O que precisa ser dito - Relatório Reservado

O Que Precisa Ser Dito

De volta aos trilhos

6/10/2025
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Embora aguardada desde o encontro entre Lula e Trump na Assembleia Geral das Nações Unidas, foi auspiciosa a videoconferência desta manhã devido ao clima positivo e amistoso que ambas as partes confirmaram independentemente. Para um profissional que chama o Itamaraty de “minha Casa”, o mais importante foi o fato de que a notícia da reunião virtual pegou todo mundo de surpresa, não havendo ao que se saiba nenhum vazamento em Brasília ou Washington, embora certamente ela tivesse sido cercada de todo o ritual que envolve os diálogos entre chefes de Estado pois, de outra forma, nosso presidente não estaria acompanhado de seus principais auxiliares nos contatos com os Estados Unidos. Isso significa que a questão já se encontra na mão dos profissionais, quando são bem menores os riscos de acidentes de percurso.

Abre-se assim o espaço esperado para uma discussão de temas econômicos, ficando na lixeira da História a tentativa mal-sucedida de Trump de utilizar o julgamento de Jair Bolsonaro como um pretexto para atacar a soberania brasileira. Essa estratégia, sem dúvida preconizada por figuras malignas como Steve Bannon, atraiu Eduardo Bolsonaro para uma aventura suicida em que ele se julgou, junto a Paulo Figueiredo, capaz de ditar a política da Casa Branca com relação ao Brasil. Como recordação desse desvario, ficarão para sempre as imagens inesquecíveis da imensa bandeira norte-americana na Avenida Paulista e o boné MAGA usado por um Tarcisio sorridente.

Obviamente, Trump – que nada tem de louco pois é um frio negociador sempre disposto a voltar atrás quando as circunstâncias exigem – foi informado de que se transformara no melhor cabo eleitoral de Lula, vivendo meses atrás seu pior momento na política. Mais ainda, entregara de bandeja às forças da esquerda os símbolos nacionais verdes e amarelos que a direita vinha utilizando para caracterizar seu amor à Pátria e à família. Diante do comportamento impávido do Supremo Tribunal Federal, de importantes segmentos do próprio Congresso e sobretudo das ruas, as ameaças ruíram. Nada mais significativo disso do que a circunstância de Trump, em seu discurso na ONU, não haver nem mesmo mencionado o nome de Jair Bolsonaro ou sua condenação a vinte e sete anos de prisão. Para bons entendedores, página virada.

Há quem, ainda hoje, tenha ficado preocupado com a designação de Marco Rubio como principal responsável pelas futuras tratativas com a trinca Alckmin, Haddad e Vieira. Sem dúvida, o Secretário de Estado norte-americano, como muitos descendentes de famílias que tiveram de abandonar Cuba durante o regime de Castro, é uma figura que defende o alinhamento automático dos países da América Latina às diretrizes emanadas de Washington, que gostaria de ver o Brasil se afastar do BRICS, que prefere lidar com um Milei do que com Lula. Mas, a rigor, esses desejos sempre estiveram mais ou menos presentes em nosso relacionamento com os Estados Unidos e o que se vê ultimamente é um domínio absoluto de Trump sobre seus áulicos. Rubio fará o que seu mestre mandar.

Finalmente, conheceremos em breve, como era bem sabido, os reais interesses norte-americanos no tocante às Big Techs e seus data centers, bem como com aos minerais estratégicos e à maior presença do etanol no mercado brasileiro. No outro prato da balança estarão nossos interesses em eliminar os 40% de tarifas punitivas, já aplicada a uma gama bem menor de produtos do que se temia no primeiro momento, contando, nesse caso, com o trabalho dos empresários prejudicados nos dois países.

O que se recomenda agora é grande sobriedade da parte do Palácio do Planalto – aliás já visível desde que Lula se aprestava a ir a Nova York –, a necessária tranquilidade para que os profissionais possam trabalhar longe das luzes da ribalta. Repor um comboio de trens nos trilhos é tarefa de engenheiros especializados.

#Jorio Dauster #Lula #Trump

Dividendos sintéticos: a estratégia de opções que transforma volatilidade em fluxo de caixa recorrente

2/10/2025
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E se eu dissesse que você não precisa esperar a boa vontade das empresas para receber dividendos? Que é possível criar seu próprio fluxo de renda recorrente, mês a mês, usando apenas as ferramentas que a própria bolsa já oferece?

Não se trata de um atalho miraculoso. É o que muitos chamam de “dividendos sintéticos”: a estratégia de vender opções de compra (calls) e vender opções de venda (puts) para receber os valores das vendas (prêmios) como uma renda periódica.

