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Belém – O presidente Lula colocou sobre a mesa da COP30 boa parte do seu cacife ao propor um Mapa do Caminho que guiasse o mundo rumo ao fim definitivo do uso dos fósseis. A ideia rapidamente ganhou o apoio de dezenas de países e da comunidade científica presente em Belém. Mas fica a pergunta: será que não foi uma aposta alta demais para o quadro geopolítico atual? Embora não incluísse um prazo concreto para pressionar os países, e o próprio Lula tenha frisado em seu discurso, no nono dia da COP30, que o abandono dos fósseis deveria ser feito pelos países, mas “cada um no seu tempo”, o Mapa do Caminho foi de longe o assunto mais comentado nos corredores da primeira Conferência Climática realizada no Brasil. Para o “bem” e para o “mal”.
Não obstante as adesões, a ideia de substituição total dos combustíveis fósseis angariou oposições de peso, seja por parte dos maiores produtores, seja por parte dos países consumidores e dependentes do insumo. A ponto de a proposta não ser sequer incluída no primeiro rascunho de negociações. A verdade é que os silêncios foram falando cada vez mais alto em relação ao caminho sem fósseis na reta final do encontro climático.
A presidência da COP30 tentou até antecipar a conclusão da COP em um primeiro pacote que deveria ser entregue na quarta-feira (19/11), dia da única aparição de Lula na Blue Zone. Não deu certo. Na coletiva restrita a alguns veículos — em vez do modelo da coletiva tradicional da conferência, aberta a toda a imprensa nacional e internacional, sem restrição — o presidente brasileiro tinha um único anúncio concreto a fazer: a contribuição da Alemanha de um bilhão de euros ao TFFF. Uma contribuição que, na verdade, já era dada como certa: faltava apenas a informação sobre o valor. Os dissensos entre os países foram se aprofundando, e não havia nenhum acordo para antecipar em um primeiro pacote.
Neste momento, a principal batalha em Belém é travada em torno da referência aos fósseis no texto final. Caso os cientistas percam essa batalha, a COP30 pode ficar marcada como a “COP da verdade”, embora em um sentido menos otimista para os objetivos ambientais. As perspectivas da aprovação da proposta de triplicar o financiamento da adaptação climática, no entanto, são mais favoráveis, o que seria uma vitória parcial para a presidência brasileira. O consenso em torno da adaptação climática globais sem se chegar a um consenso a respeito da redução dos fósseis, no entanto, abriria uma imensa lacuna de incoerência na agenda climática global.
Cintia Salomão é jornalista e editora do portal Integridade ESG, editado pela Insight Comunicação.
A China oferece para o mundo hoje o que os Estados Unidos ofereceram há mais de um século?
Há mais de cem anos, os Estados Unidos receberam grande contingente de cientistas, especialmente europeus, das mais variadas áreas. Até meados do século passado, Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI) era predominantemente liderada pelos europeus. Esta migração para a América resultou em mudanças significativas. Estes cientistas auxiliaram a alavancar as universidades e centros de pesquisas norte-americanos para os patamares hegemônicos atuais.
Hoje, a China oferece muitas oportunidades para profissionais de CTI, como infraestrutura sólida, salários competitivos (acima de US$ 300 mil/ano) e ótimas condições de trabalho, com a montagem, por exemplo, de laboratórios milionários. Embora o país asiático seja produtor de óleo & gás, inclusive aqui no Brasil, não podemos o considerá-lo uma “Petronação” ou um exportador de comodities. Pelo contrário. A China investe pesadamente em soberania alimentar e energética, com crescimento da energia renovável (solar, biomassa). Desenvolvimento de novos medicamentos, 5G, inteligência artificial, aquicultura, biotecnologia, bioeconomia, ciências de foguetes, satélites, trem-bala, carros elétricos são alguns exemplos relevantes do protagonismo chinês na ciência e na inovação.
E o Brasil nesse tabuleiro? Alguns estados vêm tentando recrutar cientistas internacionais, mas ainda de forma tímida e em uma escala pequena. O país tem pelo menos cinco mil pós-docs sem bolsa (sem trabalho?). Neste contexto, existem evidentes oportunidades para brasileiros, centradas especialmente nos recém-doutores que buscam se estabelecer no mercado de trabalho. Recente edital do CNPQ absorveu apenas 10% dos candidatos com PhD. A China tem mais de 2.500 universidades. É, portanto, um destino natural para cientistas. Temos um contingente enorme de doutores formados no Brasil que não estão vinculados formalmente e poderiam aproveitar esta oportunidade do gigante chinês. Se cada universidade chinesa absorvesse dois pós-docs brasileiros, o problema estaria resolvido, ao menos temporariamente. Há diversas oportunidades para CTI, incluindo a recuperação de sistemas marinhos destruídos, por exemplo, por sistemas coralíneos.
A China usa basicamente o mandarim. Mesmo em megacidades, como Shanghai, o inglês não é muito utilizado. A cultura chinesa é outro aspecto que merece destaque. Bastante hierárquica e formal, especialmente na região norte do país, remontando aos preceitos do Confucionismo, ainda há uma estrutura bem tradicional nas universidades e centros de pesquisa. Líderes de grupo estrangeiros são raros. Por outro lado, muitas instituições ainda requerem uma modernização para padrões de internacional. A força de trabalho na China é impressionante. Assim como o é a longa jornada de trabalho, podendo exceder 50 horas semanais mesmo dentro das universidades.
Fabiano Thompson é professor da UFRJ, onde coordena o Laboratório de pesquisa (https://www.thompsonlab.com.br/). É membro da Academia Brasileira de Ciências.
“Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; cada homem é uma partícula do continente, uma parte do todo. Se o mar leva um torrão de terra, a Europa fica menor, A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano; e por isso nunca perguntes por quem os sinos dobram: eles dobram por ti”.
