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Em meio à intensa corrida global por minerais críticos, praticamente todos os caminhos e players se cruzam em alguma esquina. É o caso da Vale e da J&F, holding controladora da JBS e dos demais negócios dos irmãos Batista. O RR apurou que os dois potentados empresariais têm mantido tratativas sobre possíveis investimentos conjuntos na exploração e processamento de minerais estratégicos, notadamente terras raras. Por ora, são conversas preliminares, que tendem a ganhar tração diante do crescente interesse de parte a parte pelo fornecimento de insumos minerais para a novíssima economia – de transição energética às cadeias industriais de alta tecnologia. Não é de hoje que a LHG Mining, braço de mineração de Joesley e Wesley, avalia entrar na produção de minerais críticos. Trata-se de um negócio que extrapola as fronteiras brasileiras e conversa com as ambições globais da J&F – ver RR. Já a Vale é a Vale. A empresa já tem dentro de casa um eldorado com notório potencial de crescimento, a Vale Base Metals, sua subsidiária voltada à produção de minérios estratégicos. A controlada vale quanto pesa e pesa quanto vale, seja pelo que já tem em seu portfólio – operações de cobalto, níquel e cobre no Brasil, Canadá e Indonésia -, seja pela possibilidade de avançar sobre outros minerais críticos e terras raras. Que o diga a Arábia Saudita. O país enxergou essa riqueza a valor presente e a valor futuro e pagou US$ 3,4 bilhões por 13% da Vale Base Metais, por meio da Manara Minerais, joint venture entre a Ma’aden e o PIF (Public Investment Fund), fundo soberano saudita. Cabe lembrar que o próprio presidente da Vale, Gustavo Pimenta, já disse publicamente que a companhia avalia investimentos em terras raras. Procuradas pelo RR, Vale e J&F não se manifestaram.
Uma eventual parceria entre Vale e J&F/LHG Mining teria forte potencial para ser um dos líderes dos investimentos em minerais estratégicos no subsolo brasileiro. Caso as conversas avancem, trata-se de um movimento que certamente será visto com muito bons olhos no governo Lula. A associação poderia dar escala a um projeto nacional de exploração e beneficiamento de terras raras. Este é um ponto central. No setor mineral, é como se o Brasil ainda estivesse parado em Ouro Preto, em 1760. O país segue preso a uma lógica meramente extrativista e de exportação de minério bruto. Em fevereiro, durante uma viagem à Índia, o próprio presidente Lula falou sobre a questão: “O que nós não vamos permitir mais é que as nossas terras raras sejam exploradas como foi o minério de ferro durante tantos anos. A gente só cava o buraco e manda o minério para fora para depois comprar produtos manufaturados”. Uma operação capitaneada por conglomerados do porte da Vale e da J&F abriria a oportunidade de o Brasil internalizar etapas críticas da cadeia produtiva de terras raras. As duas empresas carregariam para a parceria sua notória capacidade de financiamento no exterior e de atrair outros investidores, a exemplo de fundos soberanos. Some-se ainda o poder de articulação internacional dos dois grupos. Nesse quesito, hoje a JBS parece ser insuperável. Os irmãos Batista se tornaram a maior representação de diplomacia empresarial do Brasil no mundo, vide o bom trânsito de Joesley Batista junto a Donald Trump. É algo que conta muito no assunto em questão.
