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O que precisa ser dito
A Economia do Mar é o maior tesouro do Brasil. O Brasil detém (i) vasta biodiversidade endêmica, (ii) diversos biomas marinhos (manguezais, ressurgência, recifes, bancos de algas, bancos de esponjas, exsudações frias de oceano profundo), (iii) áreas propícias para empreendimentos industriais marinhos (5,7 milhões Km2), (iv) recursos humanos e (v) demanda interna e externa por produtos, tais como biofertilizantes, minerais e alimentos. Segundo dados da FAO, até 2050 o Brasil representará 50% do mercado mundial de produção de alimentos e 80% do crescimento global do suprimento de nutrientes. É a partir do encontro da terra com o mar que o país será produtor de proteína sem previsão de escassez e de fertilizantes, dos quais dependemos, para continuar na situação privilegiada de uma das maiores agropecuárias convencionais do planeta.
Este encontro poderá nos inserir de forma proativa na geopolítica do petróleo, que muda com esse século da ameaça climática, guerras longevas e a transição energética – temos um enorme potencial em área marinha, biodiversidade e reservas de recursos minerais críticos. É neste contexto que poderíamos realinhar nossa reindustrialização. Porém, o nosso país enfrenta novos desafios, tais como a sobre-explotação dos recursos marinhos.
Estudo recente publicado na Nature demonstra que há queda nos investimentos públicos em CTI voltados para agricultura¹. Entre 1980 e 2021, a população cresceu 80% (3,5 bilhões de pessoas). Já os investimentos em PDI na agricultura e no sistema agroalimentar aumentaram 189% no mesmo intervalo. Em 1980, a cifra foi de US$ 38 bilhões; em 2021, chegou a US$ 110 bilhões. Nesse período, apenas a Ásia ampliou proporcionalmente sua fatia nesse bolo. Em 1980, a região respondeu por 22% dos investimentos em PDI no sistema agroalimentar (US$ 8,3 bilhões); em 2021, essa participação atingiu 50% (US$ 55 bilhões). Ou seja: em valores absolutos, os aportes cresceram seis vezes. Nesse mesmo espaço de tempo, os desembolsos da América Latina subiram de US$ 4,1 bilhões para US$ 7,7 bilhões, um acréscimo de 87%, bem inferior à média mundial. A participação da região nos investimentos totais, por sua vez, caiu de 11% em 1980 para 7% em 2021. Como cada real investido em PDI voltado ao sistema de PDI agroalimentar resulta em retorno social equivalente a R$ 10, é evidente que esta área merece atenção.
Existem três grandes tendências. Primeiro, houve queda de um terço na taxa de crescimento do investimento em PDI voltado ao setor da agricultura e alimentos entre 2015 e 2021. Segundo, ocorreu aumento da participação de países em desenvolvimento, notoriamente, Índia, China e Brasil, e diminuição da participação de países desenvolvidos. Índia e China superaram os EUA em investimentos públicos. Finalmente, foi verificado aumento do investimento oriundo do setor privado (1980: 32% do investimento global em PDI; 2021: subida para 50%). Trata-se de PDI voltado, sobretudo, a processamento de alimentos, cadeia de produção e armazenamento. Cerca de 90% do valor do alimento é devido a atividades pós-produção na fazenda.
Embora recomende retomada forte no investimento em PDI do sistema agroalimentar, o estudo antevê problemas no futuro, tais como redução dos recursos para desenvolvimento de novas variedades de plantas e animais. Este tipo de pesquisa é demorada e requer longos períodos para obtenção de variedades mais bem adaptadas a condições ambientais adversas, como aumento de temperatura e salinidade² ³ ⁴. A produção de sementes de novas variedades em escala também é um processo demorado e laborioso diante de mudanças climáticas e escassos recursos naturais.
Um exemplo notório da escassez é a redução nos estoques pesqueiros marinhos do Brasil. Embora a produção pesqueira marinha no Brasil tenha se mantido estável na última década, girando em torno de 500 mil toneladas por ano, a recente lista de espécies ameaçadas de extinção do Ministério do Meio Ambiente (Portaria MMA Nº 148, de 07 de Junho de 2022) demonstra que diversos estoques de peixes marinhos estão ameaçados pela sobre-explotação⁵. De acordo com esta lista, o pargo e a garoupa (comuns na foz do Amazonas) são considerados vulneráveis; o budião azul (comum em Abrolhos) é classificado em perigo; e o mero (comum em vários estados brasileiros) está criticamente em perigo. Mesmo a corvina já estaria sob risco*. Por outro lado, muitas espécies tais como sardinha e anchoíta ainda estão bastante saudáveis.
Há mais de uma década, um dos principais cientistas em biologia pesqueira do nosso país, o professor Jorge Pablo Castello, alertou que a produção pesqueira marinha apresentava diversos estoques sobre-explotados e em declínio⁶. Ele destacou também que apenas a maricultura atenderia adequadamente o aumento na demanda por pescado.
Embora o Brasil apresente vasta área marinha (5,7 milhões de Km2; denominada Amazônia Azul), apenas algumas regiões apresentam produtividade primária suficientes para sustentar pescarias, tais como Cabo Frio e Cabo de Santa Marta, devido à ressurgência, Foz do Amazonas, pelo aporte direto de nutrientes pelo Rio Amazonas, e Rio Grande do Sul, pela vinda de nutrientes do Rio da Prata da Argentina. Porém, há alternativas para o uso das regiões marinhas com menor produtividade. As pesquisas em biologia pesqueira revelam que a maricultura seria o caminho para ampliar a produção de alimentos, bioinsumos e de biofertilizantes. O Brasil tem alta dependência dos fertilizantes, especialmente o fósforo, vindo do estrangeiro⁷ ⁸.