John Donne, poeta metafísico, escreveu isso em 1624, ao ouvir os sinos dobrarem pelas mortes de uma peste que dizimava Londres. Ernest Hemingway usou a mesma expressão, ‘Por quem os sinos dobram’, em um livro que ele escreveu para alertar o mundo sobre a letalidade da Guerra Civil espanhola. Era o prenúncio de algo pior, que viria em seguida. E veio. A ferocidade de Hitler que quase escravizou a humanidade.
Quatro séculos depois, os sinos dobram novamente em Belém na COP da Salvação, a COP da implementação em pleno caos amazônico. Eles dobram, não por um indivíduo, mas por um planeta que adoece. A cada conferência do clima a humanidade se reúne para medir a elevação de sua febre e discutir a sua cura — enquanto o tempo avança, implacável. Por quem os sinos dobram? Eles dobram por ti.
As COPs — Conferências das Partes da Convenção do Clima — tornaram-se o palco das contradições do nosso tempo. De um lado, a esperança da diplomacia multilateral, a busca de metas e acordos que traduzam o princípio universal da solidariedade ambiental. De outro, a frustração das promessas não cumpridas, o impasse entre países ricos e pobres, o abismo insuperável entre o discurso e a ação. Os sinos dobram pelos que se foram nas calamidades climáticas, e também pelos que não desistiram. Mas até quando?
Cada país, cada cidade, cada geração viva deveria ouvi-los como um chamado à responsabilidade compartilhada — pois, como em Donne, quando o sino dobra, ele dobra por todos nós.
Os resultados da COP30 só surgirão no tempo devido — em seu momento final, nos últimos minutos do segundo tempo. Nas COPS de que participei sempre foi assim. As conclusões desses famosos encontros ganham um upgrade apenas em seu desfecho, quando o impasse nas negociações ameaça se transformar em vexame diplomático.
Mesmo assim, para nós, a conferência começou mal. Em parte porque a Região Amazônica, abandonada e precária, não está preparada para eventos dessa grandeza diplomática. Logo nos primeiros dias, Belém revelou o cenário de contradições que ronda esta COP. Houve invasão indígena de arco e flecha no recinto sagrado das Nações Unidas, com danos a equipamentos de segurança e ferimentos em funcionários internacionais.
O local do evento, a outrora linda cidade de Belém, hoje está bastante degradado como cidade de terceiro mundo. Por ironia, o local da conferência fica próximo à Margem Equatorial, onde estão prestes a serem perfurados novos poços de petróleo. Um flagrante descompasso entre o discurso ambiental e a vil prática econômica da qual não iremos prescindir. Não somos santos. Enquanto isso, a ONG prestigiada denuncia o garimpo ilegal e o narcotráfico que compromete a integridade dos ecossistemas e dos povos originários.
Para piorar, nos dois primeiros dias faltou ar-condicionado e os visitantes improvisaram leques de abano. E as longas filas para o almoço demonstram que tudo ali foi improvisado por falta de infraestrutura e serviços. Além do mais, foi um esforço diplomático conseguir a presença de um número de delegados satisfatório. A diplomacia brasileira sabe fazer milagres.
O maior problema do Brasil foi ter herdado de Baku uma COP da Implementação, justamente quando há muito pouco a implementar. Ficamos com a batata quente na mão. As emissões continuam subindo, enquanto os discursos oficiais caem no descrédito. A meta de conter o aquecimento global em 1,5ºC até o fim do século – e de, para tanto, zerar as emissões de carbono até 2050 -, já caiu por terra. A expectativa alarmante é que já estamos ultrapassando essa marca agora! E continuamos aumentando as emissões quando elas teriam que estar em regressão. Resultado: as projeções para o final do século já estão em 2,8ºC. Um desastre que pode custar nossa sobrevivência. Vamos esperar, diante de tal gravidade, o último minuto do segundo tempo aqui também?
Há mais de três décadas que o processo decisório do clima é insolúvel e perverso. Os três maiores poluidores do planeta — China, Estados Unidos e Índia —, são responsáveis por 56% das emissões, mas garantem o seu direito de poluir as usual, para não comprometer o seu desenvolvimento. Todos apostam em uma transição gradual e tolerante. Desta vez, nenhum deles sequer enviou seus principais mandatários a Belém, ao contrário do que ocorreu em Paris (COP15) e no Rio (1992). Xi Jinping, Donald Trump e Narendra Modi estão ausentes: um sinal eloquente do esgotamento da diplomacia climática; e do fracasso do multilateralismo. A contradição é gritante: os mocinhos, isto é, a maioria dos países que nada emitem, permanecem mudos e impotentes; enquanto isso, os garanhões poluidores seguem impunes, envenenando o planeta.
Outra ironia da história é que foi o presidente George W. Bush quem, em 1997, recusou o Protocolo de Kyoto, afirmando não confiar na diplomacia e, sim, na tecnologia como caminho eficaz para a transição energética que é o X do problema. Ele acertou na mosca. Foi exatamente o que aconteceu. Só que foi a China quem colheu os frutos dessa aposta anti-diplomática: hoje é ela que lidera as emissões enquanto, ao mesmo tempo, recebe na COP o título de líder global em inovação, responsável pela queda vertiginosa dos preços de painéis solares, baterias e equipamentos verdes. Os EUA parece que perderam sua estratégia ofensiva para a China
Enquanto isso, os países em desenvolvimento repetem há 30 anos a mesma ladainha — exigindo que os ricos paguem a conta nas famosas “responsabilidades comuns, mas diferenciadas”. De início, era o paradoxo: os países em desenvolvimento continuam a poluir enquanto os países desenvolvidos pagam a conta. Não deu certo e os ambientalistas denunciaram este jogo perverso. Na lógica ambiental, todos deveriam pagar. E o impasse continua. China e Índia, os maiores poluidores, não querem pagar. Os Estados Unidos, em disputa com a China, também não. Mas quanto custaria, afinal, a transição energética?