Mas, afinal, o que são opções?

As opções são contratos derivativos que dão ao comprador o direito (mas não a obrigação) de comprar ou vender um ativo por um preço de exercício previamente acordado (chamado de strike), em uma data futura.

A palavra call vem do inglês “chamar” — ou seja, o direito de chamar o ativo para si, comprando-o. Já put vem de “colocar” — ou seja, o direito de colocar o ativo na mão de alguém, vendendo-o.

Independentemente do resultado da estratégia, quem compra opções paga um prêmio por esse direito. E quem vende opções recebe imediatamente esse prêmio em troca de assumir a obrigação.

O maior ponto cego do investidor tradicional é dirigir olhando apenas pelo retrovisor — acreditando que dividendos só podem vir das empresas, baseados em resultados já passados. Já o investidor que domina o mercado de opções amplia o campo de visão: olha para todos os lados — e também para frente — percebendo que pode transformar a volatilidade em fluxo de caixa imediato, capturando os prêmios que o mercado está disposto a pagar hoje, sem depender do calendário de dividendos.

Essa diferença muda tudo: no modelo tradicional, o investidor é passivo, refém da decisão da empresa. Com os dividendos sintéticos, ele se torna protagonista, capaz de desenhar o próprio fluxo de caixa.

Na prática, a mecânica é relativamente simples:
Venda de calls cobertas: o investidor já possui a ação e vende o direito de outro investidor comprá-la de você por um preço maior do que o atual. Se na data do vencimento a ação não chegar a esse preço, o investidor continua com o papel e o prêmio. Se chegar, vende mais caro do que venderia hoje — e ainda fica com o prêmio.

Venda de puts lastreadas em caixa: o investidor reserva dinheiro e vende o direito de outro investidor lhe “empurrar” a ação por um preço menor do que o atual. Se, na data do vencimento a ação não cair até esse preço, nada acontece e o investidor fica com o prêmio. Se cair, ele compra a ação desejada mais barata do que compraria hoje — com o prêmio já recebido funcionando como desconto.

Olhando pelo lado positivo, o pior que pode acontecer é:

• Na call, o investidor vender uma ação que já tinha em carteira por um preço maior do que venderia hoje.

• Na put, o investidor comprar uma ação que gostaria de ter, usando um caixa já reservado, por um preço menor do que pagaria hoje.

Por isso, a regra de ouro é clara: só venda calls de ações que você já tem em carteira e só venda puts de ações que você gostaria de ter — e para as quais já dispõe de caixa para comprar.

O discurso fácil seria dizer que isso garante uma renda passiva previsível. Mas o investidor sofisticado sabe: não existe almoço grátis.

• Na venda de calls, se o preço da ação disparar e a opção for exercida, você terá de vendê-la pelo valor previamente combinado. Isso significa abrir mão de parte da valorização extra acima desse preço — mas ainda assim venderá por um valor maior do que o de hoje, além de ficar com o prêmio recebido.

• Na venda de puts, se o preço da ação cair abaixo do valor combinado e a opção for exercida, você será obrigado a comprar pelo preço acordado, mesmo que ela esteja valendo menos no mercado. A diferença é que você já recebeu o prêmio, o que reduz o custo efetivo da compra.

É por isso que os dividendos sintéticos não são para qualquer perfil. Eles exigem disciplina, capital de margem e, sobretudo, consciência de risco. Mas, quando bem aplicados, permitem algo raro: extrair retorno do tempo, e não apenas do preço.

O que precisa ser dito?

Dividendos sintéticos não são simplesmente um espelho maior: são a prova de que, no mercado, quem enxerga além do retrovisor dirige com mais liberdade.

Enquanto a maioria fica parada esperando o próximo anúncio de dividendos, o investidor que entende de opções produz o próprio dividendo.

Ele transforma volatilidade em fluxo de caixa.

Ele transforma risco em prêmio.

Ele transforma tempo em renda.

O verdadeiro diferencial não está em encontrar a ação mais promissora ou esperar o dividendo mais generoso. Está em enxergar além do ponto cego: perceber que a sua renda não precisa ser decidida apenas pelas empresas. Quem domina os dividendos sintéticos descobre que o mercado paga prêmios todos os meses — e que a escolha de capturá-los está só nas suas mãos.

Marcos Tanner é Engenheiro de Produção com MBA em Investimentos Financeiros e Private Banking pelo IBMEC, atua como consultor financeiro e investidor, colaborador especial do Relatório Reservado.