A disputa entre Estados Unidos e China por minerais estratégicos está no centro da “guerra fria” versão Século 21. Ambos têm duelado por cada centímetro de reservas minerais no mundo, especialmente terras raras. Pequim domina praticamente 80% da extração desses minérios, 89% da separação e mais de 90% da fabricação de superímãs. Washington vem tentando reduzir essa dependência por meio de incentivos, subsídios, acordos internacionais e de investimentos privados em mercados-chave. É o caso da recente e estratégica investida da USA Rare Earth, que, na semana passada, anunciou a compra da Serra Verde por US$ 2,8 bilhões. Localizado em Minuaçu (GO), trata-se do único polo de exploração de terras raras em escala comercial no Brasil. A empresa norte-americana estima que até o fim de 2027 a produção atingirá 6,4 mil toneladas métricas de óxidos de terras-raras por ano. A reserva tem vida útil estimada em aproximadamente 20 anos. A aquisição da Serra Verde foi um jogo de seis pontos para os Estados Unidos. Ao assumir o controle da mina, a USA Rare Earth conquistou um território que estava comercialmente dominado pelos chineses. Em 2025, a Serra Verde exportou 678 toneladas de terras raras para a China e míseros 51 kg para os Estados Unidos. Neste ano, antes mesmo da venda para a USA Rare Earth ser formalizada, o placar já começou a virar. Em fevereiro, houve um embarque de duas toneladas para os Estados Unidos, ao passo que até o momento não ocorreram exportações para a China. Em tempo: o projeto norte-americano para Minuaçu não deixa nem uma migalhinha de valor agregado no Brasil. A separação do concentrado de elementos será realizada em uma fábrica ainda em desenvolvimento nos Estados Unidos. Por sua vez, a produção de ligas metálicas, fase seguinte do processo, se dará no Reino Unido e, em menor escala na França. Já a fabricação dos superímãs ocorrerá integralmente nos Estados Unidos.
A aproximação entre Vale e J&F ocorre em meio a uma frenética movimentação geopolítica em torno dos minerais críticos, que abrange todas as economias centrais do Planeta. O Brasil ainda busca sua posição no tabuleiro. Nesse contexto, ganham tração as negociações com a União Europeia para a construção de uma agenda comum no setor. Segundo informações recentes, Brasil e bloco europeu vêm avançando em propostas de cooperação que envolvem desde investimentos diretos até parcerias em pesquisa, desenvolvimento tecnológico e processamento industrial de minerais críticos. A Europa, assim como os Estados Unidos, corre contra o tempo para reduzir sua dependência da China. O interesse não está apenas no acesso às reservas brasileiras, mas, sobretudo, na possibilidade de estruturar cadeias produtivas mais diversificadas e resilientes. Do lado brasileiro, o discurso oficial tem sido o de atrair capital estrangeiro sem repetir o padrão histórico de simples exportação de matéria-prima. A ideia é condicionar acordos à transferência de tecnologia e à internalização de etapas industriais, exatamente o elo em que o país tradicionalmente perde valor.
O assunto das terras raras também pesa sobre a mesa das relações entre Brasil e Estados Unidos. O então ministro Fernando Haddad foi o primeiro a acenar com a possibilidade de um acordo dando aos norte-americanos preferência na obtenção desses minérios em troca da flexibilização do tarifaço sobre produtos brasileiros. Embora a tal química entre Lula e Trump já não pareça ser a mesma – dada as recorrentes declarações do petista contra o presidente norte-americano -, o tema ainda pulula nas tratativas entre os dois países. E uma eventual parceria entre Vale e J&F pode ser um ponto de conexão com os Estados Unidos, ainda que com uma escala, por exemplo, na Arábia Saudita. A já mencionada presença dos sauditas no capital da Vale Base Metals é um detalhe que ganha ainda mais importância nesse mosaico geopolítico. Onde está escrito Arábia, sempre pode estar grafado Estados Unidos. Onde se lê Riad, sempre se pode enxergar Washington. Há décadas a Arábia Saudita é um dos aliados mais leais dos Estados Unidos, uma relação soldada a ferro e fogo com interesses comuns, cujos pilares principais são a cadeia do petróleo e a área de Defesa. No caso de uma parceria entre Vale e J&F, a associação já existente com a Vale Base Metals poderia fazer da Arábia Saudita um istmo dos interesses norte-americanos em terras raras no Brasil. O fato é que, por enquanto, apesar da movimentação diplomática em torno do tema, a investida dos Estados Unidos em território brasileiro não se tem se dado por meio de acordos entre governos e, sim, pela via do mercado. Com uma dose de subsídios, diga-se de passagem. Em janeiro, a USA Rare Earth recebeu um financiamento de US$ 1,6 bilhão do Departamento de Comércio dos Estados Unidos. Não está claro se parte desses recursos já estava vinculada a uma iminente aquisição da Serra Verde, mas certamente o empréstimo deu gás para a ofensiva da empresa norte-americana no Brasil. É igualmente curioso também que, em fevereiro, portanto dois meses antes do anúncio da venda para a USA Rare Earth, a própria Serra Verde tenha obtido um financiamento de US$ 565 milhões da Corporação Financeira dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (DFC), uma agência do governo dos Estados Unidos.
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