A McKinsey calcula que a neutralidade de carbono até 2050 exigirá investimentos globais da ordem de US$ 9,2 trilhões por ano, enquanto a Agência Internacional de Energia (IEA) estima cerca de US$ 4 trilhões anuais apenas no setor energético. Já a secretária do Tesouro dos Estados Unidos, Janet Yellen, fala em US$ 3 trilhões por ano para financiar a transição para uma economia de baixo carbono. Os países ricos alegam não ter esse dinheiro todo. Argumentam também que a dívida histórica pelas emissões passadas não se justifica. Ninguém tinha consciência do problema quando as emissões começaram a aumentar.
Além disso, dizem eles, não há razão para financiar países que não têm governança e onde ditadores e regimes cleptocráticos se disfarçam de países pobres, desviando recursos e tentando representar a pobreza. Resultado: os NDCs, compromissos nacionais de redução de emissões, tornaram-se uma panaceia ou até mesmo uma fraude coletiva. Nenhum país cumpriu as metas ou se apresentou em tempo hábil para defendê-las, como estava previsto no programa. Nem a heroica Uniao Europeia, na vanguarda do combate às emissões, conseguiram, desta vez, apresentar-se como campeões do Clima, preocupados que estão com a segurança militar de seu continente.
Apesar destes dissabores, o Brasil merece o título legítimo de superpotência ambiental. Detentor da maior floresta tropical do planeta, de uma matriz energética 50% limpa, ele se apresenta em contraste com os demais países do mundo oferecendo um imenso potencial de energia verde — do etanol à bioeconomia amazônica e marinha. O país conserva, portanto, um capital moral e ecológico que poucos têm a honra de possuir. O Sistema de Monitoramento por Satélite, a experiência (frustrada) da Agenda 21 brasileira e o avanço recente das fontes renováveis reforçam essa credibilidade.
No entanto, o maior desafio é transformar essa vantagem comparativa em liderança efetiva, com políticas consistentes, metas factíveis e governança transparente — sem ceder à tentação de discursos grandiloquentes que o país não consegue cumprir.
Sabendo que a situação seria difícil, a estratégia brasileira — conduzida por hábeis diplomatas como André Corrêa do Lago e Maurício Lyrio, a ambientalista Ana Toni e a ministra Marina Silva — reservou para a COP duas importantes cartadas. A primeira foi desviar-se das dificuldades na redução das emissões, isto é, do esforço de mitigação, deslocando o eixo central da conferência para o tema sempre relegado da adaptação climática. Mais dramático e inicialmente mais barato. Tal mudança visa proteger os países mais vulneráveis contra os devastadores eventos extremos — secas, enchentes, incêndios e colapsos alimentares — que se agravam com o aquecimento global. Resta agora garantir os recursos de US$ 300 bilhões prometidos para honrar este compromisso e transformar a adaptação climática em pilar real de justiça ambiental global.
A segunda estratégia está sendo conduzida pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e por Tatiana Rosito, sua secretária de Assuntos Internacionais. Eles decidiram apostar na reunião de ministros da Fazenda para explorar melhor os aspectos econômicos e financeiros da transição climática — uma medida acertada, que transfere o centro das operações do palco desgastado dos governos ineficientes para a área mais promissora das empresas inovadoras e das organizações da sociedade civil.
Essa inflexão reposiciona o Brasil como articulador de uma nova agenda, bem mais inteligente, que envolve iniciativas financeiras da economia verde, aproximando a diplomacia ambiental da economia real — e recolocando o país no eixo das soluções, e não apenas dos diagnósticos. Foi com esse propósito que o Ministro da Fazenda entregou ao urbanista Philip Yang o desafio de mobilizar, não o eixo azul das propostas, mas o eixo verde da ação climática, reunindo as cidades, que são as principais emissoras, e convocando o poder subnacional para assumir este papel de vanguarda que dependerá mais das empresas e das iniciativas civis.
Temas polêmicos — denominados de fight issues — serão resolvidos nos próximos dias. O Brasil tentará hoje ainda melhorar a NDC dos países preguiçosos, insistindo para que assumam compromissos mais firmes e coerentes com a urgência da crise climática. O Brasil deveria fazer o mesmo.
A estratégia perspicaz das NDCs brasileiras merece reparos: optou-se pela lei do menor esforço, concentrando-se apenas em zerar o desmatamento e reduzir as emissões no uso da terra- nossos vilões climáticos. Ficou de fora a economia urbana, como setor de transportes, que poderia migrar para o transporte de massa e reduzir significativamente as emissões. Podemos também atacar o tema da eficiência energética, que permanece entre as mais precárias do mundo.
Há ainda para animar o país anfitrião, a luta pelo fundo de preservação das florestas tropicais. A nossa, a floresta amazônica, é a maior do mundo e compartilhada com países vizinhos. Esta é uma luta antiga que parecia perdida, mas que acabou dando certo, com a arrecadação de fundos que já alcançam US$ 5 bilhões e podem crescer mais.
A cartada de Lula na abertura da COP foi das mais oportunas: propor um Conselho Climático diretamente ligado ao Secretário-Geral e à Assembleia da ONU, livrando-se, assim, dos restos mortais da própria COP agonizante. Mas o problema é que o Secretário-Geral tampouco funciona. A ONU respira por aparelhos.
E, enquanto isso, os sinos de Belém continuam a tocar. Por você? Por nós? Quem viver verá.
O imenso sistema recifal amazônico (o GARS; Great Amazon Reef System; superior a 56 mil Km2) volta ao foco das atenções durante a COP30. O GARS é um recife mesofótico biodiverso, ocorrendo em áreas mais profundas (até 220 metros), com reduzida disponibilidade de luz, podendo ser um santuário ainda protegido do aquecimento rápido de águas marinhas de superfície, um possível banco de “sementes” para recifes rasos. O GARS sustenta vastas pescarias nos estados do Amapá e Pará, com a possibilidade também de atuar como corredor ecológico entre a Margem Continental brasileira e o Caribe.
