda de US$ 197 milhões (aumento de 18%).
Ao mesmo tempo, a “tempestade Trump” ainda é uma incógnita. Não se pode desprezar a hipótese do mercurial presidente norte-americano, com a sua permanente diplomacia da chantagem, mais à frente recuar na sobretaxa ao aço importado. E, no caso específico da Argentina, existe também o alinhamento ideológico com Javier Milei, que deixa uma brecha para o presidente argentino buscar um tratamento diferenciado para o aço fabricado no país.
Na semana passada, o próprio Trump mencionou o interesse de estabelecer um acordo de livre comércio com a Argentina. Ressalte-se que mais de 50% da produção siderúrgica no país vizinho têm como destino os Estados Unidos. Hoje, a AcerBrag exporta proporcionalmente pouco, apenas 10% da sua receita.
No entanto, em um ambiente de barreiras alfandegárias proibitivas para os “inimigos”, notadamente a China, e de algum alívio tarifário para os “amigos”, a siderúrgica da Votorantim poderia se aproveitar para ampliar as vendas ao mercado norte-americano. Por ora, são conjecturas apenas. Mas é em cima desses cenários diferentes para timings distintos que o grupo vai decidir o que fazer e o que não fazer com AcerBrag.
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