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Trump, Cuba e Brasil no cassino da geopolítica

27/01/2026
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De tão tortas que são, as linhas da geopolítica de Donald Trump conectam pontos que, a princípio, não teriam qualquer relação entre si. O que têm a ver, por exemplo, Venezuela, Cuba e o jogo no Brasil? Em teoria, nada; na prática, quase tudo. Ainda que por vias oblíquas, a discussão em torno da reabertura de cassinos em território brasileiro ganha novos contornos com os movimentos hostis de Trump na América Latina – os já realizados e, sobretudo, os que ainda estão por vir. A julgar pelo giro da roleta na região, se o Brasil pretende entrar na rota dos grandes investimentos internacionais no setor, já está passando da hora de o Congresso e o governo tratarem do assunto com a maturidade e a celeridade que ele exige. Sob risco de o país desperdiçar (mais) uma notória oportunidade de atração de capital externo. Basta interpretar as cartas na mão de Trump. Brilhante, como de hábito, o jornalista Elio Gaspari já enxergou o pôquer trumpista algumas mesas à frente – vide o artigo “O nome do jogo é Cuba”, publicado na Folha de S. Paulo e em O Globo no último dia 6: “A Venezuela tem petróleo, e a Colômbia tem um presidente de esquerda, mas a joia da coroa que Trump busca é Cuba. Derrubar o regime dos irmãos Castro é coisa que vários presidentes americanos perseguiram. Um regime comunista a 145 km da Flórida justifica malquerenças, mas, para Trump, um empresário do setor imobiliário, lá está um tesouro, maior do que todos os butins dos piratas que vicejavam no Caribe nos séculos passados”.
A queda do regime castrista – um fruto passado, que ainda se mantém presa à árvore sabe-se lá como – é o sonho de todos os grandes conglomerados que atuam no binômio hotelaria/cassino nos Estados Unidos. O imaginário desses investidores é povoado pela Cuba de Fulgêncio Batista, um grande salão de jogos e de entretenimento dos Estados Unidos. Se o então vice-presidente norte americano Dick Cheney era o braço da indústria petroleira na gestão de George W. Bush, Trump é a cabeça, corpo e membros do setor imobiliário e dos cassinos em seu próprio governo. A derrubada do que ainda sobrou do regime de Fidel e Raul Castro – depois que Nicolás Maduro foi arrancado de seus aposentos, tudo soa como factível – abriria caminho para uma invasão de dólares na ilha e uma das maiores ondas de investimento em turismo na história do Caribe. É aí que o Brasil entra nesse jackpot. Ou não. Quanto mais se posterga a discussão sobre a reabertura ou não dos cassinos, mais o país corre o risco de perder definitivamente o timing para a atração de recursos internacionais. Se Cuba entrar nesse game, talvez não sobrem nem as fichas mais miudinhas para o Brasil.
O que está em jogo, literalmente em jogo, são investimentos de R$ 150 bilhões, a geração de aproximadamente 1,5 milhão de empregos e uma arrecadação tributária da ordem de R$ 20 bilhões. Em tese, trata-se do potencial estimado das 34 licenças federais para a instalação de complexos hoteleiros integrados a cassinos previstas no projeto de lei 2.234/2022 – um empreendimento por estado, à exceção de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia, com até três concessões previstas. De todas as proposições relacionadas ao tema que já passaram pelo Congresso, o PL em questão é o mais madura e que mais avançou nos trilhos do Legislativo. Aprovado na Câmara e em tramitação no Senado, prevê não apenas a abertura de cassinos, exclusivamente vinculados a projetos hoteleiros, mas também o funcionamento de bingos e a legalização do jogo do bicho. Em conversa exclusiva com o RR, o senador Irajá (PSD-TO), relator do PL 2.234/2022, vai direto ao ponto ao alertar que o Brasil disputa investimentos em um terreno cada vez mais concorrido. “O Japão, uma cultura extremamente conservadora, recentemente flexibilizou sua legislação para atrair investimentos em resorts integrados. A Tailândia tem atraído bastante interesse. Nova York fez uma grande licença para a exploração três cassinos, com investimento de US$ 9 bilhões”.
O fato é que o Brasil é um território insular na geoeconomia do jogo, como bem ressalta o senador. Ao lado da Arábia Saudita, uma nação muçulmana, figura entre os dois únicos países do G-20 que não autorizam cassinos. O isolamento brasileiro se reflete na própria América do Sul. O Brasil tem apenas a companhia da Bolívia na proibição. “Enquanto isso, nossos vizinhos, Uruguai, Argentina e Chile, já vêm surfando nessa onda já há muito tempo”, diz o parlamentar. E, nesse cenário, há o fator Cuba à espreita. “Essa é uma hipótese pertinente. O tempo dirá. O capital vai onde é mais atrativo”, afirma o parlamentar. O senador Irajá chama a atenção ainda para um paradoxo: “É indefensável ter cassino no celular, acessível a qualquer pessoa, inclusive de baixa renda, e proibir o cassino físico, que é justamente o modelo que gera investimento, emprego e controle. A proibição não elimina o jogo, apenas o empurra para a clandestinidade. “Hoje, 100% desse mercado está ilegal”.
No Brasil, o principal entrave à liberação dos cassinos é de ordem moral, o que se reflete dentro do Congresso. A bancada evangélica se coloca como a frente de resistência à aprovação da proposta. No fim do ano passado, o Senado rejeitou o requerimento para que o PL 2.234 tramitasse em regime de urgência. Haverá um novo pedido nesse sentido? “Precisamos fazer uma avaliação voltando do recesso, para ver como estão os colegas do Senado e, então, tomar essa decisão. A partir dessa análise, veremos se é possível pautar o projeto no início do semestre ou se aguardamos para termos um ambiente favorável”, afirma o senador Irajá. Enquanto isso, Trump segue embaralhando as cartas, girando a roleta da geopolítica e olhando para Cuba, sem sequer precisar de binóculos.