Porém, este sistema recifal está sob ameaça, pois ocorre na mesma região onde, hoje, são ofertados 130 blocos de petróleo. A exploração de petróleo nas proximidades da foz do Amazonas avança, com a liberação recente pelo Ibama, em 20 de outubro de 2025. Por outro lado, é necessário impulsionar, com urgência, a economia da inovação no nosso país. Uma alternativa seria considerar todo o petróleo e gás da foz do Amazonas e Margem Equatorial como uma reserva técnica. Esta reserva seria usada pelo nosso país apenas em casos extremos de instabilidade global. Manter estas riquezas de Óleo&Gás como reserva técnica, para episódios extremos, reduziria emissões de GHG (Greenhouse gases), inerentes ao processo de exploração e produção de combustíveis fósseis, e também permitiria o melhor conhecimento sobre a biodiversidade desta vasta Margem Equatorial. Um novo fundo poderia ser constituído pelo Brasil para manter esta reserva técnica.
Assim como o Fundo de Florestas Tropicais Para Sempre, com mais de US$ 5 bilhões de investimentos iniciais, lançado durante a COP30, visa a preservação das Florestas Tropicais tais como a Amazonia, um novo fundo focado em recifes poderia também ser concebido. Para o novo Fundo de Florestas Tropicais para Sempre, duas Petronações já contribuíram (Noruega, com US$ 3 bilhões; e França com US$ 500 milhões). Um novo fundo voltado ao financiamento da preservação e uso sustentável de recifes com recursos públicos e privados, e retorno financeiro, poderia ser estabelecido.
Porém, há desafios relevantes no que tange o conhecimento científico sobre a Margem Equatorial. Até hoje a região carece de ciência. Quatro grandes expedições culminaram no estado-da-arte atual (2012, 2014, 2017, 2018). Um breve histórico merece registro. Em 2012, junto com professor Carlos Rezende da UENF, coordenamos equipes de pesquisa sobre Pluma e Foz do Amazonas a bordo do Navio Atlantis dos EUA. À época, Rezende buscava liberação junto ao EMA-MB (Estado Maior da Armada da Marinha do Brasil) – portaria 150 de 2012, enquanto buscávamos coletas via MMA/ICMBIO/SISBIO (Ministério do Meio Ambiente, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade) – permissão de pesquisa 33823-2.
Em 2014, com o auxílio do Navio Cruzeiro do Sul, sob os cuidados da Marinha e do Ministério da Ciência e Tecnologia, coordenamos pesquisas com coleta de biodiversidade no GARS (projeto descoberta de um novo bioma marinho recifal Amazônico) que culminou em um trabalho pioneiro na Sciences Advances1. Alguns anos mais tarde, coordenamos outra expedição importante, que permitiu os primeiros mergulhos com submersível tripulado, em 28 de Janeiro de 2017, a bordo do Navio Esperanza do Greenpeace. Nesta ocasião obtivemos as primeiras imagens do recife e da sua biodiversidade2. No ano seguinte, novamente a bordo do Esperanza, empregamos um grande ROV, e conseguimos filmagens nas proximidades do bloco FZA-M-059. Infelizmente, desde então, poucos estudos independentes têm ocorrido na região.
O estabelecimento de um novo Fundo para os Recifes para Sempre poderia contribuir para investir em Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI) e para alavancar as ciências do mar, incluindo a oceanografia, engenharia, sociologia e bioeconomia. Especial atenção poderia ser dada aos estudos sobre estrutura, função e dinâmica do GARS e do megabioma amazônico. Garantir a preservação da biodiversidade por meio de sistemas inovadores de cultivo da biota do GARS, incluindo cultivos de algas, esponjas e corais em sistemas controlados, e manutenção da biodiversidade, seu material genético em condições seguras e de salvaguarda, seria uma forma também de evitar que a biodiversidade do GARS seja levada para grandes museus e centros de pesquisa do estrangeiro.
É absolutamente vital que o Brasil crie mecanismos para explorar a biodiversidade endêmica por meio da biotecnologia, biologia sintética, engenharia genética, fermentações e aplicações práticas, assim como obter novos fármacos, alimentos e bioinsumos a partir da biodiversidade do GARS. O investimento em bioeconomia marinha permitirá alavancar o desenvolvimento socioeconômico, empreendedorismo e inclusão produtiva, incluindo uma cultura que envolva as comunidades tradicionais, indígenas e quilombolas. O que está em pauta é o desenvolvimento da economia da inovação.
1 https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.1501252
2 https://doi.org/10.3389/fmars.2018.00142
Fabiano Thompson é professor da UFRJ, onde coordena o Laboratório de pesquisa (https://www.thompsonlab.com.br/). É membro da Academia Brasileira de Ciências, colaborador especial do Relatório Reservado.
A cidade do Rio de Janeiro voltou a ser palco de violência extrema, estando nela envolvida a força pública de segurança, notadamente as polícias civil e militar.
Estranho soaram, no entanto, as primeiras declarações do chefe do Poder Executivo estadual a mencionar que estamos vivendo “guerra ao narcotráfico”, certamente para justificar a quantidade de mortos, cerca de 100 ou mais, e procurando desde logo legitimar a operação policial.
O certo é que não há guerra alguma, felizmente; esta só existe na mente insana de quem a concebeu.
Vivemos, sim, e é bom insistir, sob o império das leis e do estado democrático de direito, e a ferocidade da ação policial deve ser analisada dentro da esfera legal.
Não há solução fora da lei.
Trazer o conceito de guerra para o debate talvez seja a forma mais simples de afastar responsabilidades de quem tem o dever de observar os direitos fundamentais de todos os moradores.
Não podemos nos deixar enganar como alguns analistas que, à primeira vista, entendem que, se a maioria dos mortos for de “suspeitos” – a expressão está entre aspas, pois retirada de artigos – os homicídios se justificam.
Não e não.
Embora suspeitos fossem, não se pode aceitar que determinada operação policial possua credenciais para exterminá-los.
Dentro da lei só há uma possibilidade para se entender como legítimas as tais mortes: se tiver ocorrido legítima defesa.