Estado democrático de Direito vs. Estado de exceção

29/09/2025
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É voz corrente entre os chamados especialistas, e atualmente parece ao observador comum, estar a sociedade brasileira dividida, na política e também na economia, entre dois polos extremos. Os últimos julgamentos pela mais alta Corte do país revelam que o núcleo de uma dessas posições assumiu a defesa da anistia para os condenados pelo Supremo Tribunal Federal por crimes contra o estado democrático de direito e golpe de estado, dentre eles o ex-presidente da República, Jair Bolsonaro.

Os defensores políticos dos condenados almejam obter, de modo geral, perdão ou anistia para os autores da depredação ocorrida na praça dos Três Poderes, em Brasília, a 8 de janeiro de 2023 e para os gerenciadores e articuladores das medidas que, se executadas, visariam depor do Poder quem legitimamente venceu as eleições populares.

No mundo jurídico, no entanto, tal gesto não faz parte da rotina, especialmente no campo processual, e isto porque se tem concebida a ideia de que a condenação penal, de modo geral, se é imposição de medida de força praticada pelo Judiciário contra o indivíduo tido como autor do crime, através da aplicação da pena de prisão, se dá para preservação da própria vida em sociedade; em defesa dos instintos da vida.

Em outras palavras: a condenação penal é muito menos nociva do que a agressividade dos crimes cometidos pelos condenados.

Na sociedade livre e democrática não se aceitam violações de direitos, individuais ou coletivos, como algo menor e sem importância. As instituições existem para regular a ordem social que permite a convivência pacífica e salutar entre os cidadãos e não para legitimar a balbúrdia e a desordem. Os rigores das leis também alcançam os comportamentos criminosos dos incivilizados e dos vândalos, mesmo que integrem a camada social mais poderosa do país.

Neste quadro, a Constituição da República proclamou o Brasil como estado democrático de direito. Não basta, entretanto, que o texto constitucional contenha este dispositivo para termos a garantia de que vivemos em ambiente democrático nem nos podemos iludir com a existência do referido diploma como fim em si mesmo. No Brasil, a história comprova através de exemplos eloquentes a quantidade de tentativas, algumas frustradas outras não, de solapar o poder através da violência.

Na sociedade democrática, os que pretendem usar o poder para oprimir estabelecem confronto permanente com o estado de direito e espera-se que nesses embates acabem por sucumbir, prevalecendo as razões das instituições como mediadoras desses conflitos. Tal se deu no julgamento da cúpula dos que tentaram o golpe cujo objetivo era o de abolir o estado democrático de direito e a partir daí passar a exigir a submissão da sociedade a seus abusos e desvios.

Perderam.
E por isso foram condenados. Muito bem condenados.
O estado de exceção, no entanto, continua ativo, sendo articuladas logo em seguida à proclamação do julgamento, em alguns setores da vida nacional, medidas com o objetivo de impor outros golpes de estado, para apagar o papel das instituições e desfazer a decisão da mais alta Corte do país.

Não se pode perder de vista que uma das características do estado de exceção é suprimir o Poder Legislativo e o Poder Judiciário. Afinal, foram esses os alvos do 08 de janeiro. Não cabe para os condenados pelo Supremo Tribunal Federal nenhum tipo de perdão, anistia ou redução das penas aplicadas. Se passasse, seria a vitória do estado de exceção sobre o estado democrático de direito.

Leonardo de Souza Chaves é Procurador de Justiça do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro e professor de Direito da PUC – RJ, colaborador especial do Relatório Reservado.

Amor à primeira vista?

24/09/2025
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Quando Donald Trump declarou ontem na Assembleia Geral das Nações Unidas que tinha se encantado tanto com a figura de Lula a ponto de decidir manter uma conversa entre os dois na próxima semana, muitos de nossos analistas cantaram loas ao extraordinário charme e capacidade de persuasão do presidente brasileiro. Coisa incrível, não é mesmo? Num encontro de 40 segundos no relógio (ou melhor, no cronômetro), o experimentado Trump teria se derretido como uma mocinha ávida diante do olhar insinuante de um Marlon Brando ou Paulo Newman quando ambos tinham uns 25 anos. Suspiros na plateia…

E muitos deixaram por isso de ver que estávamos diante de mais uma típica manobra trumpiana, mais um TACO (Trump Always Chickens Out) de tantos que já o fizeram famoso! Mais uma vez, quando passou a lhe interessar, ele se fez de maluco ou impulsivo, acrescentando supostamente de improviso – “espontaneamente”, como definiu um funcionário de seu Departamento de Estado – palavras sobre o Brasil que nada tinham a ver com o corpo de seu discurso.