#Brasil #Trump

O que precisa ser dito

De volta aos trilhos

6/10/2025
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Embora aguardada desde o encontro entre Lula e Trump na Assembleia Geral das Nações Unidas, foi auspiciosa a videoconferência desta manhã devido ao clima positivo e amistoso que ambas as partes confirmaram independentemente. Para um profissional que chama o Itamaraty de “minha Casa”, o mais importante foi o fato de que a notícia da reunião virtual pegou todo mundo de surpresa, não havendo ao que se saiba nenhum vazamento em Brasília ou Washington, embora certamente ela tivesse sido cercada de todo o ritual que envolve os diálogos entre chefes de Estado pois, de outra forma, nosso presidente não estaria acompanhado de seus principais auxiliares nos contatos com os Estados Unidos. Isso significa que a questão já se encontra na mão dos profissionais, quando são bem menores os riscos de acidentes de percurso.

Abre-se assim o espaço esperado para uma discussão de temas econômicos, ficando na lixeira da História a tentativa mal-sucedida de Trump de utilizar o julgamento de Jair Bolsonaro como um pretexto para atacar a soberania brasileira. Essa estratégia, sem dúvida preconizada por figuras malignas como Steve Bannon, atraiu Eduardo Bolsonaro para uma aventura suicida em que ele se julgou, junto a Paulo Figueiredo, capaz de ditar a política da Casa Branca com relação ao Brasil. Como recordação desse desvario, ficarão para sempre as imagens inesquecíveis da imensa bandeira norte-americana na Avenida Paulista e o boné MAGA usado por um Tarcisio sorridente.