Como, desgraçadamente, quatro policiais perderam a vida, em princípio pode-se aceitar a ideia de que tenha havido disparos contra os policiais e estes reagiram no pleno exercício de suas garantias físicas.
Por outro lado, ainda à primeira vista, é difícil acreditar que a totalidade dos mortos estava em posição de beligerância relativamente aos policiais.
Só a investigação isenta dos fatos poderá revelar em futuro breve a causa das mortes.
Alguns pontos, no entanto, necessitam de apuração a começar pelas razões inspiradoras da chamada operação policial, que seria a execução de cerca de 100 mandados de prisão.
A primeira observação é: mandado de prisão não é ordem judicial para matar.
A segunda observação é: quem seriam os alvos dos mandados e se de fato foram presos, questão esta ainda não divulgada.
Não se desconsidera o fato de que a pena de morte encontra defensores na sociedade, a começar pelos seguidores do ex-presidente da República, senhor Jair Bolsonaro, dentre eles o Governador do Estado do Rio de Janeiro.
Mas mesmo quem defenda a instituição da pena de morte, necessário reconhecer que para a sua aplicação essencial é o devido processo legal, garantido o exercício pleno do direito de defesa e observadas as garantias constitucionais, dentre elas a de ser proferida sentença por juiz de Direito imparcial.
A concretização, portanto, da pena capital, só através de sentença judicial proferida por quem tenha credencial institucional: juíza ou juiz de Direito.
Nesse quadro, a discussão seria a forma de matar o condenado -guilhotina, fuzilamento, cadeira elétrica, injeção letal – e encontrar a pessoa do carrasco.
Fora disso, ingressamos em um mundo de barbárie no qual se reconheça como legítima a execução extrajudicial, que seria em essência a aplicação da pena de morte, só que sem o devido processo legal.
E nessa última hipótese, não há lei, não há processo, não há juiz; somente existe o carrasco a desempenhar com fuzil no braço o papel que o estado de direito não lhe conferiu.
Leonardo de Souza Chaves é Procurador de Justiça do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro e professor de Direito da PUC – RJ, colaborador especial do Relatório Reservado.
A reunião formal entre os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos na Malásia confirmou a reviravolta prenunciada no rápido encontro entre ambos (que nada teve de fortuito) durante a Assembleia Geral da ONU. Astuto negociador, Donald Trump não teve o menor pejo de, em meio a cortesias de parte a parte, completar mais um acrobático TACO enterrando de vez a machadinha de guerra dos povos indígenas norte-americanos – que, aliás, se chamava “tomahawk”. Na realidade, ficou evidente que Trump compreendeu haver cometido dois erros no relacionamento com o Brasil que cabia corrigir o mais cedo possível.
Do ponto de vista político, ele havia sido ludibriado pelas ideias fantasiosas da trinca Steve Bannon-Eduardo Bolsonaro-Paulo Figueiredo ao usar o julgamento do ex-presidente para justificar uma intervenção nos negócios soberanos do Brasil. No entanto, em vez de obrigar o país a se curvar covardemente, esbarraram na resistência impávida dos três Poderes, provocando um surto popular de nacionalismo e prestando imenso serviço eleitoral a Lula com o consequente efeito deletério sobre as pretensões da direita. De fato, o longo silêncio da Casa Branca e do Departamento de Estado sobre o julgamento e condenação de Jair Bolsonaro, antes objeto de estridentes e reiteradas objeções, foi, enfim, rompido em Kuala Lumpur pelo próprio Trump, mas não de moto próprio, como possível forma de intimidar Lula, e, sim, respondendo a um repórter brasileiro. E, para a infinita tristeza das cassandras bolsonaristas, que sempre previram que este assunto constituiria um carro-chefe de Trump e que Lula seria humilhado num encontro presencial, o presidente norte-americano se limitou a algumas expressões condescendentes de comiseração sobre aquele que antes era o pretexto-mor para punir o Brasil. Ao que se sabe, na reunião fechada que se seguiu à entrevista coletiva, teria cabido ao próprio Lula suscitar a questão Bolsonaro, mas, então, para explicar a Trump as circunstâncias que justificaram sua longa sentença. Portanto, em condições normais de temperatura e pressão se trata de uma página definitivamente virada.
O segundo grande erro ocorreu na área comercial, embora desde o primeiro dia do tarifaço já houvessem sido excluídos numerosos itens sensíveis, tal como suco de laranja e aviões comerciais. No entanto, os produtos que continuam a enfrentar tarifas predatórias e arbitrárias de 50% vêm gerando sérias dificuldades para vários segmentos da economia norte-americana e provocando ameaçadores aumentos de preço para o consumidor, como é o caso do café e da carne (cujos cortes provenientes do Brasil servem sobretudo para a produção de hambúrgueres). Muito relevante também foi o fato de que as vendas do Brasil para o exterior não sofreram um baque generalizado como muitos desejavam, uma vez que, pelo contrário, provocaram a busca de novos mercados como China, México, Argentina, Oriente Médio, Índia e outros países asiáticos. Assim, conquanto em setembro as vendas para os Estados Unidos tenham caído 20,3% (sobretudo no tocante a ferro gusa, carnes, açúcar, armas e fumo), as exportações totais alcançaram US$ 30,5 bilhões, com um incremento de 7,2% sobre igual mês em 2024. Em suma, Trump e seus assessores compreenderam que estavam empurrando o Brasil para outros mercados, em particular o chinês, ao mesmo tempo em que estimulavam as tendências inflacionárias que são o maior pavor de qualquer ocupante da Casa Branca.
Diante do desejo dos dois chefes de Estado de que começassem prontamente as tratativas sobre assuntos comerciais, já na manhã de hoje Mauro Vieira e seus interlocutores norte-americanos estabeleceram um cronograma de trabalho técnico que, como chegou a transpirar em Kuala Lumpur, pode incluir a suspensão ao menos temporária das tarifas punitivas de 40% sobre todos ou alguns produtos exportados pelo Brasil, em particular o café. Impossível prever a duração dessas tratativas, porém o importante é reconhecer que as relações com os Estados Unidos, se não alcançaram ainda o pleno estágio de “business as usual” invocado no título deste artigo, entram agora em terreno positivo que era impensável semanas atrás.