Nada disso, foi jogo jogado. Não se viram por acaso num corredor, e, sim, numa salinha que fica atrás do púlpito de mármore dos oradores. Sabiam que se encontrariam e há dias Lula já vinha adoçando suas falas a fim de permitir que Trump desse o primeiro passo para quebrar o gelo entre os dois países. Obviamente, ele teria visto ao longo das últimas semanas que os maus conselhos de Steve Bannon e seus asseclas brasileiros, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, tinham constituído um tremendo tiro no pé ou, quem sabe, um pouco mais acima em parte bem sensível da anatomia masculina. Afinal de contas, o eleitorado brasileiro demonstrava seu apoio à condenação e prisão de Jair Bolsonaro; os ministros do STF em sua maioria não haviam se borrado nas calças (e dois que não pertenciam à Primeira Turma deixaram claro que haveria maioria no plenário para o que faziam seus quatro colegas); o Congresso como todo não correra a aprovar, trêmulo, uma lei de anistia geral e irrestrita que permitisse ao ex-presidente até mesmo concorrer, livre como um passarinho, nas eleições do ano vindouro. Em suma, Trump e suas ameaças contra a soberania nacional, em vez de apavorarem uma republiqueta de bananas, haviam gerado um movimento de afirmação nacional poucas vezes visto: Trump se tornara o melhor cabo eleitoral de Lula.

Era hora, portanto, de cantar em outro terreiro e, significativamente, nos seus cândidos comentários sobre o Brasil na ONU, Trump não fez nenhuma menção ao julgamento e condenação de Bolsonaro. Nenhunzinho! Muito pelo contrário, concentrou suas observações nas reclamações que ouve das big techs – cujos donos se colocam entre seus maiores financiadores e sócios.

Nada impede, é evidente, que no contato marcado para daqui a alguns dias Trump volte a levantar todas as questões que fazem parte de seu arsenal contra o Brasil, incluindo a condenação de Bolsonaro e posturas internacionais pró-BRICS. Isso seria uma manobra natural para intimidar Lula, porém ele encontrará do outro lado do fio telefônico ou da videoconferência um político de larga quilometragem, que saberá rebater esses pontos e novamente se beneficiar como defensor da soberania nacional e do regime democrático. Depois desses pegas eventuais, caso de fato ocorram, haverá, enfim, espaço para o início de negociação sobre as tarifas (que incomodam os próprios empresários norte-americanos) e dos regulamentos que imporemos no Brasil às big techs.

Jorio Dauster é diplomata de carreira e foi embaixador do Brasil junto à União Europeia, colaborador especial do Relatório Reservado.

#Donald Trump #Lula

É arrecadação que o governo quer? As bets estão entregando

9/09/2025
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Segundo o primeiro relatório semestral do SIGAP (Ministério da Fazenda), divulgado em agosto,17,7 milhões de brasileiros realizaram apostas no 1º semestre de 2025. No perfil, 71% são homens, 28,9% mulheres e 27,8% têm entre 31 e 40 anos. O setor reportou R$ 17,4 bilhões em GGR (receita bruta do jogo: total apostado menos prêmios pagos), com gasto médio de R$ 983 por apostador ativo no semestre — cerca de R$ 164/mês.

Pelo lado fiscal, o governo informa que a arrecadação das empresas de apostas somou aproximadamente R$ 3,8 bilhões em tributos federais no semestre (IRPJ, CSLL, PIS/Cofins e contribuições previdenciárias). Além disso, as destinações sociais previstas em lei (12% do GGR) totalizaram R$ 2,14 bilhões. Houve ainda R$ 2,2 bilhões em outorgas de autorização e cerca de R$ 50 milhões em taxas de fiscalização. Esses números ajudam a dimensionar o impacto fiscal direto do mercado regulado.

É muito? É pouco? Depende do recorte. A média de R$ 164/mês por apostador não descreve toda a distribuição (há quem gaste bem menos e quem gaste mais). Também não se confunde GGR com “dinheiro perdido”: em mercados regulados, o RTP (Return to Player) costuma ficar acima de 90% nas apostas esportivas e entre 93% e 97% em slots, o que significa que parte substancial do valor apostado retorna como prêmio ao longo do tempo; o GGR é justamente a diferença — os R$ 17,4 bilhões no semestre. (RTP é expectativa de longo prazo, não garantia individual.)

Outro ponto estrutural é a regulação: com 2025 marcando a plena vigência das regras, o governo reporta fiscalização ativa (como o bloqueio de 15.463 páginas ilegais desde 2024) e diretrizes de jogo responsável (autolimites, educação em riscos, autoexclusão e cooperação com plataformas). Transparência e enforcement são partes do desenho regulatório — e devem seguir em aperfeiçoamento.