Obviamente, Trump – que nada tem de louco pois é um frio negociador sempre disposto a voltar atrás quando as circunstâncias exigem – foi informado de que se transformara no melhor cabo eleitoral de Lula, vivendo meses atrás seu pior momento na política. Mais ainda, entregara de bandeja às forças da esquerda os símbolos nacionais verdes e amarelos que a direita vinha utilizando para caracterizar seu amor à Pátria e à família. Diante do comportamento impávido do Supremo Tribunal Federal, de importantes segmentos do próprio Congresso e sobretudo das ruas, as ameaças ruíram. Nada mais significativo disso do que a circunstância de Trump, em seu discurso na ONU, não haver nem mesmo mencionado o nome de Jair Bolsonaro ou sua condenação a vinte e sete anos de prisão. Para bons entendedores, página virada.

Há quem, ainda hoje, tenha ficado preocupado com a designação de Marco Rubio como principal responsável pelas futuras tratativas com a trinca Alckmin, Haddad e Vieira. Sem dúvida, o Secretário de Estado norte-americano, como muitos descendentes de famílias que tiveram de abandonar Cuba durante o regime de Castro, é uma figura que defende o alinhamento automático dos países da América Latina às diretrizes emanadas de Washington, que gostaria de ver o Brasil se afastar do BRICS, que prefere lidar com um Milei do que com Lula. Mas, a rigor, esses desejos sempre estiveram mais ou menos presentes em nosso relacionamento com os Estados Unidos e o que se vê ultimamente é um domínio absoluto de Trump sobre seus áulicos. Rubio fará o que seu mestre mandar.

Finalmente, conheceremos em breve, como era bem sabido, os reais interesses norte-americanos no tocante às Big Techs e seus data centers, bem como com aos minerais estratégicos e à maior presença do etanol no mercado brasileiro. No outro prato da balança estarão nossos interesses em eliminar os 40% de tarifas punitivas, já aplicada a uma gama bem menor de produtos do que se temia no primeiro momento, contando, nesse caso, com o trabalho dos empresários prejudicados nos dois países.

O que se recomenda agora é grande sobriedade da parte do Palácio do Planalto – aliás já visível desde que Lula se aprestava a ir a Nova York –, a necessária tranquilidade para que os profissionais possam trabalhar longe das luzes da ribalta. Repor um comboio de trens nos trilhos é tarefa de engenheiros especializados.

#Jorio Dauster #Lula #Trump

O que precisa ser dito

O furacão Trump e o nacionalismo brasileiro

7/08/2025
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O furacão Trump vem incomodando e irritando a Deus e a todo mundo, desde que ele ganhou a eleição, provocando animosidade e revolta. Mas o fato real é que sua arrogância não conseguiu esconder as fraquezas cravadas em sua própria testa: “Make America Great Again”. Parece que o império americano, que já foi tão grande, deixou mesmo de ser. Assi como parece que Trump se tornou a busca da dignidade perdida. Dificilmente os Estados Unidos voltarão a ser tão grandes quanto no passado, e o “Maga” não é apenas uma frase de efeito, mas o sinal de debilidade que vinha se agravando por surtos desde o início dos anos 70.

O fato paradoxal é que a globalização dos anos 90, que deixou o Brasil de calças curtas, pode ter sido o último soluço de grandeza do império americano, que brotou dos escombros da velha União Soviética como o momento triunfal do liberalismo e da democracia. É surpreendente. Parece que a globalização americana deu errado… para os americanos! Mesmo com o enriquecimento colossal das big techs. Não obstante o poder mundial do capital financeiro, os Estados Unidos se protegem graças às lamúrias de Trump no altar dos sacrifícios de um liberalismo que parecia triunfal. Agora, ele o líder está tentando se livrar da ordem global a picaretas, quem sabe para inventar uma outra que lhe pareça melhor.