Do lado brasileiro, além do discreto profissionalismo de nossa diplomacia, vale mencionar alguns pontos positivos que facilitaram a revisão das posturas de Trump: 1) o sistemático oferecimento de Lula para realizar um encontro presencial; 2) sua disposição de discutir qualquer assunto, até mesmo os de natureza política que muitos o aconselhavam a evitar; e 3) o oferecimento para servir como intermediário nas questões da Venezuela e da Ucrânia, evitando com isso se identificar com apenas um dos lados desses conflitos.
Aguardemos, pois, notícias construtivas que poderão servir como grandes presentes natalinos a todos que vêm sofrendo com o tarifaço nos dois lados do balcão.
Jorio Dauster é diplomata de carreira e foi embaixador do Brasil junto à União Europeia, colaborador especial do Relatório Reservado.
“O mundo levou mais de cem anos para reconhecer a genialidade de Schumpeter.”
O grande homenageado do Prêmio Nobel de Economia de 2025 não está entre os vivos. Chama-se Joseph Schumpeter e há quase 90 anos, em seu livro “Capitalismo, Socialismo e Democracia” (1942), formulou a genial ideia que o mundo inteiro agora aplaude e reconhece: a força do capitalismo reside na sua capacidade de autodestruição criativa, isto é, de se reinventar. E a História comprova que este capitalismo, embora conserve o mesmo nome ao longo dos séculos, vem periodicamente sofrendo tais metamorfoses que às vezes a gente mal o reconhece. Schumpeter já havia antecipado o conceito em 1911, em “A Teoria do Desenvolvimento Econômico”, ao descrever o capitalismo como um sistema que vive de romper o próprio equilíbrio — uma intuição juvenil que a História levou um século para confirmar.
Curiosamente, o grande economista nunca recebeu o Nobel — não por falta de mérito ou reconhecimento, mas porque o prêmio ainda não existia quando morreu, em 1950. O Prêmio de Economia só seria criado em 1968, pelo Banco Central da Suécia. O de 2025 é, portanto, uma reparação histórica tardia — uma homenagem a quem entendeu o futuro antes mesmo que ele chegasse. É apenas surpreendente que o conceito tenha levado tanto tempo para ser testado e comprovado. A criatividade humana, afinal, é veloz para inventar máquinas e aplicativos — mas lenta para compreender as ideias que as inspiram.
A metade do prêmio deste ano coube ao brilho erudito do veterano Joel Mokyr, o historiador cuja obra reescreveu a Revolução Industrial no início da década de 90, não como epopeia das máquinas, mas como trama das ideias quando elas se sustentam em uma cultura de confiança no conhecimento na qual engenheiros, cientistas e artesãos qualificados exercem o seu talento e curiosidade. A outra metade foi repartida entre Philippe Aghion e Peter Howitt, dois economistas que traduziram a intuição de Schumpeter em equações — e provaram, matematicamente, que o progresso é um processo de substituições sucessivas através das quais o novo mata o velho com a elegância impiedosa de uma lei natural darwiniana.
Há prêmios que celebram novas descobertas; mas este celebra uma evidência tardia. Afinal, hoje a inovação, que é o nome atual que damos para destruição criativa, está por toda parte e é vertiginosa, desdobrando-se e multiplicando-se incessantemente. Virou um método de produzir, um estilo de vida, dos algoritmos à inteligência artificial que não nos dá sossego.
No Brasil, a cultura oficial dominante tem se revelado hostil à inovação, isto é, a qualquer mudança profunda que possa abalar o status quo. Vivemos a inovação por tabela, inventada por outros longe daqui. E, além do mais, ainda não percebemos que a destruição criativa também se dedica a demolir ideias, elites fracassadas e instituições que envelhecem. Nossas elites estão fora de compasso, comprometendo o futuro de um país que precisa se reinventar.
Outra questão crucial que permanece em aberto é se o capitalismo, nesta sucessão de metamorfoses que ele viveu nos dois últimos séculos, continua o mesmo, ou se não foi perdendo também a sua própria identidade. Mudou de figura, mas não mudou de nome. Não estamos, talvez, caminhando para uma sociedade pós-capitalista, ou que nome tenha, no limiar de uma nova civilização e de uma nova era? Caberá – quem sabe? – a outro prêmio Nobel nos esclarecer sobre essa importante controvérsia.
Aspásia Camargo é Doutora em Sociologia pela École des Hautes Études da Universidade de Paris, foi vereadora e deputada estadual, além de ter ocupado a Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro. Presidiu o IPEA e comandou a Secretaria Executiva do Meio Ambiente, colaboradora especial do Relatório Reservado.
A conversa entre Mauro Vieira e Marco Rubio vem sendo devidamente festejada, pois é, de fato, incomum que dois ministros das Relações Exteriores se reúnam na Casa Branca com a participação do US Trade Representative, divulgando ao final uma nota conjunta que menciona “conversas muito positivas” e anunciando um programa de tratativas que incluirá o encontro em breve entre os dois presidentes. O ritual incluiu um tête-à-tête apenas entre os dois titulares, que durou 20 minutos, e a reunião entre as delegações seguida de almoço também na Casa Branca. Nada disso é casual. Tudo é simbólico e significativo.
