Eleição se aproxima e não há solução possível para discordância entre o BC e o BNDES

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Eleição se aproxima e não há solução possível para discordância entre o BC e o BNDES

  • 16/04/2026
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O cenário econômico e político está colocando em campos diametralmente opostos duas-figuras chave, em maior ou menor medida ligadas diretamente ao próprio presidente Lula: os mandatários do Banco Central, Gabriel Galípolo, e do BNDES, Aloizio Mercadante. Neste momento, não há na órbita do governo personagens mais antagônicos do que ambos. Galípolo e Mercadante personificam, em suas missões, um dos trade off da gestão Lula a poucos meses da campanha eleitoral: de um lado, a necessidade de combate à carestia, diante de um repique inflacionário já presente; do outro, a obrigação de turbinar a atividade econômica e, mais do que isso, impedir uma quebradeira de pessoas jurídicas e físicas – um quesito determinante para o escrutínio das urnas. Ao falar sobre juros, Galípolo – que, a rigor, não é apenas Galípolo, mas todo um colegiado – tem repetido de forma monocórdica a palavra “cautela”, um jeito suave de dizer que não será possível cumprir a agenda de redução da taxa de juros que estava prevista para este ano. O próprio mercado já assimilou a ideia de que a queda dos juros ficou para outro tempo que não este ano, ainda que, curiosamente, a estimativa impressa no Boletim Focus seja de uma Selic de 12,5% para dezembro. Vai entender… São os mesmos agentes financeiros que, nas últimas quatro semanas, elevaram a projeção para o IPCA deste ano de 4,1% para 4,7%. Do lado de Mercadante, por sua vez, caberá a tarefa de abrir ainda mais as torneiras do BNDES exatamente para aliviar os efeitos do ciclo contracionista imposto pela política monetária. Alguns números já estão sobre a mesa. Somente no âmbito da Nova Indústria Brasil (NIB), o banco despejará mais R$ 70 bilhões ao longo deste ano.

Antagonismos entre presidentes da autoridade monetária e do principal agente de fomento do Estado brasileiro não são exatamente uma novidade. Um exemplo marcante – e mais agudo – é o confronto entre Henrique Meirelles e Carlos Lessa no Lula I. Lessa chegou a acusar publicamente Meirelles de querer acabar com o BNDES. Galípolo e Mercadante não chegam nem perto disso. A dissonância entre ambos diz respeito à tarefa que cada um tem de cumprir. Daqui até o fim do ano, um trabalhará irremediavelmente na contramão do outro. As missões de ambos se anulam. Enquanto o Banco Central busca retirar recursos do sistema para conter a inflação, o BNDES reintroduz essa liquidez por meio de crédito direcionado.

Ontem, Lula disse que vai chamar Gabriel Galípolo para baixar os juros. Ainda que proferida em tom de brincadeira, a declaração pode ser etiquetada como mais uma das típicas bravatas do presidente. De certa maneira, do ponto de vista político, com a saída de Fernando Haddad do Ministério da Fazenda, Galípolo ficou em uma posição ainda mais confortável para fazer o que tem de ser feito sob a ótica da autoridade monetária. De toda a forma, sem entrar no mérito da discussão se seria ou não possível reduzir os juros ao longo dos próximos meses, o fato é que a política restritiva by the book do Banco Central está por trás de dados críticos da economia. O Brasil encerrou 2025 com 8,9 milhões de empresas inadimplentes, um recorde histórico, com dívidas que somam cerca de R$ 213 bilhões. Esse estrangulamento se traduz diretamente no aumento das recuperações judiciais. Em 2025, 2.466 empresas entraram em RJ, o maior nível da série histórica para um único ano, com crescimento de 13% em relação a 2024. Da pessoa jurídica para a física, o quadro também é delicado. Segundo levantamento da Serasa Experian, 73 milhões de brasileiros estão inadimplentes – o equivalente a um em cada dez adultos no país. Entre as famílias endividadas, 29,6% têm débitos negociados já em atraso, segundo Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Para um presidente da República que disputa a reeleição são números que têm o efeito de um derramamento de césio 137.

À medida que a eleição se aproximar, a colisão das missões de Galípolo e Mercadante deverá ganhar maior relevo político. Esse desencontro tende a se irradiar no entorno de Lula e a amplificar possíveis pressões dentro do PT. O partido foi condicionado historicamente a ver nos juros altos a origem de boa parte dos males da economia brasileira – no que, de certa forma, não está muito errado. Quanto mais restritiva for a atuação do Banco Central, maior a pressão para que o BNDES amplie sua atuação. Bem, o banco de fomento não é independente. Está na jurisdição de mando de Lula. Não é o caso do BC.

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