A demolição das instituições globais provoca protestos e revoltas, mas, para nós, brasileiros, pouco há do que lamentar. A globalização foi a grande madrasta do Brasil e não temos por que chorar no seu enterro, e muito menos no altar dos sacrifícios de um multilateralismo que pouco fez por nós. Na verdade, muita coisa permanece errada no multilateralismo tosco das Nações Unidas: as guerras incontroláveis e fratricidas que prosperam sob o olhar complacente do Conselho de Segurança da ONU; o acordo global sobre as mudanças climáticas, que já vem se arrastando há décadas sem produzir nenhum resultado; e o planeta Terra que já alcançou 1,5oC de aumento da temperatura global, ultrapassando o seu limite e aproximando-se de uma calamidade global.

Também pudera: seis países do mundo são os grandes poluidores que não assumem sua responsabilidade, enquanto os quase 200 restantes não emitem nada. Apenas participam como figurantes e vítimas que não mandam nada. É a tragédia dos Commons que respondem pelos crimes de uma minoria que tem poder de veto. As decisões são tomadas por unanimidade nesse falido sistema multilateral! Ninguém lamenta o morticínio que continua no coração da África. E o Haiti, continua violento, ignorando as tentativas frustradas das Nações Unidas de organizar o caos.

No caos da Era Trump estamos cercados pelo inesperado e pelas incertezas. Às vezes positivos. A última surpresa foi assistir ao ressurgimento no Brasil do pulsante nacionalismo que há muito parecia ter sido enterrado pela globalização. E o mais curioso é que este nacionalismo se espalhou no espectro político brasileiro, cobrindo de A a Z e chegando até os redutos do povão. Ouvimos daqui e dali vozes de admiração por uma “Embraer é nossa” e que trouxe de volta o orgulho perdido. Até o presidente Lula vem declarando solenemente que “o Brasil é nosso e nossos minerais estratégicos não estão à venda. Uma boa intenção logo desmentida por seu angustiado e menos patriótico ministro da Fazenda. Os minerais estratégicos, afinal, estão ou não estão à venda?

#Brasil #Trump

O que precisa ser dito

Trump e Milei contra o SUS

20/02/2025
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Alceni Guerra, colaborador especial

O mais aplaudido discurso que já fiz, em um plenário lotado – muitos aplausos em pé – foi no Congresso da OPAS, em Washington, em setembro de 1990. Discursei em espanhol, língua dos ministros de saúde das Américas, que eu dominava bem, com meu bom acento portenho. As palmas não eram para mim, eram para a lei 8080, que eu descrevia, recém aprovada no Brasil, que criava o nosso Sistema Único de Saúde.

Desci da tribuna e o embaixador do Brasil, Bernardo Pericás, me disse que o presidente Collor acabara de vetar boa parte da minha lei 8080. Voltei à Brasília no mesmo dia e entreguei ao presidente meu pedido de demissão. Os vetos diziam que eu não falava em nome dele. Collor havia sido orientado por advogados, acendeu um charuto, olhou para o teto e me disse: “Ministro Alceni, faça outra lei com a porra destes vetos, que vamos aprovar nesse ano ainda.”

No dia 28 de dezembro de 1990, os espermatozoides dos vetos da lei 8080 deram cria à lei 8142, e juntas as duas originaram no melhor sistema de saúde do mundo, nosso SUS, que precisou de uma pandemia para mostrar que é a maior conquista social da História do Brasil.

A pandemia, e meu nome nas duas leis do SUS, me tornaram referência em cinco continentes para explicar como se organiza um sistema unânime de saúde em um país. E me permiti sugerir que o U desse sistema de três letras fosse trocado de Único para Universal, para unir todos os países na ciência, nas informações e nas ações de saúde. Para isso, é imprescindível a presença da OMS, Organização Mundial de Saúde.

Agora, Donald Trump e Javier Milei anunciam a saída dos Estados Unidos e da Argentina da OMS. É preciso que alguém lhes explique que, sem as populações dos dois países na OMS, os vírus universais terão mais facilidades dentro de seus territórios.

#Milei #SUS #Trump

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