A falta que faz um Banco Central realmente independente - Relatório Reservado

Opinião

A falta que faz um Banco Central realmente independente

  • 14/04/2026
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Uma eventual CPI do Banco Master deveria incluir também o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto e o Nubank. Os motivos são transversais. O Master seria investigado por fraude; Campos Neto, por conflito de interesse; e o Nubank, por favorecimento. Há um fio condutor entre todos esses personagens: são protagonistas da coleção de maus momentos do BC. A tão decantada independência do Banco Central ficou devendo um histórico de maior nobreza. Se o Master já foi esquartejado em praça pública, a conexão entre o ex-presidente do Banco Central e o seu atual empregador sequer foi inquirida. Ambos permanecem usufruindo de suas relações diferenciadas. Algumas línguas ferinas chegam a dizer no mercado: será que Campos Neto já era Nubank antes de ser Nubank? Seja como for, aleivosias à parte, o banco deitou e rolou na elisão regulatória que permitiu leis diferentes para a mesma atividade econômica durante toda a gestão do ex-titular do BC. As fintechs, bancos que não eram bancos, sempre fizeram o mesmo que bancos que são bancos fazem – só que apertados por uma regulação draconiana. O Nubank é o principal representante dessa espécie que circula sem amarras pela selva do sistema financeiro, já que a decantada mudança regulatória do BC se limitou mesmo a um golpe semântico. Quem é fintech não pode mais usar o epíteto ou aposto banco ou bank – motivo pelo qual o próprio Nubank saiu à caça de uma licença bancária. No mais, as assimetrias legais não foram inteiramente corrigidas.

Roberto Campos Neto, agora vice-chairman do Nubank, acalentou a vida boa das fintechs durante todo o seu mandato – conforme o RR já tratou por diversas vezes – ver, por exemplo, (https://relatorioreservado.com.br/noticias/campos-neto-precisa-ser-ouvido-para-o-bem-da-sua-propria-reputacao/). O Nubank, por exemplo, não tem do que reclamar. Em 2018, ano anterior à entrada de Campos Neto na presidência do BC, a instituição financeira somava R$ 10,7 bilhões em ativos, uma carteira de crédito de R$ 6,9 bilhões e uma base de 5,9 milhões de clientes. Coincidência ou não, sob a gestão do economista à frente do Banco Central, deu-se o milagre da multiplicação. O Nubank tornou-se a instituição financeira privada com maior número de clientes no Brasil – 112 milhões no ano passado, ou 61% da população adulta no país. Sua carteira de crédito chegou a R$ 160 bilhões. O volume de ativos passou dos R$ 252 bilhões. Por uma infeliz coincidência, foi também sob o mando de Campos Neto no Banco Central que o Master virou o que virou. A gênese de tudo se dá já sob a sua gestão, quando o BC deu autorização para a venda do então Banco Máxima a Daniel Vorcaro, em outubro de 2019, operação, ressalte-se, que havia sido reprovada oito meses antes na administração de Ilan Goldfajn, seu antecessor. Entre 2019 e 2024, o volume de ativos declarados do Master saiu de R$ 3 bilhões para mais de R$ 80 bilhões, um salto impressionante de mais de 2.500% – proporcionalmente muito superior até mesmo ao crescimento do próprio Nubank em igual intervalo (2019 a 2024): 780%. Em igual período, a carteira de crédito do Master aumentou 20 vezes. Mais uma vez, acima do Nubank, que multiplicou suas operações de crédito em 12 vezes nos mesmos cinco anos.

Não bastaram denúncias de que o enxame dessas instituições estava ferroando uma vasta clientela, a maior parte de baixa renda. Não foi por falta de alerta de muita gente, inclusive dos grandes bancos. A resiliência das fintechs pode ser explicada pelo fato de o Banco Central não ter tomado as medidas necessárias. Mesmo quando já havia fortes indícios de entrelaçamento de algumas dessas instituições com o crime organizado. Causa estranheza que o fato de Campos Neto ter sentado em cima da boa vida das fintechs durante toda a sua gestão vá ficar por isso mesmo, sem que se busque uma explicação maior para tamanha complacência. A justificativa de que as fintechs aumentariam a competição bancária e permitiriam um maior acesso a crédito com juros menores desde o início revelou-se uma grande balela. Aliás, o BC nunca montou um sistema de acompanhamento do crédito e dos juros dessas empresas. Se o mimetismo das fintechs com um Banco Central pasmo já é um caso de difícil explicação, a relação incestuosa de Campos Neto com o Nubank é moralmente inadmissível, para dizer o mínimo. O flerte entre ambos é antigo, sabendo-se da admiração do ex-presidente do BC pela agilidade e modelo de negócio da fintech-mor do Brasil. Um modelo de negócio que, em parte, ele ajudou a construir, permitindo que uma instituição financeira se tornasse enorme tendo o mesmo o ônus de um vagalumezinho do setor e bem menor do que os bancos de verdade que estão há décadas gramando seu lugar ao sol. O escândalo é que Campos Neto deixou a presidência do BC para virar vice-chairman do Conselho e executivo do Nubank. Levou consigo, o que é inevitável, as informações que colheu no BC e junto ao seu preceptor, Paulo Guedes. E Campos Neto, ressalte-se, não é o único cordão umbilical que liga o Nubank ao Banco Central. No ano passado, a instituição financeira contratou como consultor o ex-diretor de Regulação da autoridade monetária Otávio Damaso. Ou seja: há quase um “BC do B” dentro do Nubank.

Sendo assim, por que toda a antiga diretoria do BC não deveria ser chamada para depor em uma hipotética CPI do Master, do Nubank e de Campos Neto? Primeiro, por uma questão de ordem institucional. Os representantes do banco como um todo não podem ser colocados sob suspeição. Adicione-se o fato de que nem todas as diretorias da autoridade monetária estão diretamente envolvidas com as fintechs. Além disso, em última instância, foi Campos Neto quem deixou essas instituições financeiras deitarem e rolarem durante o seu mandato inteiro. A amoralidade que cerca o setor reafirma a necessidade de se colocar a luz do dia sobre estranhas transações.

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