Em síntese: os dados indicam escala (17,7 milhões de apostadores), gasto médio relativamente baixo (cerca de R$ 5,50/dia) e relevância fiscal (bilhões em tributos, destinações sociais e outorgas). Isso não significa que “tudo bem” apostar indiscriminadamente; significa que o debate qualificado precisa considerar receitas públicas, retorno aos jogadores (RTP), medidas de proteção e a distribuição real de gastos, evitando tanto o alarmismo quanto a defesa automática do setor. Apostar não é investimento; é entretenimento — e políticas de jogo responsável devem ser tratadas como core de marca, não apenas obrigação legal.

 

Daniel Costa e Silva é jornalista e diretor de Relacionamento com o Ministério da Fazenda da Lindau Gaming Brasil, colaborador especial do Relatório Reservado.

#apostas #Bets

A “diplomacia” mafiosa de Donald Trump

11/08/2025
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A diplomacia sem aspas já foi caracterizada como arte ou ciência, mas é simplesmente uma forma milenar de conduzir as relações entre entidades soberanas buscando, pela via da negociação, soluções mutuamente aceitáveis que previnam a eclosão de conflitos. Esse utilíssimo instrumento civilizatório obedece a normas fixadas em tratados e se vale de rituais consagrados pela prática no curso dos séculos.

Ou assim era até janeiro deste ano, quando Donald J. Trump assumiu pela segunda vez a presidência dos Estados Unidos da América, ainda hoje o país mais rico e militarmente mais poderoso do mundo, que se autodeclara um exemplo magnífico de democracia e respeito aos direitos humanos. A partir de então, foi inaugurada aquilo que já chamei de “diplomacia da chantagem” pela qual, valendo-se de métodos aprendidos graças à sua formação no bairro nova-iorquino do Queens e às atividades do pai, que possuía moradias para aluguel segregadas racialmente, Trump tenta subjugar alguns países e extrair de todos vantagens obtidas por meio da aplicação de tarifas abusivas e sanções de todo tipo.

A fim de executar suas propostas de campanha, Trump adotou desde o primeiro dia uma postura autocrática e imperialista, ignorando ou violando abertamente leis federais, regulamentos e até mesmo a Constituição mediante o uso de ordens executivas baseadas em legislações emergenciais, uma delas datada de 1798! Apesar de ter vários desses “decretos” questionados na Justiça, a expectativa geral é de que a Corte Suprema, atualmente dominada por juízes conservadores (três dos quais designados pelo próprio Trump), endossará todas ou quase todas as medidas excepcionais impostas pelo Executivo.

Vale notar que tais medidas espelham total ou parcialmente as recomendações contidas no Project 2025, uma coletânea de propostas de políticas de direita ou de ultradireita que visam remodelar o governo dos Estados Unidos mediante o fortalecimento do poder executivo. Ou seja, contrariando a impressão muito difundida de que Trump é louco ou age com base em impulsos dignos de um egomaníaco, trata-se na essência de um plano de voo bem amadurecido que passou pela cooptação do Partido Republicano e ganhou poder no MAGA.

Na área multilateral, Trump iniciou o desmonte da rede de instituições criada basicamente pelos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial, mais uma vez retirando seu país do Acordo de Paris e abandonando o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, a Unesco e a Organização Mundial da Saúde, além de suspender as contribuições para a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo e à Organização Mundial do Comércio.

Repetidamente, anuncia seu humilhante desejo de anexar o Canadá como 51º estado e ameaça ocupar militarmente a Groenlândia (que é um território autônomo dentro do reino da Dinamarca) e o Canal do Panamá, além de oferecer apoio integral a Benjamin Netanyahu em suas ações voltadas à criação do Great Israel, que vai do rio Jordão ao Mediterrâneo e implica a submissão/expulsão/extermínio dos palestinos que lá vivem há séculos.

Nas visitas feitas por chefes de Estado a Washington, em vez de seguir o formato tradicional de uma entrevista conjunta à imprensa depois dos encontros reservados, Trump agora as inicia com uma conversa no Salão Oval a que tem amplo acesso a mídia. Nesse novo modelito, ele já humilhou publicamente Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, e Cyril Ramaphosa, presidente da África do Sul, nesse caso o acusando falsamente de conduzir uma “limpeza étnica” contra os brancos em seu país.

Revelando sua ignorância em matéria econômica, Trump escolheu as tarifas como arma preferencial para as incursões mafiosas, argumentando que os Estados Unidos vinham sendo vilmente explorados por todos os países que exibiam saldo positivo no intercâmbio bilateral. No entanto, essa vitimização sem fundamento ruiu quando ele impôs tarifas punitivas ao Brasil que, pelo contrário, apresentava um pequeno déficit na área de comércio e um gigantesco déficit na área de serviços com os Estados Unidos.

