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Enquanto Palácio do Planalto e Congresso batem cabeça em relação ao marco regulatório dos minerais críticos, o Brasil corre o risco de assistir a uma evasão de investimentos na área de lítio para a Argentina. No setor, circula em petit comité a informação de que mineradoras de médio porte, a exemplo das chinesas Ganfeng Lithium e Zijin Mining, estão recalibrando seus planos de explorar o minério em território brasileiro. Qualquer semelhança com a Rio Tinto não é mera coincidência. No início do mês, o grupo anunciou a venda do chamado Brazil Lithium Project no Vale do Jequitinhonha (MG) para a australiana Solis. O motivo do possível êxodo para o país vizinho é o pacote de incentivos fiscais, cambiais e regulatórios lançado pelo presidente Javier Milei. O RIGI, regime de incentivo a grandes investimentos, é a principal isca de Milei. O governo argentino passou a garantir estabilidade fiscal, aduaneira e cambial por 30 anos para projetos, além de benefícios tributários e maior liberdade para as empresas acessarem e manterem dólares gerados por exportações. Some-se o fato de que a Argentina joga com uma vantagem geológica de alto teor: concentra cerca de 23 milhões de toneladas em recursos de lítio, algo em torno de 20% das reservas mundiais comprovadas do mineral.
Os incentivos empacotados pelo governo da Argentina têm o potencial de atingir Bolívia, Chile e Brasil, que disputam recursos internacionais para a produção de lítio. E, nesse quádruplo cabo de guerra geoeconômico, a ponta mais fraca está nas mãos brasileiras. Assim como a Argentina, Bolívia e Chile têm a escala a seu favor. Juntas, as três nações formam o denominado “triângulo do lítio”, que soma mais de 50% das jazidas globais. Estima-se que o Brasil concentre aproximadamente 8% do lítio do mundo. É um volume relevante, ainda que inferior ao dos vizinhos. Mas, para além da diferença de escala, há outro fator que reduz a competitividade brasileira: uma cadeia de produção ainda embrionária. Em sua maioria, os projetos em curso no Brasil são de pequeno e médio porte e ainda se encontram na etapa de estudos geológicos ou fase exploratória – há atualmente no país pouco mais de 700 alvarás para pesquisa e lavra de lítio.
Nesse contexto, recursos começam a atravessar a fronteira. A Rio Tinto se desfez de uma posição exploratória de cerca de 93 mil hectares em Minas Gerais ao mesmo tempo em que acelera uma plataforma bilionária de lítio na Argentina. O projeto Rincon, em Salta, recebeu aval dentro do regime especial de grandes investimentos e prevê desembolsos de US$ 2,5 bilhões. A companhia também pagou US$ 6,7 bilhões pela Arcadium Lithium, reforçando sua aposta em ativos de lítio na Argentina e no Canadá. A Ganfeng Lithium, por sua vez, concentra investimentos nos projetos Mariana e Cauchari-Olaroz, ambos no norte do país. O Mariana, em Salta, entrou em produção em 2025 após investimentos de aproximadamente US$ 790 milhões e tem capacidade inicial para 20 mil toneladas anuais de cloreto de lítio. Já a Zijin Mining joga suas fichas no projeto Tres Quebradas (3Q), em Catamarca. A primeira fase do empreendimento exigiu investimentos superiores a US$ 600 milhões e prevê produção de 20 mil toneladas anuais de carbonato de lítio. A fase seguinte já está em construção e deve elevar a capacidade total para algo entre 40 mil e 60 mil toneladas anuais de LCE, consolidando o projeto entre os maiores da América do Sul.
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