A primeira observação suscitada pelo encontro é que não houve qualquer referência a Jair Bolsonaro, usado inicialmente como pretexto por Donald Trump para impor o tarifaço ao Brasil e aplicar diversas medidas punitivas a autoridades brasileiras, em especial a lei Magnitsky no caso de Alexandre Moraes e sua esposa. Por sinal, essa foi a quarta oportunidade de diálogos entre os dois países em que o tema deixou de ser mencionado: o encontro dos dois presidentes durante a Assembleia da ONU e a videoconferência entre ambos, bem como as duas reuniões de Vieira com Rubio, a primeira “informal” e realizada num escritório de advocacia na fase mais crítica do relacionamento bilateral. Aliás, desde o encontro presidencial em Nova York já haviam cessado os reiterados e virulentos ataques ao Brasil comandados pelo Departamento de Estado norte-americano e dolorosamente repercutidos pela Embaixada daquele país em Brasília. Afinal, Trump tinha entendido que se tornara o maior cabo eleitoral de Lula enquanto a extrema direita, alegre e irresponsavelmente representada por Eduardo Bolsonaro junto à Casa Branca, se afundava no pântano da agressão à soberania da nação.
Dados os necessários descontos à volubilidade de Trump, isso significa que foi posta uma pedra em cima das covas políticas de Bolsonaro e do seu filho autoexilado.
A segunda e importante observação tem a ver com a conversa a dois, sem assistentes ou intérpretes, que tiveram Vieira e Rubio – sem dúvida facilitada pela circunstância de que o ex-embaixador do Brasil em Washington já conhecia de bem antes o ex-senador pela Flórida (e mais moderado do que se tornou ao passar a ser um dos porta-vozes de Trump na área externa). Com os cuidados de dois experimentados profissionais empenhados em dar um tom construtivo ao encontro, não houve vazamentos dessas tratativas, porém é praticamente certo que foram suscitadas por Rubio pelo menos algumas das diversas questões internacionais em que as posturas brasileiras perturbam a estratégia de Trump de voltar a transformar os países latino-americanos em um grande quintal dos Estados Unidos numa reedição da Doutrina Monroe.
Não obstante, o prosseguimento das conversações técnicas e do encontro pessoal entre os dois presidentes não parece ter sido condicionado formalmente a mudanças na política externa do país – e, caso em algum momento elas venham a ser postas como exigência para avanços na área comercial e econômica, Lula terá de sopesá-las levando em conta seus interesses com candidato à reeleição em 2026. Muito caminho ainda pela frente em que a moderação precisa ser um método de trabalho.
Jorio Dauster é diplomata de carreira e foi embaixador do Brasil junto à União Europeia, colaborador especial do Relatório Reservado.
Por trás da promessa de sofisticação, os COEs são um lembrete de que, se você trata o mercado financeiro como um cassino, a casa vai sempre ganhar de você.
Você compraria um investimento “sem risco” que pode te deixar preso por anos e ainda te pagar menos que o CDI? Pois é exatamente isso que muitos investidores têm feito — embalados pelo discurso sedutor dos COEs, os Certificados de Operações Estruturadas.
Criados para oferecer acesso a estratégias sofisticadas — normalmente restritas a investidores institucionais —, os COEs se tornaram o produto da moda nos bancões de varejo. A promessa é simples: combinar segurança com rentabilidade potencial. Mas, como em qualquer cassino bem montado, é preciso entender que a casa nunca joga para perder.
A anatomia de um COE
Na essência, o COE é a soma de dois mundos:
Se o ativo se movimentar dentro do cenário previsto, o investidor ganha.
Se não, leva de volta o principal — e, muitas vezes, leva junto o arrependimento de ter ficado travado por anos sem liquidez.
A falsa sensação de proteção
O marketing é poderoso: “capital protegido”.
Mas o termo engana. O COE pode até devolver o valor nominal, mas não protege contra inflação, perda de tempo nem custo de oportunidade.
Na prática, é como ter que pagar para entrar em um cassino — algo em torno de pelo menos 5% do valor que você vai apostar —, escolher entre o vermelho e o preto, e descobrir que a roleta só vai parar daqui a dez anos.
E mesmo que você acerte e ganhe, a casa já faturou o dela lá na entrada.
Nos COEs sem proteção de capital, o jogo é ainda mais arriscado: o investidor assume todo o risco de perda, mas continua acreditando que está em uma aposta controlada.
E, como em todo cassino, quem opera a roleta já lucrou antes da primeira jogada.
Quando o mercado mostra as cartas
Essa semana, o jogo ficou mais claro. COEs atrelados às ações da Ambipar e da Braskem — estruturados e distribuídos por grandes bancos e corretoras — foram desmontados após o disparo de eventos de crédito, deixando investidores num prejuízo total. Esses produtos eram COEs de crédito — certificados lastreados em títulos de dívida internacionais (credit linked notes), sem qualquer garantia de capital.
O mecanismo era simples — e cruel: se a empresa entrasse em processo de reestruturação, falência ou deixasse de honrar compromissos, o COE seria liquidado antecipadamente e o investidor receberia apenas o chamado “valor de recuperação”, calculado por leilão da ISDA (International Swaps and Derivatives Association) — uma entidade internacional que define padrões e procedimentos para contratos de derivativos e eventos de crédito no mercado global. Na prática, isso significou recuperar quase nada.
Foi exatamente o que ocorreu agora em outubro de 2025. Com a deterioração financeira da Ambipar Lux Sarl e os passivos emergentes da Braskem, ambos os papéis dispararam o gatilho de “evento de crédito” e os COEs colapsaram. Os investidores perderam praticamente 100% do capital, enquanto bancos e assessores já haviam embolsado suas comissões lá atrás, no momento da emissão.
Enquanto o investidor assistia ao prejuízo no placar, a casa já estava contando as fichas.
A engenharia do interesse
Os bancos e assessores amam COEs. E há um motivo simples: as comissões são generosas. Enquanto um CDB ou fundo DI gera retorno quase simbólico para o distribuidor, o COE pode render de 5% a 10% do valor aplicado só em remuneração comercial.
E como o custo não aparece no extrato, o investidor tem a impressão de que é um produto “sem taxa”. Mas, no mercado, quando o preço é invisível, o custo está embutido na estrutura. E no COE, ele costuma ser alto.
A assimetria disfarçada
O grande problema dos COEs é a assimetria entre risco e retorno.