E foi quando a máscara do imperialismo trumpiano caiu de vez, pois ele precisou apelar para o falso argumento de que o Brasil perseguia politicamente o ex-presidente que tentara dar um golpe idêntico ao dele em 6 de janeiro de 2021, com a invasão do Capitólio. Não custa lembrar que, em seu primeiro dia na Casa Branca, Trump perdoou cerca de 1.600 pessoas já condenadas ou aguardando julgamento por crimes relacionados àquele episódio, comutando as penas de 14 que agiram com maior violência.

Qualquer semelhança com o pedido de anistia aos envolvidos nas arruaças ocorridas na Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023 obviamente não é mera coincidência. Desde então, sem que necessitemos relembrar o que está gravado para sempre na mente dos brasileiros realmente patriotas, assistimos a uma série de ataques à nossa soberania e à independência dos poderes, com penalidades aplicadas a membros do Supremo Tribunal Federal e ameaças criminosas a autoridades do Executivo, Judiciário e Legislativo sob o acicate de um vendilhão da pátria que coloca os interesses de sua família acima dos interesses da nação.

Às provocações do Departamento de Estado, aqui repercutidas insolitamente pela Embaixada norte-americana, o Itamaraty tem respondido com a convocação do encarregado de negócios (já que Trump se recusa a nomear um embaixador enquanto Lula for presidente) para que um funcionário de menor gabarito lhe manifeste o repúdio do Governo à mensagem insultuosa.

A muitos que julgam insatisfatória tal reação, só posso recomendar que façam das tripas coração e entendam que nos está sendo oferecida uma isca envenenada. Caso expulsássemos o tal encarregado de negócios ou chamássemos ao Brasil nossa embaixadora em Washington — gestos compreensíveis diante da agressão em curso — estaríamos apenas oferecendo a Trump a oportunidade de se fazer de vítima e nos impor sanções praticamente equivalentes ao rompimento das relações diplomáticas ou mesmo rompê-las formalmente.

Se ele de fato quiser fazê-lo para demonstrar o repúdio a um país que não se curva a suas exigências imperialistas, que assuma a responsabilidade por haver conspurcado duzentos anos de relacionamento amigável e respeitoso.

Mas não tenhamos ilusões: outras provocações, outras ameaças mafiosas e outras sanções já se encontram na rampa de lançamento de foguetes da Casa Branca de Donald Trump.

#Donald Trump

Investidor darwiniano, carteira líquida: a liberdade financeira começa pela capacidade de adaptação

8/08/2025
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A liquidez — frequentemente tratada como um detalhe técnico ou um atributo de curto prazo — tem sido subestimada no debate sobre investimentos de longo prazo. Em nome da disciplina, muitos investidores estão criando carteiras rígidas, excessivamente travadas, com ativos que não podem ser movimentados sem custos ou carências severas.

Durante anos, o discurso foi sedutor: “pense no longo prazo, trave agora, colha depois”. E assim nasceu uma geração de investidores que confundiu disciplina com rigidez, e acabou construindo carteiras que funcionam bem no Excel, mas travam a vida real.

COEs (Certificados de Operações Estruturadas), fundos ilíquidos, produtos com carência, ativos sem mercado secundário — todos prometem retornos sofisticados, mas impõem uma limitação silenciosa: a incapacidade de reação. O que parecia segurança virou clausura. O que era para libertar, passou a engessar.

Ao longo dos últimos anos, popularizou-se a ideia de que “travar o capital” é sinônimo de responsabilidade. Mas a verdade é que visão de longo prazo não se constrói com rigidez, e sim com capacidade de adaptação. A liquidez, quando bem utilizada, não representa fragilidade — representa margem de manobra.

Um portfólio que não permite reação é uma armadilha travada no tempo. E o tempo muda. Sempre.

A mudança pode vir de muitas frentes: ciclos econômicos, choques fiscais, alterações geopolíticas, eventos sanitários extremos ou transformações ambientais inesperadas. Investidores que operam com liquidez estruturada conseguem tomar decisões com agilidade, proteger o capital ou até reposicionar estratégias em momentos decisivos.

Adaptação, mudança e liquidez como forma de sobrevivência financeira.

O investidor Darwiniano sabe que o objetivo da liquidez não é sair correndo de um ativo — é seguir andando para ativos mais adequados.

A verdadeira visão de longo prazo não está em travar o presente. Está em construir flexibilidade estratégica. Liquidez não é inimiga da disciplina. Pelo contrário: é o que mantém você no jogo quando o jogo muda.

