Boa notícia nunca é demais! Mas os indicadores da economia real, notadamente no que diz respeito à renda e ao poder de compra do cidadão, estão levando o governo Lula a repensar o timing para o lançamento de um dos programas guardados com mais carinho para a campanha eleitoral: um amplo projeto de estímulo à criação de postos de trabalho no setor de construção pesada. Títulos para a iniciativa já havia muitos – “Mãos à obra, Brasil”, “Futuro em construção” ou “Brasil Mais Empregos” são alguns dos nomes já cogitados no Palácio do Planalto. Prazo para o anúncio, também: a ideia inicial era colocar o programa na rua no primeiro semestre de 2026, a tempo de surtir efeito nas urnas, em novembro do ano que vem. Motivações também não faltam: a gestão Lula carece de uma marca nessa área. Em um país com mais de 12 mil obras públicas paradas, seria juntar o ótimo com o excelente, combinando entrega de projetos de infraestrutura e geração de emprego. Tudo muito bom, tudo muito bem, mas assessores e marqueteiros palacianos estão diante de um dilema.
Há vozes que defendem que o projeto seja guardado no bolso do colete e fique para 2027. O “problema”, neste caso, é o atual aquecimento da economia, por conta de uma combinação de ingredientes. A taxa de desemprego chegou a 5,4% no trimestre móvel encerrado em outubro, a mais baixa da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), iniciada em 2012. E, neste caso, o que “menos” importa é que a redução dos sem trabalho se deve, sobretudo, à menor busca por vagas. Some-se ainda o êxito dos programas sociais, a exemplo do Bolsa Família, BPC, Auxílio Gás, Pé-de-Meia, Minha Casa, Minha Vida, Tarifa Social de Energia etc. Resultado: mesmo com os juros nas alturas, no segundo trimestre o consumo das famílias cresceu 1,8% em comparação ao mesmo período em 2024. Segundo estudo assinado pelos pesquisadores Pedro Herculano Souza e Marcos Dantas Hecksher, do IBGE, e divulgado recentemente, em 2024 os indicadores de renda média, desigualdade e pobreza alcançaram os melhores níveis já registrados pelas pesquisas domiciliares do país. De acordo com os últimos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), a massa de salários em circulação na economia brasileira atingiu no trimestre encerrado em outubro o valor recorde de R$ 357,2 bilhões. Significa um aumento de 5% em relação a outubro do ano passado.
Por mais paradoxal que possa soar, o sucesso carrega um diabinho. No governo o temor é que, nessas circunstâncias, um programa de estímulo ao emprego acabe descambando para um problema inflacionário ao longo de 2026. Essa é justamente a encruzilhada do Palácio do Planalto: disparar logo esse tiro, com a ameaça dele sair pela culatra, ou guardar essa bala de prata para 2027, sob risco de perder um trunfo eleitoral e, no limite, colocar em xeque a recondução de Lula à Presidência. Por ora, segundo informações filtradas pelo RR, o receio de um efeito-bumerangue é maior. Os assessores econômicos de Lula temem que colocar mais fermento na massa, com a economia aquecida, possa solar o bolo.
Nesse caso, a prudência indica que o programa de geração de emprego seja postergado para 2027, para quando se espera um período menos calórico da economia. Em sua edição mais recente, o Boletim Focus projeta um crescimento do PIB de 1,83% em 2027 – há quatro semanas, a previsão do mercado era de uma alta de 1,90%. Trata-se de uma estimativa superior à do aumento do PIB para 2026 (1,78%), possivelmente por um carry over do ano eleitoral e seus tradicionais dispêndios públicos. Ainda assim, é um resultado abaixo do projetado para este ano – 2,16%, também segundo o Boletim Focus. E isso mesmo com a previsão de queda da Selic para 10,50% ao fim de 2027. Talvez seja mesmo um ano mais propício para um “Brasil Mãos à Obra” ou algo do gênero sem risco de um repique inflacionário. Se Lula vai estar no Palácio do Planalto, aí já é outra história.