Quanto o “valuation” internacional de Lula pode render nas urnas?

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Quanto o “valuation” internacional de Lula pode render nas urnas?

  • 3/03/2026
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O ministro-chefe da Secretaria de Comunicação, Sidônio Palmeira, tem se reunido com o assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, o vice-presidente, Geraldo Alckmin, e os ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, da Fazenda, Fernando Haddad, e da Casa Civil, Rui Costa – os dois últimos de saída do governo -, para discutir como valorizar a performance de Lula no exterior em sua campanha eleitoral. Missão difícil. Não porque os acertos do presidente nessa área sejam poucos. Não são, particularmente nesse seu terceiro mandato. A questão é até que ponto e, sobretudo, como transpor a política externa do governo Lula, algo mais árido e de comunicação pouco popular, para a campanha. Há algumas inegáveis vantagens nessa narrativa: a primeira é que o Itamaraty, capitaneado por Lula, acertou muito nessa terceira fase do seu governo, o que até a oposição reconhece; a segunda é que o registro desses fatos tem a vantagem de colocar o presidente bem no centro das iniciativas, o que do ponto de vista audiovisual é um valioso insumo para ações de marketing. O que não falta são imagens de Lula sendo incensado por chefes de Estado de todo o mundo. Sidônio pretende também explorar o relato das viagens, com os assuntos tratados, os acordos assinados e seu impacto para o país.

Segundo o RR apurou, há, inclusive, discussões no Palácio do Planalto sobre a produção de um livro, que seria assinado por Amorim, Haddad (neste caso, a publicação serviria também para sua própria campanha eleitoral em São Paulo) e Alckmin – o vice-presidente desfruta de prestígio junto a entidades empresariais internacionais e, por efeito rebote, a nacionais. Mais do que a obra em si, o trunfo da iniciativa seria gerar fatos e agendas, com a realização de lançamentos em capitais com maior densidade eleitoral e mesmo fora do Brasil. Como peça de propaganda, o livro seria uma espécie de continuidade do filho de Dona Lindu alçado ao status de “Ivanhoé do mundo”. Exagero por exagero, talvez faça mais sentido do que um enredo-exaltação na Marques de Sapucaí.

Os pontos acima refletem o lado positivo – e ufanista – das discussões travadas no Palácio do Planalto. Sidônio Palmeira está convicto de que o Lula que aparece lá fora pode ser um bom cabo eleitoral do Lula que pedirá voto aqui dentro. Mas a ideia tem suas contraindicações, ainda que potencialmente de menor alcance. Os tropeços de Lula na política externa certamente serão usados pela oposição. Uma das questões sensíveis que está no radar de Sidônio é a polêmica fala do presidente, em fevereiro de 2024, ao comparar as ações de Israel em Gaza ao Holocausto. O episódio levou o governo de Benjamin Netanyahu a declarar Lula persona non grata. Como resposta, o Brasil retirou seu embaixador de Israel. É um prato que muito provavelmente será requentado pela campanha de Flavio Bolsonaro.

Mas, prato por prato, Sidônio parte do princípio de que o cardápio de Lula na política externa é muito bem servido, o que justifica sua estratégia de dar uma dimensão maior ao tema na campanha eleitoral. A “química” com Donald Trump, até então um patrimônio político que o clã Bolsonaro evocava como seu, o consequente alívio do tarifaço sobre uma série de produtos brasileiros, o balão de ensaio do Nobel da Paz, as propostas de pacificação internacional… São todos ativos de Lula na agenda externa. O desafio de Sidônio é converter o “valuation” internacional do presidente no que realmente interessa: voto. Uma das mensagens que já pululam na Secom é mostrar como a diversificação do comércio exterior, a partir de conquistas diplomáticas do governo Lula, contribuíram para a queda da inflação.

A crescente confusão geopolítica e a disposição de Lula para manter interlocução permanente com seus pares internacionais serviriam para aumentar o fermento da narrativa em torno das conquistas do Brasil no exterior. O presidente avançou, e muito, ao optar pela defesa do multilateralismo, no momento em que ele sangra pelas punhaladas de Trump, das causas que incluem meio ambiente e pobreza, e da diversificação dos mercados mundiais, abrindo uma picada para reduzir em alguma parcela a dependência na balança comercial com a China.

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