Porque o mundo muda. O cenário fiscal muda. Sua vida muda. E quando muda, quem tem liquidez responde. Quem não tem reage — ou pior: se paralisa.

Pare por um momento e olhe para a sua carteira de investimentos.

Em um cenário de mudança abrupta — seja política, econômica, sanitária ou ambiental — você teria capacidade de manobra? A sua carteira é um trampolim ou uma camisa de força?

É claro que há espaço — e importância — para ativos de longo prazo. Investimentos com horizonte estendido e compromissos com o tempo têm seu papel, especialmente em estratégias previdenciárias e sucessórias. Mas eles não podem ser o núcleo operacional da sua estratégia.

E isso não significa pular de um investimento para outro a todo momento — significa apenas garantir que você não esteja amarrado quando o contexto exigir movimento.

O que precisa ser dito?

Se tudo mudasse amanhã, quanto da sua carteira conseguiria se mover com você?

Você não precisa da carteira mais arrojada, nem da mais defensiva.

Você precisa da carteira mais adaptável.

Porque liberdade financeira não é só sobre ter tudo.

É também sobre poder mudar quando tudo muda.

No jogo do longo prazo, vence quem se adapta. Porque no mercado — como ensinou Darwin sobre a evolução — não sobrevive o mais forte, mas o que melhor responde às mudanças do ambiente.

Marcos Tanner é um colaborador especial do Relatório Reservado.

#Finanças #investimentos

O furacão Trump e o nacionalismo brasileiro

7/08/2025
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O furacão Trump vem incomodando e irritando a Deus e a todo mundo, desde que ele ganhou a eleição, provocando animosidade e revolta. Mas o fato real é que sua arrogância não conseguiu esconder as fraquezas cravadas em sua própria testa: “Make America Great Again”. Parece que o império americano, que já foi tão grande, deixou mesmo de ser. Assi como parece que Trump se tornou a busca da dignidade perdida. Dificilmente os Estados Unidos voltarão a ser tão grandes quanto no passado, e o “Maga” não é apenas uma frase de efeito, mas o sinal de debilidade que vinha se agravando por surtos desde o início dos anos 70.

O fato paradoxal é que a globalização dos anos 90, que deixou o Brasil de calças curtas, pode ter sido o último soluço de grandeza do império americano, que brotou dos escombros da velha União Soviética como o momento triunfal do liberalismo e da democracia. É surpreendente. Parece que a globalização americana deu errado… para os americanos! Mesmo com o enriquecimento colossal das big techs. Não obstante o poder mundial do capital financeiro, os Estados Unidos se protegem graças às lamúrias de Trump no altar dos sacrifícios de um liberalismo que parecia triunfal. Agora, ele o líder está tentando se livrar da ordem global a picaretas, quem sabe para inventar uma outra que lhe pareça melhor.

A demolição das instituições globais provoca protestos e revoltas, mas, para nós, brasileiros, pouco há do que lamentar. A globalização foi a grande madrasta do Brasil e não temos por que chorar no seu enterro, e muito menos no altar dos sacrifícios de um multilateralismo que pouco fez por nós. Na verdade, muita coisa permanece errada no multilateralismo tosco das Nações Unidas: as guerras incontroláveis e fratricidas que prosperam sob o olhar complacente do Conselho de Segurança da ONU; o acordo global sobre as mudanças climáticas, que já vem se arrastando há décadas sem produzir nenhum resultado; e o planeta Terra que já alcançou 1,5oC de aumento da temperatura global, ultrapassando o seu limite e aproximando-se de uma calamidade global.

Também pudera: seis países do mundo são os grandes poluidores que não assumem sua responsabilidade, enquanto os quase 200 restantes não emitem nada. Apenas participam como figurantes e vítimas que não mandam nada. É a tragédia dos Commons que respondem pelos crimes de uma minoria que tem poder de veto. As decisões são tomadas por unanimidade nesse falido sistema multilateral! Ninguém lamenta o morticínio que continua no coração da África. E o Haiti, continua violento, ignorando as tentativas frustradas das Nações Unidas de organizar o caos.

No caos da Era Trump estamos cercados pelo inesperado e pelas incertezas. Às vezes positivos. A última surpresa foi assistir ao ressurgimento no Brasil do pulsante nacionalismo que há muito parecia ter sido enterrado pela globalização. E o mais curioso é que este nacionalismo se espalhou no espectro político brasileiro, cobrindo de A a Z e chegando até os redutos do povão. Ouvimos daqui e dali vozes de admiração por uma “Embraer é nossa” e que trouxe de volta o orgulho perdido. Até o presidente Lula vem declarando solenemente que “o Brasil é nosso e nossos minerais estratégicos não estão à venda. Uma boa intenção logo desmentida por seu angustiado e menos patriótico ministro da Fazenda. Os minerais estratégicos, afinal, estão ou não estão à venda?