O investidor participa de uma fração dos ganhos possíveis, mas assume todas as limitações contratuais. É o jogo do cassino financeiro: o cliente pode até ganhar algumas rodadas, mas a casa sempre ganha no final.
O que precisa ser dito
O COE é o exemplo moderno da velha aposta travestida de investimento.
Ele promete exclusividade, mas entrega complexidade. Promete segurança, mas embute risco travado. E, acima de tudo, promete potencial — mas quem colhe o ganho garantido é quem o vende.
O investidor que aprende a ler as entrelinhas entende que o mercado não é um cassino — mas quem age como apostador acaba sendo tratado como um.
Marcos Tanner é Engenheiro de Produção com MBA em Investimentos Financeiros e Private Banking pelo IBMEC, atua como consultor financeiro e investidor, colaborador especial do Relatório Reservado.
Hoje é certamente um dia de comemorações que todos nós esperamos não sejam apenas passageiras. Mas o grande perdedor nos embates das últimas semanas foi Benjamin Netanyahu, que, na Assembleia Geral da ONU de 2024, havia exibido arrogantemente ao mundo o mapa do Grande Israel que ia do rio Jordão ao Mediterrâneo, com a anexação definitiva de Gaza e da Cisjordânia.
Certo de contar com o apoio eterno e irrestrito dos Estados Unidos, o primeiro-ministro de Israel cometeu dois erros capitais. O primeiro consistiu em levar adiante, com renovado vigor, os processos de genocídio e domicídio (destruição da infraestrutura e de todos os imóveis) em curso desde outubro de 2023, após o bárbaro e indefensável ataque terrorista do Hamas em território israelense.
Combinado com a imagem de crianças famintas e cidades reduzidas a pó, isso fez com que a opinião pública mundial acabasse por se voltar contra Israel. E a maior prova disso foram as crescentes manifestações de apoio à criação de um Estado palestino por importantes países como França, Reino Unido, Portugal, Espanha, Canadá e Austrália, de tal modo que hoje 157 dos 193 membros das Nações Unidas tenham assumido essa postura.
O segundo erro – esse, sim, definitivo – foi o ataque aéreo realizado em 9 de setembro de 2025 que visava eliminar toda a liderança do Hamas na cidade de Doha, capital do Catar, quando ela já discutia a proposta de cessar-fogo feita pelos Estados Unidos. Entre os alvos se incluía Khalil al-Hayya, principal negociador do Hamas, mas a operação fracassou e só deixou como vítimas pessoas de menor projeção política, guarda-costas e até um agente de segurança catariano.
Há indicações de que Netanyahu comunicou previamente o ataque a Trump, pairando até hoje a dúvida se ele o autorizou ou apenas se deu por informado. O fato, contudo, é que o tiro saiu monumentalmente pela culatra: desejando interromper de imediato as tratativas de cessação das hostilidades, a aventura belicosa de Israel teve o fulminante efeito contrário de selar a aprovação do plano de pacificação norte-americano à revelia real de Netanyahu e de seus apoiadores da ultradireita política e religiosa.
Acontece que, durante a recente reunião da Assembleia Geral das Nações Unidas, enfurecidos com a agressão israelense a um país aliado que abriga a Base Aérea de Al Udeid, maior instalação militar norte-americana no Oriente Médio, os líderes de oito nações árabes e muçulmanas tiveram uma reunião pouco divulgada com Trump, onde deram um basta coletivo às ações atrabiliárias comandadas por Netanyahu.
O atual ocupante da Casa Branca, com sua esperteza em situações críticas, entendeu a mensagem definitiva e praticou mais uma de suas famosas TACOadas, levando na devida conta os fortíssimos interesses políticos e econômicos que o unem àqueles interlocutores. Cumpre não esquecer que a primeira viagem internacional de Trump neste segundo mandato foi para o Oriente Médio, visitando especificamente a Arábia Saudita, os Emirados e o injuriado Catar.
Os entendimentos, então formalizados numa proposta complexa de paz, representaram também uma significativa derrota para Trump: desapareceram, como num passe de mágica, suas reiteradas declarações anteriores de apoio à limpeza étnica da Faixa de Gaza com a expulsão dos mais de dois milhões de palestinos para a construção de imensos “resorts” turísticos.
Desfizeram-se no ar as ideias estapafúrdias de anexação de Gaza e da Cisjordânia por Israel. Surgiu até, modestamente, a possibilidade distante de criação do Estado palestino!
E, no dia 29 de setembro, Netanyahu foi convocado à Casa Branca para o “dá ou desce”, sendo obrigado a declarar formalmente seu apoio ao plano de Trump e submetido à humilhação pública de, diante das câmeras, telefonar para o primeiro-ministro do Catar, Mohammed bin Abdulrahman bin Jassim al-Thani, pedindo desculpas por haver violado a soberania de seu país e prometendo que Israel jamais voltaria a fazê-lo.
O Hamas, fragilizado e instado pelos países árabes e muçulmanos a aceitar os termos do plano ou ficar totalmente isolado, por fim concordou em entregar seu maior trunfo, que eram os reféns ainda vivos. Soube fazê-lo com a necessária circunspecção, sem os costumeiros espetáculos de poderio militar que de fato não mais possui sem o apoio material do Irã.
Recebe de volta dois mil de seus correligionários detidos em Israel, numerosos deles condenados à prisão perpétua, e viu começar a chegar a ajuda humanitária de que tanto necessitam os torturados seres humanos – crianças, mulheres e homens – que eles pretendem representar.
Na conferência de cúpula hoje realizada em Sharm El-Sheikh, os presidentes dos Estados Unidos, do Egito e da Turquia, bem como o primeiro-ministro do Catar, intermediários nos acertos entre Israel e o Hamas, assinaram o acordo de paz cuja complexíssima execução o mundo acompanhará com a respiração suspensa.
Vale notar que, convidado a participar, Netanyahu declinou na última hora invocando um feriado religioso judaico – embora seja voz corrente que o primeiro mandatário turco, Erdogan, e outros líderes não desejavam contar com sua presença.
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