Soberania científica e tecnológica
A Província de Shandong no norte da China investe US$ 30 bilhões por ano em CTI. Nesta província foi desenvolvido um navio- fábrica que produz três mil toneladas de peixe por ano⁹. A China responde por mais de 60% da produção de pescados, empregando uma área de um milhão de hectares (equivalente a menos de 20% da nossa Amazônia Azul). A China vem assumindo a liderança em oceano, incluindo desenvolvimento de novos equipamentos, pesquisa em oceano profundo, fármacos e compostos bioativos¹⁰. Por outro lado, o avanço científico no Atlântico Sul, ao largo do Brasil, e na Amazonia, está sendo protagonizado por iniciativas do estrangeiro¹¹.
É absolutamente vital que o Brasil crie mecanismos para explorar a biodiversidade endêmica por meio da biotecnologia, bioprocessos, biologia sintética, engenharia genética, fermentações e aplicações práticas, assim como obter novos fármacos, alimentos e bioinsumos a partir da biodiversidade do mar e de seus recifes de corais. O investimento em bioeconomia marinha permitirá alavancar o desenvolvimento socioeconômico, empreendedorismo e inclusão produtiva, incluindo uma cultura que envolva as comunidades tradicionais. O que está em pauta é o desenvolvimento da economia da inovação.
Minerais, energia e inovação
Embora o Brasil seja um dos campeões mundiais na exportação de minério de ferro e alumínio para o estrangeiro, e seja reconhecido como um dos maiores fornecedores de matéria-prima para manufaturas especialmente na Asia, existem desafios na sustentabilidade deste segmento. O ambiente marinho brasileiro foi impactado por desastres da mineração que ainda hoje afetam os sistemas aquático e marinho do nosso país¹². Estes desastres causaram externalidades negativas para a população dos estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia. O rejeito de minério de ferro da barragem do fundão no município de Mariana (Minas Gerais) atingiu o Banco de Abrolhos.
Divisas oriundas da exploração de petróleo na margem equatorial brasileira (estimativas de 30 bilhões de barris) e de minerais raros (possivelmente alcançando as cifras dos trilhões de reais) em diversas jazidas ainda inexploradas da vasta Amazônia Azul podem permitir que o Brasil seja o sétimo PIB do mundo. Por exemplo, uma pequena jazida de zircônio (tório) em Cumuruxatiba, na Bahia, teria 365 mil toneladas do minério, o que renderia 5 bilhões de reais. Já considerando a Elevação do Rio Grande (acima de 150 mil Km2), o tório/berílio representaria divisas na ordem de dois trilhões de reais. Titânio, níquel, cobalto e potássio presentes nesta elevação representariam adicionais R$ 10 trilhões. Existem diversas jazidas minerais no mar brasileiro. Royalties poderão ser investidos em uma nova (bio)economia do mar voltada a inovação. Precisamos proteger nossos recursos para o desenvolvimento da nossa nação em benefício dos brasileiros.
O Brasil está entre os dez países com maiores zonas marinhas exclusivas, ocupando a terceira posição, ficando atrás apenas da Austrália e da Rússia, se considerarmos área contígua como referência. Tudo que está no mar pertence a União e, como tal, são ativos disponíveis para associação com o capital privado em projetos de interesse comum. O Capital privado, fundos soberanos, a Marinha e a Embrapa poderiam abrir uma “joint venture” do mar?
Notas
[1] https://www.nature.com/articles/d41586-025-03970-0
[2] https://conexao.ufrj.br/2024/01/a-economia-dos-mares/
[3] https://conexao.ufrj.br/2024/10/instituto-de-biologia-promove-aquicultura- sustentavel-em-pesquisa-internacional/
[4] https://integridadeesg.insightnet.com.br/brasil-precisa-de-um-proalcool-marinho- para-desenvolver-bioeconomia-do-mar/
[5] https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-mma-n-148-de-7-de-junho-de-2022-406272733
[6] http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252010000300013
[7] https://www1.folha.uol.com.br/colunas/braulio-borges/2026/03/lidando-com-o-choque-do-petroleo.shtml?pwgt=ktxqny361w1cir32fze9we2dbg7f5zt5stp0gprxm1n73rpe&utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_campaign=compwagift
[8] https://valor.globo.com/brasil/coluna/guerra-expoe-elo-vulneravel-do-agro-brasileiro.ghtml
[9] https://www.youtube.com/shorts/r47INR_lf6U
[10] https://relatorioreservado.com.br/Fabiano%20Thompson/
[11] https://schmidtocean.org/cruises/schmidt-ocean-institute-2026-expeditions/
[12] https://conexao.ufrj.br/2026/01/analises-do-microbioma-podem-balizar-as-acoes-de-restauracao-ambiental-na-bacia-do-rio-doce/
*nomes científicos (corvina argentina: Umbrina canosai; corvina: Micropogonias furnieri; garoupa: Epinephelus marginans; Mero: Epinephelus itajara; Anchoíta: Engraulis anchoita; Sardinha: Sardinella brasiliensis; budião azul: Scarus trispinosus; pargo: Lutjanus purpureus).
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