#Brasil #Trump

Alô, alô Boy, Xerife!

4/08/2025
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Os mais inveterados carnavalescos talvez se lembrem da marchinha de Bob Nelson, lançada em 1947, que deu origem ao título deste artigo. Na curta letra, o aflito autor da chamada pede auxílio porque uma quadrilha quer roubar o seu amor, explicando que “não é que eu tenha medo de bandido, apenas eu não quero é confusão”. Essa insólita recordação me veio à mente devido às intensas discussões na mídia sobre o telefonema de Lula a Donald Trump, embora, nesse caso, o que está em jogo seja a ação de outra quadrilha que desejou roubar uma eleição.

A cautela com respeito à eventual chamada de Lula é justificada devido ao espírito vingativo do atual ocupante da Casa Branca e de seu hábito, como bully de carteirinha, de humilhar publicamente os chefes de Estado que o procuram. Mas creio que os debates ignoram a forma simples e diplomaticamente correta de evitar qualquer embaraço caso finalmente tenha lugar esse contato telefônico.

Exceto em situações de emergência totalmente excepcionais, as conversas entre presidentes, presenciais ou virtuais, são precedidas de entendimentos meticulosos entre as Chancelarias, quando se definem as datas e horas, pautas e propósitos dos contatos. Ora, no caso em tela, confirmando o que Mauro Vieira disse a Marco Rubio na semana passada em Washington, bastaria que afirmássemos claramente que, na projetada conversa telefônica, Lula só cuidaria de temas comerciais, não admitindo discutir questões relativas à soberania nacional ou à independência dos poderes judiciário e legislativo. Não havendo concordância do lado norte-americano, muito bem, muito obrigado, voltamos a falar sobre o assunto se houver alguma mudança na postura de um ou outro. Havendo concordância, são assentados os detalhes pertinentes e o telefonema ocorrerá tal como aprazado.

Ah, dirão os espertinhos, e se o Trump ignorar o combinado e começar a desfiar as reclamações de cunho político de que se valeu para justificar o injustificável tarifaço? Nessa hipótese (bastante realista), é suficiente que Lula – lembrando que não fala com o “companheiro Donald” – use sua proverbial fleuma típica de um lorde inglês e diga com grande elegância: “Sr. Presidente, ficou acertado entre nossas Chancelarias que não trataríamos de matérias políticas neste telefonema, e, sim, exclusivamente de questões comerciais, Peço-lhe que esse compromisso formal seja respeitado pois, de outra maneira, serei obrigado a interromper a ligação e me reservarei o direito de explicar o motivo tornando pública a gravação de nossa conversa feita por ambas as partes.” Xeque mate.

Jorio Dauster é um colaborador especial do Relatório Reservado.

#Donald Trump #Lula

Spin off da COP30 surge como solução para contornar os gargalos de Belém

1/08/2025
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A pressão internacional pela retirada da COP30 de Belém exige um esforço concentrado de todos os agentes públicos e privados envolvidos na organização do evento. Uma solução que poderia ser pensada, se é que já não foi, seria o spin off da Conferência em várias cidades, a começar por Manaus, com todo o seu simbolismo de capital do estado que concentra quase um quarto da Amazônia Legal. Seria uma forma de o governo atenuar as dificuldades impostas pelo notório esgotamento de Belém. Do ponto de vista logístico, o deslocamento de parte da agenda e dos participantes para Manaus não exigiria grandes contorcionismos. A necessidade de descentralização da COP30 cresce em função da dimensão tomada pelo evento. Conforme o RR já informou, a expectativa no próprio governo é que a Conferência tenha uma ambiência próxima ao do Fórum Econômico de Davos, com um amplo ecossistema para muito além das autoridades e especialistas do clima presentes. Economistas, intelectuais e artistas deverão ter uma participação expressiva. Circula que Lula já teria convidado diretamente Chico Buarque. Seu ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil é tido também como presença certa.

A desconcentração da COP30 em outras cidades facilitaria também a realização de importantes eventos paralelos vinculados à Conferência. É fundamental, por exemplo, a organização de espaços para negócios na esfera empresarial. O governo avalia deslocar essa agenda exatamente para Manaus. A COP30 desponta como o vitrine de ouro para o Brasil mostrar ao mundo, por exemplo, o potencial bioeconômico da Amazônia.

 

Francisco Ourique é um colaborador especial do Relatório Reservado.

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